...Os que resistiram foram passados pelo fogo da metralha, mortos e as casas incendiadas...
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| Escombros da antiga aldeia do Colmeal |
A história relativamente recente da
aldeia do Colmeal, -
hoje fantasma, situada na zona de Figueira de Castelo Rodrigo, no sopé da Serra da Marofa, fundada por imemoriais
povos, tão distantes quanto a medida em milénios antes de Cristo pode atestar e
que a recente descoberta de pinturas rupestres confirma-, pode ser vista como
uma metáfora terrível sobre o mecanismo da “dívida” e logo da “culpa”, temas de
total e absoluta actualidade.
Ao termo "massacre" utilizado no título do post cabe todo o significado literal.
É da História que as sucessivas invasões provocam a reacção dos
invadidos, a resistência à ocupação das terras que lhes pertencem, confrontos
violentos e massacres dos vencidos.
Por diversas vezes foi a aldeia do Colmeal assim como as
outras aldeias trespassada pelas hordas. Já em período de ocupação nacional,
conheceu “doações” sucessiva a ordens e nobres, obrigando assim os que
consideravam as terras suas, a ter que pagar tributos aos “senhores das terras”.
As sucessivas deambulações de títulos de propriedade passaram pelas mãos dos
ilustres Cabrais, família do descobridor oficial do Brasil, Pedro Álvares Cabral
que teria inclusivamente nascido na aldeia. Em 1540 D. Afonso V deu-lhe carta
de Couto e já era então senhor da povoação João Gouveia.
As sucessivas mudanças ao longo dos séculos- e que seria
fastidioso enumerar- culminam na situação que de forma particular nos interessa
e que tem no ano de 1957 o palco dos acontecimentos dramáticos.
Estava-se em pleno Estado Novo sob o regime político do
fascismo nacional. Há muito que se tinha abolido o sistema feudal, não havia
senhores da terra. Agora havia proprietários e arrendatários intermediados por feitores e rendeiros.
Mas no dia sete de Julho, pelas dez da manhã, um destacamento de vinte e cinco militares da GNR comandados por três oficiais,
fortemente armado, fez cumprir uma ordem judicial e despejou pela força os habitantes das casas que há séculos
lhes pertenciam. Os mais prevenidos fugiram para os montes e povoações nos
arredores. Os que resistiram foram passados pelo fogo da metralha, mortos e as casas
incendiadas. Uma pequena comunidade com pouco mais do que sessenta pessoas, mas
com milénios de existência, foi num espaço de horas reduzida a nada.
Como foi possível isto acontecer?
Em 1912, findos os foros, as terras passaram a pertencer por
escritura a uma herdeira dos Condes de Belmonte.
Quis a desgraça que nos anos cinquenta desse
Século a então proprietária tivesse conseguido
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| Igreja do Colmeal. |
modificar, com a ajuda de um ardiloso
advogado sem escrúpulos, de nome Manuel Vilhena, o estatuto da povoação que passou assim pelos seus artifícios, de aldeia para quinta privada.
As casas da aldeia, secularmente propriedade dos seus habitantes, passaram a pertencer
a Rosa Cunha e Silva a qual cedeu a exploração da sua "propriedade" a um rendeiro que passou a cobrar ao aldeões segundo as velhas regras dos antigos forais e sesmarias, exigindo
rendas e impostos sobre todos os bens, casas, vacas, galinhas, burros etc. que os aldeões possuiam. Não será necessário insistir em que dos parcos rendimentos que das suas posses provinham, pouco mais do que a subsistência básica poderiam garantir, mas os aldeões postos perante as constantes subidas exigidas pelo rendeiro, passaram a ter que solucionar o grave problema de não terem rendimentos para fazer face a uma repentina "dívida", espoletando as desavenças que culminariam na desgraça.
Sob o pretexto de que estariam em anos de atraso pelo facto de um subarrendatário
estar em incumprimento, a proprietária levantou um processo judicial o qual, perante a
ignorância e ingenuidade dos aldeões, crentes nos seus óbvios e ancestrais direitos, foi
decidido a favor da exequente sob forma da sentença de acção de despejo
colectivo....
Cabe aqui um aparte e uma conclusão. Não adianta acomodarmo-nos com a distância no tempo nem desenterrar o chavão ora de indignação ora de muleta de conforto e que consiste em dizer "... como é possivel em pleno Séc. X ou Y..." ou "...tal facto só foi possível por estar-se em pleno Sec.N..., ou em plena Idade Média ..." ou " ...em pleno Fascismo..." etc. etc. etc.
As injustiças acontecem sempre e em qualquer tipo de regimes, o Poder é sempre rodeado de corruptos, de idiotas úteis, e de oportunistas sem escrúpulos, e a indignação pega sempre na espuma dos tempos que se vivem.
No caso supra-citado, podemos dizer que a idiota útil foi a proprietária que teve de vender as propriedades para pagar ao oportunista, o advogado, o qual terá certamente corrompido determinado funcionário no Conservatório de Registo Predial.
Se serve para alguma coisa o relato deste drama, não sei, mas estableço um rápido paralelo entre ela e esta dívida que de repente temos que pagar sem que nunca se tenha auditado as suas origens, negociado as condições e observado a dignidade mínima dos caídos em desgraça. Os que são despejados todos os dias das suas casas, que resistem e são postos na rua pela força, os que se suicidam e os outros que fogem do país, replicam em escala geral em "pleno Sec XXI" o pequeno grande drama acontecido " em pleno Séc XX"...
Também aqui, hoje, neste preciso instante, em pleno Séc XXI, somos rodeados e governados pelos mesmos de sempre, os oportunistas que fazendo uso dos idiotas úteis, corrompem todo o sistema, não se coibindo de - tal como na tragédia do Colmeal- ir até ao mais íntimo: a dignidade.
A Justiça, essa é sempre cega, surda e muda....