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março 03, 2018

CP, o paradigma da implosão, ou a falta de Visão Estratégica e Integrada dos Políticos.

mapa das ligações ferroviárias em 1985
...este é dos que se pudesse encolhia-se todo para meter-se dentro do coco...

Existe uma forma de apanhar um inteligente macaco sem lhe desferir qualquer golpe, ou de usar sequer uma rede, ou zarabatana anestesiante.
Basta tão só privá-lo da mais simples noção de prioridades posto diante do império da gula.
Num coco vazio abre-se um pequeno furo por onde se prende o coco a uma árvore através de um forte arame. Na face oposta faz-se outro furo, desta feita um pouco maior de forma a caber lá uma mão se os dedos estiverem todos esticados. Por fim põe-se uma guloseima  no interior do coco e espera-se que o macaco descubra o tesouro.
O que se segue é dramático e hilariante ao mesmo tempo. O macaco, desejoso , mete a mão no orifício, apanha a guloseima. Só que agora, a mão fechada não passa pelo buraco. Ele esperneia, desespera, grita, puxa... mas nem por um instante  tem a lembrança simples que apenas consistiria em abrir a mão e sair daquele filme onde fatalmente, depois de exausto, é capturado.

A saga da aventura ferroviária em Portugal passa por algo que a história do macaco preso pela gula metaforiza na perfeição.
Se atendermos aos mapas de caminhos de ferro num intervalo de tempo de cinquenta anos poderemos ver como a par do incremento das rodovias, as ligações por comboio foram sucessivamente desaparecendo.
mapa actual ferroviário
Longe de uma política de complementaridade dos diversos meios de transporte, as forças dominantes, presas por uma espécie de deslumbramento de novo-rico, tudo apostaram nas rodovias, descurando as necessidades das populações, o valor económico global dos meios ferroviários face ao meio de transporte rodoviários.
Porque sim, dão prejuízo, mas muito menos do que a factura da importação de combustível para o carros.
Está-se agora no ponto da mão agarrada ao doce: o desenvolvimento económico exige desde há anos um investimento contínuo  na forma mas barata de transporte.
A falta deste obriga ao abuso da rodovia, muito menos económico, obrigando a grandes importações de combustível. Sem querer largar mão da rodovia, onde nos estradas mais interiores também já deixou de investir, é preciso agora e de forma imperiosa investir muito mais na ferrovia. O resultado é a concentração de alguns investimentos e o descurar ainda mais das urgentes intervenções, algumas aguardando já décadas.
O macaco cansado não larga a presa que o prende.
Pior é que este é dos que se pudesse encolhia-se todo para meter-se dentro do coco.
Encolhia-se todo, implodia. E temos assim um país à boleia da implosão, cada vez mais litoral e concentrado, receita para o desastre.
O que alguém quis fazer em tempos foi considerado um "despesismo". E continuamos assim, presos aos macacos...

Publicado por Charlie

fevereiro 04, 2016

O sistema Neo-liberal e as novas castas.

Ao sistema só interessa o filet mignon
Desde que a crise se instalou tem-se assistido a uma progressiva clivagem entre estratos sociais, uma diminuição dos padrões da chamada classe média e um disparar das assim ditas "classes altas".
Podemos facilmente deslizar pelos argumentos recorrentes e sistemáticos e aceitar o facto indiscutível de que apenas criando riqueza se pode distribuir e que os mais bem colocados têm também outros meios para garantir a manutenção dos seus interesses. Contudo, vivemos num mundo onde nunca houve tanta riqueza produzida e contudo? Nunca as dívidas dos países foram tão expressivas como nos tempos actuais.
O que devemos concluir deste estado de coisas?
Qual a origem da súbita pressão para a resolução de dívidas num sistema que cresceu precisamente sobre os mecanismo do crédito?
Se olharmos com algum sentido crítico para os blocos publicitário das TV generalistas encontramos uma ponta  solta neste imenso novelo. A evolução das publicidade mostra algo que não nos deve surpreender. São cada vez menos empresas nacionais a publicitar e os blocos são em grande maioria de produção internacional de empresas multinacionais. Os anúncios sucedem-se em ciclos repetitivos e onde antes se viam apelos ao consumo de produções locais e nacionais o espaço é praticamente todo tomados pelos interesses gigantes
Esta constatação, aparentemente um pouco à margem do tema, é no entanto revelador das motivações e meandros com que os políticos tratam das economias dos seus Países.
Quando alguém afirma  que as pessoas podem estar pior mas que o país está melhor, então temos o princípio da formação de castas em evidência.
As pessoas, no fundo, quem faz o mercado, são relegadas para um "problema" para ser resolvido pela relação entre distribuidoras e políticos.  A um outro nível se discute o filet mignon, ou seja, as grandes movimentações de capitais onde o interesse do indivíduo é apenas um pormenor numa black-box  de um fluxograma cujo interior não cabe observar. Tal como um general para quem as tropas apenas são activos e não gente que sofre e morre, também esta nova organização social tende a olhar para as pessoas como meros activos contabilísticos englobados numa mole indistinta, numa caixa negra que é apenas um dado de importância menor.
Cada vez mais a fasquia separadora fica mais além. O sistema não quer lidar com coisas pequenas, pequenas empresas, pequenas iniciativas, até os Bancos foram progressivamente secundarizados, levados à falência, num processo que mais do que imputável aos gestores, é da responsabilidade do sistema internacional no qual eles estavam inseridos.
E, lamentavelmente, temos políticos que alinham por esta bitola.
Assim se compreende como se negociou - se é que se pode chamar negociar- durante o período de assistência financeira que por cá Passos Coelho  presidiu. Tratou-se dos interesses do país tal como dos blocos publicitários  nas TV: interesses dos grandes, que de modo geral não tem qualquer interesse para o que nos interessa individualmente.
Um mundo neo-liberal, dominado por politicos sub-servientes  sob uma pressão financeira sabe-se lá de que forma foi orquestrada, a mando das mega- corporações.
Isso por um lado.
Por outro, aquela coisa incómoda que em vez só de consumir, quer ordenados para produzir o que eles vendem, quer saúde e ensino grátis e ainda por cima, pasme-se, quer ter uns dias de descanso, uns feriados, umas férias. E depois, como se isso não bastasse, exigem uma côdea quando ficam velhotes e entram na
Pessoas, uma sub-casta incómoda...
total inutilidade.  Tudo coisas muito más para a economia.
 Despesas, está a ver-se, não está-se...?
Um problema que é preciso que a casta dos políticas resolva, diz a casta dos financeiros do alto da sua sobranceria, para quem as pessoas são menos do que uma sub-casta com a qual não sujam as mãos.
Por isso, a atitude do actual governo de Costa em  Bruxelas consegue soar-nos a estranho. Haver quem se atreva a negociar interesses das pessoas em vez de tratar dos pacotes a granel e atacado, dá uma espécie de sinal de voltar atrás, de retomar outro caminho. Vejamos se entretanto os sargentos de serviço não fizeram o que normalmente era a sua missão de combate: obstruir os pontos de retirada e dinamitar as pontes....

novembro 28, 2015

Urgente o TGV? Era já para ontem!!!!

....“Foi um erro deste Governo acabar com este projecto”, disse, na III Conferência da Comunidade Portuária de Sines, Luis Mira Amaral, da Confederação da Indústria Portuguesa (CIP), referindo-se à ligação do Porto de Sines a Espanha, pela ferrovia de bitola europeia......
Mira Amaral




Em 2010:  Portugal não precisa do TGV

Em 2014 e 2015:
O TGV é fundamental para o Porto de Sines,
 e foi um tremendo erro nãoter-se construído
a ligação em bitola europeia (TGV)
Opinei e escrevi largamente sobre este tema durante vários anos, e deixei aqui -e em vários posts- neste blogue expressas as minhas preocupações relativamente a isso.
As obras da ligação em bitola europeia, TGV, AVE, ou o que lhe quiserem chamar, não se fizeram e agora Espanha, -tal como deixei em aviso a  que ninguém liga mormente por eu ser apenas ninguém, preocupados que andam a navegar a demagogia barata e enterrando projectos que são FUNDAMENTAIS para a competitividade da nossa economia- vai levantar as linhas de bitola Ibérica. 

O que é que isso quer dizer?
Quer dizer, como muito bem disse  agora Mira Amaral repetindo o que dissera em 2014, que Portugal vai ficar uma ilha ferroviária.
Ou seja, um sítio de onde não partem nem chegam comboios vindos de fora.
Poderão os mais incautos julgar que isso é quiçá coisa de somenos importância.
Mas se atendermos a que - e volto a repetir-  no contexto actual as matérias primas  são transitadas no imediato, pois que os modelos de gestão uniformizados e globalizados, quer por gestão do espaço físico, quer por determinações de ordem económica não permitirem acumulação de stocks, então temos um grave problema a começar de imediato pela Auto Europa e o Porto de Sines.

Mira Amaral voltou a declarar recentemente o que já tinha dito em 2014, falando da primeira vez tão baixinho  que quase ninguém ouviu nem leu.
Mas as opiniões mudam e se agora é a favor, dois anos antes ainda era contra e deixo aqui para consulta o que faz memória e não pode ser desmentido.
Dizia ele então estar muito agradado com o adiamento do TGV.
A onda era a contestação ao governo de Sócrates, e à laia de molhar a sopa, tudo que era gente do contra batia fortemente nos investimentos. Uns por serem "megalómanos", outros por serem insuficientes.

Contudo, eis que ele aponta agora a necessidade urgente de uma ligação em bitola europeia, a do TGV, pois de contrário, todos os grandes investimentos e projectos, nomeadamente ligados à exportação, perdem competitividade,  e pior, correm o risco iminente de  tornarem-se inviáveis.

O TGV está definitivamente enterrado

"O povo não come TGV's"
O TGV está definitivamente enterrado, dissera Passos Coelho, pérola  repetida pela que foi depois ministra das Finanças com um orgulho pacóvio de quem vai na aldeia e não vê as casas.
Enterrado, sim está ele agora, e arrastou todos no seu enterro.
Perdeu-se muito tempo, e agora, a poucas semanas do levantamento das linhas em Espanha, as alternativas ficam-se pelas rodovias as quais atingiram, nos principais países da Europa, o limite.
Quer por questões de gestão de espaço, logística e até, ambientais, estão ser colocados fortes entraves à circulação das mercadorias por veículos pesados. O transbordo em Elvas / Badajoz, também implicará obras de vulto,  e Espanha não está disposta a fazer investimentos, prolongar linhas e criar espaços para esse efeito, nem se mostra muito entusiasmada com uma mole permanente de veículos pesados a entrar e sair constantemente de Badajoz.
Incómodos e aumento de custos e tempo, são as próximas alíneas a acrescentar nas despesas das facturas futuras.

Mas é assim. O que se poderia esperar de alguém que mentiu para ganhar as primeiras eleições, e que, sendo mentiroso, voltou a espalhar mentiras e parvoíces, tais como "o povo não come TGV's" e voltou a ganhar as mesmas?
É o País que temos, dizem muitos, mas demagogias à parte, ficamos agora mesmo a ver os comboios a passar.... ao longe...

novembro 02, 2015

As inundações em Albufeira, a lagoa...


Al Buhera, A Lagoa..
Mais uma notícia de grandes e graves inundações, desta vez  (e mais uma vez) centradas em Albufeira
Não é só em Albufeira que há ciclicamente inundações. De modo geral em todos os sítios onde não se observa o elementar preceito do bom senso, as inundações são fenómenos recorrentes. 
O caso de Albufeira é no entanto e por várias razões um paradigma do disparate e da asneira, do desastre anunciado.
 Basta olhar uns instantes para onde está o parque de campismo, um quilómetro antes da entrada da cidade.
leito de cheia assoreado, ainda sem construção
 Mesmo juntinho está a vala escavada pelo escorrer natural dos cursos de água que de todos os montes e serras convergem no sentido do escoamento: a baixa de Albufeira. Os sucessivos executivos municipais tem vindo a enterrar e a entubar as passagens naturais dos inúmeros cursos secundários  o que tem feito piorar mais a situação sempre que o limite de descarga fica ultrapassado.

Mas de onde vem o nome de Albufeira? 
Da expressão árabe "Al Buhera" que significa  "a lagoa"


cheias na baixa de Albufeira na década de 50 Sec. XX


Se atendermos a gravuras antigas veremos como a actual praia dos pescadores era a entrada para um porto de abrigo e que o areal ficava quase trezentos metros acima. 
Albufeira deve o seu nome ao facto de ser um porto de abrigo formado por uma pequena lagoa onde a ribeira desembocava. Se bem que o grande terremoto de 1755 e os sucessivos assoreamentos tenham feito avançar o areal até ao ponto onde o conhecemos hoje, a água nunca deixou de correr pela passagem que ela mesma abriu ao longo de milénios. Corre muita água mesmo de Verão por debaixo do areal e as tubagens e encanamentos feitos mais a montante são paliativos fracos para qualquer enxurrada que tem a baixa como foz de uma expressiva bacia hidrográfica. Das enormes inundações ocorridas no século XX há aliás  reportagens publicadas nos jornais da época de que na foto em cima se faz mostra. Esta ficará durante algum tempo na ribalta das atenções.  Mas ultrapassados os picos de crise, logo as memórias se desvanecem e os outros interesses se sobrepõem. E toca a reconstruir, a impermeabilizar e a entubar, e ainda mais, ainda com mais potencial destruidor para a inundação seguinte!
Inundações em 2015 A antiga lagoa ressurgida no espaço 
agora ocupado por construções, 

E pergunta-se, não se poderá utilizar o espaço outrora leito navegável? Este e muitos outros pelo país fora?
Sim, claro que se pode, contudo nunca se deveria ter construído nada naqueles espaços excepto  zonas verdes destinadas ao lazer, permeáveis e inundáveis, onde os equipamentos auxiliares e turísticos não mais fossem do que apoios móveis e sazonais. 
Mas a ganância aliada à falta de memória, à estupidez pura, é uma mistura explosiva. e assim, ciclicamente repetir-se ão as inundações até que o mesmo motor que fez construir onde não se deve fazer, decida recuar: a economia...


maio 08, 2015

«Economia e Finanças para totós» - António Pimpão

Economia e finanças são conceitos distintos mas que andam ligados.
São como que as duas faces de uma mesma moeda!
A economia tem a ver com os recursos, com os bens e os serviços que se produzem, armazenam, distribuem e vendem.
As finanças têm a ver com o dinheiro e com o crédito (obtido e concedido).
A economia sempre existiu e continuará a existir, uma vez que está ligada às necessidades humanas e, sobretudo, aos meios para as satisfazer.
As finanças só apareceram mais tarde, quando surgiu a moeda. Sem moeda, sem trocas comerciais, sem mercado, não há finanças.
A compra de alimentos, de vestuário, de serviços de cabeleireiro, de matérias-primas, de automóveis, de serviços de transportes, etc., tudo isto pertence à esfera da economia. Trata-se de bens e serviços que se transacionam.
Onde entram as finanças?
Numa economia de mercado, não há trocas de bens económicos sem que o seu fornecedor/prestador não exija dinheiro em troca. Sem que intervenham as finanças. É sempre preciso dispor de dinheiro – e abrir mão dele – para se obterem bens económicos. E o valor de ambos é sempre igual.
Quem comprar uma camisa obtém, dessa forma, um bem económico, para a obtenção do qual tem que despender dinheiro, ou seja, ver diminuídas as suas finanças: para se poder ter mais bens económicos fica-se com menos recursos financeiros, com menos dinheiro. Pela mesma quantia. Como Dupond & Dupond.
Para o vendedor da camisa, a operação apresenta-se de formam inversa: abdicou de um bem económico para, em contrapartida, aumentar a quantidade de bens financeiros, o dinheiro (ou crédito).
A economia lida com bens e serviços essenciais à nossa sobrevivência, tem caráter de indispensabilidade; as finanças são um instrumento que permite agilizar a economia.
O princípio básico exposto tanto se aplica à esfera doméstica, como das empresas, como dos países, como do mundo.
O problema apresenta, porém, algumas nuances.
Por vezes, as trocas entre bens económicos e financeiros não é simultânea: intervém o crédito, que também releva da área financeira. Neste caso, a movimentação dos bens económicos antecede, duma maneira geral, a movimentação dos bens financeiros, ou seja, do dinheiro.
Mas o processo nunca se encerra sem que ocorra o correspondente movimento financeiro, pois é este que regulariza a operação.
O crédito facilita o processo económico, pois permite transações económicas sem exigência imediata da contrapartida em dinheiro.
O crédito como que fornece alguma autonomia à área económica, permite a esta tratar da sua vida sem o imediato desembolso de dinheiro. Mas isso será sol de pouca dura, logo terá que ser feito o pagamento.
Na atualidade, são frequentes as operações financeiras autónomas, ou seja, sem ser em resposta a uma operação económica. É o caso da contração de um empréstimo bancário. Na sua sequência, há a sensação de uma maior abundância de dinheiro, porque este foi obtido sem sacrifício de bens económicos. No entanto, mais cedo ou mais tarde o empréstimo tem que ser reembolsado. E lá se vai a sensação de abastança de dinheiro.
Apesar de o empréstimo obtido e do seu posterior reembolso constituir uma operação estritamente financeira, ele não se realiza sem algum sacrifício de ordem económica: a empresa teve que suportar juros (custo do serviço do financiamento, aspeto económico) e que os pagar (aspeto financeiro). Ficou mais pobre em resultado desta transação financeira autónoma (o pedido de empréstimo).
Se uma empresa passa a realizar mais compras a crédito do que anteriormente, ou se passa a pagar com um maior atraso, sentirá uma maior folga financeira, maior abundância de dinheiro. Mas trata-se uma situação passageira e ilusória: se não for agora será um pouco mais tarde que terá que fazer o correspondente pagamento. Mas, enquanto dura, é um facto que esteve financeiramente mais desafogada.
Outro tipo de movimento financeiro autónomo é quando a entidade (empresa, particular ou organização) recebe um subsídio. Aumenta os seus bens financeiros, sem sacrifício de bens económicos. E, neste caso, até sem a obrigatoriedade de reembolsar o dinheiro assim recebido.
Os impostos que pagamos – e que as empresas pagam - também constituem movimentos financeiros autónomos: há um pagamento – redução dos meios financeiros – sem acréscimo de bens económicos (diretos, controláveis).
Há, porém, quem defenda que a contrapartida do dispêndio financeiro, no caso dos impostos, é a partilha dos bens económicos coletivos, do estado. Só que estes não são apropriáveis nem são transacionáveis em proveito próprio.
Pode dizer-se que toda a atividade económica – em sentido lato – é coisa de doidos: tem-se dinheiro, o fundo de maneio inicial, mas não se está satisfeito, ele é aplicado em bens económicos: máquinas, mercadorias, matérias-primas, pessoal, etc. Para quê? Para produzir (ou valorizar) os bens económicos adquiridos. Para quê? Para os vender, para realizar operações económicas de saída. Para quê? Para receber dinheiro (aspeto financeiro). Para quê? Para voltar a comprar bens económicos! Para quê? Para os transformar e vender. E assim ad aeternum!
Numa empresa, o ponto de partida é a posse de meios financeiros, estes são trocados por bens económicos (com saída de meios financeiros), os bens económicos são vendidos e novamente trocados por meios financeiros (entradas de dinheiro). E logo se retoma o ciclo!
Aparentemente, a área financeira é dependente da económica. É a área económica que promove o aumento da riqueza. É ela que proporciona o lucro. Mas a área financeira pode estrangular a área económica: se não houver dinheiro, ou ele não for suficiente, não se pode desenvolver o negócio. Começa por não se poder aumentar o seu nível e, depois, por já nem sequer o manter.

António Pimpão

fevereiro 03, 2015

O lucro e o bem estar

Li recentemente isto:

"As empresas de hoje devem focar-se nas pessoas e no propósito do seu negócio e não apenas nos produtos e no lucro, segundo a quarta edição do estudo «Millennial Survey» publicado anualmente pela Deloitte. Estas e outras evidências sugerem que as empresas, especialmente as dos mercados desenvolvidos, terão que realizar profundas mudanças para atrair e reter os talentos do futuro."

Espero que se dissemine o que defendo há mais de 30 anos e que escrevi no meu livro «Persuacção - o que não se aprende nos cursos de gestão», publicado pela Sílabo em 2005:

O objectivo último das pessoas e das organizações deve ser o bem estar. O lucro deve ser uma forma de obter esse bem estar, não um fim em si. E não são, de forma alguma, antagónicos. Aliás, da obtenção do lucro depende o bem estar de todos os que dependem de uma organização, investidores obviamente incluídos.

janeiro 12, 2015

a desgraça do TGV em Portugal, a caminho de uma nova Albânia

Saiu recentemente a público o custo do TGV que afinal não se iria fazer, mas o qual já estava em centena e meia de milhões de €uro. O custo total, a ser construido,  era nessas notícias atirado para os .... 10.000 milhões de €uro, um desmando faraónico que era de algum modo, velhacamente alocado a responsabilidades de outros governos...

Ficará para a História a satisfação de Pedro Passos Coelho ao anunciar o abandono definitivo do projecto.

Para que não se compare a genialidade Einsteiniana dos três segundos de memória dos peixinhos, com a memória de minhoca que esta gente julga serem as nossas referências, e gente lembra-se disto:

No dia 5 de Fevreiro de 2013, um improvável sorridente Victor Gaspar (mas sim, ele ri) dizia no seu pouco veloz tom de voz, a alta velocidade Portuguesa ao anunciar na TVI:

Bruxelas destinou a Portugal 1,6 mil milhões de euros para a construção do TVG – integrado no Corredor Atlântico, acordado entre os estados-membros da União Europeia – que deve avançar até 2020, mas só se o Governo assegurar a restante verba necessária (de 25%).
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“Há mais de 1,6 mil milhões de euros reservados para Portugal para projetos das redes transeuropeias relacionadas com os transportes” – dos quais 500 milhões dizem respeito ao orçamento do Mecanismo Interligar a Europa e 1,1 mil milhões dizem respeito ao fundo de coesão –, garantiu, em entrevista ao Expresso, o comissário europeu dos Transportes.
“Pediram-nos para criar as condições: um mapa e dinheiro. Isso está feito. Mas nós não construímos nada. Isso cabe aos países. Se Portugal não tiver recursos [o Corredor Atlântico] será atrasado, adiado, cancelado”, alertou Siim Kallas.
“Não vi qualquer sinal de que Portugal não tencione fazer a sua parte. Fala-se em atrasos e diferentes considerações, mas até ao momento nada de oficial”, acrescentou.
De acordo com o comissário europeu, os projectos de construção na nova ponte sobre o Tejo e do novo aeroporto em Lisboa deverão ficar parados, pelo menos até 2020, ano em que termina o atual quadro financeiro europeu.
Ou seja, o projecto total agora era financiado em1600 M€, 75% (não 85%) os quais sendo 1.600 milhões de €uros perfazem o custo total (dos 100% portanto) de 2.200 M€., Bem abaixo dos tais 10.000 milhões atirados pelas TV e jornais para cima dos nossos desgraçados neurónios.

Vamos dar de barato que ficaria pelos 2.500 M€, muito dinheiro mas de que a Europa pagaria 75%
O grande problema é agora o seguinte.
Quando demagógicamente se alarvejou nas TV's  hiper-inflaccionando os valores sobre os custos do TGV e da suposta megalomania não se disse  que quando a nova linha Badajoz-Madrid estiver terminada (final de 2016), em breve, o porto de Sines não vai poder de transportar contentores, nem de, nem para a U.E. nem para Espanha, por Badajoz.
Espanha vai desactivar, em 2016, as linhas que permitiam a ligação via caminhos de ferro entre Portugal e a Europa.
A única opção passa pela construção de raiz do troço Poceirão-Caia, em bitola europeia,(TGV) 
para mercadorias e passageiros e sua ligação aos portos de Sines, Setúbal e Auto-Europa, a qual, como todas as grandes empresas, a nível mundial, não possui stocks de matéria prima para mais do que um dia, dependendo do fornecimento diário, apenas economicamente viável por via férrea.
A farsa, Kafkiana e estupidificante, consiste no argumento recorrente de que não existem meios financeiros. Ora bem, mas não falando já do eterno saco azul que magicamente acode a tudo o que é banca estoirada, vão fazer um desnecessário porto de contentores na Trafaria para o qual estão 1000 milhões de  €uros destinados.
Algo totalmente incompreensível à luz da pergunta subsequente à razão mais básica:
mais contentores a descarrager em Portugal?
Para quê?
Preveêm um brutal aumento do consumo interno?
Não é de todo previsível.
Para seguirem para a Europa?
Por Lisboa, Trafaria, estando este governo alérgico a ferrovias, só com uma nova auto estrada, a que existe nem dá para o tráfego actual, recheada que está de atrasos e filas de quilómetros todos os dias.
Não pensem também em cento e oitenta quilómetros de auto-estradas- Sines - Badajoz, /Sines- Sevilha, cheio de camiões, pois a ligação de Sines às auto-estradas foi suspensa por este governo e no estado actual, os restos mortais das obras estão mesmo mortos.
E mesmo que estivessem feitas as ligações rodoviárias, o transporte exclusivamente feito por esse meio acarreta um brutal aumento de custos e demoras  nas transferências.rodo/ferroviárias além de uma dimensão de infrasturuas e logistica que não se sabe se haverá em Espanha.
Bem podem os comentadores acéfalos vomitar argumentos, sempre a favor do governo; sem ligação ferroviária de bitola uniformizada estamos mesmo tramados, não há como viabilizar os portos e industrias com a Auto Europa vêem a sua competetividade comprometida.
Tanto para a importação de matérias a granel, de forma rápida, como com a mesma rapidez escoar mercadoria, precisamos de estar ligados à Europa.
De outra forma, talvez por tele-transporte, SMS, ou mail,  já que depois do levantamento das linhas em Espanha, e do provável esvaziamento da TAP,  passaremos a ser uma literal jangada de pedra à deriva, rasgada não pelos Pirineus, mas pelo picotado de papel higiénico que separa  por fronteira este mísero rectângulo do resto do mundo.
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junho 27, 2013

As Falácias sobre os Swaps. Eram assim tão más?

Por ser um campo fácil para demagogias e interpretações abusivas tendentes a tirar dividendos políticos, transcrevo na íntegra o corpo do artigo de António Costa.
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Os ‘swaps' do Governo exigem mais explicações.
A ideia de que um conjunto de gestores provocou ‘buracos' de três mil milhões de euros tem tudo para pegar fogo, mais ainda na situação económica e social em que os portugueses vivem. E é por isso que o Governo já deveria ter vindo a público, e não com comunicados lacónicos, explicar o que levou à demissão de Juvenal Peneda e Braga Lino. Por eles e pelo Governo, porque, do que se sabe, uma secretária de Estado central nas Finanças, Maria Luís Albuquerque, terá também feito operações de cobertura de risco através do recurso a operações ‘swap' quando passou na Refer.
Vamos por partes: a decisão de realizar contratos que são, na prática, seguros para evitar os impactos negativos dos financiamentos com base na taxa variável da Euribor, era, em 2006 e anos seguintes, não só aconselhável como necessária. Não era ilegal, menos ainda crime. E foram feitos contratos deste tipo por empresas públicas e privadas. Portanto, é fácil hoje, com a informação disponível, afirmar que a Euribor acabou por descer para valores inferiores a 1% quando entre 2005 e 2009 aumentou de 2% para mais de 5%.
É, depois, necessário esclarecer que não há um ‘buraco' de três mil milhões de euros, há uma perda potencial deste montante por parte das 14 empresas que realizaram contratos deste tipo, precisamente porque os juros acabaram por evoluir em baixa desde 2009. Dito isto, ainda assim, o Estado corre o risco de ter de assumir prejuízos, desde logo nas empresas que estão dentro das contas das Administrações Públicas, isto é, no perímetro do Estado, como são os casos do Metro do Porto, do Metropolitano de Lisboa ou da própria Refer.
Ora, se o primeiro-ministro decidiu manter Maria Luís Albuquerque e demitir os outros dois secretários de Estado, é porque realizaram operações que vão muito mais além de ‘simples' contratos ‘swap'. Só pode ter uma explicação aceitável: os dois ex-governantes não fizeram apenas cobertura de risco, pelo contrário, arriscaram o que não deviam. Mas, então, porque é que só agora são demitidos? E como ficam nomes como Rui Rio ou Marco António Costa que também passaram pela administração do Metro do Porto?
Enquanto o Governo não prestar os esclarecimentos totais, revelando o detalhe das operações realizadas, a sua natureza e o que o poderá ter de assumir de prejuízos e porquê, a credibilidade do Governo fica em causa, internamente, mas também externamente, junto de dezenas de bancos internacionais que assinaram aqueles contratos e que são, também, os futuros investidores de dívida pública portuguesa.

PS: Durão Barroso foi secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado e João Gomes Cravinho também. Ontem, tomou posse Francisco Almeida Leite. O problema não é do próprio. É de quem o escolhe

maio 27, 2013

Ricardo Araújo Pereira critica Martim: "É uma espécie de Cinderela do empreendedorismo" e o Jorge Castro comenta

Exercitemos o contraditório:

Ricardo Araújo Pereira aproveitou a presença no programa Governo Sombra (TSF) para falar de Martim Neves, o miúdo de 16 anos, que ficou conhecido por intervir no Prós e Contras da RTP e rebater todas as ideias da investigadora Raquel Varela relativamente a salários baixos. [via Dinheiro Vivo]



E o Jorge Castro opina:
"Que a senhora doutora foi burra, não tenho dúvidas nenhumas. Burra, preconceituosa e - o pior de tudo - anti-pedagógica.
Agora, desculpar-me-eis, caros amigos, como eu desculpo ao moço, atendendo à idade, mas, para além da agilidade da resposta a argumento tão estúpido, não posso subscrever a tese de que vale mais um salário mínimo do que salário nenhum.
O que valeria mais seria dar cabal cumprimento àquilo que toda a legislação do país consubstancia - nomeadamente com a extinção dos «falsos recibos verdes», esse cancro social com que vamos contemporizando e que hipoteca o futuro deste nosso país...
Temos tendência a dar de barato que um estado de direito é... isso mesmo. Um estado onde as leis são para cumprir por todos e não apenas aquelas que dão jeito e àqueles a quem dá jeito.
É a lógica do «vale mais um salário mínimo do que salário nenhum», sem inspecções oficiais que regulem actividades - como cumpriria ao estado - que levam a que os nossos filhos sejam pornograficamente explorados por tudo quanto é chico-esperto, de maior ou menor peso, seja um Belmiro chuleco, seja um merceeiro de esquina. Seja, aliás, o próprio estado, como as «grandes» empresas deste país.
Não. O nosso trabalho não pode ser vendido arbitrariamente, ao desbarato e sem preço tabelado. Isso, meus amigos, sempre se chamou uma coisa só: escravatura. E creio que ela terá sido abolida - lá está: na lei - vai para uma mão-cheia de anos.
Ao moço faltar-lhe-á crescer, para além do seu indiscutível mérito empreendedor. Ah, e outra coisa, depois preencher a sua primeira declaração de IRS, à séria, e efectuar os descontos para o IVA, gostaria de ouvir, de novo, a sua opinião. Claro, se entretanto não tiver já emigrado, levando a sua capacidade de iniciativa com ele para novas paranças. :-(»
Gostaria de clarificar uma coisa: neste meu comentário não existe qualquer crítica ao moço, da minha parte. Ele faz o que muitos de nós tentam: safa-se e tenta sobreviver.
O que é lamentável é que todos nós, cidadãos adultos e supostamente produtivos, tenhamos permitido que os nossos «governantes» façam gato-sapato das nossas vidas, das nossas esperanças, das nossas ambições, dos nossos anseios e nos tenham a todos bem agarrados por uma espiral de taxas, impostos e desregulamentações de tudo, que nos mantêm reféns de nós mesmos. E, ainda para mais, com medo de tudo e de mais alguma coisa.
O que o moço nos diz, convictamente, é afinal o que todos sabíamos e sempre soubemos. O nosso grande problema é que a nossa experiência de vida mostra que isso não é exequível neste Portugal em que nos tornamos, o tal da bandeira às avessas.
Mas vêem, camaradas e amigos, como até o Ricardo Araújo Pereira - que se aproxima perigosamente da minha tese, aliás, pelo que com o que ele diz me identifico - omite ou se esquece da questão tributária.
É que o grande problema do tal «empreendedorismo», em Portugal, e logo depois da burocracia, cujas demoras levam a que algumas empresas vão à falência antes mesmo de abrir portas, é a questão tributária.
Ou seja, depois de pagar as T-shirts, a restante matéria prima, os equipamentos necessários para a impressão e as despesas de envio; depois, ainda, de tirar o necessário para o seu sustento diário e o que mais for imperativo (seguros, etc.) o jovem Martim tem, ainda o IVA e o IRS. Terá, porventura o IMI ou a renda de casa quando não forem os pais a sustentá-lo. Vai ter a electricidade e a água e o gás; a gasolina ou o gasóleo e as taxas que sobre eles incidem. E as portagens, o contrato com a MEO ou qualquer outra.
E quando chegar ao fim de tudo, talvez apure - como tantas vezes está a acontecer - que o custo final da T-shirt transformou-a num produto tão caro que poucos ou nenhuns lhe chegam. Ou, se as coisas correrem de outro modo, que na loja do chinês mais próximo se vende uma coisa idêntica por um terço do preço.
E aí terá poucos caminhos pela frente: o suicídio é um, que creio não ser o ideal. A emigração é outro, e até tem apoio governamental. A teimosia idealista um terceiro, onde engrossará as hostes dos indignados, dos precários ou outro grupo qualquer de des(en)graçados e desenganados.
Ah, claro, há outra possibilidade: ter uns pais politicamente bem colocados e, aí, a estrada da vida pode ser um paraíso e, muito provavelmente, aos 25 anos já foi administrador de dez empresas públicas e de mais cinco privadas (que vai dar ao mesmo).
E isto não tem nada a ver com o Marxismo (... ou tem tudo). É, apenas o senso comum e a tal experiência da vida.
Daí que eu vá conhecendo tantos pais que, em desnorte e desespero, obriguem os filhos de tenra idade a irem aprender futebol e as filhas a treinarem em alguma passarela da moda, para se alcandorarem a um putativo futuro de sucesso. O que, se virmos bem, será uma outra espécie de suicídio: o do bom senso."

maio 21, 2013

Um rapaz de 16 anos que dá uma lição a muitos empresários

Da página Cenas Maradas:
"No programa Prós e Contras de ontem, 20 de maio, estavam a entrevistar Martim Neves, um jovem empreendedor de apenas 16 anos que tem um pequeno negócio que está a fazer sucesso uma marca de roupa chamada «Over it».
A meio da conversa, é interrompido por Raquel Varela, investigadora do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, questionando-o despropositadamente sobre a origem das suas roupas e o salário pago a quem as faz.
Martim Neves apesar dos seus 16 anos, esteve à altura e soube responder de forma educada a alguém que aparentemente, o queria deitar abaixo!"

novembro 07, 2012

A memória do peixinho, o Lemingue, e os Estaleiros de Viana do Castelo

A Natureza, mãe à qual  todos pertencemos, fornece a todos os momentos as respostas óbvias às perguntas mais intrincadas que as constelações de neurónios colocam aos seus inquietos portadores.
Como é que um certo peixinho sabe onde nasceu de forma a regressar na altura da postura, como é que tem memória para tão grande tarefa quando vezes sem conta é capaz de morder um anzol, magoar-se, fugir, para mais tarde, sem memória aparente da experiência negativa, voltar a cair na mesma armadilha? A resposta é de uma intrigante simplicidade. As instruções básicas de sobrevivência da espécie são mais poderosas do qualquer outra compilação de dados que os centros nervosos vão adquirindo ao longo da vida.  A memória adquirida, de curto ou longo prazo, é assim subordinada a estrutura fixa de uma outra, muito mais poderosa, determinante, fundamental para que a espécie se perpetue.
Isto também é verdade, como não poderia deixar de ser, para os Humanos. Temos todo um universo de comportamentos adquiridos que giram, sem que o saibamos muitas vezes de forma consciente, em redor de instruções básicas e fundamentais à perpetuação da espécie, que por sua vez se ramificam, se especializam em coisas tão humanas tais como etnia, tribo, família, grupo de tribos, grupos  de famílias, regiões, países... Um país é na sua génese a expressão genética de um grupo, de um grupo de grupos, de algum modo geneticamente relacionados.
Seria natural que uma vez organizados em super estruturas dessa punção básica, os dirigentes do interesse comum fossem os primeiros a ter de forma instintiva essa noção  da necessidade fundamental de garantir os interesses para que o seu grupo sobreviva e se perpetue.
Governar é isso no fundo.
É assim, no mínimo lamentável, para não usar outro tipo de pesos nas palavras, que um após outro, se vão alienando a troco de nada o património construído a partir da vontade deste povo que se chama ainda Português.
Em dezanove de Março de 2012, o nosso actual primeiro ministro, Pedro Passos Coelho, disse que os Estaleiros navais eram para privatizar pois o Estado não tem mais dinheiro para injectar na empresa. Empresa essa, diga-se, que tem encomendas de navios para satisfazer, viabilidade económica, e que só estava à espera que patrão Estado libertasse as verbas para o arranque dos trabalhos pelos quais os clientes pacientemente esperam.
Agora que o universo de potenciais compradores se fica pelo número de dois, apareceu de repente mais dez milhões de euros para de algum modo se salvaguarde a construção de um navio que o Estado tinha encomendado, o que não invalida que "não havendo dinheiro" como disse Passos, o governo vá receber uma quantia mínima pela venda dos estaleiros estando o  passivo da empresa rodeada da suspeita de que o governo a vá cobrir. Ou seja, de onde não havia dinheiro para viabilizar a empresa, aparece o mesmo por artes mágicas para dar aos compradores. Um "negócio" do tipo da privatização do BPN, onde os quarenta milhões de euros da sua venda custaram ao erário público, e após os milhares de milhões, mais umas quantas centenas de milhões.  A par da exclusão de um concorrente Norueguês, a Volstad Maritme, empresa de renome mundial, por supostamente se ter atrasado na entrega das propostas, esta privatização -mais uma vez obscura-, previsivelmente a passar ou para mãos Russas ou Brasileiras, remete-nos de novo para a Natureza.
Existem inúmeros casos deste comportamento, mas é mais conhecido o caso dos Lemingues.  Estes pequenos roedores, ciclicamente, e conduzidos por um chefe, seguem em grandes bandos rumo a altos precipícios de onde caem, morrendo assim aos milhares. Uma punção suicida, derivada quiçá de uma instrução básica e inconsciente que tem a ver com a noção instintiva do excesso de indivíduos para um determinado ecossistema. Esta tese, que alguns cientístas defendiam, não está no entanto bem explicada, pois mais que o excesso de indivíduos, parece ser um ritual cíclico que se repete em intervalos de tempo determinados.

Será este então talvez o que se passa no cerne cinzento de quem nos governa. Não será a memória de peixinho ou a falta de mundo, que faz os governantes não aprenderem nada com a História e repetirem sucessivamente os mesmos erros. É antes um fenómeno transgénico: o ritual de suicídio é mais forte do que o instinto de sobrevivência. E placidamente, embora gritando alguns por vezes bem alto que vamos no mau sentido, seguem todos o mal amado lider, rumo às falésias, rumo à desgraça...

agosto 21, 2012

«a crédito» - bagaço amarelo

Quando eu era criança, a minha mãe fazia as compras lá para casa essencialmente na mercearia do senhor Orlando, perto do ainda existente café Convívio, em Aveiro. Ia lá praticamente todos os dias, enchia um ou dois sacos reutilizados pela enésima vez e depois pagava no fim do mês. Eu, nos dias em que tinha sorte, trazia um ou dois rebuçados de oferta. Desembrulhava o primeiro, enquanto o via a tirar o lápis detrás da orelha e apontar num caderno a despesa, e guardava o segundo no bolso.
Algumas vezes, enquanto a minha mãe fazia as compras lá dentro, eu ficava cá fora, junto aos caixotes da fruta e dos legumes, a brincar com a filha duma outra cliente que costumava ir lá à mesma hora. Não me lembro do nome dela, mas lembro-me que tinha o cabelo preto e comprido, olhos escuros e soltos como o voo duma borboleta. Costumava arrancar algumas uvas que dividia comigo e, apesar de ter na altura apenas uns seis ou sete anos de idade, foi ela que me ensinou como é que das uvas podíamos fazer passas.
Fascinava-me, aquela miúda. Aliás, como eu não tinha coragem de roubar uma única uva que fosse, foi com ela que comecei a perceber que as mulheres são demasiado corajosas para quem é do sexo fraco, e que os homens são demasiado cobardes para quem é do sexo forte.
O caderno do senhor Orlando seria, aos olhos de qualquer estudante de Economia dos dias de hoje, um produto financeiro de alta rentabilidade. Ali estavam promessas de pagamento da despesa mensal em alimentação de inúmeras famílias aveirenses, ou seja, de muito dinheiro. Esse produto financeiro seria, assim, nos dias que correm, alvo de especulação em bolsa e uma forma de cobrar juros pela demora no pagamento. O senhor Orlando, no entanto, limitava-se a abrir o caderno de vez em quando para informar os clientes em quanto é que ia a conta.
Com o tempo, todas as lojas pequenas como a do senhor Orlando foram substituídas por grandes superfícies comerciais. Simultaneamente, o caderninho onde se apontavam as despesas foi substituído por cartões de crédito. Ao contrário do senhor Orlando, os hipermercados não acreditam na palavra de pessoas como a minha mãe, por isso os bancos passaram a servir de garantia desse pagamento cobrando uma taxa a uns e outros.
Essa taxa chega, diz o grupo Jerónimo Martins, aos cinco milhões de euros por ano, por isso quer acabar com os cartões de crédito (e débito também) para despesas inferiores a vinte euros nos supermercados Pingo Doce. O senhor Orlando não faz ideia do dinheiro que deixou de ganhar por nunca ter cobrado taxa nenhuma aos seus clientes e eu, como não acredito que os supermercados Pingo Doce venham a ter empregados de caixa com um lápis atrás da orelha, nem acredito que uma mulher qualquer simpática venha a roubar uvas para dividir comigo, vou continuar a não ir lá.


bagaço amarelo
Blog «Não compreendo as mulheres»
e
Blog a funda São

outubro 25, 2011

Pensamentos em cascata do meu colega de curso Carlos Carvalho...

... a respeito da ideia que existe da «preguiça dos trabalhadores portugueses»:

"Há cerca de 2 anos fui consultor de uma empresa gráfica dos arredores de Lisboa. Tinha 5 vendedores. Os rapazes tinham, cada um deles, um ford fiesta (2 lugares) para todo o serviço, um telemóvel com um plafond mensal de 20 € e tinham um salário de 500€/mês.
Após o diagnóstico, cheguei à conclusão que:
1- Não havia remuneração variável
2- Não havia relatórios dos vendedores
3- Não havia descrição de rota de vendas
4- Não eram transmitidos objectivos de vendas
5- Não havia contabildade analítica que informasse a margem bruta de venda de cada um dos produtos
6- Não havia "cross-selling"
7- Não havia reunião de vendas, nem liderança de vendas.
...
Não havia nada em termos de Gestão de Vendas.
Em menos de 15 dias, apresentei um plano de Acção.
Não vou explanar todos os passos propostos mas com alguns deles todos vocês certamente concordarão:
1- Criação de objectivos
2- Reuniões de vendas para controlo de objectivos
3- Remuneração variável em função do atingimento de objectivos
4- Controlo da actividade dos vendedores
etc.
Pois bem!
O Sr Empresário achava que não.
Os vendedores tinham um carro e um telemóvel que ele disponibilizava. E já era bem bom, pois muita gente não tinha estas regalias. O ordenado de 500 € era acima daquilo que a lei obrigava a pagar. Portanto, os vendedores tinham que ir à sua vida, fazer o melhor que podiam (pois as regalias já eram muitas) e tinham que trazer facturas ao final do dia. Mais nada!
Como podem imaginar, 2 anos passados, o Senhor achou o meu trabalho inócuo. As dificuldades já eram grandes. Entretanto faliu, foram mais alguns para o desemprego e eu... não recebi "um chavo" da minha prestação de serviços. Mais um onde "lerpei".
A empresários destes, não há Estado que ajude ao Crescimento.
O futuro do crescimento está nas empresas. O Estado, quando muito, poderá ser um facilitador do crescimento. Remodelando o sistema de licenças, os prazos das mesmas, remodelando a Justiça e respectivos prazos ... enfim, pôr algum óleo na engrenagem. O cerne do Crescimento está na mentalidade dos nossos Empresários. Um dos desígnios do Estado, deveria ser a criação, não das Novas Oportunidades, para indivíduos com a 4 ª classe obterem o 12º ano através de um texto escrito sobre a sua experiência de vida, mas sim de Cursos Efectivos de Transmissão de Conhecimentos e Apoio aos Empresários deste País. Sim! Eles são, efectivamente, o motor do Crescimento deste País!
E é aqui que reside o busílis da questão. Não existem Planos de Ajuda aos Empresários ... até porque Empresário que é Empresário, assume a atitude que não precisa da ajuda de ninguém. Ele é que sabe! Ele cresceu sozinho sem a ajuda de ninguém!
Pois!
E esta, hein?"
Carlos Carvalho


"Já agora, uma anedota que tem o seu quê. E muitos Empresários portugueses ainda não decifraram este enigma.
Um indivíduo de 99 kgs aprestava-se para atravessar uma ponte, sinalizada com a informação de que o limite máximo de peso era de 100 Kg. Ora, ele levava 2 melões, cada um com cerca de 1 Kg. Ele pensou que, por 1 Kg, certamente a ponte não iria ruir. Mas, à cautela, decidiu, como os malabaristas, atravessar a ponte, jogando ao ar um melão de cada vez. Desta forma, nunca ultrapassaria o limite dos 100 Kg. Pois é! Chegado ao meio da ponte , esta ruiu!
Porquê?
Porque um homem prevenido vale por 2!
Esta singela piada de salão pode ser ampliada.
O país da UE com maior índice de produtividade é o Luxemburgo. Onde, perto de 40 % da População Activa é portuguesa. Portugal é dos países com mais baixo índice de produtividade.
Das duas uma:
Ou os portugueses que emigraram para o Luxemburgo são os mais produtivos e escolhidos a dedo ( acham?);
Ou os Gestores Portugueses não sabem extrair o melhor do que o português tem.
E mais esta, hein?"
Carlos Carvalho


"Em 2004, por causa do Campeonato Europeu de 2004, o meu colega da Rotatejo, empresa da Unicer que vendia e distribuía os produtos da Unicer na Grande Lisboa, solicitou um reforço do orçamento de 70.000 para contratar pessoal temporário para esse período de acréscimo significativo de consumo. Eu, como responsável de similar unidade no Grande Porto, solicitei o equivalente para a minha dimensão. Só que não recrutei ninguém de fora. Mobilizei e fiz a festa com o meu pessoal, que trabalhou redobradamente. Todo o dinheiro das comissões das empresas de trabalho temporário também foi embolsado pelos meus colaboradores. Todos os Estádios a Norte do Mondego eram da minha responsabilidade (o Patrocinador Oficial do Euro 2004 era a Carlsberg). Como sempre, nas empresas privadas, havia a competição de quem prestaria o melhor serviço. Pois a minha equipa foi a vencedora. E só com a prata da casa. E eu não só ganhei esta competição do mês, como ganhei a competição do ano. Porque tinha o meu pessoal motivado. Trabalhou... mas ganhou. E nisto, o Português é imbatível.
Se conseguirmos fazer do português, emigrante no seu próprio País, teremos trabalhadores imbatíveis. Melhores até, que os do Luxemburgo.
E mais esta, hein?"
Carlos Carvalho

agosto 30, 2011

"Estou cinco anos numa universidade e nunca ninguém me ensinou a vender o meu produto"

E esta nunca me ocorreria: "É preciso bater punho"...
Como diz o Pedro Laranjeira, isto vale mais do que seis meses na Universidade.





O Charlie esclarece:
"O rapaz tem razão, mas não toda. O Mundo é dominado pelos dominadores dos interesses. De que servio a inúmeros produtores de fruta (por exemplo) da região Oeste terem criada a sua marca regional de qualidade, com investimentos em maquinaria de selecção e calibragem, armazenamento a frio se depois de forma perversa o mercado é dominado pelos tubarões da distribuição que impõem preços impraticáveis e ruinosos à produção? De tal sorte é criminosa a prática de domínio de mercado que uma das empresas comprava toda a produção de maçã seleccionada para depois misturar novamente e apresentar assim ao público, não a verdade, mas sim o que lhe interessava: a fruta portuguesa pode ser melhor mas tem má apresentação e o preço tem de ser baixo. Teria sido importante talvez, nesse sector, o surgimento não de um vendedor (porque a fruta está sempre vendida) mas alguém capaz de pôr travão a estes desmandos e práticas, a raiar sempre a ilegalidade e a nadar em pleno na imoralidade. As boas ideias têm sempre mercado, a inovação é apelativa. No entanto, também aqui, há boas ideias aceites e guardadas à espera do momento que os donos do mundo acham mais conveniente. Quando há três anos o mercado dos televisores se viu subitamente agitado pelo surgimento dos 3D, três dimensões mas com óculos, ninguém ou pouca gente sabia que toda a tecnologia para se ver imagens tridimensionais estava pronta a sair. No entanto, dada a novidade e o desconhecimento generalizado, foi um belíssimo negócio vender televisores e depois os óculos pelo preço de quase outro televisor. Como se vê, nem sempre uma boa ideia faz de imediato um bom negócio e muitas vezes só muito mais tarde alguém tira todo o partido dela e quase nunca o inventor. Neste particular, daqui a algum tempo irá rebentar a "novidade" TV 3D sem necessidade de óculos.
No sector automóvel, desde muito cedo apareceram ideias inovadoras para baixar o consumo dos motores e mesmo alternativas aos subprodutos do crude. Mas não interessavam a uma economia que apostava não na redução mas no aumento do consumo. Para se vender uma boa ideia é preciso agarrá-la bem para que ninguém no-la tire. Vendê-la aos sete ventos, divulgá-la, insistir e esperar ter a sorte de haver alguma brecha livre por onde germine em direcção ao sol; ou seja, vendê-la com os proveitosos retornos que permitam o crescimento do dono da ideia."

agosto 04, 2011

«Análise de investimentos, racionalidade económica e processo de decisão empresarial» - António Ricciulli e António Martins


Recentemente, o meu colega e amigo António Ricciulli teve publicado pela Universidade de Coimbra, como separata do Boletim de Ciências Económicas - 2011, um pequeno (42 páginas) grande trabalho em parceria com António Martins (professor da FEUC) sobre a forma como são tomadas as decisões nas organizações.
É gratificante verificar que há muitos pontos de confluência deste estudo com o meu livro «Persuacção». Por exemplo, quando citam H. Mintzberg ao observar que "os gestores seniores recorrem à persuasão, à negociação e ao estabelecimento de alianças que facilitam a passagem das decisões que eles próprios pretendem tomar".
Referem o uso da intuição, tantas vezes usada e raras vezes identificada nos estudos desta área.
Transcrevem uma constatação de um executivo observada por S. P. Robbins e que eu traduzo o melhor que posso: "Por vezes, para tornar aceitável ou agradável uma decisão instintiva, temos que a camuflar com «roupas de dados», mas esta afinação é usualmente feita após a tomada de decisão". É o que eu costumo dizer, usando a imagem de "atirar uma seta primeiro e depois pintar o alvo à volta do sítio onde se acertou".
A fundamentação das decisões é usualmente feita com base quase exclusiva em argumentos económicos, racionais e intuitivos. O Ricciulli e o António Martins acrescentam argumentos não puramente económicos, argumentos relacionados com os jogos de poder e argumentos resultantes da intuição do decisor.
Confluem de novo com o tema do meu livro «Persuacção» quando alertam para as "inúmeras limitações de funcionamento" da lógica racional, de que resulta a "impossibilidade de dissociar emocionalidade e racionalidade em decisores sensatos, prevendo-se a presença de ambas com prevalências variáveis".
Depois de uma abordagem à técnicas de análise de projectos, o Ricciulli e o António Martins regressam às emoções e à racionalidade nas decisões. Utilizam as descobertas de A. Damásio no âmbito da neurologia para fundamentarem as limitações da racionalidade e as deficiências nas estratégias de raciocínio. Identificam as armadilhas habituais nas decisões tomadas individualmente e abordam também as decisões em grupo. Com uma conclusão que só será surpreendente para quem nunca tenha estado neste «mundo dos decisores»: "foi possível observar que os executivos não eram desprovidos de sentimentos e emoções, embora 84% deles achasse que seria imaturo deixar transparecer tais comportamentos durante as reuniões com a finalidade de tomar decisões". Por isso, "estes decisores (são) compelidos a esconder os seus sentimentos e emoções, disfarçando-os de problemas técnicos ou intelectuais, ou criando barreiras organizacionais defensivas, recusando-se a discutir ideias que de alguma forma pudessem expor o seu estado de espírito".
Os decisores devem saber usar a intuição e a emoção nos seus raciocínios. E citam J. F. Amaral: "Será sempre racional, ser racional?"
E regressam aos estudos de A. Damásio para abordarem a memória de emoções e de sentimentos do decisor, que é parte integrante do mecanismo de decisão.


Neste gráfico, apresentam as duas vias do processo de decisão:
A) via racional;
B) via emocional.

E concluem que, como defende C. Anderson, só o "conjunto do armamento emocional" permite aos indivíduos aperceberem-se que estão perante uma situação em que se lhes exige uma decisão.
Bem hajas, Ricciulli, pela aula e pela dedicatória.

julho 19, 2011

Manobras militares - ainda a propósito de corrupção...

... a Margot fez aqui o seguinte comentário:

"(...) lembrei-me de uma cena com o orçamento do exército.
Há uns anos, muitos anos..., trabalhava eu numa empresa que fabricava hardware e software, veio a divisão do orçamento do Exército pedir-nos uma demonstração do software que nós vendiamos para fazer folhas de cálculo. Estranhámos o pedido, porque nós só vendíamos sistemas de maior porte e não fazia sentido terem que comprar um mainframe para instalar uma folha de cálculo. Por isso tentamos perceber a razão de tão estranho pedido e a resposta veio rápida: «Já tentamos ver as folhas de cálculo que há para PC´s, mas não dão para o tamanho da que nós já temos hoje e que ainda tem que crescer...»
Pedimos-lhes então o ficheiro para convertermos para o nosso formato e lhes fazermos a demonstração. O ficheiro ocupava 3 discos (que hoje seria o cagagésimo de uma pen, mas na altura era um tamanho absurdo) e quando o lemos o que é que vimos?
O orçamento anual do exército português!
No dia da demonstração, apresentaram-se mais de uma dezena de oficiais fardados. Mostrámos a dita folha a correr maravilhosamente na nossa máquina, mas explicámos-lhes que uma folha de cálculo não era propriamente o software indicado para gerir o orçamento de uma organização. E até lhes mostramos o que nós, empresa americana com delegações nos 5 continentes, usávamos na nossa própria empresa, para eles verem as vantagens que tal ferramenta dava. E foi quando eles nos disseram, muito certos do que estavam a dizer: «ah, mas nós aqui na nossa folha podemos alterar os dados todos à vontade, mesmo em orçamentos de anos anteriores, e isso dá-nos muito jeito».
Ah, tão ingénuos que éramos..."
Margot

abril 28, 2011

O que é que esta malta anda a beber?!

"Tendo em conta a base comparável, isto é, o mesmo universo das administrações públicas considerado para a determinação do défice de 2009, o défice de 2010 foi de 6,8% do PIB (*1), isto é, menos 2,7 pontos percentuais do que no ano anterior. Este é um indicador evidente do esforço de consolidação realizado."
«Defender Portugal - Construir o Futuro» - Programa eleitoral do PS para o período 2011-2015

Partindo de bases como esta, fazem-me lembrar aquela anedota do dono de uma vacaria que aceitou a sugestão do filho para contratarem consultores que lhes indicassem como poderiam expandir o negócio. Ao fim de muitas semanas de visitas dos consultores à vacaria, reuniões, «brainstormings» e assim, o dono da vacaria recebeu um relatório com 3.287 páginas, acompanhado da respectiva factura de prestação dos serviços, num valor com muitos zeros (*2).
O relatório começava assim:
"Partindo do pressuposto que as vacas são esféricas..."

________________________
(*1) para quem tem andado distraído (como esta malta do PS), o valor real do défice em 2010 foi de 9,1 por cento. Os valores reais, recorde-se, foram corrigidos pelo Instituto Nacional de Estatística no passado dia 23 de Abril. Ora nesse sentido, o défice de 2010 não recuou 2,7 pontos percentuais, como refere o programa eleitoral do PS, mas antes 0,4 por cento.

(*2) se não imagina de quantos zeros se trata, distraia-se com este Concurso Público anunciado no Diário da República N.º 63, Série II de 2011-03-30 (Parte L - Contratos Públicos):

Anúncio de procedimento n.º 1462/2011
Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária
Aquisição de Serviços de Elaboração de Propostas de Decisão de Propostas de Contra-Ordenação [este título não é um mimo?]
Valor: 1200000.00 EUR [conte os zeros]

novembro 28, 2010

A Filosofia e a Gestão - uma aula da Dra. Ana Andrade

A jornalista Joana Pereira, da revista «Exame», colocou algumas perguntas à Dra. Ana Andrade, professora de Pensamento Crítico da Universidade Católica do Porto. Quando li as respostas, achei logo que não seriam publicadas na íntegra na revista «Exame». E isso confirmou-se, pois só foram usados pequenos excertos no artigo. E logo na altura combinámos que eu publicaria as respostas dela:

Que contributos pode ter a Filosofia na Gestão? Normalmente, vende-se a ideia de que a Filosofia não tem aplicabilidade prática… Que pontes existem entre estas duas disciplinas?
Na verdade, a Filosofia contemporânea é vulgarmente encarada como algo que pertence ao reduto de um núcleo de iluminados, fechados numa qualquer torre de marfim do conhecimento, que discutem entre si (ou, no limite, consigo próprios) e escrevem, uns para os outros, máximas, aforismos e teorias crípticas que mais ninguém se preocupa em perceber. De resto, chego a pensar que se caiu no extremo de considerar que quanto mais indecifrável for uma teoria filosófica mais complexa e, consequentemente, mais respeitada ela se torna.
Mas nem sempre foi assim: basta pensar em Sócrates, que passava os seus dias na ágora, a discutir com os cidadãos de Atenas grandes questões filosóficas; ou mesmo em Marx, cuja filosofia económica e política indicava um caminho a seguir. E ambos (com um iato de vinte e quatro séculos) pretendiam que as suas ideias fossem usadas, enquanto modo de vida.
Quanto a mim, ou a Filosofia e os que a fazem descem da tal torre de marfim e fazem Filosofia para seres humanos, enquanto seres humanos que são, ou esta será uma área do saber que, como dizem os mais pessimistas, estará condenada a não ser reconhecida para além de um restrito circuito académico que se alimenta a si mesmo de uma verborreia abstracta, sem qualquer aplicabilidade.
Felizmente, e a partir da década de 1980, a Filosofia começa a ressurgir enquanto prática e, nos primeiros anos do século XXI, são inúmeras as obras, escritas por filósofos para não-filósofos, que constituem grandes sucessos de vendas, o que vem demonstrar que as pessoas estão a fazer as pazes com um saber que se distanciou delas mas que soube reformular-se (num processo nunca concluído), para voltar a elas. Como diz Rowland Smith, autor de Pequeno Almoço com Sócrates (Lua de Papel, 2010, ISBN 9789892309699, 224 pp. ), “é preciso voltar a estabelecer ligação entre a filosofia e temas como a vida, a morte, o sexo e o amor. Esse é o verdadeiro espírito da filosofia, não o de um quebra cabeças.”
Neste sentido, é fácil perceber por que é que a consultoria filosófica (algo que está a ser fortemente implementado nos países de raiz anglo-saxónica) está a trabalhar lado a lado com a Gestão.

Quais as correntes filosóficas que costuma aplicar à Gestão (ou, pelo menos, as que têm maior aplicação)? De forma muito sucinta, como é que analisa/explica a aplicabilidade dessas correntes à Gestão?
Creio que esta questão seria mais facilmente respondida por um gestor do que por uma professora de Pensamento Crítico (e outras filosofices). De qualquer modo, e porque a Gestão de Empresas é um saber bastante recente, os filósofos sempre se preocuparam mais com a sua área-mãe, a Economia. E, nesta área, surgem inevitavelmente nomes como:
• Desde logo, ARISTÓTELES (384 a.C.-322 a.C.) que, com o contributo que deu à lógica e à argumentação, erigiu todo o background teórico necessário a qualquer profissional que, como o gestor, age tendo em vista a mudança, o ajuste ou reajuste, ou mesmo a micro-revolução. Mas, para se inteirar destes factos, não há fonte melhor do que o livro do Dr. Paulo Moura, PERSUACÇÃO – O QUE NÃO SE APRENDE NOS CURSOS DE GESTÃO.
• ADAM SMITH (1723-1790), que defendia que a iniciativa privada deveria agir livremente, com pouca ou nenhuma intervenção governamental, mesmo porque “o mercador ou comerciante, movido apenas pelo seu próprio interesse egoísta (self-interest), é levado por uma mão invisível a promover algo que nunca fez parte do interesse dele: o bem-estar da sociedade”;
• DAVID RICARDO (1772-1823), que se debruça sobre temas como a teoria do valor-trabalho, as relações entre o lucro e os salários ou o comércio internacional;
• JOHN STUART MILL (1806-1873), cuja teoria utilitarista (a acção moral é aquela que provoca a maior felicidade ao maior conjunto de pessoas) pode ser aplicada à Gestão como a muitas outras áreas do saber;
• JOHN MAYNARD KEYNES (1883-1946), defensor do Estado intervencionista e considerado o pai da macroeconomia moderna (pelo que os seus estudos não serão tão directamente pertinentes para a Gestão de Empresas), fundamenta ainda hoje grande parte dos planos económicos traçados pelas nações ocidentais.
• JOHN RAWLS (1924-2002), cuja teoria corresponde a uma reacção ao utilitarismo clássico (de J. Stuart Mill), que defendia que se uma acção maximiza a felicidade, não importa se a felicidade é distribuída de maneira igual ou desigual. Ora Rawls parte de algo muito diferente: todos os bens sociais primários (liberdades, oportunidades, riqueza, rendimento e as bases sociais da auto-estima) devem ser distribuídos de maneira igual, a menos que uma distribuição desigual de alguns ou de todos estes bens beneficie os menos favorecidos. De resto, em cada um dos princípios rawlsianos mantém-se a ideia de distribuição justa: assim, uma desigualdade de liberdade, oportunidade ou rendimento será permitida se beneficiar os menos favorecidos.
Todas estas teorias filosófico-económicas (sem demérito para muitas outras) podem, em maior ou menor grau, ser aplicadas na Gestão de Empresas. Contudo, crê-se, com Paulo P. de Moura, que o maior e mais profícuo contributo da Filosofia, para a área da Gestão, prende-se justamente com a teoria da argumentação, com a lógica informal, com a arte de convencer, para mudar — a que poderíamos adir reflexões sobre ética ou, naturalmente, a actividade de um consultor filosófico ou filósofo de empresa.

O Paulo Moura falou-me no conceito de “consultoria filosófica” e disse-me para falar consigo sobre este tema. No que consiste? Como se procede?
Estou convicta de que, a curto ou médio prazo (embora não necessariamente nos países do Sul da Europa, ainda agarrados aos modelos tradicionais de gestão, quase familiar, e por isso avessos à evolução empresarial tal como tem vindo a acontecer nos países do Norte da Europa e Estados Unidos da América), o filósofo de empresa (ou consultor filosófico) será um colaborador permanente e de suprema importância nas organizações do século XXI, “com lugar reservado no parque de estacionamento da empresa”, no dizer de Lou Marinoff (MAIS PLATÃO, MENOS PROZAC, Ed. Presença, 2002).
Apesar de não se tratar de um fenómeno novo (basta pensar na tradição filosófica que remonta à Antiguidade Grega e na praxis de autores como Sócrates, Platão e Aristóteles ou todo o movimento sofista), a verdade é que é difícil pensar numa filosofia prática, empresarial, quando o que temos em mente é o academismo circunscrito a que esta área do saber se votou. Mas a verdade é que, para os gregos antigos, a filosofia não era algo apartado da vida; pelo contrário, tratava-se de um modo de vida que buscava o bem, a justiça, a verdade, a autenticidade e outros valores determinantes. Deste modo, a filosofia não começou por ser (nem se quedava em ser) um puro exercício intelectual mas antes um modo de transformar modos de ser, de actuar e de ver o mundo.
Ora é justamente nesta concepção que radica, em última análise, a pedra de toque do que é, hoje, a consultoria filosófica. Esta, assumidamente multifacetada, é uma actividade que não só fornece a análise lógica de um assunto ou problema em particular como, mais ainda, explora a relação daquele assunto ou problema com todo o vastíssimo sistema de crenças e valores que norteiam o comportamento humano.
É a capacidade de “dar um passo atrás”, de ver o problema na sua universalidade e, depois, de o decompor e de o analisar radicalmente (no sentido de descer à sua raiz) que constituirá uma mais-valia determinante numa empresa ou em qualquer organização.
A consultoria filosófica é já considerada como uma actividade séria: há filósofos a trabalhar como consultores para governos, indústrias e profissões, proporcionando serviços que visam a previsão e resolução de conflitos entre princípios morais e códigos de conduta profissionais ou, mais frequentemente, a relação entre princípios éticos abstractos e exercícios concretos de ética. E isto reveste-se de suma importância numa era em que, se a empresa actuar de acordo com princípios éticos, os prejuízos financeiros (decorrentes de indemnizações por danos éticos, por exemplo) poderão ser significativamente reduzidos. Por outro lado, é por demais evidente que as organizações íntegras funcionam melhor do que as que têm vícios. Também é verdade que todos sabemos que é possível gerir um negócio lucrativo sem qualquer ética; mas os que assim procedem estão permanentemente em alerta, temendo a polícia ou qualquer outra entidade reguladora, com medo de sofrer represálias e de terem de prestar contas pelos seus actos. Aplicar princípios éticos é muito mais vantajoso para o ser humano enquanto pessoa e enquanto homem ou mulher de negócios.
O consultor filosófico ou filósofo de empresa a tempo inteiro poderá ainda aconselhar os trabalhadores na resolução de problemas que interferem com o desempenho das suas tarefas (o que nada tem que ver com a acção de um psicólogo), animar reuniões de trabalho no sentido de melhorar as performances de fornecedores e gestores e, ainda, actuar junto dos mais elevados níveis da direcção para melhorar as dinâmicas empresariais.
Todas estas actividades, de cariz claramente filosófico, são cruciais para se tirar mais e melhor partido do trabalho e da vida — e qualquer delas terá de ser levada a cabo por indivíduos formados filosoficamente.

Falta pensamento crítico na Gestão? Tem exemplo práticos que possa dar?
Falta pensamento crítico ao ser humano em geral; logo, também os gestores carecerão dele. O pensamento crítico que o espírito filosófico proporciona é, ou deveria ser, transversal a todas as áreas do conhecimento, isto é: mal estará a humanidade no dia em que só quem for detentor de uma licenciatura em Filosofia (mesmo porque nem todos os que passam pelo curso superior são dotados de pensamento crítico) possui a autonomia, a inquietude e a angústia que o pensamento filosófico produz em quem o vive.
Defendo que o ser humano do século XXI está demasiado preocupado em contrariar o stress, a ansiedade, a insatisfação. Para tal, procura conforto espiritual e físico nas religiões e práticas desportivas que os levam à meditação, tornando-se pessoas mais calmas, menos combativas, menos críticas. E o mal radica justamente aqui: o ser humano deve querer sentir-se acordado, atento, vivo. E se o fizer, efectivamente, é inevitável que se sinta angustiado, desconfortável, inconformado, porque se depara com injustiças, com questões para as quais (ainda) não há resposta, com o mal, com a imperfeição. É daqui que nasce o pensamento crítico que deverá levar (se pretendermos, como eu defendo que se deve pretender) à mudança prática de situações que desejamos diferentes. Identificar o que está errado é fácil; empreender toda uma estrutura de raciocínio que nos leva do erro à sua superação é difícil, dá trabalho, é uma maçada: há que desconstruir o problema, dividi-lo em sub-problemas e atacar cada um de per se, no sentido de compreender o todo e solucioná-lo. Não é algo imediato, nao há fast philosophy. Mas só assim caminharemos no sentido de formar uma humanidade que sabe quem é, o que faz e porque age como age.
Do mesmo modo, um gestor que use da mesma atitude crítica saberá lidar com recursos, pessoas e bens de um modo cuidado, fundamentado e, sobretudo bem estruturado, porque analítico e assente num raciocínio consequente.

Pode indicar algumas máximas dos filósofos antigos que tenham grande aplicação no mundo das empresas e dos gestores? Que lições têm estes filósofos a dar aos gestores?
Qualquer das respostas anteriores poderá caber nesta última questão. Mais do que máximas ou aforismos, o que a Filosofia tem a dar à Gestão é uma praxis, um modo de estar e de agir no mundo empresarial, que vai desde a resolução teórica de problemas à (re)organização estrutural ou valorativa de uma organização.

Quem fala assim, pode ter câimbras mas não é gago!