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janeiro 28, 2018

«Os meninos de hoje» - Maria De Lourdes Guerra

Os meninos não podem sair da nossa beira porque os meninos não podem estar sozinhos.
Os meninos não podem ficar no recreio a brincar quando os professores faltam - são levados para a biblioteca ou para alguma aula de pseudo-apoio. Se os meninos ficassem no recreio a jogar à bola e se por acaso se magoassem, o que seria dessa escola! Os pais poderiam até processar a instituição de ensino!
Os meninos não podem ir a pé ou de autocarro para a escola porque isso pode ser perigoso.
Os meninos não se podem sujar ou magoar - os pais nunca se perdoariam (e fá-los-ia perder tempo que não têm).
Os meninos andam a saltar dos pais para os avós e para a escola e para o atl e para a piscina e para o inglês e para a música e para o karaté e para o futebol e para a patinagem e... Porque os meninos têm de estar sempre ocupados e nunca sozinhos; não saberiam o que fazer com o tempo livre.
E os pais têm de ganhar dinheiro para os meninos andarem sempre bonitos e com roupa de marca - caso contrário, os colegas poderiam até gozá-los. E se o colega tem uma coisa, o menino também tem de ter (senão faz birra e com toda a razão).
E os meninos têm de ter festas de aniversário espetaculares - e não pode ser em casa só com a família, que isso não se usa. Tem de ser com a turma toda e os amigos e os primos e tem de se alugar (e pagar) um sítio onde tenha muitos brinquedos e escorregas e palhaços e malabaristas e baby-sitters. Algum sítio onde alguém se responsabilize pelos filhos dos outros, de preferência.
Os meninos, coitadinhos, são muito novos para pensar - mais vale nós planearmos a vida deles e dizer-lhes o que fazer. Mas só se eles concordarem, claro. Porque os meninos não têm culpa de nada; se se portam mal, a culpa é da educação que recebem na escola (que é o sítio onde eles devem ser educados).
Os meninos não comem sopa e verduras porque não gostam.
Os meninos saem da mesa quando lhes apetece e passam o (pouco) tempo livre entre smartphones, tablets e computadores. Mesmo enquanto comem, coitadinhos, tem de haver alguma coisa para os entreter - e não se fala com a boca cheia. Alguns até comem com auscultadores colocados nos ouvidos - e ainda bem, para não incomodar a conversa dos adultos.
Os meninos só vêem desenhos animados (e a televisão é deles quando eles estão em casa).
Porque os meninos querem, os meninos têm. O que não vale é chorar - não gostamos de os ver tristes. Chora chora que a mamã dá mais brinquedos para brincares duas vezes e arrumar a um canto - a casa fica cheia deles; depois compram-se outros diferentes porque os meninos têm de ter sempre mais e mais coisas e mais experiências novas.
Os meninos não ajudam em casa porque são meninos.
Os meninos começam a sair cedo e os papás vão buscá-los onde e à hora que for necessário.
Não há meninos burros, arruaceiros, nem medricas, nem preguiçosos, nem tímidos, nem distraídos, nem mal educados, nem maus, nem... Nada disso. Os meninos são todos bons (os melhores) e muito inteligentes. Todos.
E todos os anos há meninos finalistas e festas de finalistas e viagens de finalistas e até praxes, do primeiro ao último ano da escola, porque eles são muito inteligentes e importantes, agora que acabaram mais um ano. Que bem, já tens a quarta classe - que orgulho, meu filho. Ah, parece que foi ontem a tua festa de finalistas do terceiro ano...
Os meninos não se podem (nem sabem) defender sozinhos; para isso é que existem os pais e os psicólogos e os professores e até os tribunais.
Os meninos têm explicações desde a escola primária porque precisam de toda a ajuda possível para ser os melhores.
Se não estão atentos nas aulas, a culpa é do professor.
Os meninos não levam palmadas - ai se isso acontecer. Podiam ficar traumatizados, coitadinhos.
Se os meninos estragam, os papás pagam.
Os meninos têm direitos - mais concretamente, têm o direito a fazer o que lhes apetece porque são meninos e não têm de entender as preocupações dos crescidos. Por isso desarrumam a casa e todos os sítios por onde passam; partiu? virou? desapareceu? morreu? Não sei, eu sou apenas um menino.
Até que um belo dia, os meninos se veem subitamente fora de casa e da escola e longe de todas as pessoas e coisas que costumam controlar todos os seus movimentos (e até pensamentos). Longe daqueles que lhes disseram sempre que os meninos não são responsáveis nem culpados daquilo que fazem.
E só aí, longe pela primeira vez, começam a aprender a ser pessoas, a respeitar a liberdade e o espaço dos outros (os outros que afinal também existem! - descobrem os meninos nesta altura). Só aí entendem que cada ato tem uma consequência. E torna-se difícil - que a pegada dos meninos agora é grande e os erros notam-se como patas de elefante em cima de nenúfares. Destroem tudo porque têm de aprender e agora é muito mais complicado. Pensavam que podiam fazer tudo o que lhes apetecesse, mas afinal parece que não. Ninguém lhes tinha dito. E de repente aparecem ratos que assustam os elefantes. Todo aquele tamanho mas no fundo continuam apenas meninos que agora vivem em corpos de adultos. Ficam muito assustados (pudera) e não entendem.
Voltam para casa e perguntam aos pais: o mundo é mesmo assim, papás? Não posso atirar colchões pela janela dos hotéis? Não posso ligar extintores e estragar as paredes e camas? Porque não avisaram antes?
E nessa altura, levam um estalo - a primeira palmada das suas vidas. Deixaram finalmente de ser (e da pior forma ) meninos.
Maria De Lourdes Guerra

Nota da redacção: E depois as empresas que se lixem...

maio 09, 2015

«Os professores tristes» - Gabriel Magalhães

foto hoy.es
Sei que, hoje, muitos professores têm uma cara que pede esmola. Um rosto triste, que vai coleccionando sombras e vincos de amargura. Sei também que, às vezes, um docente sai de uma aula de cócoras, ou até a rastejar. Sei, ainda, que com frequência quem ensina se descobre a si mesmo a falar aos peixes do Padre António Vieira. E tudo isto eu sei porque também sou professor – e porque conheço, estimo e admiro muitos colegas, com os quais me encontro, sobretudo nas palestras que dou em escolas públicas.
Aqueles que se dedicam ao ensino têm de ser árvores, com uma raiz ética, moral, um tronco de saber e ramos crescendo devagar devagarinho em cada aula. Árvores que devem dar sombra e flor e fruto, aos seus alunos e à sociedade. No entanto, neste presente que nos coube e que é como uma estrada cada vez mais estreita, promove-se um professor entretido com todas as formiguinhas da burocracia. Instalou-se nas escolas uma espécie de "big brother" que nos vigia através de câmaras feitas de papelada ou de sistemas informáticos.
Por outro lado, o Portugal em que nos inserimos está a perder a noção do valor do conhecimento: um pouco como se este fosse uma igreja que já não lhe interessa frequentar, porque as missas da aprendizagem são longas, exigem paciência. Muitos jovens viajaram para as galáxias das novas tecnologias – e estas transformam-se num buraco negro que os engole.
Finalmente, a bilha quebrada de tantas famílias varre os seus cacos para o sistema escolar e os docentes não sabem como colar crianças, adolescentes despedaçados.
Mas não podemos desistir. De resto, os professores já foram escravos, como nos tempos da antiguidade clássica, e chegaram a mendigar num soturno poema de Cesário Verde. Sobreviveram, porém, a isso tudo – e sobreviverão igualmente a todas as ingratidões do presente. Tal acontecerá porque temos por guia um mapa do tesouro desenhado com ideias, com textos, com memórias, com descobrimentos: esse maravilhoso oceano do conhecimento, cujas ondas não deixarão de cantar nas praias da ignorância.
Não podemos desistir porque cada um de nós é uma velinha acesa desta luz enorme que clareou os tempos todos. Com efeito, não seria justo deixarmos ao abandono um poema de Camões, uma teoria de Newton, uma tela de Leonardo.
Aqui estamos, pois, também porque sabemos que este país sombrio precisa de nós. Aquilo que hoje se desvaloriza voltará a ser recordado: o conhecimento é uma das melhores enxadas para cavar o futuro. E não podemos desistir por mais um motivo: as pedras preciosas dos nossos alunos aguardam que as lapidemos, de modo que triunfem a cintilar todos os seus brilhos. Por maior que seja o sonambulismo de alguns estudantes, uma certa arrogância da própria preguiça, que transforma as aulas num sofá de indolências – nesses rostos moribundos de aborrecimento existe sempre um olhar que, por mais enevoado que se encontre, está à espera de qualquer coisa que lhe mostremos para tornar a luzir. Bem sei que é difícil ser, hoje, professor. Ensinar, na actualidade, passa muito por perdoar. E – não o esqueçamos – por nunca desistir.

(artigo publicado no «Jornal do Fundão» de 7 de Maio de 2015)

março 07, 2015

«O que sempre terá querido saber sobre a poda» - António Pimpão

As duas últimas duas semanas e meia passei-as na minha quinta, em Caria, em habituais, necessários e laboriosos trabalhos de poda, que ficou a meio por já não conseguir levá-la até ao fim duma só vez. Daqui a dias lá tenho que retomar o serviço interrompido.
Para quem desconheça ou receie a atividade da poda atrevo-me a recomendar, fruto da minha experiência, que façam como eu: avancem sem receio, pois é daquelas coisas que se só se aprendem e só se aperfeiçoam, praticando. A experiência é, neste caso, muito mais importante do que a teoria.
Para se ficar a saber um mínimo de poda, ou para melhorar o desempenho, não é indispensável a frequência de cursos de formação ou andar de livro na mão, qual Kama-Sutra, a ensaiar ou praticar as diversas posições e técnicas, desde a tradicional, à francesa, passando pela inglesa ou pela californiana. Nada disso! A poda aprende-se no próprio ato, praticando. É um pouco como conduzir um carro: não se pode estar sempre a pensar nos instrumentos e na forma de os manejar; deve-se ser espontâneo e encontrar aquele automatismo desprendido, deixar-se lavar mais pela intuição do que pela racionalidade, até descobrir o ritmo mais adequado. Como referido acima, isto só se consegue com o treino. E não vale desesperar ou desistir.
Claro que nestas coisas da poda, o saber é importante mas a ferramenta também conta muito, não ficando atrás. No caso da ferramenta, o que posso dizer é que o tamanho não importa: a qualidade é que é decisiva, sobretudo se quiser que dure e evitar grandes esforços.
Em termos de técnica, esta deve ser adaptada às circunstâncias. Por exemplo, é muito diferente dar uma poda em árvores nuas (de folha caduca) ou vestidas (de folha perene).
Estando nuas, a poda torna-se mais fácil pois está tudo ali à vista, é só assestar a ferramenta.
Já no caso das vestidas, o assunto muda de figura e torna-se complicado, pois toda aquele emaranhado dificulta a visão e a própria ação, sendo necessário, previamente, meter os dedos para arredar os empecilhos.
A poda é igualmente diferente consoante se trate de árvores jovens ou velhas.
Quando são novas e, por isso, viçosas, apresentam-se bonitas, vigorosas, pujantes, tenras e macias. A ferramenta penetra nelas facilmente, até rechinam ao seu contacto. Neste caso, a poda não é cansativa e acaba por ser um prazer. Aqui deve haver uma preocupação com a sua formação. E convém deixá-las bem abertas. Inclusive, o serviço pode, com vantagem, ser feito de pé.
Tratando-se das velhas, a poda terá que ser sobretudo de manutenção. Não surpreende que se torça o nariz quando tem que se fazer o serviço, pois são mais duras, secas, angulosas, e de casca grossa Para se fazer alguma coisa de jeito tem que se estar para ali a serrar. Gemem ao passar a ferramenta. E é um trabalho cansativo, tem que se andar sempre no sobe e desce.
Num caso e noutro é preciso atenção aos filhos, que devem ser evitados por serem muito sugadores de energia.
É curioso - e isso mais parece uma ilusão de ótica - que, antes da poda, e mesmo durante, os paus, vistos de baixo, parecem enormes. Porém, acabada a poda, e já por terra, o seu tamanho, estranhamente, torna-se muito minguado, parecendo ter diminuído para menos de metade. E, no entanto, o pau é o mesmo, só varia o ângulo de visão!
É à medida que o trabalho avança que se fica a saber melhor o que deve ser feito a seguir, e como. Quando se chega ao fim fica-nos um sentimento de satisfação que logo se esvai ao constatar que se tem que começar a seguinte. Mas o melhor é sempre nem pensar em quantas ainda faltam, para não desanimar.
Não me considero um especialista da poda. Talvez porque comecei já tarde. No entanto, acho que estou em condições de ajudar quem do assunto perceba menos do que eu. Por isso, fico à disposição de quem precisar e o solicitar, seja com a ferramenta seja com o know-how.

António Pimpão

PS – Ao reler o texto, suspeito que o mesmo possa ser suscetível de uma segunda leitura. A ser isso verdade, confesso que não foi esse o meu propósito, pois só tinha uma em mente (que não é de mentir). E a que pensei foi exatamente essa em que também está a pensar. Claro que quando se escreve não se está livre de espíritos malévolos darem uma interpretação diferente. Daí, lavo as minhas mãos.

janeiro 28, 2015

"Há um conjunto de professores que não reúnem condições para o ensino"

O chumbo de 34,3% de professores na prova de avaliação não surpreendeu o presidente do Instituto de Avaliação Educacional (IAVE), Hélder de Sousa que, segundo a comunicação social, terá dito:

"Há um conjunto de professores que não reúnem condições para o ensino"

Eu, se fosse professor, chumbava-o! Onde está a concordância do verbo "reunir" com o sujeito "conjunto", senhor presidente da entidade que avalia os professores?!
Mais um belo exemplo que nos dá o Ministério da Deseducação!

dezembro 18, 2013

«A prova que nada prova» - Antonino Silva

Antonino e Lurdes Silva
Acontece hoje mais um episódio da novela ‘A montanha que pariu um rato.’
Os argumentos de uma e outra parte mantêm-se e não há dúvida de que a teimosia é o único que valida a realização da prova. Até porque os outros caem deitados ao vermos a natureza e os objetivos da dita.
Somos um povo que gosta muito de dar opiniões, porque as temos para dar e (alguns opinion makers) vender. Quem não conhece faz as avaliações congeladas, pouco assertivas e começa logo por falar do poder enorme dos professores, que são uma classe inerte e refém dos sindicatos, etc., etc. Por favor, não insultem a minha inteligência! Eu também não opino sobre profissões que não conheço; não sei se é justa ou injusta a posição dos juízes, dos militares, dos médicos, dos enfermeiros, …
Para mostrar a enorme (in)utilidade da prova que não prova, deixem-me narrar um episódio que vivi há uns anos (e recentemente) neste mundo da formação de professores.
Tive um professor estagiário num núcleo que me escuso de nomear e que, por diversas vicissitudes, já tinha uma idade superior à média. Já tinha viajado pelo mundo, tinha sido emigrante e falava a língua de um outro país com exímia proficiência. Era também nessa língua, além de português, que estava a fazer a profissionalização. As suas aulas eram canais unidirecionais, de monólogo, onde os alunos não intervinham e o estagiário se perdia entre si mesmo e o livro. Ou seja, a sua competência científica muito boa era totalmente anulada pela incompetência pedagógica. Como resultado, não permitimos que fosse professor e, a meu ver, muito bem. Quantos grandes cientistas e homens de sageza são um desastre como professores? Ser professor é ESTAR e SABER FAZER; não é só saber-saber. Esse ex-estagiário conhecia os livros, as teorias da pedagogia e as correntes do saber, mas não era professor; não podia ser professor; não sabia ser professor.
Pois bem, é exatamente a dimensão do SER PROFESSOR que a prova não avalia. Pode avaliar tudo o resto, (até parece que vai ser muito acessível) mas um professor só é avaliado como o é um atleta, pelo seu desempenho na sala com os alunos.
Não sei se sabem, mas os professores contratados são avaliados no seu desempenho todos os anos; se não tiverem avaliação positiva ou não se submeterem a essa avaliação da sua prática real não poderão ser contratados no ano subsequente.
Como ontem li no DE, este ministro perde tempo com o acessório e esquece-se do essencial; até porque ele próprio admite que o problema do ensino não está na qualidade dos professores que temos. O seu grande medo é que não pode marrar nos rubicões reais da qualidade do ensino e vai bater então no elo mais fraco.
Grave, grave é que atrás dele e dessa ideia de libertar os pecados através do bode vai uma parcela larga de cidadãos de bem que, sempre que podem, espumam a sua sanha em cima de uma classe que os formou, que configurou e tenta continuar a configurar a coluna vertebral deste país que não merece os professores que tem.

Antonino Silva

dezembro 03, 2013

«Exame de avaliação de professores - crónica de uma cag****da em 2 atos» - por Antonino Silva

ATO I – Um ministro torto como piorna decide que, para resolver o problema da educação em Portugal e arredores, os professores contratados, se quiserem trabalhar para o estado, terão de realizar uma prova de avaliação. Dessa prova consta um exercício de ‘redação’ segundo o novo acordo ortográfico. Mais de 10 erros nesse texto implica a nota zero e a erradicação do ensino. Este é, de resto, o único óbice que se poderá colocar a quem faria a prova, porque a outra parte, como sabemos, não levaria a nada, ou seja, é de caras, porque, e como sabem, uma turma de alunos do secundário, testada na brincadeira com o teste modelo que o MEC publicou, perante o grupo de escolha múltipla, portou-se muito bem. A nota mínima foi 16/20. Assim como assim, é ainda mais provável que esses alunos não cometam os tais erros do velho acordo, porque nas escolas o AO já está em vigor desde 2009. Conclusão óbvia: um aluno do secundário está capacitado para ser professor e não é necessário fazer qualquer curso superior. Eis aqui o ponto essencial aonde NC queria chegar: o ensino em Portugal com 12 anos já é mais que suficiente.
A segunda evidência desta luminescência idiota é que o critério da competência parece que passa pela obtenção de lugar no quadro. Se o estado agisse segundo as regras da Organização Mundial do Trabalho, e segundo a imposição hoje incontornável do Tribunal Europeu, seriam menos 12.000 professores de competência duvidosa (segundo o MEC) a ter de fazer o exame, pois, como sabemos, quem está há mais de 3 anos a desempenhar as funções de forma contínua, ainda que a contrato, tem de ser integrado na carreira. E bem!
Entretanto, e ainda dentro deste ato I as instituições de ensino superior nada dizem. Mas que se passa? Será que estão à espera de serem contactadas para a elaboração do dito exame e obter assim mais uns chorados euros? Não parece! Aliás, estão a braços com uma crise que lhes rouba os esforços e a vontade de entrar em outras lutas.
ATO II – Ontem, dia 2 de dezembro, o ministro torto veio anunciar que foi conseguido um acordo com os professores (????) e que só aqueles que têm menos de 5 anos de serviço terão de fazer o dito exame. Fiquei pasmado, revoltado e inconfessavelmente furibundo. Explico porquê.
Até há, exatamente, 5 anos atrás, a formação de professores estava integrada na licenciatura específica da área (para não falar de modelos anteriores, em que já tinha havido um modelo bietápico também) e um professor era um licenciado na área de ensino em… 
Exatamente há 5 anos é lançado um modelo de formação que, não sendo perfeito, é aquele que maior graduação oferece e, se realizado com rigor e honestidade, devolve à sociedade e às escolas um profissional jovem altamente qualificado com formação na área específica e pós-graduação ao nível de mestrado na área de ensino. O processo de formação só fica concluído depois de um 5º ano de prática pedagógica e a entrega de uma dissertação de investigação – arguida perante um júri de 3 professores de ensino superior – que conferirá o grau de Mestre. Domina as tecnologias e a inovação como muitos outros não o fazem (e se calhar não têm de o fazer, pois o que têm de fazer bem é serem bons professores), foi avaliado nas cadeiras específicas hoje muito mais ajustadas e menos magistrais do que outrora, enfim, um ativo que domina as ditas ‘expertises’ e ‘skills’ e possui o germe de competência que crescerá com a experiência quotidiana. E são estes os agentes que o estado quer ‘avaliar’? É de uma sacanice sem conto aquilo que hoje se fez à socapa.
Sei muito bem do que falo, pois fui orientador de estágios em vários modelos e na minha instituição estou exatamente a acompanhar núcleos de estágios segundo este novo modelo com mestrado. É verdade que nem todos têm perfil e, com mais ou menos subtileza, temos conseguido que esses candidatos não prossigam a formação na área de ensino. Além disso, se este crivo falhar, não é um exame medíocre como aquele que foi publicado que conferirá o selo verdadeiro da essência do ser professor.
Entretanto, neste segundo ato, as universidades e politécnicos continuam sem nada dizer. E fico triste, porque isto é um reconhecimento passivo de que o MEC poderá ter razão ao colocar em causa a qualidade de formação em ensino que se promove em Portugal. E isso não é verdade! Não é verdade!
EPÍLOGO
Não escrevo mais, porque a alma me treme e as palavras descaem da parte mais sórdida do dicionário e poderia começar a falar de uma suposta representação de professores que não representa sequer 1/3 dos professores sindicalizados e por aí a fora…
Antonino Silva



HenriCartoon

novembro 14, 2013

Nem Jesus aguentaria ser um professor nos dias de hoje

O Sermão da montanha dos tempos "modernos"

Naquele tempo, Jesus subiu a um monte seguido pela multidão e, sentado sobre uma grande pedra, deixou que os seus discípulos e seguidores se aproximassem.
Ele preparava-os para serem os educadores capazes de transmitir a Boa Nova a todos os homens.
Tomando a palavra, disse-lhes:
- Em verdade, em verdade vos digo: Felizes os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus. Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. Felizes os misericordiosos, porque eles...
Pedro interrompeu-o:
- Mestre, vamos ter que saber isso de cor?
André perguntou:
- É p'ra copiar?
Filipe lamentou-se:
- Esqueci o meu papiro!
Bartolomeu quis saber:
- Vai sair no teste?
João levantou a mão:
- Posso ir à casa de banho?
Judas Iscariotes resmungou:
- O que é que a gente vai ganhar com isso?
Judas Tadeu defendeu-se:
- Foi o outro Judas que perguntou!
Tomé questionou:
- Tem uma fórmula p'ra provar que isso 'tá certo?
Tiago Maior indagou:
- Vai contar p'rá nota?
Tiago Menor reclamou:
- Não ouvi nada, com esse grandalhão à minha frente!
Simão Zelote gritou, nervoso:
- Mas porque é que não dá logo a resposta e pronto?!
Mateus queixou-se:
- Eu não percebi nada, ninguém percebeu nada!
Um dos fariseus, que nunca tinha estado diante de uma multidão nem ensinado nada a ninguém, tomou a palavra e dirigiu-se a Jesus, dizendo:
- Isso que o senhor está a fazer é uma aula? Onde está a sua planificação e a avaliação diagnóstica? Quais são os objectivos gerais e específicos? Quais são as suas estratégias para recuperação dos conhecimentos prévios?...
Caifás emendou:
- Fez uma planificação que inclua os temas transversais e as actividades integradoras com outras disciplinas? E os espaços para incluir os parâmetros curriculares gerais? Elaborou os conteúdos conceituais, processuais e atitudinais?...
Pilatos, sentado lá no fundo, disse a Jesus:
- Quero ver as avaliações da primeira, segunda e terceira etapas e reservo-me o direito de, no final, aumentar as notas dos seus discípulos para que se cumpram as promessas do Imperador de um ensino de qualidade. Nem pensar em números e estatísticas que coloquem em dúvida a eficácia do nosso projecto. E veja lá se não vai reprovar alguém!
E foi nesse momento que Jesus perguntou:
- Senhor, por que me abandonaste?!

(texto recebido por e-mail, sem indicação do autor)

novembro 13, 2013

«Memórias de uma aula de Zeca Afonso em Setúbal» por Hélida Carvalho Santos - Barreiro, 4 de Outubro de 1967 (Quarta-feira)

"Segundo dia de aulas. Continua o desassossego, com o pessoal a trocar beijos, abraços e confidências, depois desta longa separação que foram 3 meses e meio de férias. Estávamos todos fartos do verão, com saudades uns dos outros. A sala é a mesma do ano passado, no 1º andar e cheirava a nova, tudo encerado e polido, apesar do material já ser mais do que velho. Somos o 7.º A e como não chumbou nem veio ninguém de novo, a pauta é exactamente igual à do ano passado. Eu sou o n.º 34, e fico sentada na segunda fila, do lado da janela, cá atrás, que é o lugar dos mais altos.
Hoje tivemos, pela primeira vez, Organização Política e apareceu-nos um professor novo, acho que é a primeira vez que dá aulas em Setúbal, dizem que veio corrido de um liceu de Coimbra, por causa da política. Já ontem se falava à boca cheia dele, havia malta muito excitada e contente porque dizem que ele é um fadista afamado. Tenho realmente uma vaga ideia de ouvir o meu tio Diamantino falar dele, mas já não sei se foi por causa da cantoria se por causa da política. A Inês contou que ouviu o pai comentar, em casa, que o homem é todo revolucionário, arranja sarilhos por todo o lado onde passa. Ela diz que ele já esteve preso por causa da política, é capaz de ser comunista. Diferente dos outros professores, é de certeza. Quando entrou na sala, já tinha dado o segundo toque, estava quase no limite da falta. Entrou por ali a dentro, todo despenteado, com uma gabardine na mão e enquanto a atirava para cima da secretária, perguntou-nos:
- Vocês são o 7.º A, não são? Desculpem o atraso mas enganei-me e fui parar a outra sala. Não faz mal. Se vocês chegarem atrasados também não vos vou chatear.
Tinha um ar simpático, ligeiro, um visual que não se enquadrava nada com a imagem de todos os outros professores. Deu para perceber que as primeiras palavras, aliadas à postura solta e descontraída, começavam a cativar toda a gente. A Carolina virou-se para trás e disse-me que já o tinha visto na televisão, a cantar Fado de Coimbra. Realmente o rosto não me era estranho. É alto, feições correctas, embora os dentes não sejam um modelo de perfeição e é bem parecido, digamos que um homem interessante para se olhar. O Artur soprou-me que ele deve ter uns 36 anos e acho que sim, nota-se que já é velho. Depois das primeiras palavras, sentou-se na secretária, abriu o livro de ponto, rabiscou o que tinha a escrever e ficou uns cinco minutos, em silêncio, a olhar o pátio vazio, através das janelas da sala, impecavelmente limpas.
Enquanto ele estava nesta espécie de marasmo nós começámos a bichanar uns com os outros, cada um emitindo a sua opinião, fazendo conjecturas. Às tantas, o bichanar foi subindo de tom e já era uma algazarra tão grande que parece tê-lo acordado. Outro qualquer professor já nos teria pregado um raspanete, coberto de ameaças, mas ele não disse nada, como se não tivesse ouvido ou, melhor, não se importasse. Aliás, aposto que nem nos ouviu. O ar dele, enquanto esteve ausente, era tão distante que mais parecia ter-se, efectivamente, evadido da sala. Quando recomeçou a falar connosco, em pé, em cima do estrado, já tinha ganho o primeiro round de simpatia. Depois, veio o mais surpreendente:
- Bem, eu sou o vosso novo professor de Organização Política, mas devo dizer-vos que não percebo nada disto. Vocês já deram isto o ano passado, não foi? Então sabem, de certeza, mais que eu.
Gargalhada geral.
- Podem rir porque é verdade. Eu não percebo nada disto, as minhas disciplinas, aquelas em que me formei, são História e Filosofia, não tenho culpa que me tivessem posto aqui, tipo castigo, para dar uma matéria que não conheço, nem me interessa. Podia estudar para vir aqui desbobinar, tipo papagaio, mas não estou para isso. Não entro em palhaçadas.
Voltámos a rir, numa sonora gargalhada, tipo coro afinado, mas ele ficou impávido e sereno. Continuava a mostrar um semblante discreto, calmo, simpático.
- Pois é, não vou sobrecarregar a minha massa cinzenta com coisas absolutamente inúteis e falsas. Tudo isto é uma fantochada sem interesse. Não vou perder um minuto do meu estudo com esta porcaria.
Começámos a olhar uns para outros, espantados; nunca na vida nos tinha passado pela frente um professor com tamanha ousadia.
- Eu estudaria, isso sim, uma Organização Política que funcionasse, como noutros países acontece, não é esta fantochada que não passa de pura teoria. Na prática não existe, é uma Constituição carregada de falsidade. Portugal vive numa democracia de fachada, este regime que nos governa é uma ditadura desumana e cruel.
Não se ouvia uma mosca na sala. Os rostos tinham deixado cair o sorriso e estavam agora absolutamente atónitos, vidrados no rosto e nas palavras daquele homem ímpar. O que ele nos estava a dizer é o que ouvimos comentar, todos os dias, aos nossos pais, mas sempre com as devidas recomendações para não o repetirmos na rua porque nunca se sabe quem ouve. A Pide persegue toda a gente como uma nuvem de fumo branco, que se sente mas não se apalpa.
- Repito: eu não percebo nada desta disciplina que vos venho leccionar, nem quero perceber. Estou-me nas tintas para esta porcaria. Mas, atenção, vocês é outra coisa. Vocês vão ter que estudar porque, no final do ano, vão ter que fazer exame para concluírem o vosso 7.º ano e poderem entrar na Faculdade. Isso, vocês tem que fazer. Estudar. Para serem homens e mulheres cultos para puderem combater, cada um onde estiver, esta ditadura infame que está a destruir a vossa pátria e a dos vossos filhos. Vocês são o amanhã e são vocês que têm que lutar por um novo país.
Não vão precisar de mim para estudar esta materiazinha de chacha, basta estudarem umas horas e empinam isto num instante. Isto não vale nada. Eu venho dar aulas, preciso de vir, preciso de ganhar a vida, mas as minhas aulas vão ser aulas de cultura e política geral. Vão ficar a saber que há países onde existem regimes diferentes deste, que nos oprime, países onde há liberdade de pensamento e de expressão, educação para todos, cuidados de saúde que não são apenas para os privilegiados, enfim, outras coisas que a seu tempo vos ensinarei. Percebem? Nós temos que aprender a não ser autómatos, a pensar pela nossa cabeça. O Salazar quer fazer de vocês, a juventude deste país, carneiros, mas eu não vou deixar que os meus alunos o sejam. Vou abrir-lhes a porta do conhecimento, da cultura e da verdade. Vou ensinar-lhes que, além fronteiras, há outros mundos e outras hipóteses de vida, que não se configuram a esta ditadura de miséria social e cultural.
Outra coisa: vou ter que vos dar um ponto por período porque vocês têm que ter notas para ir a exame. O ponto que farei será com perguntas do vosso livro que terão que ter a paciência de estudar. A matéria é uma falsidade do princípio ao fim, mas não há volta a dar, para atingirem os vossos mais altos objectivos. Têm que estudar. Se quiserem copiar é com vocês, não vou andar, feita toupeira, a fiscalizá-los, se quiserem trazer o livro e copiar, é uma decisão vossa, no entanto acho que devem começar a endireitar este país no sentido da honestidade, sim porque o nosso país é um país de bufos, de corruptos e de vigaristas. Não falo de vocês, jovens, falo dos homens da minha idade e mais velhos, em qualquer quadrante da sociedade. Nós temos sempre que mostrar o que somos, temos que ser dignos connosco para sermos dignos com os outros. Por isso, acho que não devem copiar. Há que criar princípios de honestidade e isso começa em vocês, os futuros homens e mulheres de Portugal. Não concordam?
Bem, por hoje é tudo, podem sair. Vemo-nos na próxima aula.
Espantoso. Quando ele terminou estava tudo lívido, sem palavras. Que fenómeno é este que aterrou em Setúbal?
Já me esquecia de escrever. Esta ave rara, o nosso professor de Organização Política, chama-se Zeca Afonso."

Hélida Carvalho Santos

outubro 17, 2013

«A poupar desde os sete anos» - conselhos de poupança de José Redondo, presidente do Licor Beirão

José Redondo, presidente da Licor Beirão
Desde pequeno que me habituei a admirar a forma original e criativa como o Licor Beirão era publicitado, dando a ideia de estar presente em qualquer café ou curva das (poucas) estradas de Portugal. Há 40 anos, o meu Pai, professor Rogério, tinha uma régua de madeira com uma frase impressa, algo como "Que belo licor, senhor professor!" e o meu tio Toneca tinha outra régua com a frase "Licor porreiro, senhor engenheiro". A minha memória ficou tão gravada como aquelas réguas. "Genial criação, Licor Beirão!"
Passados todos estes anos, ainda mais surpreendente é a forma como o Licor Beirão consegue manter e até reforçar a sua imagem, sempre muito à frente de outras marcas, até a nível internacional.
Há poucas semanas, tive a oportunidade de visitar a fábrica do Licor Beirão e de conhecer pessoalmente o seu presidente, José Redondo. Soube a tão pouco ouvi-lo falar de algumas aventuras e peripécias ao longo da longa história da marca...
Julgo que é uma pena se não for recolhido em livro todo o manancial da história desta empresa. Fica o desafio...
O José Redondo é uma pessoa que fala connosco como se fosse a primeira vez que conta episódios importantes e curiosos e como se fôssemos, naquele pedacinho de tempo, o centro do mundo.
Recentemente, escreveu um texto sobre poupança na página do Montepio. Achei esse texto tão interessante que pedi autorização para o reproduzir no «Persuacção». A resposta é mesmo dele: "Será um prazer e uma honra". Aqui fica a sua lição de poupança:

José Carranca Redondo, que adquiriu em 1940
a fábrica e a receita secreta do Licor Beirão
"Quando tinha 7 anos tive uma experiência com o meu Pai - que acompanhei diariamente ao longo de mais de 50 anos - e marcou-me para sempre. Falávamos de poupar dinheiro e do que isso era importante na vida. Disse-me que era preciso poupar sempre. E vai daí, passou imediatamente da teoria à prática. Recordo-me, como se fosse hoje, que me levou a uma agência de um Banco na Lousã, que tinha na altura dois funcionários.
Quando lá chegámos, abriu uma conta em meu nome com a quantia de 57$50 escudos. Estávamos a 29 de agosto de em 1950. Em outubro depositei mais 50$00. Esse dinheiro foi vencendo juros a uma média de 2$20 por ano - não havia inflação - até que, a 17 de abril de 1957, já tinha 121$30. Levantei esse dinheiro para, a 24 de abril, fazer um depósito de 485$00. Nessa altura, os juros já eram maiores e rondavam os 32$00 por ano.
Muito jovem já acompanhava o meu Pai nos meus tempos livres. Ele dava-me sempre as mais variadas tarefas. Para isso, ia-me “pagando” esses trabalhos, tal como eu hoje faço com os meus netos, e eu sentia um orgulho enorme em entrar no Banco e dirigir-me ao balcão para depositar, quantias de 7$50, 8$00, e até registar depósitos de 2$50. Para os mais jovens que me lêem  2$50 é o equivalente a um cêntimo e meio de euro!!!
Ainda me lembro quando um dos funcionários escreveu à mão os juros vencidos naquele primeiro ano. Sentir que tinha conseguido aquele dinheiro “sem trabalho” foi qualquer coisa de extraordinário para mim. Mais tarde, quando tinha 14 anos, como tínhamos a agência de jornais do Primeiro de Janeiro, o meu Pai propôs-me ser agente do Diário do Norte, um vespertino que se publicou durante alguns anos no Porto. Chegava à Lousã por volta das 21 horas e eu, pasme-se, ainda o ia distribuir pelos assinantes. O lucro da distribuição do jornal depositava-o sempre no Banco.
Conclusão: Ao fim de alguns anos já tinha algum fundo de maneio na conta bancária. Assim, cheguei a dezembro de 1963 e tinha à ordem 820$20 que levantei nessa data. Não me recordo em que investi esse dinheiro, mas como andava na faculdade, em Coimbra, depreendo que não terá sido o melhor investimento
É natural que toda a minha vida tivesse sido pautada por uma dose elevada de poupança, uma vez que fui educado numa perspetiva de aforro. As diversas empresas ligadas a setores tão diversos como publicidade, sinalização rodoviária, serigrafia, fibra de vidro e o próprio Licor Beirão, comportaram-se sempre na ideia de que se houvesse poupança e dinheiro em caixa, facilmente se fariam bons negócios. Sempre e sempre a pensar que só uma boa compra permitiria uma boa venda.
A chegada do 25 de abril e a perda daquela identidade salazarista de produzir e poupar foi substituída por produzir e investir. Se se investisse o ganho da produção eu até estaria de acordo. No entanto, e infelizmente, vários empresários não souberam perceber que muitos investimentos que faziam não eram reprodutivos mas para consumo próprio. A palavra poupança nunca fez parte do vocabulário de muitos empresários, de muitas famílias, de muitas pessoas
Na minha opinião, as poupanças têm de começar logo no nosso agregado familiar. Conseguir que todos os meses os vencimentos “estiquem” um pouco que seja é uma condição essencial para obstar a percalços que, por mais pequenos que sejam, levam muitas vezes a atitudes irremediáveis.
Muita gente honesta foi apanhada neste turbilhão de crise social e verifica-se que aqueles que conseguiram ultrapassar o drama por que passaram já conseguem criar pequenas poupanças e reservar o mínimo para poderem ocorrer a qualquer nova situação imponderável e resolvê-la, com o apoio da banca. É isso que justifica que, num período tão difícil da nossa vida, o nível de poupança das famílias esteja a aumentar."
José Redondo
Presidente da Licor Beirão

setembro 23, 2013

Podem usar cábulas

O que é que aconteceu em quatro ou cinco décadas para o ofício de professor/a chegar a este despautério?

junho 15, 2013

«Carta aberta ao Professor Nuno Crato» - de João A. Moreira

Eu poderia ter escrito isto!
Por isso criei, já há uma meia dúzia de anos (que esta situação dos professores não é só do actual desGoverno) o Movimento dos Esposos Revoltados de Docentes Abusados. Sim, sim, a sigla é - como a vida dos professores e das suas famílias - mesmo isso!

"Caro Professor Nuno Crato,

Acredite que é com imenso desgosto que lhe escrevo esta carta aberta.
Habituei-me, durante anos, a ler e a concordar com o muito que foi escrevendo sobre o estado do ensino em Portugal. Dos manuais desadequados à falta de exames capazes de avaliar o real grau de aprendizagem dos alunos; do laxismo instituído à falta de autoridade dos professores; do absoluto desconhecimento do que se passava nas escolas, por parte do Ministério da Educação à permanente falta de materiais e condições nas escolas. Durante anos, também eu me revoltei com a transformação da escola pública em laboratório de experiências por parte de políticos, pedagogos e supostos especialistas em educação. Foi por isso com esperança que me congratulei com a sua nomeação para Ministro da Educação do actual governo.
Por isso, Professor Nuno Crato, me surpreende que, à semelhança dos seu antecessores, não tenha sido capaz de resistir à tentação de transformar os seus colegas de profissão nos maus da fita, mandriões, calaceiros, incapazes de trabalhar míseras 40 horas por semana. Surpreende-me e entristece-me.
Sabe, Professor Nuno Crato, sou filho de professores e durante a minha infância e adolescência habituei-me a compartilhar o meu tempo, os meus livros, os meus cadernos e muitas vezes o meu almoço e o meu lanche, com os milhares de crianças que, ao longo de anos de esforço e dedicação, eles ajudaram a educar pelas aldeias mais recônditas do nosso país. Habituei-me a aguardar pacientemente a sua chegada tardia, os trabalhos para corrigir, as aulas para preparar, para que restasse um pedaço de tempo para uma história, uma conversa, um mimo. Nunca lhes pressenti na expressão uma nota de arrependimento, antes de felicidade, por um trabalho que adoravam fazer e que eu adorava que fizessem. E, não imagina o orgulho que sentia quando nos cruzávamos com muitos dos seus ex-alunos e lhes via no rosto uma expressão doce de eterna gratidão - Se não tivesse sido o Senhor Professor ...não sei o que teria sido de mim!
Depois, casei-me com uma professora e voltei a ter de me habituar a compartilhar o meu dia-a-dia, o meu computador, os meus tinteiros, os meus dossiers, o meu papel, as minhas canetas, com milhares de outras crianças e adolescentes. Voltei a ter de me habituar a aguardar a sua chegada tardia, os trabalhos para corrigir, as aulas para preparar. Com a diferença de agora, a tudo isso, se somarem milhares de páginas de legislação para ler, a grande maioria escrita num português que envergonharia os meus pais e grande parte dos seus ex-alunos; dezenas de relatórios para redigir; novas metodologias de ensino para estudar; manuais diferentes de ano para ano para analisar; telefonemas para pais de alunos problemáticos a efectuar; acompanhamento de alunos com dificuldades, reuniões de pais, reuniões de avaliação, reuniões de preparação, reuniões de grupo, assembleias de escola, visitas de estudo, estudo acompanhado, aulas de substituição, vigilância de exames. Confesso que ao longo dos anos, fui conseguindo roubar à escola, um pouco de tempo para mim. Mas, mesmo desse tempo roubado a custo, muito era passado a falar da desmotivação generalizada causada pelo desleixo, pela falta de objectivos, pela ausência de meios, pela violência, pela falta de autoridade, enfim, por tudo aquilo que o Professor Nuno Crato tão bem descrevia nas suas análises.
Durante estes muitos anos a viver com professores, nunca me passou pela cabeça perguntar-lhes quantas horas trabalhavam. Mas, fazendo um esforço de memória, sou capaz de contabilizar os milhares de horas que o seu trabalho para a escola roubou à minha família. Os milhares de refeições em conjunto que não se realizaram, os milhares de conversas que não pudemos ter, os milhares de madrugadas passadas em claro, os milhares de filmes que não vimos juntos, os milhares de musicas que não ouvimos, os milhares de livros que não lemos, os milhares de passeios que não demos.
Não sei se esses milhares e milhares de horas perfazem as tão badaladas 40 horas de trabalho por semana que agora se discutem, mas sei que se fosse professor estaria a favor dessas 40 horas de trabalho semanais, desde que realizadas integralmente na escola, sem nunca mais, ter de trazer trabalho para casa, de gastar uma gota de tinta do tinteiro da minha impressora, de ocupar um byte de memória do meu computador, de usar uma folha da minha resma de papel, de ocupar a minha sala com trabalhos de alunos, de perder as minhas noites, os meus fins-de-semana, os meus dias de descanso com a preparação de aulas, reuniões ou relatórios. Se assim for, pelo menos, numa coisa os professores passarão a ser efectivamente iguais a todos os outros funcionários públicos, que deixam o seu trabalho e os seus problemas laborais na porta de saída da repartição.
Infelizmente não acredito que assim seja e o que acontecerá é que os milhares de professores, mal pagos, mal amados, maltratados, continuarão a acumular às 40h que agora se pretendem instituir, milhares e milhares de horas de trabalho gratuito roubadas às suas famílias, ao seu descanso, ao seu lazer, pelo simples motivo de se orgulharem de ensinar e não permitirem que os mesmos políticos, pedagogos e supostos especialistas em educação instalados no Ministério há anos, destruam a essência da sua profissão.
Caro Professor Nuno Crato, é por isto que os seus colegas de profissão estão em greve e não entender isto é não entender nada sobre educação. Por isso, não se admire se um destes dias forem eles a fazer aquilo que o professor tanto prometeu, mas não teve coragem de cumprir: implodir o Ministério da Educação em defesa da educação em Portugal."
João A. Moreira

junho 14, 2013

«Eu não fui ensinada por mágicos ou feiticeiros» - Inês Gonçalves

"Estudo no 12º ano, tenho 18 anos. Sou uma entre os 75 mil que têm o seu futuro a ser discutido na praça pública.
Dizem que sou refém! Dizem que me estão a prejudicar a vida! Todos falam do meu futuro, preocupam-se com ele, dizem que interessa, que mo estão a prejudicar…
Ando há 12 anos na escola, na escola pública.
Durante estes 12 anos aprendi. Aprendi a ler e a escrever, aprendi as banalidades e necessidades que alguém que não conheci considerou que me seriam úteis no futuro. Já naquela altura se preocupavam com o meu futuro. Essas directivas eram-me passadas por pessoas, pessoas que escolheram como profissão o ensino, que gostavam do que faziam.
As pessoas que me ensinaram isso foram também aquelas que me ensinaram a importância do que está para além desses domínios e me alertaram para a outra dimensão que uma escola “a sério” deve ter: a dimensão cívica.
Eu não fui ensinada por mágicos ou feiticeiros, fui ensinada por professores! Esses professores ensinaram-me a mim e a milhares de outros alunos a sermos também nós pessoas, seres pensantes e activos, não apenas bonecos recitadores!
Talvez resida ai a minha incapacidade para perceber aqueles que se dizem tão preocupados com o meu futuro. Talvez resida no facto de não perceber como é que alguém pode pôr em causa a legitimidade da resistência de outrem à destruição do futuro e presente de um país inteiro!
Onde mora a preocupação com o futuro dos meus filhos? Dos meus netos? Quem a tem?
Onde morava essa preocupação quando cortaram os horários lectivos para metade e mantiveram os programas?
Onde morava essa preocupação quando criaram os mega-agrupamentos?
Onde morava essa preocupação quando cortaram a acção social ou o passe escolar?
Onde mora essa preocupação quando parte dos alunos que vão a exame não podem sequer pensar em usá-lo para prosseguir estudos pois não têm posses para isso?
Não somos reféns nessa altura?
E a preocupação com o futuro dos meus professores? Onde morava essa preocupação quando milhares de professores foram conduzidos ao desemprego e o número de alunos por turma foi aumentado?
Todas as atrocidades que têm sido cometidas contra nós, alunos, e contra a qualidade do ensino que nos é leccionado não pode ser esquecida nunca mas especialmente em momentos como este!
Os professores não fazem greve apenas por eles, fazem greve também por nós, alunos, e por uma escola pública que hoje pouco mais conserva do que o nome. Fazem greve pela garantia de um futuro!
De facto, Crato tem razão quando diz que somos reféns, engana-se é na escolha do sequestrador!
E em relação aos reféns: não são só os alunos; são os alunos, os professores, os encarregados de educação, os pais, os avós, os desempregados, os precários, os emigrantes forçados... Os reféns são todos aqueles que, em Portugal, hipotecam presentes e futuros para satisfazer a "porra" de uma entidade que parece não saber que nós não somos números mas sim pessoas!
Se há momentos para ser solidária, este é um deles! Estou convosco."
Inês Gonçalves

junho 13, 2013

Horas de trabalho dos professores - tanta falácia junta!...

Texto do Amigo Mestre Professor Antonino Silva que devia ser lido por todos os responsáveis do desGoverno e do Ministério da Educação, não só os actuais mas os que vão alternando:

"Nesta disputa de opinião, há muita trave que nos cega
1. As 40 horas não existem no privado. Um quadro médio ou superior (caso dos professores) trabalha 35 horas. 40 horas são para os técnicos operacionais.
2. Um professor que dá 22 horas de aula, ao passar a ter as 40 horas de permanência obrigatória na escola terá de ter, concomitantemente, um espaço para o seu trabalho não letivo .Ou queremos que lecione as 40 horas? Também se arranja!
3. O ministério terá de, por legislação adequada, informar quanto tempo de preparação pressupõe cada hora de aula; quanto tempo máximo poderá demorar uma reunião (não as 8 horas que algumas levam); quanto tempo deve contabilizar a correção de um teste, etc. A partir daí, vai ser uma coisa fantástica. vamos ver os professores a encerrarem 'a sua cadeira' (o dito gabinete) da sala de professores cumpridas as 8 horas do dia e as 40 semanais e os nossos filhos à espera dos resultados dos testes que tardam porque as sua correção estaria para lá do horário semanal.
Todos sabem que os professores trabalham mais que as 40 horas? Parece que nem todos.
Os professores marcam o ponto cada 45 ou 90 minutos. Marcam os livros de atendimento, de reunião de apoio, de ateliês, etc.
Um professor com 7 turmas de 30 alunos terá ao todo 210. Se fizer 2 testes no período terá 420 para corrigir. Em média cada teste demora 30 minutos a corrigir, o que dará 210 horas. Se o período tem 12 semanas (como é o 1º) teremos 17.5 horas por semana para corrigir testes. Some as 22 horas de aula e terá 39.5 horas. Na meia hora que resta pretende-se que faça direção de turmas, que coordene, que prepare as aulas, que vá às reuniões, que dê apoio, que prepare os testes, que... ???!!!
Mesquinho é o povo que quando vê o vizinho com manteiga no pão fica feliz se tirarem manteiga ao vizinho e não se lembra de a exigir para si."

maio 17, 2013

«Faz tempo que...» - por Fátima Marques

A Fátima e "o mê Zé Tó"
"Faz tempo que não pego no papel e na caneta e escrevo o que me vai na alma. Não porque a alma se tenha apagado ou deixado de sentir, não porque o exercício de pensar tenha diminuído no meu ser, mas porque a luta constante de um dia-a-dia sem tréguas não deixou espaço para a escrita.
Há muito que me afastei de tudo o que gostava de fazer, há muito que abandonei o perseguir de alguns sonhos e me rendi à condição de formiga de um formigueiro estranho onde nem sempre a organização me enquadra e agrada mas é aquela onde vivo e para a qual trabalho.
Carrego o peso dos que se levantam e deitam com a angústia da lágrima contida. A lágrima de uma dor de submissão imposta por razões de responsabilidade social mas principalmente por razões de responsabilidade familiar. Escolheram ser trabalhadores porque a única opção era ser trabalhadores mas à época havia a dignidade de uma profissão. Hoje existe a indignidade da escravidão!
Levanto-me e deito-me, todos os dias, com o mesmo cansaço do dia anterior e neste acumular de cansaços vou olhando na busca de pontos de esperança, como que buscando vitaminas que me dêem a coragem de avançar mais um dia. Busco-as na família, principalmente!
Mas as famílias estão cheias de gente como eu! Estão cheias de gente que se levanta e deita com o cansaço do dia anterior!
Nesta imensidão de cansaços vamos lutando dia-a-dia tentando ganhar forças para avançar.
Eu vou guardando cada carinho, cada abraço, no alforge da vida e cá vou, pronta para mais um dia, apagando as lágrimas com sorrisos de engano até ao dia em que consiga dar um grito de libertação!"
Fátima Marques
__________________________________
A Fátima é professora do ensino secundário e colega da minha Luísa, que também se levanta e deita com o cansaço do dia anterior. E, como sempre, revolta-me ver que os professores não podem ter vida para além do trabalho. O grito de libertação deveria ser de todos os professores. Mas estão a deixar-se cozinhar pelo desGoverno da «««Educação»»», como o sapo que começou deliciado a nadar num tacho de água que foi ficando morninha e a temperatura foi subindo, subindo...

maio 12, 2013

«Verdades para as nossas filhas»

A malta da FEUC enviou-me o artigo «Truths for Our Daughters» da Harvard Business Review.
Achei-o tão interessante que fiz a tradução (com os meus conhecimentos básicos de inglês mas conta também a boa vontade):


Como profissional sénior de serviços financeiros - uma indústria com relativamente poucas mulheres nos cargos executivos - Passei muito tempo a reflectir por que não há mais mulheres nos lugares de mais alto nível das empresas. Eu li estudos e ouvi teorias sobre as mulheres não funcionarem bem em rede; não terem o "dom da Visão"; comunicarem de forma muito passiva; não pedirem trabalhos de maior responsabilidade e  clientes de topo; e terem menos patrocinadores que estejam dispostos a utilizar o seu capital de influência para as apoiar no seu percurso, tal como fazem para os seus colegas do sexo masculino. Há montes de concordância e repetição ao falar sobre este assunto. É quando se fala de soluções que as coisas ficam mais silenciosas.
Como mãe que vê a sua filha de 18 anos, caloira da faculdade, perante as suas opções de trabalho de verão e de carreira futura, quero que ela tenha conhecimento de histórias de sucesso - e não o que falta às mulheres, o que não fizeram ou não podem fazer - porque eu sei que existem esses sucessos e precisamos de compartilhá-los mais. Se as mulheres jovens entrarem na força de trabalho, em todo o lado, não só com a mensagem de que "não se pode ter tudo" e inundadas com dados sobre a falta de mulheres no topo das hierarquias, mas antes munidas de todos os conselhos acumulados e a sabedoria das mulheres experientes que prosperaram e desfrutaram das suas carreiras, então elas - e as organizações que as acolhem - ficariam muito melhor servidas.
Estes são os conselhos que vou dar à minha filha - e a todas as mulheres jovens como ela que anseiam construir uma carreira - numa altura em que ela começa a tomar decisões sobre a sua vida. Estas são algumas verdades que eu sei agora, com mais de vinte anos da minha carreira, e que gostaria que alguém me tivesse dito antes. E, embora eu nem sempre siga estas orientações, a minha carreira tem sido melhor sucedida - e eu cheguei onde estou hoje - por causa delas. Talvez a minha filha as vá incorporar bem cedo e ficar à frente no jogo.

  • Sê confiante. Eu vi a forma como abordaste a cadeira de cálculo multivariável neste semestre com frieza e calma. Traz esse espírito contigo, para o teu trabalho (para que conste, eu não consigo pensar numa única coisa que tenha feito em toda a minha carreira que se aproxime da complexidade do cálculo multivariável).
  • Não precisas de "saber tudo" no primeiro dia. Tal como qualquer outra pessoa, incluindo aquele colega que transpira confiança do cubículo ao teu lado. Mesmo os gestores de topo fazem perguntas.
  • Sente-te confortável em estares desconfortável. Levei cerca de uma década, se não mais, até descobrir isso. É muito fácil conteres-te por assumires que há alguém por aí que é mais talentoso, mais experiente, mais habilidoso. Tu não vais crescer na tua carreira se não te aventurares para além do que já estás a fazer de forma confortável.
  • Tu não tens ideia de aonde a tua carreira te vai levar a longo prazo. Por isso pensa nisso em etapas mais curtas e mais fáceis de gerir. As oportunidades aparecerão. Sê destemida, aproveita-as e não te preocupes tanto com o que vem a seguir.
  • Fala duas vezes mais alto do que achas que é preciso. Eu bem que gostaria que alguém me tivesse dito isto antes da minha primeira apresentação numa sala de reuniões - quando alguém realmente me pediu para "falar mais alto".
  • Está preparada. Pratica. Conhece os números por dentro e por fora. Grandes decisões de negócio desenvolvem-se com o tempo mas, desde o primeiro dia, tu podes ter os dados - e isso é muito poderoso.
  • Encontra aquela pessoa que acredita em ti - e então ouve-a, mesmo que não gostes do que te possa dizer. Vais um dia relembrar-te e sentires-te grata contigo própria por tê-lo feito.
  • Desenha riscos na areia. Apreende aquilo em que absolutamente não vais poder desistir e cumpre-o. Ninguém vai agradecer por não teres uma vida fora do trabalho, sem tirares férias. As pessoas mais bem sucedidas que eu conheço conciliam as suas vidas e e o seu trabalho ao longo da semana. Isto permite-lhes ter, em simultâneo, longevidade da carreira e realização das suas vidas.
  • Vais frequentemente sentir como se não estivesses a usar 100% da tua capacidade,  seja em casa, no trabalho, com amigos ou com outros interesses externos. Eu sinto isso a todo o momento - e está tudo bem. Grandes empreendedores sempre se esforçam para fazer mais no trabalho, com a família e amigos, com os seus outros compromissos e interesses externos à organização.
  • Faz favores em cadeia e as coisas boas acontecem. Atende a chamada ou regista o pedido de reunião quando os teus amigos e colegas contactam para negócios ou conselhos de carreira  e põe-nos em contacto com quem os possam ajudar. Eles vão lembrar-se disso e é uma maneira fácil e genuína de expandires a tua rede.
  • Está pronta - para qualquer coisa.

Está na hora de mudar a narrativa das causas por que não há mais mulheres no topo. Podemos simplesmente forçar um "como fazer" e mudar as tendências de que todos nos apercebemos? Provavelmente não - porque não existe uma fórmula X de segredo para o sucesso. Cada um de nós traz um mix variado de talentos, ideias e experiências para a equação, bem como diferentes circunstâncias da vida. É por isso que temos de começar a compartilhar as nossas histórias de sucesso, em vez de nos concentrarmos em todas as razões pelas quais as mulheres desistem ou não vivem de acordo com o seu potencial no mercado de trabalho. Neste Dia das Mães, compartilha a tua história com alguém que precise de ouvir.

Joan Solotar
10 de Maio de 2013

Joan Solotar é gestora de topo, chefe de relações exteriores e do grupo de estratégia,  membro das Comissões Executiva e de Gestão do Grupo Blackstone, empresa de investimento privado mundial e de gestão de activos.

setembro 03, 2012

A posta ambidextra


Uma das lições de vida que mais gente me tentou ensinar foi a de que a vida é a cores, não é a preto e branco. Ou seja, não há só bons e maus, fortes e fracos, castigo e perdão. Existirá toda uma gama de opções para atenuar a perspectiva radical e maniqueísta dos gajos como eu.
E eu tentei aprender essa lição, por entre as várias tonalidades de cinzento entre o preto e o branco que antes simplificavam as minhas escolhas, tentando abrir o leque de opções antes de formar uma opinião ou tomar decisões.
No entanto, ao longo desse processo de reaprendizagem da minha forma de apreciar os contornos da vida como ela acontece tive sempre um obstáculo à assimilação do conceito multicolor: a realidade prática desmente demasiadas vezes a possibilidade teórica embutida nas melhores e mais coloridas intenções.

Um dos temas quentes da actualidade lusa é a vincada componente ideológica da agenda do actual Governo, demasiado óbvia nas suas decisões económicas e financeiras.
Dificilmente alguém poderá contestar esse temor de uma Esquerda arredada para o banco de suplentes depois de vários anos a titular, impotente na sua desunião para travar os ímpetos neoliberais, sem visão nem liderança para combater de forma eficaz os abusos da Direita que denunciam a torto e a direito em defesa de uma visão do mundo e de um pacote de soluções para as várias crises que nos atormentam e que se situa nos antípodas da que o executivo laranja eleito e, tendo em conta as sondagens, na corrida para a reeleição, apesar dos resultados à vista das suas soluções, preconiza.
É aí que salta à vista que a culpa não é do povo que vota mas de uma oposição que em nada se exibe sólida enquanto alternativa porque à tal imposição da agenda conservadora e neoliberal insiste em contrapor uma apatia acomodada ou, como no exemplo que motiva esta posta, uma recuperação dos ideais mais arcaicos e utópicos que a Esquerda desorientada vai recuperando do baú de ideias do tempo da Revolução Industrial.

O mundo mudou, as pessoas mudaram. Nem a Esquerda nem a Direita conseguiram acompanhar a passada dessa mudança, sendo cada vez mais evidente a escassez (a ausência) de pensadores capazes de moldarem as ideologias à realidade como ela se apresenta. E ainda menos se revela alguém de inventar uma terceira opção que nos livre destas escaramuças patéticas entre formas de pensar que não passam de raciocínios na órbita de pressupostos e de dogmas dos quais cada vez menos se bebe algo de útil para consolidar o que de positivo já se conseguiu neste nosso hemisfério dos ricos, delineado cada vez mais a norte do equador e assente num modelo económico em vias de desagregação.

Se até o Relvas conseguiu...

O Ministro da Educação decidiu impor o ensino profissional aos estudantes que não se revelem capazes de progredir na fase menos complexa do percurso académico.
Aqui d'El-Rei, clamam os da esquerdalha, que estamos a fazer renascer o salazarismo nas escolas e a empurrar os pobres (que pelos vistos na visão dos esquerdistas são mais burros e menos capazes porque alegadamente serão eles o grosso do pelotão de futuros canalizadores e não licenciados do país) para fora do sistema produtor de cada doutora e doutor que o desemprego vai acolhendo como pode.
Boas intenções, portanto, as da Esquerda que rejeita esta separação das águas entre capazes e comprovadamente incapazes de obterem resultados escolares satisfatórios, pelo estigma que isso pode representar.

Eu, que ainda me vou encontrando mais à esquerda da fronteira imaginária entre as duas formas de pensar a vida em sociedade e seus modelos de organização, vejo-me apanhado no dilema que me é criado pela necessidade de encontrar a melhor tonalidade entre os extremos e perceber, ao longo do raciocínio, que existem tons do meu lado da coisa que não encaixam de todo numa abordagem mais racional do problema a resolver.
A Esquerda mais utópica e intelectualóide peca muitas vezes por não ter em conta isso mesmo: há problemas para os quais as suas escolhas não constituem solução e a prática comprova-o com a mesma clarividência com que faz desmoronar as certezas capitalistas de uma Direita embriagada por tanto poder.

A malvada realidade que dá cabo das melhores utopias!

Eu não sei onde estudam os filhos do resto da malta de esquerda, mas se é no Ensino Público então dificilmente não se confrontaram com uma questão prática com a qual o sistema em vigor, muito bem intencionado, nunca conseguiu lidar de forma eficaz: o impacto da presença dos chamados repetentes nas turmas a quem tocam na rifa.
Esse impacto, por quanto o sol brilhe para todos nós, sente-o no primeiro dia de aulas um pai que se vê obrigado a deixar uma filha com 10 anos de idade numa turma onde existem vários adolescentes com quinze e um rasto de perturbação do funcionamento das salas de aula que não deixa margem de manobra para a esperança de que o sistema o consiga evitar.
Esse impacto, por quanto todos os cidadãos mereçam oportunidades iguais, sente-o cada professor incapaz de evitar a descida colectiva das notas em turmas exemplares antes de acolherem esses casos problemáticos de miúdos (não necessariamente pobres e desfavorecidos) para os quais ninguém possui mecanismos eficazes de integração.

O politicamente correcto que a Esquerda utópica tanto acarinha, aquilo quedevia ser, não pode acontecer como o anseiam porque não é viável. E por isso mesmo não dispõem de propostas realistas para contrapor às soluções aparentemente menos simpáticas para resolverem problemas do quotidiano.
Nem sempre as decisões são tomadas em função dos agrados de gregos e de troianos, tal como não podem ser adiadas por falta de uma alternativa perfeita e consensual.
Os dogmas valem o que valem se não forem alvo de upgrades cada vez mais frequentes para acompanharem a pedalada da evolução como eles próprios a determinaram em boa medida, décadas esgotadas no braço de ferro entre versões tão opostas quanto mal sucedidas de um mundo sem paciência nem meios para suportar por mais tempo a discussão do sexo dos anjos num inferno como se está a criar.

Por isso já é tempo de mudar e de flexibilizar os critérios em função do pragmatismo que a iminência de uma bancarrota e de colapso social profundo deveria bastar para incutir, a ambos os lados desta barricada imbecil que coloca os futuros miseráveis a disputar cada extremo de uma corda que, esticada sobre um abismo feito de incógnitas, está presa por um fio.

junho 08, 2012

Duas questões de educação

I.
Facto inegável: é raro governo(s) e sindicatos estarem de acordo, seja a respeito do que for.
Circunstância: o novo estatuto do aluno, apesar das posições contra do BE e PCP (e novidades?!) grangeia o acordo de todos, menos dos paizinhos: a CONFAP critica o governo por não ter sido ouvida quanto à questão de os pais virem a ser responsabilizados e multados pelas faltas dos seus rebentos à escola. Educar custa e cada um tem o seu papel. E é bom que todos tenhamos consciência disso: professores, progenitores/educadores, meninos e sociedade em geral .
E entretanto, uma vénia ao governo e ao Ministro Crato (as minhas vénias são independentes de cores e a única ideologia a que sou fiel é a minha).

II.
Na Grécia, um deputado de extrema direita resolveu que na ausência de argumentos, há sempre a força bruta. E já surgiram mil e uma interpretações, quase todas remetendo para a miséria e o desconcerto de uma crise mal administrada (ou mais mal administrada do que a nossa). Eu cá acho que um neo-nazi é sempre um neo-nazi e nunca saberá agir de outra forma, na opulência ou na desgraça, num país mediterrânico ou na Escandinávia. Que se faça justiça relativamente a quem ainda não percebeu que as divergências discutem-se, que as discussões nem sempre se ganham, e que o punho não pode ter lugar, em sede de argumentação.

fevereiro 03, 2012

«O desastre da educação» - por Luís Cabral

Texto publicado no «Expresso - Economia» de 28/1/2012 e disponível no blog do autor:

"O valor de uma economia é o valor do seu capital humano. Por isso o sistema educativo é tão importante. Por isso o estado lastimoso da economia portuguesa tem muito a ver como o estado lastimoso da educação.
Não faltam “culpados” para este desastre: uns dizem que o problema é o “eduquês”, outros que são os professores, ou o sindicato dos professores, ou o ministério, ou o clima, ou a água da torneira, ou sei lá o quê.
Não nego que sejam causas importantes, mas o principal culpado pelo desastre da educação em Portugal é: Você. Sim, refiro-me a Você, encarregado de educação, que passa a vida culpando os outros em vez de aceitar que o fracasso do processo educativo começa em casa. Os principais responsáveis pela educação não são os professores mas sim os próprios pais. É claro que são os professores que dão as aulas, que sabem ensinar Português e Matemática, História e Geografia. Mas todo este esforço vale pouco ou nada se não começa num ambiente familiar que dá valor ao esforço e à disciplina que uma boa educação exige.
A única desculpa que vejo para os nossos encarregados de educação é que estamos perante uma questão “cultural”. A mentalidade do “desenrasque” e do “chico esperto” também se manifesta na escola: um gaba-se do seu “novo” método de “copianço” como se tratasse de uma conquista amorosa; outro orgulha-se por ter passado a cadeira “sem estudar praticamente nada”; e o aluno mais “cool” é o que se lembra de mais “partidas” durante as aulas.
Mas o pior não é tanto a atitude dos adolescentes como a reação dos adultos: o sorriso que traduz uma certa nostalgia (“ah, se soubesses o que eu fazia quando tinha a tua idade”); o piscar de olho que manifesta aprovação (“assim é que é!”); ou simplesmente a indiferença.
O “melting pot” que são os Estados Unidos serve como teste da minha teoria, que pode não ser “politicamente correcta” mas é simplesmente correcta: as etnias com melhor prestação escolar (os judeus, os coreanos, os vietnamitas, etc.) são as que têm culturas familiares que valorizam a educação. Talvez os genes contem alguma coisa, mas neste caso o ambiente claramente se sobrepõe aos cromossomas: “nurture” vence “nature”.
Não é o ministro da educação nem o ministério da educação que resolverá o problema; nem as reformas curriculares dos teóricos da educação; nem os professores nem o sindicato dos professores; nem as escolas públicas nem as escolas privadas. A melhoria da educação em Portugal começa e continua com Você, encarregado de educação. Como? Evitando a mentalidade “outsourcing” da educação (“a escola que trate disso, é para isso que pago impostos e propinas”); exigindo esforço do filho (embora seja muito mais fácil ser o “pai popular” do que o “pai exigente”); e exigindo resultados da escola (neste sentido a maior concorrência entre escolas é uma das medidas positivas deste governo).
Estamos perante uma reforma que demora pelos menos uma geração. Estamos assim mais do que 25 anos atrasados, pelo que temos de começar quanto antes. O objectivo é monumental mas acessível: mudar a atitude perante o esforço do estudo, filho a filho."

Luís Cabral
Blog «Economics and art»

janeiro 07, 2012

«Os jovens hoje parecem adultos em férias» - palestra de Mário Sérgio Cortella

Mário Sérgio Cortella é filósofo, mestre e doutor em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (Brasil).