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janeiro 28, 2018

«Os meninos de hoje» - Maria De Lourdes Guerra

Os meninos não podem sair da nossa beira porque os meninos não podem estar sozinhos.
Os meninos não podem ficar no recreio a brincar quando os professores faltam - são levados para a biblioteca ou para alguma aula de pseudo-apoio. Se os meninos ficassem no recreio a jogar à bola e se por acaso se magoassem, o que seria dessa escola! Os pais poderiam até processar a instituição de ensino!
Os meninos não podem ir a pé ou de autocarro para a escola porque isso pode ser perigoso.
Os meninos não se podem sujar ou magoar - os pais nunca se perdoariam (e fá-los-ia perder tempo que não têm).
Os meninos andam a saltar dos pais para os avós e para a escola e para o atl e para a piscina e para o inglês e para a música e para o karaté e para o futebol e para a patinagem e... Porque os meninos têm de estar sempre ocupados e nunca sozinhos; não saberiam o que fazer com o tempo livre.
E os pais têm de ganhar dinheiro para os meninos andarem sempre bonitos e com roupa de marca - caso contrário, os colegas poderiam até gozá-los. E se o colega tem uma coisa, o menino também tem de ter (senão faz birra e com toda a razão).
E os meninos têm de ter festas de aniversário espetaculares - e não pode ser em casa só com a família, que isso não se usa. Tem de ser com a turma toda e os amigos e os primos e tem de se alugar (e pagar) um sítio onde tenha muitos brinquedos e escorregas e palhaços e malabaristas e baby-sitters. Algum sítio onde alguém se responsabilize pelos filhos dos outros, de preferência.
Os meninos, coitadinhos, são muito novos para pensar - mais vale nós planearmos a vida deles e dizer-lhes o que fazer. Mas só se eles concordarem, claro. Porque os meninos não têm culpa de nada; se se portam mal, a culpa é da educação que recebem na escola (que é o sítio onde eles devem ser educados).
Os meninos não comem sopa e verduras porque não gostam.
Os meninos saem da mesa quando lhes apetece e passam o (pouco) tempo livre entre smartphones, tablets e computadores. Mesmo enquanto comem, coitadinhos, tem de haver alguma coisa para os entreter - e não se fala com a boca cheia. Alguns até comem com auscultadores colocados nos ouvidos - e ainda bem, para não incomodar a conversa dos adultos.
Os meninos só vêem desenhos animados (e a televisão é deles quando eles estão em casa).
Porque os meninos querem, os meninos têm. O que não vale é chorar - não gostamos de os ver tristes. Chora chora que a mamã dá mais brinquedos para brincares duas vezes e arrumar a um canto - a casa fica cheia deles; depois compram-se outros diferentes porque os meninos têm de ter sempre mais e mais coisas e mais experiências novas.
Os meninos não ajudam em casa porque são meninos.
Os meninos começam a sair cedo e os papás vão buscá-los onde e à hora que for necessário.
Não há meninos burros, arruaceiros, nem medricas, nem preguiçosos, nem tímidos, nem distraídos, nem mal educados, nem maus, nem... Nada disso. Os meninos são todos bons (os melhores) e muito inteligentes. Todos.
E todos os anos há meninos finalistas e festas de finalistas e viagens de finalistas e até praxes, do primeiro ao último ano da escola, porque eles são muito inteligentes e importantes, agora que acabaram mais um ano. Que bem, já tens a quarta classe - que orgulho, meu filho. Ah, parece que foi ontem a tua festa de finalistas do terceiro ano...
Os meninos não se podem (nem sabem) defender sozinhos; para isso é que existem os pais e os psicólogos e os professores e até os tribunais.
Os meninos têm explicações desde a escola primária porque precisam de toda a ajuda possível para ser os melhores.
Se não estão atentos nas aulas, a culpa é do professor.
Os meninos não levam palmadas - ai se isso acontecer. Podiam ficar traumatizados, coitadinhos.
Se os meninos estragam, os papás pagam.
Os meninos têm direitos - mais concretamente, têm o direito a fazer o que lhes apetece porque são meninos e não têm de entender as preocupações dos crescidos. Por isso desarrumam a casa e todos os sítios por onde passam; partiu? virou? desapareceu? morreu? Não sei, eu sou apenas um menino.
Até que um belo dia, os meninos se veem subitamente fora de casa e da escola e longe de todas as pessoas e coisas que costumam controlar todos os seus movimentos (e até pensamentos). Longe daqueles que lhes disseram sempre que os meninos não são responsáveis nem culpados daquilo que fazem.
E só aí, longe pela primeira vez, começam a aprender a ser pessoas, a respeitar a liberdade e o espaço dos outros (os outros que afinal também existem! - descobrem os meninos nesta altura). Só aí entendem que cada ato tem uma consequência. E torna-se difícil - que a pegada dos meninos agora é grande e os erros notam-se como patas de elefante em cima de nenúfares. Destroem tudo porque têm de aprender e agora é muito mais complicado. Pensavam que podiam fazer tudo o que lhes apetecesse, mas afinal parece que não. Ninguém lhes tinha dito. E de repente aparecem ratos que assustam os elefantes. Todo aquele tamanho mas no fundo continuam apenas meninos que agora vivem em corpos de adultos. Ficam muito assustados (pudera) e não entendem.
Voltam para casa e perguntam aos pais: o mundo é mesmo assim, papás? Não posso atirar colchões pela janela dos hotéis? Não posso ligar extintores e estragar as paredes e camas? Porque não avisaram antes?
E nessa altura, levam um estalo - a primeira palmada das suas vidas. Deixaram finalmente de ser (e da pior forma ) meninos.
Maria De Lourdes Guerra

Nota da redacção: E depois as empresas que se lixem...

outubro 17, 2017

reflexão porventura obscena, mas...

... acabado que foi de ser anunciado o Orçamento para 2018, o qual, ao contrário das desvairadas projecções dos profetas da desgraça do costume, apresentam a «geringonça» governamental com alento para mais um ano de governação, mantendo a inversão da catástrofe social levada a cabo pelo governo de Passos Coelho e Paulo Portas... e eis que dois terços do país desatam a arder até às raias da loucura, deixando (alegadamente) António Costa refém das incomensuráveis incúrias (nos últimos 200 anos...?) com que TODOS tratamos as zonas florestais, em Portugal.
 
Em cima de um clamoroso sucesso político de António Costa, menos de 24 horas depois, um domingo sangrento e calamitoso.
 
E ainda há quem não acredite em bruxas...
 
Só se espera que, tal como ocorreu a seguir ao terramoto de 1755, alguém tenha o vislumbre de transformar a desgraça num novo paradigma de desenvolvimento nacional. 

agosto 28, 2017

Eu sei que não se pode ou deve exterminá-los, mas…


Esta cena dos incêndios tem o condão de me titilar laivos atávicos (e racionalmente tidos como errados) que trago escondidos... e que tendem a espreitar perante os televisivamente chamados «cenários dantescos» com que temos vindo a ser massacrados.

Não porque as labaredas em questão provenham de algum fogo primordial que era o lar e defesa dos nossos ancestrais mas, muito pelo contrário, porque estas chamas me parecem muito mais irmãs, cheias de uma outra perversidade, daquelas da Inquisição, destinadas a destruir humanidades  

O que fazer com os incendiários? E com quem esteja - e há-de estar! - por trás deles? Até que ponto existe a consciência de que um incendiário e o seu mandante, nomeadamente de uma floresta, são gente (?) que está a perpetrar um acto contra a Humanidade? Mas a Humanidade como conceito que contém a fauna e a flora de que é suposto fazermos parte, claro. E bens patrimoniais, tanto como os imateriais, que são de todos, também.

E os recursos que mobilizam quando há tantas outras premências que se impõem?

Atá-los a um pinheiro e deixar arder...? Acusá-los, muito justamente, de homicídio tentado ou, até, premeditado, com o correspondente quadro penal? Enfim, ocorre-me aquela poema em que se diz que há uma célula em mim que quer respirar e não pode... e apenas me ocorre o pensamento (grito), profundo mas impotente, de que tem de se pôr cobro a isto.

junho 28, 2017

O meu voto, outra vez, em favor do Salvador

A verdade é que vou tendendo a gostar, cada vez mais, do Salvador Sobral.
 
O comentário por ele produzido no concerto de ontem Juntos Por Todos e que - como tanto gosta de se dizer - está a «inflamar as redes sociais», reza mais ou menos assim: «Eu sempre que faço qualquer coisa vocês aplaudem. Vou mandar um peido para ver o que é que acontece», logo a seguir a um curtíssimo improviso que nem lhe saiu muito bem, denota tão-só que estamos em presença de alguém que aparenta ter os seus atributos no sítio e sabe - pasmem, ó gentes! - pensar com a própria cabeça.
 
Daí, a minha chapelada. 
 
E o Salvador Sobral não fez, como se apregoa, um «comentário humorístico». Fez, sim, um comentário crítico, de inegável frontalidade e muito a-propósito. Para além do foguetório acrítico institucionalizado, é bom ouvir uma voz com alguma lucidez que apele, pelo contrário, a um saudável espírito crítico e, já agora, fundamentado, em vez do aplauso imbecilóide ou apatetado a que estamos tão (mal) habituados.
 
Os espíritos tão cordatos e politicamente correctos que se indignam ou exasperam com esta atitude corajosa não passam disso mesmo: tão cordatos e politicamente correctos, que enjoam. 
 
Nada será definitivo, mas este Salvador, não o sendo da pátria, pelo menos ajuda-nos a preservar alguma racionalidade, no meio de tanta patetice, tanta louridão e tanta lantejoula mediática. 
 
Bem haja.

Pós-de-escrita - Talvez se o Salvador se tivesse referido a um sonoro traque, a uma conspícua ventosidade, a uma inocente flatulência ou, até, a um imponderável pum, as hordas censórias se mantivessem mais apaziguadas. Agora, um peido, na presença de tão eméritos representantes da nação? Enfim, não sei se gostaria de lhe estar na pele, ao longo dos próximos dias... 

E é vê-los, a todos e a todas, tão puros quão linguisticamente bem comportados, e que nem soltam nem largam, fisicamente, ventosidades que tais, os pobres, tão aprumados. No limite, exalam tão-só algum suspiro deliquescente... Sendo que neles o suspiro terá orifício alternativo.    
 

fevereiro 05, 2017

trampice

Antecipando-me à nomeação da palavra mais usada para o ano 2017, deixo aqui já a minha proposta para a selecção de um semi-neologismo que, face ao despautério mundial que a eleição desta sinistra personagem suscita, irá andar nas bocas do mundo todo. 

Esperemos que seja pela resistência e combate, também mundiais mas, principalmente, em solo americano, à sua existência nefasta.

Claro que aportuguesei o termo, o que me pareceu, aliás, fazer todo o sentido!  

janeiro 12, 2017

e, agora, para falar de outra coisa...
já olhou, com olhos de ver, para a sua factura de electricidade?

Há, nesta espuma dos dias, como alguns lhe chamam, algumas coisas mais sólidas e substanciais nas quais não nos convém tropeçar sem que, pelo menos, arrisquemos sérios danos na canela dos pensamentos.
 
Ora, vem ao caso, a circunstância de me ter debruçado sobre o sacrossanto tarifário da electricidade que uso lá por casa e, após cuidado apuramento de factos, apurar que, afinal, a desgraçada violência doméstica é assumida por improváveis agentes, porventura com os mesmos perniciosos efeitos civilizacionais.   
 
Sabemos de uma praga que assola todos quantos tenham celebrado um contrato de fornecimento de electricidade, de há longos anos, e que se chamava «aluguer de contador» que consiste, por sua vez, numa espórtula prestada à entidade fornecedora tão só por nos dar a benesse de existir e apesar de cobrar, em paralelo, o consumo que, efectivamente, tivermos, em termos de Kwh consumidos.
 
Quando o avanço civilizacional decidiu considerar que aquele «aluguer» era um abuso e, concomitantemente, um insulto à inteligência e à dignidade do bom povo e, como tal, teria de ser erradicado, logo a inteligência do costume transmutou a coisa em «taxa de potência» - tudo sempre sob a alçada do forte braço da lei -, na perspectiva ancestral de que mudam as moscas mas não muda a matéria que as atrai. E assim se ficou a pagar o mesmo, o que, no fundo e bem vistas as coisas, era o que interessava.
 
Entretanto, o nível de sofisticação foi-se apurando graças aos sacrossantos avanços tecnológicos, também conhecidos por progresso, e essa «taxa de potência» passou a estar sustentada no argumento de que, enquanto o caduco e troglodita «aluguer de contador» pouca ou nenhuma variação tinha de cliente para cliente, esta «nova» taxa incidia agora sobre a «potência contratada». Leia-se, a capacidade, disponibilizada pela empresa fornecedora, de o cliente poder ligar, em simultâneo, cada vez mais electrodomésticos.
 
Ora, numa lógica sem lógica nenhuma - pois o consumo é suposto pagar-se pelos Kwh gastos e quantos mais electrodomésticos ligados, mais se consumindo, logo, mais se paga... - o pagador, se queria usufruir da possibilidade de  ligar um aquecimento ao mesmo tempo que passava a roupa a ferro e aproveitava o tempo (cada vez mais escasso) para lavar a roupa suja da semana, lá via aumentar a tal «taxa de potência» na sua inestimável facturinha, ao solicitar «instalação» aumentada de potência contratada.
 
Dito de outra maneira: o cliente paga mais para poder gastar mais... Percebe-se? Duvida-se.
 
Esse aumento, sem entrar noutros devaneios despiciendos, traduzia-se tão-só pela calibragem de um aparelhómetro, instalado a seguir ao contador de electricidade e que se chama disjuntor diferencial. Por acréscimo, além de calibrar a potência disponível, até tinha a simpatia de proteger a instalação em casos de curto-circuitos, o que até era, vamos lá e como disse, simpático e - lá está! -, civilizado.  Uma vez mais, o forte braço da lei dava cobertura ao enredo.
 
Um dia, em pleno cavaquismo, o País amanheceu com a privatização da empresa fornecedora deste bem. E, ao privatizá-la, algum jurista atento apurou que uma empresa privada não deve cobrar taxas... Enfim, que diabo, não estamos no México, não é? Logo a solução foi fácil e brilhante: mudou-se-lhe, de novo, o nome e passou a denominar-se então «encargo de potência», mantendo-se todos os demais pressupostos.
 
Aqui convém parar e referir que este «aluguer-taxa-encargo» sofre regulares aumentos anuais, como é de bom tom numa sociedade que caminha para o futuro...
 
Mas o irrequieto legislador não dorme sobre os louros conquistados e no seu afã de se actualizar em novas realidades e novos desafios, cada vez mais engrossado institucionalmente, até com entidade «reguladora» a preceito, que lhe vai conferindo uma armadura de aço - o «mercado regulado» - contra débeis tentativas de sobrevivência do cliente, a esbracejar aflito num consabido mar de taxas e taxinhas.
 
Encurtando razões, que o palavrório vai longo, eis o actual estado da arte - uma outra vez, com todo o suporte legal:
 
- O «encargo de potência» mantém-se;
 
- Os «contadores inteligentes» em fase de instalação, permitem a definição da tal «potência contratada», ficando os encargos de instalação do sistema de protecção à responsabilidade integral do utente/cliente... Será por isso que regressaram em força os incêndios motivados por curto-circuito...?  
 
- Para cúmulo, uma vez mais civilizacional, actualmente o preço do próprio Kwh também varia em função da «potência contratada», ou seja, o cliente paga mais para poder gastar mais (potência contratada) e paga mais cara cada unidade consumida por já pagar mais para poder gastar mais (diferencial de preço em função da potência). Confusos? Pois têm mais...

-Na factura emitida avisa-se o bom povo de algo quase iniciático: «O preço da electricidade inclui o valor X (sem IVA) correspondente às tarifas de acesso às redes, que contêm o valor dos Custos de Interesse Económico Geral (CIEG) no valor de Y. Estes valores são independentes do comercializador» - fim de citação e de paciência. E, então, perceberam?
 
Há, neste contexto, uma questão filosófica que me avassala: o que é tudo isto...?!?... Enfim, o que nos vale é que vivemos num estado de direito... Olha se não fosse!
 
 

dezembro 29, 2016

Algumas pobres reflexões a caminho de um ano que lá vem (com algum asco pela «informação» do ano que vamos tendo)

- Morreu o músico George Michael. E foi triste e todos soubemos, mesmo os que não queriam saber.
Mas morreu, na mesma altura, o músico José Pracana. E foi triste e muito poucos souberam, mesmo os que quereriam saber.
Alguém questionou sobre o que é que os distinguia para tal diferente tratamento e muitas circunstâncias foram avançadas. A mais plausível: era português, cantava em Portugal e os noticiários são feitos por maltinha que só sabe inglês… ou mandarim.  
- Mário Soares é personagem conhecida. Controverso, está muito longe de unanimidades apreciativas. Foi um estadista, com sucessos, insucessos e outras coisas assim-assim. Integra, entretanto, a nossa História recente, com destaque. Hoje é um homem de muita idade, com severíssimos problemas de saúde. Circula, em torno do seu natural infortúnio, um hediondo circo de abutres mediáticos. Onde fica o respeito pela dignidade humana?
 - Disse-se para aí, em jornais «insuspeitos», imediatamente replicado exponencialmente nos fb do nosso descontentamento, que Elisa Costa, a mulher de um autarca de Gaia, Eduardo Vítor Rodrigues, teria visto aumentar os seus rendimentos auferidos numa IPSS em 390%, apenas em cinco anos (passando de 475 € para 2.343, 71 €), sublinhando-se a ligação matrimonial e partidária. Afinal, apura-se que os «insuspeitos» compararam um vencimento em regime de meio-tempo, com posterior regime a tempo inteiro, se «esqueceram» que o autarca só tomou posse há três anos e, não bastando isso, apuraram o tal valor através do mês em que foi pago o subsídio de férias.
Vejamos, a ser verdade, os «insuspeitos», após processo respectivo, não deveriam ser obrigados a coima a reverter a favor dos cofres do Estado, por exemplo, por crime de lesa-pátria ou qualquer coisa quejanda e a bem da ética pública? Isto, claro, em paralelo com os processos que os directamente lesados lhe possam (e deveriam) mover.
Ah, crime de lesa-pátria é exagero? Então e que tal pensarmos na pólvora que este argumentário mete no canhão do ressabiamento? Basta andar um pouco pelos facebooks. Digo eu, que nem tenho votado PS…
- Passos Coelho e a sua acólita Maria Luís Albuquerque manifestaram, ao longo de 2016, tanta, mas tanta certeza na impossibilidade de se atingir um deficit abaixo dos 3% que, agora, estão irremediavelmente em primeiro lugar na candidatura ao tema Ai, se ele cai, premonitoriamente interpretado pelos Xutos e Pontapés… que é mesmo o que me estava a apetecer dar-lhes! Pelo caminho, pode juntar-se-lhes o inefável José Gomes Ferreira.
Apesar de tudo ou por isso mesmo, tenham todos um grande e belo 2017… e, se descobrirem uma plantinha de esperança, cultivem-na bem. Água a mais ou a menos poderá danificá-la. E quando ela medrar, veremos que, como diziam alguns, ele há mais vida ara além do deficit.
Façam o favor, pois, de ser felizes que isso é que «os» trama.

novembro 03, 2016

DURA LEX SED LEX....

.... quem coube julgar achou mais digno de indignação, não a indignação de quem foi tratado por peste, mas sim aquele que se indigna por ter sido usado como termo de comparação entre louco e imbecil.... 
Os loucos por vezes curam-se,
os imbecis nunca.
(Óscar Wilde) (sic
)

Um homem foi condenado em Tribunal pelo facto de ter ficado indignado. Trataram a sua geração, a sua faixa etária, por Peste Grisalha. Não gostou como milhares em iguais circunstâncias, e certamente milhares mais a aproximar-se do estatuto de jubilado, também não terão gostado. É que a esperança que todos temos é de viver o mais possível sem nunca chegar a velhos, mesmo que esse último pormenor nos esteja vedado. 
E velhos,  tendo descontado para um Estado que se compromete gerir esses nossos recursos disponibilizados para garantir o nosso último quartel de vida, e por isso não nos faz qualquer favor, o mínimo que se pode exigir de todos é um nadinha de respeito.
Sentido de dignidade e respeito, como soía dizer-se "pelas cãs"
Quem não se sente não é filho de boa gente. Serve para ambos os lados da contenda.  Mas a quem coube julgar achou mais digno de indignação, não a indignação de quem foi tratado por Peste, mas sim aquele que se indigna por ter sido usado como termo de comparação entre louco e imbecil. 
Dura Lex, Sed Lex, e há que cumprir.
Segue o copy/paste da carta em forte teor do indignado que tanto indignou o deputado da nação.

A PESTE GRISALHA 
(Carta aberta a deputado do PSD)
Exmo. sr.
António Carlos Sousa Gomes da Silva Peixoto
Por tardio não peca.
Eu sou um trazedor da peste grisalha cuja endemia o seu partido se tem empenhado em expurgar, através do Ministério da Saúde e outros “valorosos” meios ao seu alcance, todavia algo tenho para lhe dizer.
A dimensão do nome que o titula como cidadão deve ser inversamente proporcional à inteligência – se ela existe – que o faz blaterar descarada e ostensivamente, composições sonoras que irritam os tímpanos do mais recatado português.

Face às clavas da revolta que me flagelam, era motivo para isso, no entanto, vou fazer o possível para não atingir o cume da parvoíce que foi suplantado por si, como deputado do PSD e afecto à governação, sr. Carlos Peixoto, quando ao defecar que “a nossa pátria foi contaminada com a já conhecida peste grisalha”, se esqueceu do papel higiénico para limpar o estoma e de dois dedos de testa para aferir a sua inteligência.
A figura triste que fez, cuja imbecilidade latente o forçou à encenação de uma triste figura, certamente que para além de pouca educação e civismo que demonstrou, deve ter ciliciado bem as partes mais sensíveis de muitos portugueses, inclusivamente aqueles que deram origem à sua existência – se é que os conhece. Já me apraz pensar, caro sr., que também haja granjeado, porém à custa da peste grisalha, um oco canudo, segundo os cânones do método bolonhês. Só pode ter sido isso.

Ainda estou para saber como é que um homolitus de tão refinado calibre conseguiu entrar no círculo governativo. Os “intelectuais” que o escolheram deviam andar atrapalhados no meio do deserto onde o sol torra, a sede aperta a miragem engana e até um dromedário parece gente.
É por isso que este país anda em crónica claudicação e por este andar, não tarda muito, ficará entrevado.
Sabe sr. Carlos Peixoto, quando uma pessoa que se preze está em posição cimeira, deve pensar, medir e pesar muito bem a massa específica das “sentenças”, ou dos grunhidos, - segundo a capacidade genética e intelectual de cada um - que vai bolçar cá para fora. É que, milhares pessoas de apurados sentidos não apreciam o cheiro pestilento do vomitado, como o sr. também sente um asco sem sentido e doentio, à peste grisalha. Pode estar errado, mas está no seu direito… ainda que torto.

Pela parte que me toca, essa maleita não o deve molestar muito, porque já sou portador de uma tonsura bastante avantajada, no entanto, para que o sr. não venha a sofrer dessa moléstia, é meu desejo que não chegue a ser contaminado pelo vírus da peste grisalha e vá andando antes de atingir esse limite e ficar sujeito a ouvir bacoradas iguais ou de carácter mais acintoso do que aquelas que preteritamente narrou como um “grande”, porém falhado “artista”.

E mais devo dizer-lhe: quando num cesto de maçãs uma está podre, essa deve ser banida, quando não, infecta as restantes; se isso não suceder, creio que o partido de que faz parte, o PSD, irá por certo sofrer graves consequências decorrentes da peste grisalha na época da colheita eleitoral. Pode contar comigo para a poda.
Atentamente.
António Figueiredo e Silva
Coimbra, 28/04/2013
www.antoniofigueiredo.pt.vu
Obs:Esta carta vai ser enviada sob A.R.

outubro 28, 2016

Cada vez me sinto mais a modos que assim...

- Em 2013, um deputado aparentemente inominável perorou, em artigo de opinião, sobre a «peste grisalha» insultando alegremente e fazendo indignar uma parte muito significativa de portugueses. No seguimento, um grisalho e respeitável cidadão elaborou um notável texto em que atirou um apurado par de verdades ao indigno.

Três anos são volvidos e um tribunal (?) condena o grisalho cidadão ao pagamento de uma multa de 4.200 euros por difamação. Querem vocês saber das alegações? Pois aí vai este naco precioso: as afirmações do idoso foram consideradas «insultuosas e suscetíveis de abalar a honra e a consideração pessoal, política e familiar do assistente».

Isto é: a luminária que produziu os dislates fundamentou-os (?) com outras preciosidades, tais como afirmar que «o envelhecimento dos portugueses e o incremento do seu índice de dependência», para além de provocarem um «aumento penoso dos encargos sociais com reformas, pensões e assistência médica», colocam em causa a «sobrevivência» de Portugal «enquanto país soberano».

Dizendo de forma ainda mais clara, um fedelho destemperado insulta toda uma comunidade de anciãos e fica incólume. Um elemento dessa comunidade responde-lhe – aliás, com uma qualidade e elegância inalcançável pelo fedelho mesmo quando for velhinho – e é obrigado, em tribunal, a pagar-lhe uma indemnização.

Conclusão: eu, em relação à independência das instituições, nada tenho contra. Já relativamente às atitudes estúpidas e/ou indecorosas dos seus agentes…

- O ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, deixou esta quarta-feira recados ao Governo português. Disse o inteligente desta tourada que são os «mercados» que tudo corria bem até António Costa ter tomado posse.

Tem dito, aliás e no que a Portugal respeita, tudo e mais um cento em favor do governo de Passos Coelho e contra o actual governo, legitimamente constituído.

De que é que Portugal e o actual governo estão à espera para pedir esclarecimentos institucionais ao governo alemão sobre as atitudes deste seu tão limitado membro? Sei lá, uma convocatória do embaixador alemão com nota de desagrado e pedido de esclarecimentos… Qualquer coisa, enfim, que provasse ao mundo e, em primeira instância, aos portugueses que, finalmente, no governo, há uma coluna vertebral que lhe mantém a cabeça erguida e direita.

- Durante esta semana tivemos notícia da morte de duas personalidades marcantes da nossa História recente: João Lobo Antunes e Jaime Fernandes. É o ciclo da Vida a cumprir-se. Mas não deixa de ser, ao mesmo tempo, um empobrecimento lamentável para todos nós.

Apesar de todas as referências elogiosas a que assistimos nos media, o espaço dedicado ao futebol sobrepôs-se largamente ao tempo dedicado a essas referências. Valerá a pena comentar…?

- Quase como notícia de última hora apurámos que a vice-presidente da Comissão Europeia, logo depois de ter feito o frete de simular que disputava o cargo de secretário-geral da ONU a António Guterres, de seu cristalino nome Kristalina Giorgieva, que já nos tinha divertido com uma licença sem vencimento no seu lugar de vice-presidente enquanto fazia o tal frete, demitiu-se agora para assumir a direcção executiva do Banco Mundial.

Não é a primeira vez que faço este comentário pouco elegante mas, em boa verdade, este tipo de situações leva-me invariavelmente a ele: a mulher de César, não apenas não é séria, como se está nas tintas para o parecer e, bem pelo contrário, assume o seu estatuto de galdéria com uma galhardia que estonteia… Assuma-se ela com os nomes de Durão, Portas, Maria Luís ou Kristalina – aqui sim há, pelas evidências, igualdade de género.

- No próximo fim de semana a hora volta a mudar, em Portugal. Mas para quê, senhores, ninguém me diz?

outubro 20, 2016

pouca terra-pouca terra...

Pudemos, ontem, ler em:

Desmaios nos comboios dão origem a campanha contra o jejum
Se viajar de comboio, tome o pequeno-almoço: é esta a mensagem da Fertagus.
Viajar sem tomar o pequeno-almoço pode afetar a viagem de todos, diz a Fertagus, empresa que detém a concessão do serviço ferroviário entre Lisboa e Setúbal, com passagem na ponte 25 de Abril. Por isso, deu hoje início a uma campanha contra o jejum.
De acordo com a edição de hoje do jornal Público, a empresa avançou com esta campanha na sequência dos desmaios que ocorreram durante viagens, por falta de pequeno-almoço, e que levaram a atrasos na circulação dos comboios. Só no primeiro semestre deste ano, registaram-se 46 episódios de "doença súbita", que prejudicaram a pontualidade de 51 comboios num total de 209 minutos, avança a publicação.

De 2012 a outubro deste ano contabilizaram-se mais de 370 casos, dos quais 82 dentro dos comboios. E a maioria no período entre as 7:00 e as 10:00. Cada caso implica um atraso na ordem dos 20 ou 40 minutos, pelo que, além do comboio em causa, também os seguintes podem ser afetados em termos de pontualidade, o que tem consequências para milhares de passageiros - cada comboio tem capacidade para 1200 pessoas.
"Esta situação não é nova e já tivemos uma campanha mais genérica com várias mensagens, mas agora decidimos fazer esta mais focada na questão dos pequenos-almoços, nas boas práticas", disse à Lusa Raquel Santos, da Fertagus. A campanha passa por entregar folhetos às pessoas, cartazes e na próxima semana na distribuição de maçãs e em princípio iogurtes", explicou.
"As nossas conclusões são baseadas em relatos transmitidos pelas pessoas que, num primeiro momento, são assistidas pelos nossos colaboradores. Algumas revelaram que não tinham tomado pequeno-almoço ou que não comiam há muitas horas", disse.
Além de aconselhar os passageiros a tomarem o pequeno-almoço, a empresa aconselha-os a, em caso de indisposição, a não seguir viagem ou sair na estação seguinte.
A campanha pelo pequeno-almoço arrancou hoje com a colocação de cartazes nas estações e a distribuição de folhetos. Nos próximos dias haverá também a distribuição gratuita de maçãs e, em princípio, iogurtes no período da manhã.
A Fertagus serve atualmente 14 estações numa extensão de linha com cerca de 54 quilómetros. Dez na margem sul, a partir de Setúbal, e quatro na margem norte, até Roma-Areeiro, já em Lisboa.(Fim de citação)

Há alguma coisa de assustador nisto. De anacronismo, também. E poder-se-ia elucubrar profusos tratados antropológicos sobre o assunto. Mas vamos, antes, ao comezinho: 

Devemos presumir que estas «fraquezas súbitas», derivadas daquilo a que vulgarmente se chama fominha e verificando-se de um modo recorrente e não como mero fenómeno esporádico ou contenções alimentares para as passerelles, comprova AOS GRITOS, aquela evidência que não vê quem não quer ver: grande parte da população portuguesa não aufere rendimentos que lhe permitam, ao menos, sequer sobreviver. 

Depois, uma reflexão que me apoquenta: quem é a Fertagus para «aconselhar» comportamentos ao cidadão? Ainda para mais, comportamentos que implicam com a carteira do mesmo cidadão, quando praticam o tarifário que nos apresentam. 

Vejamos, um exemplo: ao efectuar uma investigação sumária (https://www.fertagus.pt/pt/viajar/fertagus# e Via Michelin), apura-se que um bilhete em tarifário simples, entre Lisboa e Setúbal, custa, pela Fertagus, 4,35 € (de estação a estação, fora o resto, claro: estacionamentos, local exacto de destino, etc.). Sabem Vocências quanto custa essa viagem em viatura própria, com portagens incluídas? Pois custa certa de 5,73 €. 

Digam-me lá, quais de Vocências, muito classe média baixa ou remediada que sejam, trocam o conforto óbvio da viatura numa viagem que cerca de 60 Km, pela diferença espantosa de 1,38 € (não contabilizando os restos de que acima se fala)… Isto se viajarem sozinhos, pois simples duas pessoas subvertem toda esta lógica, em favor da viatura própria. 

E quanto ao passe não vamos muito melhor. Passe que serve, fundamentalmente, para o bom povo trabalhador e ordeiro ou estudantada, que precisa de se deslocar entre as duas cidades, não para petiscar choco frito ou sardinha assada, mas para ganhar ou aprender o pão-nosso-de-cada-dia. 22 dias por mês, mais coisa, menos coisa 

A Fertagus, magnânima, cobra-lhe a «ridicularia» de 128,05 €, mas avisa não menos magnanimamente o seu utente, que esse passe, e cito, «permite a realização de um número ilimitado de viagens de comboio entre a estação de origem e a de destino para a qual o Título foi emitido. Válido por 31 dias a partir do carregamento/venda». 

Tudo isto é, sociologicamente, muito interessante. Estou a imaginar alguém do bom povo trabalhador a efectuar «viagens ilimitadas» pelo simples desfrute de viajar no comboio suburbano, para cá e para lá, dias a fio e várias vezes ao dia... 

E sendo «válido por 31 dias a partir do carregamento», para um tal cidadão obreiro isso significará, basicamente, que, de 9 a 11 dias por mês, será, em regra geral, pura perda para ele em favor da Fertagus… A não ser, claro, que seja um adepto fervoroso do choco frito e da sardinha assada e não guarde, para a sua degustação, feriados ou dias santos. 

Assim se poderá presumir que aquilo que a Fertagus embolsa com tal tarifário sobre o bom povo trabalhador há-de dar para comprar umas bolachinhas e, segundo parece, uns iogurtes, não para debelar a fome (o que nem lhe competirá…), mas para se precaver de atrasos, que são sempre uma maçada e um transtorno e dão má imagem à casa. 

Estaremos muito longe de uma parceria entre a Fertagus e a senhora dona Isabel Jonet com o seu «banco alimentar» e a caridadezinha aos molhos? Os Pingos Doces e os Continentes agradecerão, como sempre. Directamente da grande superfície para a estação ferroviária, sempre a engrandecer o País. 

Também se imaginará o futuro apelo da Fertagus ao utente mais remediado: «Já deu a sua bolachinha hoje ao seu companheiro de viagem? Bolachemo-nos, irmãos!»… 

E os bons espíritos irão para o céu que nem passarinhos – e sem carecerem sequer de passe social. 

Pelo caminho, falar das composições atulhadas de gente em horas de ponta, na desregulação permanente do ar condicionado, nas correrias entre comboios e autocarros em serviço da mesma Fertagus, na falta de pessoal de apoio nas estações, tudo não passa de argumentário irrelevante neste contexto. 

E a Fertagus ainda vai invocar as bolachas e os iogurtes como o sacrossanto e tão na moda «serviço social da empresa», abichando assim a complacência bonacheirona das entidades governativas e alguma complacência fiscal, também. 

O que haverá de mais certo é que, nestas exactas circunstâncias, a fominha aumentará e, se as coisas correrem bem, na mesma proporção em que aumentará o tarifário da Fertagus. 

Ele há, afinal, muita matéria, ainda, digna de uma reflexão por parte de quantas geringonças possam abençoar este País, para que o céu que possa existir esteja ao alcance de todos.

A grande questão que todas as fertagus, edpês, redes móveis e imóveis, águas, autarquias, etc., etc., etc. deste País podiam e deviam colocar-se não deveria ser antes: quanto é que podemos baixar os nossas tarifários para permitir alguma dignidade de vida para os nossos utentes, em vez de andarmos a brincar às bolachinhas caridosas, aos museus de espavento e ao foguetório geral em que andamos mergulhados?  

Desculpem lá a extensão da escrevinhação. Vou, entretanto, ali tomar o meu pequeno-almoço, enquanto ficam a pensar no assunto, e já volto...

outubro 13, 2016

Bob Dylan, Prémio Nobel da Literatura 2016...?!

Bem, eu aprecio bastante o moçoilo, mormente por quanto nos legou nas suas canções dos idos de 60 e de 70. 

O argumento justificativo da Academia, aliás, vai muito nesse sentido: for having created new poetic expressions within the great American song tradition, que é como quem diz por ter criado novas expressões poéticas na grande tradição da canção americana...

É de mim ou isto parece-me assim a modos que poucochinho?

De repente, ocorrem-me para cima de 475.322 nomes que, ao nível mundial, se notabilizam ou notabilizaram, na poesia, pela criação de «new poetic expressions», que é como quem diz novas expressões poéticas o que, por sinal, é coisa que distingue, geralmente, os poetas e não raros prosadores nos mais desvairados âmbitos e não apenas na «great American song tradition» que, como se sabe, é como quem diz a grande tradição da canção americana... 

Por esta senda, já algo confusa na atribuição dos nobelizados da Paz, não percamos a esperança de virmos a ter, com as devidas proporções mas inevitáveis equivalências, o Quim Barreiros também nobelizável, pelo seu contributo na criação de new poetic expressions within the great Portuguese song tradition, que é como quem diz novas expressões poéticas na grande tradição da canção portuguesa!

Nota complementar de esclarecimento: o Prémio Nobel não é atribuído postumamente, excepto em casos de morte recente relativamente à deliberação da entrega de determinado prémio. Essa circunstância reduz drasticamente os 475.322 nomes que refiro acima, mas ainda me sobram uns tantos milhares.

Claro que poderemos considerar que o José Carlos Ary dos Santos, por exemplo, quando ainda em vida - e já existia o Prémio Nobel para a Literatura... - com os seus 600 poemas musicados e os não musicados, teria sido, na óptica em presença, um caso a ponderar, obviamente que com outra pujança que o Quim Barreiros da pilhéria.

Mas entre tantos defensores e detractores do prémio agora atribuído e entre tantos autores invocados, curiosamente, mesmo entre autores do mesmo ofício, não ouvi ainda ninguém lembrar-se do Ary. E isso confunde-me, confesso.   

setembro 20, 2016

de Espanha nem bom vento... mas, felizmente, há enfermeiras!

Portugal acordou, hoje, estremunhado mas espantado e alegrete, pois que uma entidade internacional de renome, a saber, o Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE) julgou, por violação das normas comunitárias, a favor de uma senhora enfermeira espanhola que se encontrava a trabalhar, ilegalmente, com contratos a prazo sucessivamente renovados há cerca de quatro anos, no serviço de saúde de Madrid.  

O incómodo destas coisas é que, por vezes, até fazem jurisprudência…

A seitinha cá do burgo logo se espantou e, mesmo sem dar especiais ouvidos à coisa, já tive o ensejo de ouvir alguns comentários que encheram de contentamento a minha alma… quando não de alguma azia ou, até, malditos fados, de flatulência.

Para princípio de conversa, é sempre bom saber que «lá fora» alguém ajuda a resolver os problemas que temos «cá dentro» e para os quais nos vamos mantendo a assobiar distraidamente para o ar, haja bola e festivais.

Precariedade? Ah, pois é… Eu conheço alguns casos… ou tantos. Sim, sei lá, o meu filho, o meu sobrinho, aqui a vizinha, o Manelinho da Pacheca, coitadinho, que é tão bom menino e já com três mestrados e quatro pós-graduações e ali de caixa no supermercado… Olha lá, e não estás a lembrar-te do Tozé da Arminda, que só em vodafones e outras lojas de telefones já anda naquilo há mais de uma dúzia de anos… E aquela miúda estagiária da Playboy portuguesa, há três anos sem ganhar tostão, mas cheia de enriquecimento curricular…? E a Zeza, que estava já tão grávida quando a mandaram embora daquela repartição e meteram lá a irmã gémea, a fazer o mesmo, mas que não estava grávida…?

E diz quem aparenta saber e será de insuspeito parecer:

A precariedade laboral agravou-se nos últimos anos, trazendo para as ruas milhares de trabalhadores em protesto. Só no primeiro semestre deste ano, 80% dos contratos de trabalho assinados são precários, garante-nos Carlos Silva, secretário-geral da UGT.

E o que é isto, afinal, da precariedade? Nada mais do que uma «invenção» de chicos-espertos públicos e/ou privados, alegadamente para diminuição do custo final de qualquer artigo ou projecto, sempre através do corte na remuneração do trabalho, mas que voga, invariavelmente, na mais pantanosa ilegalidade.

As faces do truque são mais do que muitas pois é consabido sermos grandes no desenrasca. E isso também vale para os «empresários».

Sim, porque ele há leis (consta até que é o que há mais…) e dizem alguns que a sociedade dita ocidental se fundamente na existência do estado de direito, o qual só faz sentido se se cumprir, contrariando a lei da selva, que é, afinal, o que por aí campeia, em termos de mercado do trabalho.

Dizem-se coisas destas, mas pratica-se pouco ou nada e cada vez menos – não a lei da selva, claro, mas sim o estado de direito -, até por não haver qualquer espécie de mecanismos actuantes para o fazer funcionar, exercendo vigilância pelo cumprimento da lei e punindo os seus prevaricadores.

E, depois, claro, se o próprio estado pratica tal incumprimento, a par com os grandes empórios empresariais, porque é que o Zé-da-Esquina não haveria de o fazer? Ainda que este seja, muito provavelmente, mais depressa apanhado por ter admitido um aprendiz sem contrato e sem habilitações pelo único inspector do trabalho ainda sobrevivente, do que qualquer das tais outras grandes empresas por contarem, nos seus quadros não-efectivos, com várias centenas ou milhares de precários com licenciaturas e pós-graduações e tudo e tal.

Ora, claro que já ouvi, hoje mesmo, um advogado da área do Trabalho – especializado, com certeza – referir que isto é tudo muito bonito mas, cá em Portugal, há que se ser pragmático – que é uma coisa assim a modos que pornográfico, mas com outras incidências e conotações… – e, com certeza, aquela disposição do Tribunal de Justiça não será, por cá, de fácil (?) aplicação pois ele há a competitividade feroz com o estrangeiro e a indigência endémica e atávica dos empresários nacionais e, digo eu, até há esta corja de opinadores especializados em castrarem o tal estado de direito, mal surja uma nuvem menos branca no horizonte dos seus interesses.

Ser um advogado a dizer isto, publicamente, é estranho? Seria, até pela assunção implícita da subversão do direito. Mas isso interessa a alguém? A malta curva a cerviz, pobres e obrigados, que sempre valem mais 300 € por trabalho escravo do que euro nenhum…


Ainda bem que há enfermeiras espanholas! É que por cá já nem sei se existem, sequer, advogados portugueses.

setembro 14, 2016

entrada de leão, saída de sendeiro?

Carlos Alexandre por um triz se diz que é juiz... e não devia! 

Sim, eu sei que a cantiga não rezava assim, mas estas analogias ocorrem-me, que querem...? 

Afinal, a ser verdade o seu afastamento do «caso Sócrates», uma coisa me parece evidente: se ninguém atinava muito bem com as razões que terão levado o «saloio de Mação» a dar aquela abstrusíssima entrevista, talvez agora melhor se vislumbre a sua mais profunda motivação: dar de frosques da camisa de onze varas em que se encontrava atolado.

Ou alguém pensará que uma criatura com aquele grau de «domínio do conhecimento» seria capaz de cometer, leviana e ingenuamente,  tão leviana ingenuidade?

E talvez o processo ainda prossiga sem ele. Mas deverá prosseguir muito, muito devagarinho, como é habitual apanágio. 

E nada se apurará, como também é. O mais certo será, até, Sócrates exigir uma indemnização ao Estado, que somos nós, e sair por cima, filósofo e sorridente.  

Por outro lado, se o acto perpetrado alegadamente contra Sócrates penalizou, afinal, cirurgicamente o PS, o homem até terá desempenhado cabalmente o seu papel.

Teve mandantes? A História nos dirá... ou talvez não, para seguir, também, os parâmetros normais.

O que está feito, feito está. Nada se desmonta e tudo se toca para a frente, que para trás mija a burra e consta que o bicho está em vias de extinção.

E, assim, com papas e bolos se enganam os tolos. Pelo caminho, silenciam-se os cínicos. No entanto, ainda há, por exemplo, no facebook quem muito aplauda e defenda a criatura. Tal é a diversidade humana que nos enriquece. 

Não sei porquê mas ocorreu-me aquela velha canção do Serge Lama onde se dizia «je suis cocu mais content!»... A tradução encontra-se por aí, em qualquer consciência  mais avisada.

agosto 07, 2016

Epidemia de amnésia assola “Vestais”


Por João de Sousa, jornalista
Será a amnésia, a falta de vergonha ou o desespero a gerar esta agitação estival de chicana política dos radicais que controlam a direcção dos partidos da direita parlamentar e seus prosélitos nos órgãos de comunicação social que tutelam?
A clique ultra dos neo-liberais que se apoderou da direcção dos partidos representantes da direita no parlamento perdeu o contacto com a realidade. E, ou sofre de uma crise de amnésia aguda, o que seria grave, ou de uma falta de vergonha grave, o que seria agudo! Demagogia, mentiras, desinformação e terrorismo mediático parecem sobejar-lhes!
Nem sei por onde começar: estou dividido entre a probabilidade de me afundar num dos yellow submarines de Portas, como coisa real por fora, e a sensação de me perder no espaço com um dos mil cursos de técnicos aeroportuários ministrados pela empresa, ad hoc, Tecnoforma, como coisa real por dentro.
Das “privatizações” da EDP e da REN a favor do Estado Chinês (que, aparentemente, é uma entidade de direito privado), às brejeirices com a ANA. Das férias de Durão Barroso às viagens de Portas para “vender” a Mota-Engil – pagas pelo erário público – em Angola, na Venezuela e por aí adiante. Aos pequenos computadores da JP Sá Couto que eram má ideia quando Sócrates os divulgava fora de portas mas, num passe de magia, se tornaram um dos motores do crescimento das exportações quando vendidos por Portas… Do esquecimento de pagar a Segurança Social, do Passos, aos swaps assinados pela Maria Luís…
Quando me recordo que a secretaria de estado das Finanças, nas mãos do CDS, implementou um regime de protecção especial para os próprios inspectores acederem aos elementos contributivos de uma pequena lista de eleitos… quando me lembro, enfim, do Ministro Relvas e da sua Licenciatura circense por equivalências… das ausências inexplicáveis do ministro da Defesa às Sextas-Feiras… quando me assaltam a memória os “piegas”, os conselhos para emigrar, os assessores da treta – amigos dos partidos -, as mentiras diárias, os falhanços de metas trimestrais e as nefastas consequências que as medidas de austeridade resultantes do programa baseado em “ir além da troika”, a miséria, a devastação, as falências de empresas e famílias e as mortes que custaram… o retrocesso civilizacional, a destruição dos direitos dos trabalhadores e a desvalorização do factor de produção trabalho, a subserviência repulsiva em relação aos ditames da Sra. Merkel e da Comissão Europeia, sacrificando o próprio povo… não posso deixar de me perguntar: mas de que falam estes senhores quando falam dos três lugares num avião fretado pela GALP?
Que não haja confusões: eu considero a situação condenável. Mas é uma suprema hipocrisia a ênfase com que tais partidos, com hectares de telhados de vidro, atiram assim pedras ao telhadito do vizinho. E a sanha persecutória com que a líder do CDS, o presidente do grupo parlamentar deste partido e o franco-atirador do PSD, Fernando Negrão, atiram às feras os seus adversários políticos? Onde estava Fernando Negrão quando se tornou evidente que o Ministro Dr. Relvas era afinal o Ministro Sr. Relvas? Quando Durão Barroso viajou de férias para uma ilha exótica a convite de um magnata? E quando foi trabalhar para a Goldman Sachs?
Onde estavam ‪#‎Cristas‬ e Nuno quando o ex-líder do ‪#‎CDS‬ foi trabalhar para a companhia que mais vendeu enquanto vice-primeiro ministro?
E que dizer dos esforços patéticos para quebrar a coligação governamental através do assédio constante ao PCP e ao BE, confrontando-os com um “passado” e obrigações imaginários?
A hipocrisia da Imprensa do regime
Deixo de lado o lixo mediático. Concentro-me no órgão oficioso do ‪#‎PSD‬ – a ‪#‎SIC‬ e a ‪#‎SIC_notícias‬ – onde ainda ontem um “jornalista”, cujo nome desconheço, moralizava, prodigiosamente sem se rir, afirmando que jornalistas daquela casa tinham recusado convites do patrocinador por razões éticas… para quem sabe a verdade tal afirmação só pode provocar repulsa ou uma enorme risota.
Eu sou jornalista. Por razões associadas ao tamanho do mercado aceito regularmente convites de empresas para eventos jornalísticos internacionais. No meu sector quase sempre as comitivas integram elementos do Grupo a que pertence este canal de televisão. Convidados, como eu. Isso nunca influenciou o meu trabalho sobre essas companhias. Como acredito que não tenha influenciado, não muito pelo menos, o trabalho dos camaradas de outros meios com quem viajei.
A convite da Vodafone já estive num camarote do estádio do SLB com um jornalista da SIC N. Então e os almocinhos em restaurantes de luxo da rapaziada da Economia, pagos pelos bancos e pelas grandes companhias? Tiveram agora um ataque de Ética? Quem julga iludir o jornalista da “estação 760”, da cobertura paga de festivais comerciais disfarçada de informação, da publicidade encapotada nas telenovelas?
Grande lata!"
JOÃO DE SOUSA · 5 AGOSTO, 2016
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julho 29, 2016

o big pokébrother...

Somos, a cada passo, assaltados por uma onda de aparente palermice à qual aderem acriticamente e de imediato uma data de palermas. Por vezes tão insuspeitos (os palermas) que até podemos ser nós próprios... Aqui fica, em jeito de serviço público, uma das últimas estrondosas palermices, denunciada em texto cuja leitura muito se recomenda:

Retirado do Diário de Notícias on-line -

Pokémon Go é um passo para o totalitarismo? Oliver Stone acha que sim


Oliver Stone alerta para os riscos de fornecer os dados pessoais às grandes corporações em aplicações com o Pokémon Go.

O realizador americano criticou o jogo e os seus jogadores, que se dispõem a fornecer os seus dados a um sistema de "capitalismo de vigilância".

O Pokémon Go, o jogo da moda, é uma ferramenta de "capitalismo de vigilância" que abre caminho para uma sociedade totalitária. O alerta foi dado esta quinta-feira pelo realizador norte-americano Oliver Stone, na Comic-Con de San Diego.

O fenómeno em que se tornou este jogo para telemóveis "não tem graça", sendo uma forma de as grandes corporações conseguirem todos os dados privados dos indivíduos, numa forma de "capitalismo de vigilância", comentou o cineasta perante um painel de jovens.

"O que se vê é uma nova forma de, francamente, sociedade de robôs. É o que se chama de totalitarismo", acrescentou, citado pelo Los Angeles Times.

Stone está na convenção de cultura 'pop' de San Diego para promover o seu mais recente filme, "Snowden", sobre o ex-analista da Agência Nacional de Segurança (NSA na sigla inglesa) que foi responsável pela maior fuga de informações secretas da história americana.


Pokemon, o jogo que traz espiões para dentro de casa - entrevista a Oliver Stone:

por Sergey Kolyasnikov (@Zergulio)

Pode falar-me do "Pokemon Go"? 

Já dei três entrevistas sobre isso, de modo que agora tenho de me aprofundar nas fontes primárias. 
Programador do jogo: Niantic Labs. É uma start-up da Google. Os laços da Google com o Big Brother são bem conhecidos, mas irei um pouco mais fundo. 
A Niantic foi fundada por John Hanke, o qual fundou a Keyhole, Inc. – um projecto de mapeamento de superfícies cujos direitos foram comprados pela mesma Google e utilizados para criar o Google-Maps, o Google-Earth e o Google Streets. 
E agora, atenção, observe as mãos! A Keyhole, Inc. foi patrocinada por uma empresa de capital de risco chamada In-Q-Tel , que é uma fundação oficialmente da CIA estabelecida em 1999. 

As aplicações mencionadas acima resolvem desafios importantes: 
Actualização do mapeamento da superfície do planeta, incluindo estradas, bases [militares] e assim por diante. Outrora tais mapas eram considerados estratégicos e confidenciais. Os mapas civis continham erros propositais. 
Robots nos veículos da Google Streets olhavam tudo por toda a parte, mapeando nossas cidades, carros, caras... 

Mas havia um problema. Como espiar dentro dos nossos lares, porões, avenidas com árvores, quartéis, gabinetes do governo e assim por diante? 

Como resolver isso? O mesmo estabelecimento, Niantic Labs, divulgou um brinquedo genial que se propagou como um vírus, com a mais recente tecnologia da realidade virtual. 

Uma vez descarregada a aplicação e dadas as permissões adequadas (para acessar a câmara, microfone, giroscópio, GPS, dispositivos conectados, incluindo USB, etc) o seu telefone vibra de imediato, informando acerca da presença dos três primeiros pokemons! (Os três primeiros aparecem sempre de imediato e nas proximidades). 

O jogo exige que você dispare para todos os lados, atribuindo-lhe prémios pelo êxito e ao mesmo tempo obtendo uma foto da sala onde está localizado, incluindo as coordenadas e o ângulo do telefone. 

Parabéns! Acaba de registar imagens do seu apartamento! Preciso explicar mais? 

A propósito: ao instalar o jogo você concorda com os termos do mesmo. E não é coisa pouca. A Niantic adverte-o oficialmente: "Nós cooperamos com agências do governo e companhias privadas. Podemos revelar qualquer informação a seu respeito ou dos seus filhos...". Mas quem é que lê isso? 

E há o parágrafo 6: "Nosso programa não permite a opção "Do not track" ("Não me espie") do seu navegador". Por outras palavras – eles o espiam e o espiarão. 

Assim, além do mapeamento alegre e voluntário de tudo, outras oportunidades divertidas se apresentam. 

Por exemplo: se alguém quiser saber o que está a ser feito no edifício, digamos, do Parlamento? Telefones de dúzias de deputados, pessoal da limpeza, jornalistas vibram: "Pikachu está próximo!!!" E cidadãos felizes agarrarão seus smartphones, activarão câmaras, microfones, GPS, giroscópios... circulando no lugar, fitando o écran e enviando o vídeo através de ondas online... 

Bingo! O mundo mudou outra vez, o mundo está diferente. 

Bem vindo a uma nova era.

18/Julho/2016

· Mais de um milhão de downloads do Pokemon em Portugal

julho 18, 2016

«Como assaltar um banco sem ir preso» - António Pimpão

Recomendação: não tente seguir as sugestões que se seguem pois, se o fizer, não sendo banqueiro, arrisca-se a ser preso e a ficar com o nome manchado na praça.
Para a hipótese de ser banqueiro, indico a seguir, sem obedecer a uma ordem especial, alguns tópicos para juntar muito dinheiro subtraído ao banco. Posso assegurar que o assunto não envolve qualquer risco.
Ei-los:
1.º - Crie uma sociedade num paraíso fiscal e, através do banco, empreste-lhe uma quantia considerável (milhares de milhões), recebendo como garantia as ações dessa mesma sociedade. O dinheiro assim emprestado servirá para sacar o máximo em proveito próprio, para pagar favores a políticos ou administradores subservientes de sociedades associadas e pagar, por fora, as gratificações aos administradores e diretores do banco.
Claro que, sem qualquer atividade ou receita e despojada do dinheiro emprestado, a sociedade acabará por ir à falência. Neste caso, as ações dadas como garantia são executadas pelo banco mas, como a sociedade vale zero, a perda é total. Esta perda vai deduzir aos lucros do banco, baixando a sua matéria coletável e os impostos a pagar, pelo que, como se vê, o estado acaba por suportar cerca de 1/3 da perda/desvio.
2.º – Empreste uns milhões a um amigo de confiança (por exemplo, o Bibi) que, em contrapartida, lhe fará um donativo de uns milhões. Mesmo que a judiciária ou o ministério público venham a descobrir, não se preocupe: arranje um parecer de um catedrático de Coimbra a argumentar que se tratou de uma liberalidade do amigo em retribuição de conselhos em tão boa hora dados. Claro que o amigo nunca mais vai pagar o empréstimo mas o contencioso do banco também não vai mexer uma palha para tentar a cobrança. A perda assim sofrida pelo banco vai reduzir a sua matéria coletável e … (ver parte final do caso 1);
3.º – Intervenha como consultor do fornecedor estrangeiro de equipamento de defesa (por exemplo, de submarinos) e conduza as coisas para que o preço da adjudicação seja empolado por forma a comportar uma quantia que o referido fornecedor lhe pagará em comissões faturadas por uma empresa fictícia com sede num paraíso fiscal. A referida comissão será, depois, repartida entre os administradores, políticos e diretores, sem inclusão na declaração fiscal de qualquer destes beneficiários.
O que a seguir tem que fazer é exercer lobbying junto do governo para que aprove um Regime Especial de Regularização Tributária (RERT) em que, mediante o pagamento de 5% do dinheiro desviado, fica com ele bem lavado e sem o risco de lhe vir a ser imputado qualquer crime. E nem precisa de repatriar o dinheiro desviado. Com a vantagem de este RERT dar cobertura a qualquer das modalidades utilizadas para desviar o dinheiro para offshores.
4.º – Faça empréstimos sem medida nem controlo a um banco participado com sede nas antigas colónias (por exemplo, Angola). Está assegurado que nem o banco de Angola nem o banco de Portugal exercerão qualquer supervisão ou criarão obstáculos. Esse dinheiro será depois emprestado, sem garantias nem registo de quem são os seus beneficiários (entre os quais se encontrará, necessária e maioritariamente, @ amig@). Para lançar poeira nos olhos dos auditores, o governo angolano subscreverá uma garantia mas, chegada a hora, essa garantia será recusada, sem protestos dos acionistas, do banco de Portugal ou do governo.
5.º - Proceda à emissão, através do seu banco, de obrigações subscritas por empresas do grupo falidas. Logo a seguir, venda-as prontamente essas obrigações a uma financeira manhosa mas de confiança, sedeada por exemplo na Suíça, por um preço consideravelmente inferior àquele a que as mesmas obrigações serão a seguir colocadas por esta financeira em clientes naturalmente incautos, através dos balcões do próprio banco (a intervenção da financeira serviu apenas para desnatar, para formalizar o desvio). Esta financeira com sede na Suiça, não sujeita a auditoria, ficará, sem mexer uma palha - pois todas as transações foram faz de conta -, com o lucro correspondente ao referido diferencial, ficará com uma pequena parte para si, a título de comissão, e, o restante, ficará para @ amig@.
Esta operação acarretará, necessariamente, considerável prejuízo para o banco. Em condições normais, este prejuízo deduziria aos lucros da atividade bancária e faria com que o banco pagasse menos impostos; em condições anormais, e devido à convergência de vários problemas, provocará a falência do banco. Sem stress, pois a banca não pode ir à falência, por causa do tal risco sistémico, e alguém – o mexilhão - vai ser chamado a pagar.
Tem aqui, pois, 5 sugestões todas elas realistas e praticáveis (e praticadas!). Qualquer semelhança com a realidade não passa de pura coincidência.
Se, depois disto, ainda estiver preocupado sobre como encobrir ou lavar o dinheiro assim desviado é porque esteve desatento ao que foi sendo aqui dito. Ou me expliquei mal!
Como é bem de ver, tudo isto só é viável se for banqueiro pois, como vem nos livros, todo o banqueiro é pessoa séria e honrada, acima de quaisquer suspeitas. O que não tem admitido prova em contrário.

António Pimpão

julho 12, 2016

sigamos o cherne

O Zé lá vai para a Goldman Sachs, como consultor e presidente não executivo. Para evitar alguma intempestiva perturbação cardíaca, eu nem quis apurar quanto lhe irão pagar. Mas que esta gentalha paga bem aos seus moços de fretes é, uma vez mais, uma evidência.

Mas como o que me faz falar é também a inveja por essa choruda maquia que este epinephelus irá receber, ocorreu-me o bom do O'Neill, na sua recomendação poética:

- Todos atrás dele, para a Goldman Sachs! Sigamos o cherne!


E, a acompanhar a bela caricatura do Nelson Santos, aqui vos deixo o poema do Alexandre O'Neill - que tem algo de premonitório, se virmos bem... 

SIGAMOS O CHERNE

Sigamos o cherne, minha amiga!
Desçamos ao fundo do desejo
Atrás de muito mais que a fantasia
E aceitemos, até, do cherne um beijo,
Senão já com amor, com alegria...

Em cada um de nós circula o cherne,
Quase sempre mentido e olvidado.
Em água silenciosa de passado 
Circula o cherne: traído
Peixe recalcado...

Sigamos, pois, o cherne, antes que venha,
Já morto, boiar ao lume de água,
Nos olhos rasos de água,
Quando, mentido o cherne a vida inteira,
Não somos mais que solidão e mágoa...

Alexandre O’Neill

julho 11, 2016

10 de Julho com pernas para andar, correr, saltar e etc.!

- Patrícia Mamona - medalha de ouro no triplo salto 
nos Campeonatos da Europa de Atletismo 2016, em Amsterdão, 
(fotografia obtida em: https://www.publico.pt/desporto/noticia/)

Sara Moreira - medalha de ouro na meia maratona
 nos Campeonatos da Europa de Atletismo 2016, em Amsterdão.  
Jessica Augusto conquistou, nesta mesma prova, a medalha de bronze.
(fotografia obtida em: https://www.publico.pt/desporto/noticia/)

 A Selecção Portuguesa de Futebol sagrou-se Campeã da Europa
no Stade de France, em Paris, a jogar na final contra a Selecção Francesa.
 (fotografia obtida em: http://www.dn.pt/desporto/euro-2016/)

Algumas notas, mesmo só para dizer alguma coisa:

1 . No final do jogo, a Torre Eiffel não se iluminou com as cores de Portugal, ao contrário do que ocorrera em jogos anteriores, relativamente a equipas vencedoras. A Torre Eiffel deve estar a funcionar às ordens de Wolfgang Schäuble, o que não indicia nada de bom para os franceses...

2. Confirma-se que algum frio holandês relativamente a Portugal não tem incidência especial nas pernas das atletas portuguesas.

3. Congratulemo-nos pela França que, ao contrário do que dizem alguns maus-pensadores quanto ao racismo que por lá proliferará, apresentou uma selecção de futebol que quase poderíamos chamar megrebina, o que é sempre um sinal de grandeza e largueza de vistas.

4. Esperemos que a euforia que, muito legitimamente, nos inunda os corações, potencie muito rapidamente uma substancial diminuição da taxa de desemprego, acompanhada de céleres medidas de regulamentação do mercado do trabalho e melhoria geral da condição de vida dos cidadãos portugueses mais carenciados.

E, já agora, VIVA PORTUGAL!

junho 08, 2016

«Caixa... é Caixa» - António Pimpão

De há uns tempos a esta parte que a comunicação social, alinhada com o governo, vem plantando notícias sobre a necessidade de capitalizar a CGD, sendo a EU apresentada como o mau da fita, por não consentir que o estado intervenha para capitalizar empresas públicas, por isso constituir uma forma de as subsidiar.
Finalmente – e como seria de esperar, pois já estamos suficientemente anestesiados com essas sucessivas notícias – a mesma comunicação social adianta que “Bruxelas dá luz verde a linhas gerais da recapitalização da CGD”.
Ora, iniciar a discussão deste assunto a partir da constatação da necessidade de a CGD ter que ser capitalizada é mistificador, pois se está, dessa forma, a passar uma borracha sobre as causas que conduziram a esta situação.
Não questiono que a CGD esteja descapitalizada e que, face à necessidade de cumprir determinados rácios e, até, por razões prudenciais, precise urgentemente de ver reforçados os seus capitais próprios, via aumento do capital social, que só o estado pode fazer por ser o seu único acionista.
Mas o que me causa indignação e mal estar é pensar nas causas que sistemática e convergentemente têm conduzido ao empobrecimento do banco, sem que qualquer dos gestores ou algum dos membros do governo acionista seja responsabilizado pelo estado a que isto chegou.
A CGD é o banco mais estatista, mais rígido, menos amistoso e mais caro do sistema bancário nacional. É o que, por um lado, cobra comissões mais elevadas e, por outro, o que mais colabora e facilita a vida aos grandes empresários, a quem sempre vem servindo de bengala, sendo, por isso, forte com os fracos e fraco com os fortes.
A CGD tem 19 administradores, todos eles muito bem remunerados. Para quê tanta gente a mandar? Mas o mais grave é que, quando abandonam a administração, independentemente do tempo em que exerceram funções, passam a auferir uma pensão de reforma igual ao seu vencimento, que é suportada pelo fundo de pensões, ou seja, pela própria Caixa (lembro a polémica a respeito da pensão de reforma de Mira Amaral, cujo direito foi adquirido ao fim de um ano de administrador).
As administrações da CGD não chegam a aquecer o lugar, não me lembrando de que algum dos seus membros tenha sido reconduzido. Em consequência, nestes 40 anos de democracia já devem ter por ali passado cerca de 300 administradores, todos eles a receber ainda opíparas pensões de reforma.
Os trabalhadores da CGD (e também os do Banco de Portugal) reformam-se aos 60 anos, contra 65 nos restantes bancos e atividades.
Apesar das elevadas comissões e taxas de juro que cobra, a CGD há 5 anos que tem vindo a apresentar elevados prejuízos. Esses prejuízos refletem más decisões tomadas pela administração e pelos diretores, pelo que são inexplicáveis e inaceitáveis as remunerações e demais regalias de que beneficiam, sem que seja feita qualquer avaliação do seu desempenho. E, depois, cá estamos nós, os contribuintes e acionistas, para cobrir as falhas, sem poder fazer perguntas sobre o assunto, pois outros decidem por nós.
Desta vez, serão cerca de 4 mil milhões de euros, que é uma pipa de massa, que o estado vai aplicar na CGD, às nossas custas. Esta quantia não é determinada nem vai servir para expandir o negócio; serve, sim, para tapar o buraco aberto pelos descomunais prejuízos dos últimos anos.
A parte substancial dessas perdas resulta de imparidades, ou seja, de não conseguir recuperar empréstimos que realizou no passado ou aplicações que fez em empresas de duvidosa rentabilidade, uma vez que tem estado sempre disponível para apoiar uma classe empresarial descapitalizada quando se trata de comprar, como parceiro financiador, algumas dessas empresas, que, depois, acaba por vender na altura em que começam a ser rentáveis, assim abdicando, a favor dos parceiros, das correspondentes mais-valias (vide Cimpor, Brisa, Compal e PT, além dos empresários Berardo, Fino e outros de cariz mais especulativo)
Como diriam os ingleses: “Who cares?!!!”

António Pimpão