novembro 29, 2006

Falácia matemática

A matemática (álgebra e geometria) não está imune a falácias.
O matemático grego Euclides escreveu um livro sobre este tema (chamar-se-ia "Pseudaria", isto é, Livro de Falácias, segundo Proclus e "Pseudographemata" segundo Efésio) que, infelizmente, não chegou aos nossos dias.
O exemplo mais comum de falácia matemática é a «prova» que se segue de que 1 = 2.
Seja a = b. Então:

O passo incorrecto é o (4), em que é feita uma divisão por zero (a - b = 0), operação não permitida em operações algébricas.
Raciocínios falaciosos idênticos podem ser usados para «mostrar» que qualquer número é igual a outro número.

Fonte: MathWorld

novembro 28, 2006

"num país em que ninguém cumpre horários isto da mudança de hora até devia passar despercebido"

Eis mais dois contributos para a discussão da mudança de hora. Desta vez, em registo humorístico. Continuem a mandar, que é sempre hora.
"No inverno tem de anoitecer mais cedo porque o frio ataca e os pecados fazem-se sempre ao anoitecer e antes de jantar («atrasei-me porque tive um expediente para acabar» ou «atrasei-me porque tive de passar na mercearia») e em qualquer banco de trás de um automóvel todos os gatos são pardos.
Claro que as empresas lucram com isso a nível de consumo de energia e por vezes mais uns minutos que se dão, para desculpar o atraso da chegada à creche buscar os putos, ou a chegada a casa (o patrão pode provar que saí mais tarde do que o habitual), mas isto de atrasar a hora leva as pessoas a deitarem-se mais cedo, sem dúvida.
Na hora de verão é uma chatice. Só se tivermos vidros foscos no automóvel! E o calor leva-nos a deitar mais tarde porque ao anoitecer é que se cruzam os fluidos, os suores e os chatos. Cá para mim isto tudo tem mão do Freud ou do Marquês de Sade, que só estavam bem de pau feito e tiveram de inventar isto das mudanças de horários para aproveitar momentos próprios do pecado. Isto penso eu, porque as justificações científicas, rotativas e translativas estou-me a vir para elas...
Se assim não fosse, o que seria deste mundo?
Dentes"


"Como todos os anos vens à carga com o raio da mudança da hora levas com o meu comentário.
Mas que raio de mal é que te fez o raio da mudança da hora, c'um raio d'um caneco?
Num homem que escreve livros de persuacção e se diz pronto para a mudança e etc., ao fim de uns milhares de anos de gramarmos com o dia com 24 horas aparece um inteligente que põe, pelo menos uma vez no ano, um dia com 25H e outro com 23H e que tudo somado nem altera nada, vem logo um iluminado dum economista, aqui del-rei que me estragaram o dia?!... Sinceramente!...
Também mereces um louvor, porque num país em que ninguém cumpre horários isto da mudança de hora até devia passar despercebido.
Diogo"

novembro 15, 2006

O triângulo milagroso

Afinal a matemática é mesmo uma batata?!
Recebi há dias um desafio interessante: "como se pode ver nesta imagem, o triângulo de cima é decomposto em quatro figuras. Rearranjando-as (no triângulo de baixo), elas ocupam a mesma área mas... sobra um quadradinho vazio".
Clique se quiser aumentar a imagem
Milagre?!
A matemática é uma batata?!
Claro que não. Temos aqui uma bela falácia. É que o que nos dizem que é um triângulo... não é! Se fosse, a hipotenusa seria um segmento de recta. E, nesse caso, os ângulos Alfa e Beta (que assinalei na figura de cima) teriam a mesma inclinação. Mas façam as contas:

  • tg Alfa = 3/8 = 0,375. Ou seja, o ângulo Alfa mede 21º.

  • tg Beta = 2/5 = 0,4. Ou seja, o ângulo Beta mede 22º.
Se ligarem os extremos do triângulo, o que parece a hipotenusa reparte-se afinal em dois segmentos de recta de inclinações diferentes. Quase não se nota... pelo que é muito fácil cair-se na esparrela.
Assim, a área do quadradinho vazio no «triângulo» de baixo corresponde à área que falta ao que seria um verdadeiro triângulo de cima mais a área que o «triângulo» de baixo tem a mais em relação à hipotenusa de um verdadeiro triângulo.
É bom continuar a saber que a matemática não é uma batata!

Entretanto, agradeço ao meu primo Nuno, que me mandou este link para uma página de matemática onde se apresenta um exemplo idêntico do que chamam «falácia da dissecção»:

"Uma falácia de dissecção é um paradoxo aparente que surge quando duas figuras planas com diferentes áreas parecem ser compstas pelo mesmo conjunto finito de partes. Para produzir esta ilusão, as peças devem ser cortadas e reagrupadas de forma a que a parte em falta ou excedente fique escondida por imperfeições de forma minúsculas e negligenciáveis. Um exemplo claro e revelador pode ser construido cortando um quadrado de 8 x 8 da forma apresentada na figura da esquerda:
Clique se quiser aumentar a imagem
As figuras do meio e do centro parecem demonstrar que as mesmas peças podem dar origem a dois diferentes polígonos, com áreas de 5 x 13 = 65 e 2 (5 x 6) + 3 = 63, respectivamente. Isto implicaria que 63 = 64 = 65!
Clique se quiser aumentar a imagem
No entanto, uma observação mais atenta aos lados inclinados das peças trapezoidais e triangular mostram que elas não podem ser alinhadas como se fez nas ilustrações de cima. De facto, são diagonais de dois rectângulos não idênticos, de dimensões 2 x 5 e 3 x 8, respectivamente, pelo que têm diferentes inclinações. Mas as diferenças entre os rácios ( 2/5=0,4 e 3/8=0,375) é tão pequena que nem se consegue aperceber visualmente.
Note-se que a dissecção neste exemplo cortou o quadrado 8 x 8 na proporção 5:3. A ilusão ainda se torna mais eficaz se os números 3, 5 e 8 forem substituídos por um trio de
números de Fibonacci maiores e consecutivos."

novembro 09, 2006

Chegou... a hora!


Mudança de hora - um caso de argumentação

O prometido é devido: aí está a página sobre a mudança de hora que fica a aguardar as vossas colaborações para irmos construindo uma argumentação racional* sobre a mudança de hora (hora de verão / hora de inverno).
Para já, estão disponíveis o enquadramento histórico, dados e alguns testemunhos.
Mandem-me contributos que eu agradeço.

* Para quem não está a par dos conceitos ligados à argumentação racional, sugiro a leitura do meu livro «Persuacção - o que não se aprende nos cursos de gestão».

novembro 07, 2006

Ainda a mudança de hora

Mais alguns comentários recebidos sobre a polémica da mudança de hora. Mandem semprem, que neste caso nunca chegam atrasados ;-)

"Eu vou ser prática. Não sou contra nem a favor destas mudanças. É basicamente conforme me convém...
Se não muda a hora, já me pesa de manhã ter que me levantar com as galinhas. Se ainda por cima está escuro e tenho que andar a tropeçar nelas, fico desorientada; e para quem tem crianças, ouvir uma birra «a meio da noite» deve ser mais dramático que quando o sol já brilha; por outro lado, o dia fica mais comprido e em vez de de me ir enfiar em casa com o feeling que o serão já começou, ainda me dá para uma comprita ou outra ou para um fim de tarde numa simpática esplanada a ver o sol a pôr-se no rio.
Se muda a hora, acordo sem me lembrar de galinhas, desperto mais bem disposta com o sol matinal e parece-me que a primavera não chegou a ir embora; por outro lado, ao cair da tarde, escurece cedo e quando se chega a casa, em vez das compras ou do fim de tarde na esplanada, entra-se no aconchego do nosso lar sempre com a sensação que lá falta uma árvore de Natal ou um bocadinho de neve a emoldurar a porta...
Há apenas, para mim, uma verdadeira vantagem, mesmo que momentânea com estas trocas e baldrocas: a magnífica sensação da mudança da hora de inverno para a de verão: de um dia para o outro a vida fica mais colorida; mas depressa me habituo e me «moldo» à mudança. Ele há coisas boas e más, pois há, pois há... mas a verdade é que depende sempre do meu estado de espírito...
Maria

P.S. Em todo este comentário parto do princípio que vai estar sempre um lindo dia de sol, (o que aliás até é frequente neste nosso Portugal) porque quando chove, who cares?..."

"Ainda bem que atrasaram a hora. Agora anoitece mais cedo o que me permite beber umas canecas durante mais tempo! :D
Brinco! Boa questão; as razões emocionais deram lugar às económicas por uma questão de razoabilidade. Acho que esta medida é também importante para as crianças, que assim passam a ter um dia mais longo, pois levantam-se e deitam-se cedo.
João Mãos de Tesoura"

Mudança de hora - comentários de há alguns meses atrás

Mais comentários recebidos - neste caso quando lancei este debate em Março deste ano - sobre a hora de Verão/hora de Inverno. Agradeço que continuem a enviar as vossas opiniões.

"É um assunto que acompanho há muitos anos... e que não tem nenhuma base científica.
Se se recordar, o sr. Cavaco, nos seus tempos de primeiro-ministro, decretou que o fuso horário de Portugal era o da Alemanha para que as trocas comerciais fossem incrementadas e para que a hora de fecho das bolsas fosse o mesmo - um argumento que, de tão cretino, não merece mais comentários.
Por favor não esquecer que vários países vivem e convivem com horas diferentes dentro do próprio país.
A mudança de hora tem a ver, simplesmente, com uma coisa a que os tecnocratas chamam de controle social e que visa condicionar as populações abrangidas.
luikki@iol.pt"

"Pois, pois... e eu lembro-me bem que na anterior mudança de hora mudei os relógios todos da empresa e tive chatices porque alguns PCs se passaram e o pior foi ter-me esquecido de acertar o relógio do telemóvel. Eram 4h da manhã, uns dias depois, e eu preparado para sair para o trabalho, quando só devia às 5h :)
Cruxe"

"O que se ganha em poupança (dizem...) perde-se em produtividade!Anda tudo com sono e com desconforto até se adaptarem!
Alcaide"

"Eu já trabalhei em turnos rotativos e tinha de alterar o meu ciclo de descanso de 8 em 8 dias. Assim, esta discussão por causa de 1 hora de diferença e ainda por cima durante o fim-de-semana em que a maior parte das pessoas está a descansar, só dá para rir.
taz - no
BloGotinha"
Grande lógica, taz. Que tal mudarmos também a hora por turnos? Assim, o pessoal que trabalha por turnos entra e sai sempre à mesma hora... :-P
PM

"Mudar o horário da comida e da dormida aos bebés não é fácil e causa transtornos, nisso estamos de acordo. E já agora que dizer de mudar a hora da extracção do leite dos animais? Se pensarmos bem, há aqui pano para mangas. Quanto à economia de energia são tretas: o que se ganha de um lado gasta-se de outro e vice-versa, se não pensem bem e tirem conclusões.No final e feito o balanço que ganhamos no assunto? Nada... e perdemos muito.Quanto à hora do fuso horário já é outra história.
José Palma - no blog
Praça da República"

"Eu devo confessar que estas mudanças institucionais me são sempre muito perturbadoras. Das Instituições espera-se estabilidade, ordenamento e respiração desentupida, para que o bom do cidadão saiba com o que conta e - lá está! - a quantas anda. Quando as Instituições nos dão a volta ao texto, o cidadão perturba-se, o artista desequilibra-se e a vida, sem essa rede protectora, vê a margem de risco agravada. As questões curiosas e laterais - como a da poupança energética, etc. - só têm relevância no Canadá, na Finlândia e ali assim junto a Badajoz. Cá no burgo essa questão é despicienda pois, qualquer que seja a hora do dia ou da noite, os edifícios todos se engalanam com miríades de luzes acesas por defeitos vários e incontornáveis na concepção dos mesmos. Claro que esta circunstância tem um chamado efeito colateral benéfico (para alguns). Vide os lucros anunciados pela "Eléctrica" nacional...
Por outro lado, ainda que não irrelevante, interessa que o ser humano seja capaz de sentir o pulsar da Terra e, com ela, das estações do ano. Elas trazem-nos, por sua vez, à oscilação progressiva dos ciclos dia-noite, com todo o encanto que tal possa representar para todos, com especial incidência no namoro e outras actividades pecaminosas. Para quê, então, destruir mais esse mistério, através da amálgama globalizada dos horários? É uma maldade! E é contra-natura! E o vexame por que passam os pais, já cotas, à rasca para actualizarem a parafernália de electrodomésticos espalhados pela casa, tudo com reloginhos a piscar, perante o ar de gozo dos putos, esparramados de riso pela gritante dificuldade dos progenitores, às voltas com os respectivos livrinhos de instruções? É assim que pode desautorizar-se uma hierarquia, essa é que é essa!
Diz o Paulo - e com muita ciência - que os bebés, esses ainda em estado de pureza, não condescendem com estas alterações... o que leva tantos pais a terem de mudar as fraldas extemporaneamente cagadas já dentro do carro, quando poderiam estar a cumprir a rotina de as substituirem em casa, logo depois do pequeno almoço e a caminho de uma reunião com a gerência da firma. Nã! Se me fosse dado votar, eu também votava contra a mudança da hora!
OrCa"

Um agradecimento especial ao Nikonman e à Gotinha que divulgaram este debate nos seus blogs.

outubro 30, 2006

Mudança da hora - a favor ou contra?

Estes foram os primeiros comentários recebidos. Envie-me também a sua opinião para jpcpmoura@gmail.com ou comente no final deste post. Estou a construir uma página com as ideias mais relevantes relacionadas com a mudança de hora. A sua opinião conta. Não se atrase :-)

"Num país como o nosso só razões económicas justificam a mudança da hora!" Rafael
E a minha questão é precisamente essa: se as razões económicas se devem sobrepor, nestes casos, às razões do bem estar das pessoas. Eu sou claramente adepto do primado do bem estar.
PM

"Não sei se sei responder ao teu desafio... Toda a vida me sujeitei a esta dança da mudança da hora e sempre tal me desagradou.
Os argumentos que já ouvi invocados não colhem e, nos tempos em que estamos, ainda colhem menos do que há alguns anos atrás.
Adequação ao «ritmo» da restante Europa? Então como negociaríamos com o Japão? Ou como sobreviveriam os Açores, coitados, com a diferença permanente da hora?
Aproveitar a luz do dia para economizar energia? Tretas, pois o resultado prático, no nosso país até parece ser o contrário.
Agora que essa mudança perturba o meu equilíbrio psicossomático e até metabólico, disso não tenho dúvidas.
Por outro lado, com a «síndrome do dia seguinte», amanhã [dia 30, primeiro dia da hora de Inverno] tenho por certo que metade dos compromissos vão enfermar de «desfasamento temporal» por distracção. E nesta metade, grande parte é constituída por aqueles a quem até deu jeito a desculpa...
Pois é assim: tenho cá para mim que este diktat civilizacional não faz sentido nenhum e deve ser apenas alimentado por algum organismo constituído por seniores a quem se esqueceram de avisar das outras mudanças do mundo.
Tudo isto, claro, sem perceber nada do assunto e, portanto, como soe dizer-se, salvo melhor opinião.
Um grande abraço."
OrCa
Estamos ambos a olhar para esta história como bois para um palácio (e, se somos bois, outros serão burros?!...)
PM

"Sou completamente contra a mudança de hora e não é de hoje. Portanto, a desculpa não é por estar a ficar cota e deixar de me habituar às mudanças.
Cada pessoa tem um bio-ritmo i.e. não estamos sempre bem humorados ou cheios de energia o tempo todo desde que acordamos até que nos deitamos. Há umas curvas que oscilam entre picos de energia e baixas de energia. Há pessoas que funcionam melhor de manhã, outras à tarde e há ainda quem trabalhe melhor à noite.
A mudança de hora vai transtornar este bio-ritmo duas vezes por ano. Temos que reorganizar o cérebro e o corpo de forma a mudar a hora de acordar e deitar, o que nem sempre é fácil, como por exemplo, para as pessoas que sofrem de insónias e têm ordens do médico para se deitarem à mesma hora. Ganhar ritmos estáveis de sono. A mudança de horário vai perturbar este ritmo.
Outro motivo por que sou contra é a hora das refeições. Temos que habituar o estômago a comer mais cedo 1h ou mais tarde. Também vai transtornar a nossa saúde.
Relativamente à mudança de horário de inverno, toda a gente sabe que depois do Verão muita gente sofre duma espécie de depressão pós-férias e passar de repente de ser noite às 19h para as 17h ainda deprime mais as pessoas.
Depois, continuo a não entender em que parte se poupa energia se às 16h30 em dias de muita chuva já não se enxerga nada dentro dos edifícios. Poupa-se em quê? Penso que o Governo e a EDP é que ganham em se gastar mais energia com o acender precoce das luzes!
Outro motivo por que não concordo com a mudança de horário é que acendendo mais cedo as luzes gasta-se mais energia e consequentemente poluimos mais o ar, o que vai fazer aumentar o buraco da camada do ozono, aumentar o aquecimento global do planeta, fazer subir o nível das águas, etc. etc.
E pronto, aposto que se procurasse outras razões ainda encontraria algumas mas o comentário já vai longo.
Beijinhos, Paulo. Espero ter contribuido para a discussão :)"

Jacky
Ainda bem que a mudança de hora não te retirou nadinha da tua capacidade intelectual, Jacky. Um beijo também para ti.
PM

outubro 28, 2006

Mudança da Hora - uma bela ideia ou uma chatice?

No dia 29 de Outubro tem início o período de Hora de Inverno. Assim, às 2h00 do dia 29 (madrugada de domingo), os relógios são atrasados de 60 minutos.

Desde sempre esta temática da mudança da hora (hora de Verão / hora de Inverno) me despertou muita curiosidade. Pessoalmente, penso que traz mais inconvenientes que vantagens. Mas o facto é que, se existe muita documentação sobre este tema, principalmente anglo-saxónica (procurem estudos sobre «DST - Daylight Saving Time»), não encontro nenhuma página em português que trate esta problemática com a abrangência que permita uma avaliação racional do problema.
Sabe os argumentos que levam ao procedimento de mudança de hora? Eu não. E é um tema interessantíssimo para estudar no âmbito da argumentação racional. É o que vou tentar fazer (com a vossa ajuda e participação): com base numa estrutura argumentativa, recolher dados, justificações, restrições, fundamentos e refutações, de forma a que possamos chegar a conclusões (com qualificadores e excepções) por nós próprios, de forma racional.
Vamos a isso?

Publicidade ambígua

A publicidade é uma forma de argumentação que tenta persuadir o receptor a comprar um bem ou a utilizar um serviço.
Há casos pontuais de publicidade em que se usa uma imagem e/ou frase ambíguas para despertar a curiosidade (normalmente seguida pelo esclarecimento do que se pretende transmitir. Mas fora essas excepções, publicidade não deve rimar com ambiguidade.
Os logotipos (de empresas ou produtos), como são uma «cara» que se mantém - espera-se sempre - por bastante tempo, devem por isso ser escolhidos com especial cuidado.
Um exemplo de logotipo que se presta a ambiguidades é este, de um restaurante em Janeiro de Cima (perto do Fundão):
É restaurante Fiado ou restaurante Fado? Penso que seja restaurante Fiado, mas a extensão do que deverá ser o «i» confunde a leitura. Isto é agravado no caso deste anúncio, porque até está a promover «noites de fado».

agosto 13, 2006

O comboio da linha da Beira Baixa

O Bruno Silva alerta-nos que "por vezes estamos condicionados por determinadas crenças e paradigmas sobre os quais não temos qualquer base de sustentação.Abordando esta temática, deixo um link com um texto humorado que demonstra, de uma forma simples, como muitas vezes surgem paradigmas que originam comportamentos que por vezes nem sabemos qual a sua razão de ser".

As pessoas que trabalham comigo, quando acontece algo do género - que é bem mais frequente do que possa parecer à primeira vista - dizem logo:
- Já sabemos! É a história do comboio da linha da Beira Baixa!

Descrevi essa história no meu livro, a respeito do argumentum ad antiquitatem (apelo à tradição ou apelo ao passado) - «sempre foi assim...», que pode ser uma forma passiva ou manifesta de obstáculos à mudança. Uso sempre como exemplo desta variante de falácia a «história da linha de comboio da Beira Baixa»: O comboio que durante muitos anos parava em Alcaria, uma pequena aldeia da Beira Baixa, durante largos minutos, mais do que nas estações das cidades de Castelo Branco e Covilhã. Quando o professor da terra questionou ao chefe da estação de caminhos-de-ferro a causa disso, soube passadas umas semanas que isso se devia ao facto de Alcaria se localizar exactamente a meio do trajecto da linha da Beira Baixa, ponto estratégico para a máquina a vapor se reabastecer de água. Só que há muitos anos atrás que as locomotivas a vapor tinham deixado de ser utilizadas nesta linha! Mas os horários continuavam a ser feitos com base naqueles que existiam no tempo dos comboios a vapor. De facto, como alerta Bolton, “se as pessoas não forem capazes de ver como as suas acções presentes são conduzidas pelas suas percepções, que são criadas pelas suas experiências passadas, então serão incapazes de criar um futuro distinto”. Obviamente, este argumento pode ser apresentado pela negativa: «nunca foi assim (... porque há-de ser agora?!)»

agosto 12, 2006

Emoção e razão

"Alguns conseguem argumentar de forma racional naturalmente. Reuniões com pessoas assim são sempre mais produtivas e menos estressantes. Mas você já percebeu que na maioria das vezes aquela idéia genial, a salvação da lavoura vem justamente da pessoa que não faz isso naturalmente. Estou falando daquele que age no ímpeto da emoção, mas aprendeu a se controlar e encontrou um ponto de equilíbrio nas duas formas de ser. :)
Abraço do
Beto"

Concordo plenamente, Beto: argumentação racional sem emoção é potencialmente muito perigosa. É sempre bom assumir uma componente emocional. Desde que se salvaguarde que não se usam as emoções de forma falaciosa, anti-racional.

agosto 10, 2006

Bom verão e boas férias para todos!


"Estimado Paulo Moura,

É para, mais uma vez, felicitá-lo pelo seu livro «Persuacção». Como sabe, li-o no ano passado. Ao fim de um ano, começo a sentir os efeitos da leitura. Já começo a interagir com os colegas perguntando de que premissas partem para a conclusão que apresentam. De facto, a maior parte da nossa argumentação é falaciosa porque quando argumentamos, argumentamos a quente, à luz das experiências e dos valores de cada um. É difícil pararmos para pensar e ter o cuidado de apresentar um argumento forte. Bom, é esta a minha opinião.

Bom Verão e Boas Férias.
Emanuel Pinho"
(recebido por e-mail)

E é também a minha opinião. Tudo seria bem diferente - para melhor, julgo eu - se todos se preocupassem em argumentar de forma racional.

julho 05, 2006

Gestão no Reino Animal

(Recebido por e-mail. Se alguém souber o autor, agradeço que me informe)

Todos os dias, a formiga chegava cedo à oficina e desatava a trabalhar. Produzia e era feliz.
O gerente, o leão, estranhou que a formiga trabalhasse sem supervisão.
Se ela produzia tanto sem supervisão, melhor seria ser supervisionada?
E contratou uma barata, que tinha muita experiência como supervisora e fazia belíssimos relatórios.
A primeira preocupação da barata foi a de estabelecer um horário para entrada e saída da formiga.
De seguida, a barata precisou de uma secretária para a ajudar a preparar os relatórios e contratou uma aranha que além do mais, organizava os arquivos e controlava as ligações telefónicas.
O leão ficou encantado com os relatórios da barata e pediu também gráficos com índices de produção e análise de tendências, que eram mostrados em reuniões específicas para o efeito.
Foi então que a barata comprou um computador e uma impressora laser e admitiu a mosca para gerir o departamento de informática.
A formiga, de produtiva e feliz, passou a lamentar-se com todo aquele universo de papéis e reuniões que lhe consumiam o tempo!
O leão concluiu que era o momento de criar a função de gestor para a área onde a formiga operária trabalhava. O cargo foi dado a uma cigarra, cuja primeira medida foi comprar uma carpete e uma cadeira ortopédica para o seu gabinete.
A nova gestora, a cigarra, precisou ainda de computador e de uma assistente (que trouxe do seu anterior emprego) para ajudá-la na preparação de um plano estratégico de optimização do trabalho e no controlo do orçamento para a área onde trabalhava a formiga, que já não cantarolava mais e cada dia se mostrava mais enfadada.
Foi nessa altura que a cigarra convenceu o gerente, o leão, da necessidade de fazer um estudo climático do ambiente.
Ao considerar as disponibilidades, o leão deu-se conta de que a Unidade em que a formiga trabalhava já não rendia como antes; e contratou a coruja, uma prestigiada consultora, muito famosa, para que fizesse um diagnóstico e sugerisse soluções.
A coruja permaneceu três meses nos escritórios e fez um extenso relatório, em vários volumes, que concluía:
"Há muita gente nesta empresa".
O leão despediu a formiga, porque "andava muito desmotivada e aborrecida".

junho 21, 2006

Empreender - por Henrique Plöger Abreu*

"Outrora fomos uma potência mundial, um país que tomou a iniciativa e o rumo do seu destino nas Suas mãos.
Temos um legado e uma tradição de empreendedores a preservar. No passado descobrimos o mundo, contra todas as adversidades.
Hoje, em Portugal, estamos sempre à espera de que venha alguém superior (chefe, politico) com as directrizes ou um plano de actuação que tenhamos de seguir.
Não se toma a iniciativa, o espírito empreendedor e a tomada de riscos não são incentivados nas universidades, escolas e em grande parte das empresas. Tem tudo a ver, na minha opinião, com a qualidade de líderes que estamos a formar na nossa sociedade.
Um verdadeiro líder pode não ter a autoridade formal para recompensar ou punir boas/más prestações, mas as pessoas que o rodeiam reconhecem nele uma verdadeira autoridade ao satisfazer os seus pedidos, ou seja, se devidamente motivados os colaboradores tomam a iniciativa sem que seja necessário andar a puxar pelos galões.
Nas organizações inovadoras e modernas, as pessoas - que são o motor do desenvolvimento das empresas - assumem a autoridade apenas e só através do sucesso alcançado em anteriores iniciativas.
A questão vital nesta nova teoria de gestão é a de que os colaboradores seguem um líder porque é essa a sua livre vontade e não porque o têm de fazer.
É essa a motivação que os faz ir para além do trabalho necessário e esperado, ou seja, o de ir sempre um pouco mais além daquilo que lhes é exigido e que acaba por fazer a diferença, com entusiasmo, motivação e paixão.
O Marechal da Prússia Helmuth von Moltke (1800 - 1891) estabeleceu a elaboração de directrizes aos seus oficiais em vez de ordens.
Moltke pretendeu desenvolver o empreendedorismo nas suas fileiras ao motivar os oficiais prussianos a tomas decisões por iniciativa própria.
Os grandes empreendedores criam uma cultura empresarial na qual a sua visão e valores são vividos por colaboradores que pensam de uma forma independente.
Hans Hinterhuber e Wolfgang Popp elaboraram para a HBR um artigo em que, partindo da análise de Moltke, sugeriram que os empreendedores e gestores, à semelhança de atletas de alta competição (exemplos: Michael Schumacher ou Tiger Woods) para se tornarem campeões necessitam de muito treino e trabalho contínuo, com a finalidade de desenvolverem competências pessoais a fim de melhorarem as Suas aptidões naturais. Hinterhuber e Popp criaram um questionário que pode ajudar um gestor a medir a Sua competência de liderança e gestão estratégica.
Aqui estão descriminadas as questões que servirão de base para uma análise introspectiva de cada um de nós.:

1. Tem uma visão empreendedora sobre o futuro da Sua empresa/departamento?
2. Está consciente da filosofia da empresa e do papel que desempenha nela?
3. Sente que os seus produtos, serviços ou marca oferecem ao seu cliente um claro benefício e à sua empresa uma vantagem competitiva sobre os seus concorrentes?
4. As pessoas que dependem de si hierarquicamente agem de uma forma independente e de acordo com os objectivos da empresa, sem uma dose exagerada de supervisão da Sua parte?
5. O seu departamento/empresa reflecte a Sua própria visão?

6. Envolve os Seus subordinados no planeamento estratégico?
7. Os valores corporativos da sua empresa/departamento estão alinhados com esse planeamento estratégico?

8. Observa atentamente os seus concorrentes de mercado e tenta aprender algo de novo com eles?
9. É da opinião de que o seu sucesso se deve ao seu trabalho árduo e não à sorte?
10. Está a tentar deixar o mundo num local melhor do que aquele que é no presente?

Henrique Plöger Abreu"
* publicado originalmente no blog do Fórum de Reflexão Económica e Social

junho 06, 2006

A lógica é-nos familiar

"Já acabei de ler o «Persuacção» (só agora tive descanso dos estudos).
Gostei bastante! Para mim, valeu pela sistematização de algo que me era algo familiar, mas perfeitamente abstracto. Por exemplo, a aplicação da lógica sempre me foi familiar, mas nunca a «analisei» formalmente...
MN"

Tiveste a mesma sensação a ler o «Persuacção» que eu tive a escrevê-lo: são conceitos com que estamos familiarizados mas ao mesmo tempo nunca os sistematizámos...

maio 04, 2006

Jóias da argumentação - «eu sou o presidente da Junta»

"Ouvido da boca de um director, a afirmação de que, a haver limitações na dimensão das mailboxes, os directores deveriam ter mais espaço, já que usam e precisam mais do e-mail que os restantes funcionários..."
Visitante devidamente identificado

Nada é Simplex nas empresas públicas e privadas - por Jorge Castro

"Lamentavelmente, estou em crer que para este «mal» não há, em Portugal, empresas públicas ou privadas.
Trata-se de uma questão cultural, se quisermos, que define uma atitude.
Numa empresa pública, como numa privada, atribui-se um computador topo de gama a um director, por exemplo, não porque seja necessário ou, sequer, porque esse director domine as técnicas, mas sim porque é um director, logo, «merece» mais do que os seus subordinados.
É esta «lógica» que subverte as relações laborais, nas perspectivas de competências e de eficácias, torcendo-as para o espúrio lado do status... que não levam as empresas a lado nenhum que não seja o da falência.
A diferença, aqui, entre público e privado, é apenas esta: no privado, a fonte seca e a empresa fecha, depois de atribuídos os Ferraris aos respectivos donos; nas empresas públicas, a fonte não seca, não se atribuem Ferraris, mas os Mercedes e os Jaguares e os BMW têm a sua quota de venda permanentemente assegurada.
E, assim, Portugal terá a melhor frota automóvel da Europa em circulação nas piores estradas da Europa.
Como se vê, nem tudo é mau!
Concluindo raciocínios, já de si intermináveis:
- As estradas serão, em média, as piores da Europa, mas a gasolina é das mais caras... e as portagens, também... e a electricidade, também... e o gás também... e a água também... e a saúde também... e a internet também... e valerá a pena continuar?...
Apenas porque uma escassa minoria de umas centenas de milhar (que parecem muitos, mas não são!) se permite estabelecer padrões de vida, sem rei nem roque, dos quais são os únicos beneficiários, numa lógica autista que determina, afinal, as vivências de muitos milhões.
Não é assim? Bem, por estas razões, a que se aliam convenientes e cúmplices fechar-de-olhos a elementares regras de concorrência e, até, de legalidade democrática, é que um IKEA - privadíssimo - quando aparece em Portugal apresenta os preços mais elevados de toda a sua cadeia europeia, num país com a média de salários (per capita) mais baixa da Europa.
Estratégia estúpida? Claro que não. Em Roma, sê romano. À falta de controlo generalizado, é um fartar vilanagem. E a malta lá vai pagando.
Nos intervalos, vai quase tudo aos jogos de futebol e compra os jornais «desportivos» para se manter informado acerca da arte de se tornar num imbecil sem dor, mas com muita anestesia.

Jorge Castro"

abril 25, 2006

O Simplex visto pelo Jorge Castro

"Vivendo eu - profissionalmente falando - numa grande empresa dita privada, mas onde a tutela do Estado se faz sentir, não como regulador e vigilante do interesse público mas mais como reflexo de pressões clientelares que desconhecem a razão e que a razão desconhece, sigo com atenção este interessante «debate» sobre o Simplex...
Creio, até, que haverá uma unanimidade nacional quanto à necessidade de abater o fardo que a burocracia doentia representa nas nossas vidas. Mas poderemos dar crédito aos nossos governantes?
Nestas questões, para além da questão da «atitude» a tomar, há, na verdade, a questão da liderança e, nela, o importante vector do exemplo dado por essa liderança.
Se vos disser que, na «minha» empresa, constituída juridicamente em 1994, conto até à data com a nomeação de 18 (dezoito!!!) gestores, integrando 7 (sete!!!) elencos de gestão, o que direis quanto à possibilidade prática de colocar no terreno o que quer que seja de sustentável?
E mais: onde é que estão os responsáveis pelas más políticas ou pelas más práticas? - Ao fim de um ou dois anitos, já tudo se escafedeu... e quem vier atrás que apague a luz!
Para não me alongar muito, direi apenas - com uma «boca» talvez um pouco anarca - que acreditarei no Simplex e nos «simplexes» todos quando vir um gestor bater com os costados na barra do tribunal por gestão danosa ou lesiva dos interesses nacionais (e quantos há nestas condições!...). O que verificámos todos os dias? - Salto de poleiro e airosa pancadinha nas costas.
E curiosamente esta lógica vale para as empresas públicas como para as privadas.
Até à tal fase do tribunal e sem cinismo exagerado, vejo, ouço e leio. Quando algo é posto no terreno, nem me dá para acreditar...
Tudo isto é deveras complicado. Mas tomemos um exemplo comesinho: faz sentido equipar informaticamente as brigadas da polícia se não há verbas para os coletes de protecção? Ah, pois, serão coisas paralelas e uma pode ir sem a outra. Talvez... mas eu cá não subscrevo.
Outro: Faz sentido aumentar as taxas moderadoras na saúde antes de efectuar um levantamento exaustivo dos recursos efectuados nos últimos dez anos, por tudo o que é governante ou acólito, neste país? Talvez desvendássemos impensáveis compadrios, a custo zero para os próprios, mas que saem do bolso do povinho, apenas na lógica de que devemos fazer o favorzinho ao sr. ministro... E a arte de saber cair em graça continua a render mais do que a de ser engraçado.
É que, nestas matérias e neste país, interessa saber sempre quem é padrinho ou afilhado de quem, o que geralmente desvirtua, logo à nascença, o projecto mais bem intencionado.
A começar por algum lado, interessava recomeçar a ouvir falar-se de concursos públicos transparentes, por exemplo. E avaliações publicadas e publicitadas.
Porque a questão fundamental coloca-se ao nível da credibilidade dos agentes. Mas ela apenas é sustentada pela capacidade que o comum cidadão tenha de poder exercer um magistério de controlo e, até, de promoção de responsabilização, quando for o caso.
E, sem credibilidade, o bom do Zé Povinho lá fica a fazer manguitos, dizendo que «cantas bem mas não me alegras», enquanto tenta cinicamente safar-se nas economias paralelas.
Se me é permitido o vernáculo, há em tudo isto uma enorme falta de tomates, sobrando-nos esta calda pantanosa do compadrio que nos tolhe os movimentos.
Não sou céptico. Tenho-me mais na conta de realista. Por isso sou optimista em relação ao Simplex. Mas atento, pois conto já muitos anos de enganos e outros tantos de desenganos!

Jorge Castro"

abril 24, 2006

Ainda o Complex... digo, Simplex

A propósito do programa Simplex, Mário Nogueira recorreu à Wikipedia para relembrar a lei de Parkinson: "According to Parkinson, this is motivated by two forces: (1) «An official wants to multiply subordinates, not rivals» and (2) «Officials make work for each other». He also noted that the total of those employed inside a bureaucracy rose by 5-7% per year «irrespective of any variation in the amount of work (if any) to be done»."
Conclui Mário Nogueira:
"Ou seja, a tendência «natural» é para tornar tudo mais complexo. Outro aspecto que gostava de assinalar: desburocratizar não é passar formulários de papel para formulários na net. É mudar os processos internos. Claro que o informatizar dos serviços contribui para uma melhor relação com os «clientes», mas a burocracia continua lá".
Tens toda a razão. Mas, se leres o artigo e a entrevista na íntegra, concluis que a Maria Manuel Leitão Marques diz precisamente o mesmo que tu. E no capítulo do meu livro sobre resistência à mudança refiro precisamente esse aspecto, comum a todas as organizações mas que aumenta exponencialmente nos organismos públicos, onde as chefias (políticas e técnicas) são rotativas. É que onde há mais de um chefe, não há chefia. Digo-to eu. E tenho a cada dia que passa mais certeza nessa ideia.