dezembro 08, 2008

Quando não há argumentação racional que valha...

... até uma classe normalmente desunida se une. Esse mérito ninguém tira a este governo.
Eu só não apareço nas fotos porque fui o fotógrafo.

Manifestação dos professores em Coimbra no dia 28 de Novembro de 2008









novembro 14, 2008

Deixa cá ver se isto pega...

Aprendi no liceu (sim, sim, já não se usa) que as árvores durante o dia libertam oxigénio e à noite libertam dióxido de carbono.
Ou seja, como diria o já saudoso George Bush, as árvores são boas de dia mas más à noite.
Logo, por que não se cortam todas as árvores ao fim do dia e não são replantadas de manhã?

Não sei se esta ideia pega, mas já houve algo parecido que pegou mesmo:
Benjamin Franklin (1706-1790) escreveu um artigo humorístico para o «Journal de Paris em 26 de Abril de 1784 (quando já tinha 78 anos) com o título «Um projecto económico». Franklin queixa-se de os parisienses se levantarem tarde, já pelo meio dia. Ironicamente, assegura aos leitores que o Sol se levanta muito mais cedo, diz tê-lo visto com os seus próprios olhos... Sugere que a hora mude e que no Verão a vida comece 60 minutos mais cedo. Faz algumas contas e diz que Paris poderá assim poupar anualmente 32 mil toneladas de cera de vela.

Mais sobre a mudança de hora aqui.

Troféus Ovos de Ouro


São tantos os candidatos na área da Educação que tenho de fazer uma selecção dos mais fresquinhos (não quero problemas com a ASAE).
Estes troféus não são atribuídos e sim atirados... mas devagarinho, para o colo do Ministério da Educação.


Ovo "uau!"


Maria de Lurdes Rodrigues ontem - "Uma parte da burocratização [do trabalho dos professores] pode ter sido induzida pelo Ministério"




Ovo de Economia Doméstica

para José Sócrates e Maria de Lurdes Rodrigues, ex-aequo

Professora - É preciso comprarmos folhas de papel e tinteiros para a impressora.
Marido de professora - Mas ainda há pouco tempo comprei. Gastamos tanto dinheiro com coisas que deveria ser a escola a suportar...
Professora - Deixa estar. O que gastamos nisto, poupamos por não podermos sair de casa à noite, durante a semana, nem nos fins de semana, por eu ter de trabalhar para as papeladas da escola, para contactar os meus colegas para esclarecer pontos em que eles estão tão confusos como eu e para preparar as minhas aulas. Ah! E não vás trabalhar para o nosso computador que vou precisar de digitalizar documentos para a escola.


Ovo "OTL"

Pai de estudante do secundário - O teu professor de Geometria Descritiva já entregou o teste?
Estudante do secundário - Não, pai. Ele faltou nas duas últimas aulas. E os professores de substituição não entregam o teste, claro.
Pai de estudante do secundário - Então que têm feito nas aulas da substituição?
Estudante do secundário - O jogo da forca, por equipas.

novembro 13, 2008

Que raio de pedido de desculpas!

"Peço desculpa aos senhores professores por ter provocado tanta desmotivação, mas é do interesse dos pais, alunos e escolas"
Maria de Lurdes Rodrigues, ontem, na Assembleia da República

Tal como eu, por vezes as minhas filhas fazem disparates.
E elas sabem que, se há coisa que me revolta, é quando elas pedem desculpa com uma entoação que dá a entender que é um frete o que estão a dizer.
E, mais ainda, quando após o pedido de desculpas ainda pioram mais as coisas colocando os pais no papel de maus da fita.
Maria de Lurdes Rodrigues, ontem, para pedir desculpas aos professores da forma como o fez, mais valia ter estado calada. Ou ela acha que os professores não têm autoridade moral para contestarem as políticas do ministério da Educação?!
É do interesse dos pais e dos alunos que os professores não tenham tempo para preparar aulas?!
É do interesse das escolas chular (a palavra mais adequada que encontro é esta) os professores, roubando-lhes (sim, é isso mesmo) tempo da sua vida pessoal e familiar?! Ou que nome se pode chamar a alegar que "tempo de reuniões não conta para o horário de trabalho"?! E continuando a "assobiar para o ar" para a falta de meios nas escolas que obrigam os professores a comprar as ferramentas e os consumíveis de que necessitam para trabalhar?!
Quando digo isto, levo muita porrada de colegas e amigos que não são professores nem estão casados com um exemplar desses, como eu. Mas em geral ficam calados quando lhes pergunto como seria se, nas empresas ou instituições onde trabalham, tivessem que comprar um computador portátil e andar com ele entre a casa e o trabalho porque o patrão só disponibilizava um computador cheio de vírus para mais de uma centena de trabalhadores... e tivessem que produzir e imprimir em casa (à noite e aos fins de semana) a documentação que produzissem para a organização, pagando tudo isso (tempo e dinheiro) dos seus orçamentos familiares. Devia ser bonito, devia...

novembro 01, 2008

Mensagem nunca fora de horas

"Meu caro, sabes bem que estou solidário contigo no combate contra esta aberração de natureza. Claro que entendo o teu colega quando diz que só assina para a próxima. Era o que mais faltava raparem-nos agora mais uma horita de sono, neste tempo de crise instalada. Ainda que receie que se o Sócrates fizer as contas, venha a eliminar a mudança da hora desde que algum assessor lhe assegure que o rapinanço representará 0,0001% no cômputo do défice...
O que eu te posso assegurar, pela minha parte, é que a alvorada, cá por casa, se está a fazer às seis da manhã, acompanhando o nosso bio-ritmo, que o pobre (do bio-ritmo, entenda-se) já não está em idade de fazer adaptações tão violentas de seis em seis meses.
E assim me é sonegado, de uma forma ou de outra, o dia de 24 horas. Para nós passaram a ter 25 horas.
À meia-noite ainda só tenho o sono das 23 horas, mas acordo às seis porque o meu corpo me informa de que já são sete. É uma confusão do caraças!
Um abraço, sem horas.
OrCa"

outubro 26, 2008

Argumento «genial» contra a mudança de hora

Pois... mudou a hora mais uma vez.
Um amigo meu cantou-me hoje esta canção infantil:
"Vai mudar a hora...nhã,nhã,nhã,nhã,nhã,nhã!
Vai mudar a hora... nhã,nhã,nhã,nhã,nhã,nhã!"


Um colega meu disse-me anteontem: "Só assino uma petição que tu faças para acabar com as mudanças de hora depois desta de Outubro. Agora está quietinho que eu quero recuperar a hora que me tiraram antes do Verão".

O Mário Nogueira enviou-me este recorte de um jornal que, pela cidade do leitor (Albury) e pela referência à CSIRO, deduzo que seja australiano:
Tradução livre:
"A causa da seca clara como o dia

Quando era criança nunca tivemos seca após seca.
Entretanto começou o horário de verão. Até começou com um pouquinho mas agora temos horário de verão durante seis meses do ano.
Tornou-se demasiado para o meio ambiente aguentar.
É tão lógico: durante seis meses do ano temos uma hora extra por dia de tardes quentes.
Li algures que os estudos científicos tinham demonstrado que actualmente há muito menos humidade na atmosfera, o que significa que temos menos chuva.
Eu acho que é esta hora extra de sol que lentamente evapora toda a humidade de tudo.
Porque é que o governo não pode pôr a CSIRO a fazer estudos sobre esta matéria, ou melhor ainda, a acabar com a hora de verão?
Eles têm que fazer algo antes que seja tarde demais.
Chris Hill
Albury"


Com amigos assim, quem precisa de inimigos?

Argumentação parabancária

(excertos de uma carta que circula pela internet, alegadamente enviada ao BES por autor não identificado)

"Exmos. Senhores Administradores do BES

Gostaria de saber se os senhores aceitariam pagar uma taxa, uma pequena taxa mensal, pela existência da padaria na esquina da v/. Rua, ou pela existência do posto de gasolina ou da farmácia ou da tabacaria, ou de qualquer outro desses serviços indispensáveis ao nosso dia-a-dia.
Funcionaria desta forma: todos os senhores e todos os usuários pagariam uma pequena taxa para a manutenção dos serviços (padaria, farmácia, mecânico, tabacaria, frutaria, etc.). Uma taxa que não garantiria nenhum direito extraordinário ao utilizador. Serviria apenas para enriquecer os proprietários sob a alegação de que serviria para manter um serviço de alta qualidade ou para amortizar investimentos. Por qualquer outro produto adquirido (um pão, um remédio, uns litros de combustível, etc.) o usuário pagaria os preços de mercado ou, dependendo do produto, até ligeiramente acima do preço de mercado.
Que tal?
Pois, ontem saí do BES com a certeza que os senhores concordariam com tais taxas. Por uma questão de equidade e honestidade. A minha certeza deriva de um raciocínio simples.
Vamos imaginar a seguinte situação: eu vou à padaria para comprar um pão. O padeiro atende-me muito gentilmente, vende o pão e cobra o serviço de embrulhar ou ensacar o pão, assim como todo e qualquer outro serviço. Além disso impõe 'taxas de'. Uma 'taxa de acesso ao pão', outra 'taxa por guardar pão quente' e ainda uma 'taxa de abertura da padaria'. Tudo com muita cordialidade e muito profissionalismo, claro.
Fazendo uma comparação que talvez os padeiros não concordem, foi o que ocorreu comigo no meu Banco.
Financiei um carro, ou seja, comprei um produto do negócio bancário. Os senhores cobram-me preços de mercado, assim como o padeiro me cobra o preço de mercado pelo pão. Entretanto, de forma diferente do padeiro, os senhores não se satisfazem cobrando-me apenas pelo produto que adquiri. Para ter acesso ao produto do v/. negócio, os senhores cobram-me uma 'taxa de abertura de crédito' - equivalente àquela hipotética 'taxa de acesso ao pão', que os senhores certamente achariam um absurdo e se negariam a pagar. Não satisfeitos, para ter acesso ao pão, digo, ao financiamento, fui obrigado a abrir uma conta corrente no v/. Banco. Para que isso fosse possível, os senhores cobram-me uma 'taxa de abertura de conta'.
Como só é possível fazer negócios com os senhores depois de abrir uma conta, essa 'taxa de abertura de conta' assemelhar-se-ia a uma 'taxa de abertura de padaria', pois só é possível fazer negócios com o padeiro depois de abrir a padaria.
Antigamente os empréstimos bancários eram popularmente conhecidos como 'papagaios'. Para gerir o 'papagaio', alguns gerentes sem escrúpulos cobravam 'por fora' o que era devido. Fiquei com a impressão que o Banco resolveu antecipar-se aos gerentes sem escrúpulos. Agora, ao contrário de 'por fora' temos muitos 'por dentro'.
Pedi um extracto da minha conta - um único extracto no mês - os senhores cobram-me uma taxa de 1 EUR. Olhando o extracto, descobri uma outra taxa de 5 EUR 'para manutenção da conta' - semelhante àquela 'taxa de existência da padaria na esquina da rua'.
A surpresa não acabou. Descobri outra taxa de 25 EUR a cada trimestre - uma taxa para manter um limite especial que não me dá nenhum direito. Se eu utilizar o limite especial vou pagar os juros mais altos do mundo. Semelhante àquela 'taxa por guardar o pão quente'.
Mas os senhores são insaciáveis.
A prestável funcionária que me atendeu, entregou-me um desdobrável onde sou informado que me cobrarão taxas por todo e qualquer movimento que eu fizer.
Cordialmente, retribuindo tanta gentileza, gostaria de alertar que os senhores se devem ter esquecido de cobrar o ar que respirei enquanto estive nas instalações de v/. Banco.
Por favor, esclareçam-me uma dúvida: até agora não sei se comprei um financiamento ou se vendi a alma?
Depois de eu pagar as taxas correspondentes talvez os senhores me respondam informando, muito cordial e profissionalmente, que um serviço bancário é muito diferente de uma padaria. Que a v/. responsabilidade é muito grande, que existem inúmeras exigências legais, que os riscos do negócio são muito elevados, etc., etc., etc. e que apesar de lamentarem muito e de nada poderem fazer, tudo o que estão a cobrar está devidamente coberto pela lei, regulamentado e autorizado pelo Banco de Portugal. Sei disso, como sei também que existem seguros e garantias legais que protegem o v/. negócio de todo e qualquer risco. Presumo que os riscos de uma padaria, que não conta com o poder de influência dos senhores, talvez sejam muito mais elevados.
Sei que são legais, mas também sei que são imorais. Por mais que estejam protegidos pelas leis, tais taxas são uma imoralidade. O cartel algum dia vai acabar e cá estaremos depois para cobrar da mesma forma."

outubro 09, 2008

Economia paralela sempre é melhor que economia oblíqua!


A economia anda estúpida.
Não é que alguma vez tenha estado bem. Só que agora estão a vir alguns podres ao de cima. E não são nem serão todos!
Com esta aflição dos bancos e dos governos que os querem «salvar», lembro-me das várias vezes em que tive que negociar com bancos (e com o Estado e a Segurança Social, diga-se) a dívida de empresas em dificuldades, tentando torná-las viáveis e evitando o desemprego de muitas pessoas.
Por mais que me esforçasse nas negociações, interiormente senti sempre que não poderia exigir muito, já que o perdão de dívida é uma forma indirecta de prejudicar as empresas concorrentes que conseguem cumprir os seus compromissos.
Faliram já muitas fábricas que acompanhei de perto (profissional ou emocionalmente) - têxteis, confecções, cerâmicas,... - ao longo dos últimos anos.
As pessoas (por vezes famílias inteiras) que ficaram desempregadas tiveram que se fazer à vida noutras actividades, emigrando,...
"São as leis do mercado", diziam-nos.
Espero que estas mesmas leis do mercado se apliquem agora aos bancos. Pessoalmente, não estou disponível para premiar, com os impostos que pago, gestões ineficientes e danosas, se as houve. Nem os salários e benefícios principescos que se praticam nesse sector. Quem especulou, que assuma as consequências dos riscos que correu. «É a vida!»
Será pedir muito?!
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Entretanto, o Raim consegue dizer mais que eu (como é hábito), com um desenho:


Raim's blog

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Em tempo: li hoje uma notícia no «Expresso» com o título «O golpe de Estado financeiro na América». Nesse artigo, as origens do actual 'crash' são explicadas por uma ex-'insider' da Wall Street, Catherine Austin Fitts, que em 1990 foi demitida do Departamento da Habitação, depois de denunciar o sistema ligado ao escândalo financeiro das Savings & Loans.
Desse artigo, achei especialmente interessantes dois parágrafos (os destaques são meus):
"O sistema cresceu e consolidou-se porque beneficiou toda uma cultura americana de viver a débito e de enriquecer com rendas nos instrumentos 'tóxicos', nas bolsas ou na exportação de capitais. Os gloriosos trinta anos de esplendor económico da América com três 'bolhas' sucessivas (dos anos 1980, depois das 'dot-com' e, finalmente, do crédito hipotecário) alimentaram-se dessa criatividade."
"Alguns analistas designam este período (transitório) que temos pela frente de "capitalismo de regulação" ou "capitalismo colete de salvação" (life-jacket capitalism). "O pacote de salvação ataca um sintoma de curto prazo, para impedir deslindar-se as raízes do problema", frisa a conselheira de investimentos que dirige a Solari."

Só um cego não vê!

outubro 01, 2008

O argumento da força

Esta crise financeira e económica está a revelar o que eu e o meu colega de faculdade Alexandre dizemos há mais de 20 anos: a economia é como um «peido da avó» (tipo de cogumelo em que o chapéu está cheio de ar e, quando se pisa, liberta esse ar e micélio).


(clicar para aumentar ainda mais a crise)


Cartoon: Oliphant

setembro 14, 2008

Professores para toda a colher

Este texto do Mestre Dom OrCa, que tal como eu tem a dádiva de estar casado com uma professora, põe mais uns dedos em mais não sei quantas feridas (e não há dedos que cheguem) do ensino em Portugal:

"alguns disparates sobre o Ensino que me ocorrem ao ouvir tantos disparates sobre o Ensino...

Um professor do Ensino oficial deve ter, como qualquer profissional, as suas competências. Neste caso, perfeitamente definidas e parametrizadas pela entidade para a qual presta serviço: o Ministério da Educação.
Uma e outra vez, ano após ano, a pesada máquina burocrática do Estado exigiu que cada professor declarasse as suas habilitações académicas para aceder a concurso de uma área lectiva específica e limitadíssima, em termos das tais habilitações literárias, condição sine qua non para garantir acesso à arte nobre de ensinar através dos malfadados concursos.
Com os tempos muito «modernos e tecnológicos», que assumiram algum fulgor com a Dona Manuela mas bateram forte com a Dona Maria, surgiram novas «lógicas» e preceitos que tudo subverteram, mandando às urtigas o edifício caótico que era o ME... para criarem outro tão caótico como este.
E começa a ouvir-se falar, com insistência suspeita, de polivalências.
Para promoverem a «polivalência» do pessoal docente - «polivalência» intimamente associada a conceitos (discutíveis) da mais estreita economia de meios e poupança de recursos, a que se chama abusivamente «racionalização», entenda-se... - passaram a promover algo que recorda um daqueles falsos silogismos que faziam as nossas delícias nas aulas de Filosofia: uma mesa tem pés, quem tem pés, tem dedos; quem tem dedos, tem unhas; ora, como quem tem unhas, toca guitarra, nada impede que uma mesa toque guitarra.
E eis os professores, mais ou menos titulares, transformados em guitarristas...
Não terão mesa, que as condições de trabalho são parcas, quando não porcas. Mas têm cátedra e, como é sabido, as cátedras também têm pernas, e quem tem pernas, tem pés, etc., etc.
Com uma oferta ilimitada de licenciados, sem destino nem futuro, a criar uma base amorfa e acrítica de carne para o canhão deste experimentalismo duvidoso, o futuro apresenta-se radioso para os mentores destas bizarrias.
Assim, a nova «lógica» tende a aproveitar os professores não através dos conhecimentos que os enformam, mas tão só pelo facto de serem... professores, prontos para todo o serviço, leccionando não em função das suas competências, mas sim em função das «apetências» de entidades mais ou menos oficiais, mas estranhas, no geral, ao ambiente da própria escola.
O modo abstruso como a sociedade portuguesa «evolui» também propicia o acomodamento quase diria sorna dos pais a este estado de coisas: descarregam-se os putos na escola, lá pelas oito da matina, o que dá tempo para uma bica antes de picar o ponto, e levanta-se o produto lá para as dezanove horitas, a tempo do telejornal e da telenovela. E até já trazem os TPC feitos!
Mas isto vai!... Daqui a uns anitos, qualquer professor do ensino básico público (e privado), em Portugal, fará inveja ao Leonardo da Vinci, com a gama de competências de que estará imbuído. Algumas de que o próprio Leonardo nem sonharia, como o de carpinteiro de toscos, pintor de paredes ou empregado da limpeza...
Também dificilmente se encontrarão baby-sitters mais qualificados e por tão baixo preço.
Espero bem - eu que vou entrando na idade - que esta filosofia vingue em estabelecimentos de ensino para a terceira idade. Vamos todos para a escola, que eles lá tomam conta de nós.Vejam lá o que vamos poder poupar em lares!"

OrCa

Despesas profissionais dos professores


«a fachada» - HenriCartoon


Já escrevi tanto sobre a falta de meios dos professores...
Mas tudo está na mesma, pelo que continuo na mesma a escrever sobre isso.
Desta vez transcrevo aqui uma mensagem de uma professora para a Ministra da Educação sobre despesas profissionais e as apregoadas «facilidades»:
"Dicionário Editora da Língua Portuguesa 2009 - Acordo Ortográfico - € 40,41
O Acordo Ortográfico é uma inevitabilidade e enquanto professora vejo-me obrigada a adquirir não só este dicionário como gramáticas e prontuários actualizados.
Sra. Ministra, não deveriam os professores ter um subsídio?
Afinal de contas, não foi o nosso primeiro ministro que há dois dias afirmou que "o tempo das facilidades acabou"?! Fiquei a pensar: somos nós que pagamos as resmas de papel, os tinteiros, as pens, os computadores, os dossiers, os separadores, as micas, as canetas, os acetatos, os lápis, as borrachas, os dicionários, as gramáticas, etc... A ser assim, apetece-me retribuir-lhe a mesma frase dizendo que todos os professores é que lhe têm facilitado a vida e o orçamento de Estado, Sra. Ministra."
Gotinha

A minha mulher ainda não iniciou as aulas mas uma resma de folhas brancas A4 e um tinteiro de impressora já marcharam... a bem da Nação, como se dizia antigamente! Já para não falar da «Agenda do professor» e de todo o material que a Gotinha lista.

Adenda do OrCa, sempre a tempo:
"E as mensagens «de serviço» remetidas para a caixa do correio e para serem lidas em casa, provenientes dos Conselhos Executivos e de outros colegas? E a aquisição de material para motivação nas aulas? E a baba dos deficientes a lavar da roupagem, a bem da higiene de todos? E o risco na pintura do carro pelo 3 dado a quem queria 5 e merecia 1? E o processo disciplinar proposto por aquela mãe cujo filho levou uma lamira do professor quando se encontrava a estrangular alegremente um colega com metade do tamanho? E e e e e e e....."

Como já escrevi, se eu fosse professor exigiria tudo o que fossem os recursos necessários para a minha actividade. Mas nesta classe estão habituados a queixar-se e não a exigir os meios para cumprirem com os seus deveres. Assim, não vão longe... e os governos agradecem o que poupam à custa dos orçamentos familiares dos professores.

agosto 30, 2008

Memórias da nossa infância

O Jorge Castro, ou Mestre Dom OrCa, escreveu recentemente o livro «Farândola do Solstício - memórias de infância por terras de Miranda», editado pela Apenas Livros.


Mesmo não tendo sido a minha infância passada em Miranda e sim por trás da serra da Estrela, revi-me na maioria das aventuras do puto Jorge Castro e dos seus amigos, desde as actividades a que nos dedicávamos, os episódios engraçados, a companhia silenciosa mas firme dos rochedos de granito, os paus e câmaras de ar de que se faziam fisgas, o arco, as esferas, a primeira bicicleta (que também foi da marca Vilar, roda 20), os passaritos que se caçavam com pressão de ar ou com as aúdeas nos costis ("só quem nunca depenou os cinco gramas de um passarito é que não pode avaliar o frete em presença!" como bem resume o Jorge Castro), os peixes da ribeira que eram enormes quando tinham mais de sete centímetros, as batidas à fruta e às galinhas (no nosso caso tínhamos o Ernesto, batedor de hortas, pomares e galinheiros, que era o informador para as saídas nocturnas), o pavor do cemitério à noite, a piscina do ti'Vasco, os primeiros namoricos,...

Não resisto a transcrever aqui «Sabedorias - poema bilingue» (em português e mirandês) com que o Jorge Castro termina o livro. Soberbo, como são sempre os seus poemas:

"bibir en boca de lhobo
é uivo
quedar en rastro de lhiêbre
é caça
sentir filo de nabalha
é sangue
mercar las cuntas de bida
é fome
frenar la risa de l tiêmpo
é morte
preziar l aire desnudo
é vida
peinar l plaino camino
é obra
dourar l berde planalto
é sonho
bondar ser Fraga de l Puio
é sorte
sonar la gaita de fuôlhes
é festa
beilar al son de l pingacho
é grito
pintar la boç pelingrina
é vento
sonhar ser fuôlha de l'arble
é jogo
tamién ser águila en bolo
errante
al fin quisera ser tudo
não pude

al fin bolber a ser home
inteiro

sei mais mas bou cansadico de l die
sei mais
que num te-lo you digo"

O melhor elogio que posso fazer a este livro - que foi a minha leitura de férias - é que me desafia a, um dia, ter a mesma iniciativa do Jorge Castro e escrever as minhas memórias de infância de trás da Serra.
Para adquirir o livro «Farândola do Solstício», cujo preço de capa é de € 20, envie um e-mail para jc.orca@gmail.com.Aproveite e peça-lhe informações sobre os seus outros livros.
_________________________
E o OrCa mima-me tanto que eu sei lá...
"Não se mede a amizade
nem um gesto
ou um olhar
Mede-se o tempo que temos
mede-se o céu
e o mar
Mas não se mede a amizade
nem quem tem tanta p'ra dar!"

OrCa

agosto 15, 2008

Contra pseudo-factos, bons argumentos

O Pedro Laranjeira, mestre da comunicação social, da vida e da amizade, publicou em livro o seu trabalho de investigação sobre a origem de Cristóvão Colombo. «O Alentejano que descobriu a América - 1492 - a Viagem Épica do português Salvador Fernandes Zarco mais conhecido como Cristóvão Colombo» tem já uma segunda edição.
Baseado em dados sólidos ou, quando tal não é possível, em especulações devidamente fundamentadas e bem explicadas, o Pedro Laranjeira mostra como não terá sido possível que o italiano Cristophoro Columbo, tecelão genovês, fosse o navegador; clarifica o nome (Colon e não Colombo) e justifica-o como pseudónimo; apresenta o enquadramento político e geo-estratégico (sim, naquele tempo Portugal tinha uma estratégia!) e o plano que terá sido urdido por D. João II para enganar Espanha... com o auxílio de Colon. E que resultou no Tratado de Tordesilhas, que protegia os interesses portugueses na Índia... e no Brasil.
Tiro o chapéu (mesmo não usando) ao Pedro Laranjeira por conseguir sintetizar, em poucas páginas, esta tese que, para qualquer mente aberta à argumentação racional, deixará decerto pelo menos instalada a dúvida.
Como qualquer boa tese, estará aberta à polémica, a contra-argumentos e, não duvido, ao desprezo de quem acha incómoda a discussão sobre a verdade histórica.


O livro pode ser encomendado directamente ao autor (€ 8 incluindo já despesas e portes de envio) através deste formulário.
Boa malha, Pedro Laranjeira!

maio 24, 2008

A Décima Primeira Carta de Trás da Serra desta vez foi para mim

Escreveu-ma a minha queridíssima madrinha Natália, que vive agora em Unhais da Serra. É tão deliciosa que não resisto a transcrevê-la aqui. Perdoe-me, madrinha, mas seria uma pena que não houvesse a oportunidade de outras pessoas conhecerem o seu sentido de humor e as suas experiências de vida que tanto marcam a minha maneira de ser.

Riacho (Unhais da Serra) - foto de L.Ag"Carta das Unhas da Serra
para o querido Cruijff:

Bem hajas pelo mimo que me ofereceste. Gostei!
Puseste-me a rir e muito apreciei esse teu jeito de contar
o sério casado com bom humor e vivências saudosistas. São textos com sabor a coisa sã e genuína. (...)
Não desistas de intervir nesta sociedade perversa, mantendo a tua
independência e o teu bom humor.
Essa do
efeito do poder - ser visto e não ver - leva o meu voto para virar provérbio popular.
A questão dos ajustes das horas e do teu estômago desajustado trouxe-me à ideia a minha vivência de cinco anos (dos 25 aos 30) na aldeia de camponeses - Sto. António do Marmeleiro, onde tive a minha primeira escola como efectiva. Ninguém traumatizava relógios. Sabiam das horas pelo Sol e pelo estômago. Não havia crise. Também não faziam seguros de nada que tivessem. Qualquer desastre acontecido a alguém era prontamente resolvido pela comunidade. Assim aconteceu quando ardeu toda a casa, vacaria, currais e celeiro aos pais de três alunos meus. Logo foram acolhidos em casas de amigos e imediatamente todos iniciaram a reconstrução de tudo, revezando-se no trabalho que a todos tocou. No final, sobraram quinze contos (naquele tempo era dinheiro) e o bom do homem, já com tudo novo e animais todos novos, não queria aceitar tal dinheiro, alegando que devia ficar num banco para outra necessidade que surgisse. Mas teve de aceitar porque tinha sido pedido para ele. Gente verdadeiramente cristã que, a estas horas, de certo já está diferente pela força da vida.
Gostei de relembrar essas
vivências do Sr. Prof. Rogério com a pequenada. E o que é certo é que me fizeste voltar às minhas e deixo-te aqui algumas que me saltaram logo da memória já cansada.
Olha só:
Resposta de um rapazito (Sintra), num teste escrito, à pergunta:
- Como defender-nos dos perigos de quedas, na rua?
- É andarmos tão depressa, tão depressa, ó Senhora, tão depressa que os sapatos não têm tempo de escorregar.
Outro sintrense em redacção de tema livre, solicitada na sala de aula:
«Vou falar dos extraterrestres porque tenho pena deles. Eles fogem da gente porque vêem muitos automóveis e julgam que são animais devoradores. Coitados! Sabem construir discos mas ainda estão muito atrasados».
No ano de 51 a 52, na minha primeira escola, no Alvito da Beira, após a aula de religião. Pergunta:
- Rui, és capaz de contar-nos o que aconteceu a Jesus, quando saíu da última ceia com os apóstolos?
De olhos pregados no chão, o meu melhor aluno recusou-se a falar, com a cabeça pendida e como que envergonhado. À terceira insistência para que dissesse o que bem sabia, respondeu com voz sumida:
- Então... Jesus foi às oliveiras...
E agora esta redacção de uma aluna da 3ª classe de Sto. António do Marmeleiro, que até era inteligente mas que só escutava o que muito bem a motivasse. Pediu-me a Direcção Escolar para enviar redacções sobre o tema «Camões», para um concurso de todas as escolas do distrito. Lá me dispus a colaborar naquele crime de falar aos meus pastorinhos (quase todos) de duas ou três cabrinhas, do nosso Vate.
A Isaura, miúda muito despachada, saíu-se com esta:
«Camões era um homem bom que que foi rei de Portugal, mas ele tinha muitos inimigos que foram dizer mal dele àquele que mandava, e logo o mandaram de castigo para a Espanha e os reis de Espanha deram-lhe cabo de um olho. Aospois ele já andava muito chateiado e veio-se imbora da Espanha prafora, mas no caminho afundou-se».
E remato com esta de um espertalhão (Sintra) que geralmente arranjava maneira de se safar de perguntas "indiscretas" para a sua sabedoria.
Pergunta em teste escrito:
«Que diferença existe entre estes sinais de matemática?»
Resposta: «É que o sinal mais ainda não está cansado».
Tu é que já estás cansado de ler, se é que arranjarás tempo para ler de um fôlego.
(...) Só lamento que
os cem mil abraços não tenham sido todos consumidos. Aos professores, falta-lhes o metal para comprar jornais e ainda mais o tempo de lê-los.
(...) Deixo-te para que siga hoje a carta.
Beijinhos e abraços para serem consumidos por todos Vós.
Bem hajas!
Tua madrinha amiga,
Natália"


E não haveria melhor forma de concluir a excelente experiência que foi escrever dez Cartas de Trás da Serra na revista «Perspectiva».

abril 15, 2008

"Bem... da terra, da santa terrinha, já não vêm só abóboras"

Comentário do OrCa à minha 10ª carta de trás da serra:

"Bem... da terra, da santa terrinha, já não vêm só abóboras. Agora chovem merecidas catilinárias. Ainda bem! Deve ter algo a ver com aquela história de fazer o combate de dentro para fora...
Como sabes, estou contigo a 100% e, se for preciso mais um bocadinho, é só dizer, que rapidamente chegaremos aos 110%!
Chateia e irrita esta moleza institucional, este «no pasa nada», quando tu, como eu, como tantos outros, assistimos, conscientes, ao despautério que ocorre na «res publica», acumulado com tanta delapidação dos chorudos impostos que pagamos.
Quanto aos professores... Enfim, dos lápis que dão aos alunos, ao trabalho noite adentro, diário e continuado, ao desgaste diário, também, de aturar as criancinhas que tantos pais não sabem, não querem ou não podem educar, como se diz, só não vê quem não quer ver!
E a atitude destes pseudo-tecnocratas que vão desaguando no ministério, a arremedar ao neo-liberal, entoando loas a um status mirífico e a um estatuto educacional para o País que eles próprios nunca praticaram, nem advogaram, a não ser quando se alcandoraram ao poder, fede que tresanda!
Estou com o Junqueiro: «Truculenta manada obesa de hipopótamos, ó Humanidade, enxota-mos!»
Um abraço.
OrCa"

abril 06, 2008

Recensão do meu livro «Persuacção»

Rolando Almeida fala sobre o meu livro no seu blog A Filosofia no Ensino Secundário:

"Filosofia aplicada à Gestão
Recentemente descobri um interessante livro que deveria constituir a regra, mas que, curiosamente, é uma excepção. Já aqui referi sobre a importância do pensamento crítico e da sua transversalidade no conjunto dos saberes (ver aqui, aqui, aqui e aqui). O pensamento crítico é transversal pois é ele quem fornece as ferramentas para o raciocínio consequente. No nosso país, o pensamento crítico aparece já nos currículos de alguns cursos superiores, como os de engenharia, mas é ensinado pelos professores de matemática, o que é manifestamente errado.

Rolando Almeida

Para alguém com formação em filosofia é algo chocante saber que os filósofos andam no desemprego, ao passo que o mercado que lhes é próprio é absorvido por outras formações. Uma pessoa com formação em matemática ensinar pensamento crítico é tão aberrante como alguém com formação em filosofia ensinar geografia ou biologia. O pensamento crítico consiste basicamente no conhecimento das regras da lógica informal que são aplicadas ao raciocínio em geral. Paulo Proença de Moura, o autor deste Persuacção, O que não se aprende nos cursos de gestão (Edições Sílabo, 2005) apercebeu-se das potencialidades do pensamento crítico e da filosofia para o ramo da gestão. A tomada de decisões do gestor é mais segura se o mesmo possuir uma formação sólida no raciocínio e, acima de tudo, souber pensar com consequência. O autor ficou admirado quando percebeu que o pensamento crítico praticamente não se ensina nos cursos de gestão em Portugal e resolveu publicar este livro que é também o resultado da sua tese de mestrado. Todo o capítulo 2 , que leva o título, «A filosofia e argumentação na gestão» é um pequeno tratado de filosofia e de lógica formal e informal. O livro é útil, sobretudo, para nos revelar as potencialidades da filosofia e a sua aplicabilidade prática numa área tão pouco dada a especulações como a da gestão. No início deste texto mencionei que este género de livros deveria constituir a regra, isto se a filosofia que se tem praticado em Portugal acordar para a realidade e deixar de ser uma formação só ao alcance dos ricos e do carreirismo. Na verdade, estas obras abundam no mercado anglo saxão e com resultados evidentes, enquanto nós por cá vamos alimentando a ideia que a filosofia é só investigação pura e dura completamente avessa à divulgação pública. É pena! Dei-me conta deste livro tardiamente (a edição é de 2005), mas não podia deixar passar em branco esta assinalável coragem do autor."

A minha décima carta de trás da serra na revista Perspectiva

má Educação

Não sei onde te meteste nesse dia, que não te vi, mas terias feito bem em ir conversar com as cem mil pessoas que foram desfilar pelas ruas à capital. Decerto concluirias que, ao contrário do que diz a ministra da Educação, os professores sabem do que estão a falar quando dizem que estão cansados e fartos.
Já me ouviste dizer isto centenas de vezes desde a nossa infância, mas sabes que gosto sempre de repetir: a minha política é a política do trabalho. Foi uma frase que foi gravada na minha memória pelos meus pais e pela minha avozinha – ai de mim se a chamasse sem este diminutivo gramatical – muito antes do 25 de Abril de 1974. Lembro-me de o meu pai um dia, ao regressar do café, dizer-me pedindo segredo aquilo que um amigo lhe contou: a sigla “VMPS” (da água mineral de “Vidago Melgaço e Pedras Salgadas”) queria afinal dizer “Vamos Mandar Prender Salazar”.
Lembras-te de te contar quando eu estudava no liceu da Covilhã, logo a seguir à revolução dos cravos, aquele episódio da aula de ginástica em que o professor faltou? Como estávamos equipados, fomos jogar futebol. Havia um colega que queria ir para a baliza. Mas para a outra era sempre um impasse, porque ninguém aceitava ficar ali quieto a levar com boladas enquanto os outros podiam marcar canelas. Um colega mais matulão sugeriu: “Fazemos uma votação para quem deve ir para a baliza”. Ainda mal tinha acabado a frase e disparou logo uma pergunta, colocando o braço no ar: “Quem vota no Paulo Moura para ir para a baliza?” o que levou à unanimidade nos braços levantados… mas no meu caso foi um manguito, uma declaração de voto – “Porra para a vossa democracia” – e uma corrida para os balneários mudar de roupa. Só ao longo da vida assimilei as várias lições deste dia: uma delas foi que a democracia pode ser perigosa, quando desrespeita as minorias, ao quebrar aquela velha máxima de “a nossa liberdade acaba quando começa a liberdade dos outros”; outra foi que ser franzino não ajuda nada a fazer valer a nossa posição; e a principal foi que eu e o futebol não combinamos.
Eu sei, eu sei, é como se estivesse daqui, na Cova da Beira, a ouvir as tuas gargalhadas. Aposto que te estás a recordar dos meus tempos da escola primária em que, mesmo nos dias em que levava eu a bola, não me escolhiam para nenhuma equipa. E pior ainda era quando havia um número ímpar de jogadores e eu ficava para o fim. Até que os dois que escolhiam as equipas chegavam a acordo: “Tu tens a equipa mais forte, ficas também com o Paulo Moura”.
A minha alcunha dos tempos de juventude reflectiu tudo isto: Cruijff.
Na primeira vez que fomos jogar para o pinhal da cerca do conde, o Zé Papas começou por gritar aos colegas de equipa “não deixem o Cruijff desmarcar-se” mas, ao fim de poucos minutos, já gritava “passem a bola ao Cruijff que ele remata para fora”.
Não falando de política nem de futebol, resta-me falar de trabalho. E deixa-me que insista: a malta que manda ainda não se convenceu que os professores do ensino público não têm meios para trabalhar como lhes é exigido. E muito menos ainda para o que desejariam fazer!
Se eu pudesse, falaria com cada professor e dizia-lhe para exigir, na sua escola, os meios para poder exercer a sua actividade. E quando falo em meios é no sentido mais lato possível: ambiente social e respeito pela profissão; enquadramento e protecção legal; formação; equipamentos funcionais (informáticos, multimédia, internet,…); consumíveis; gabinete de trabalho para actualização de conhecimentos, preparação de aulas e de testes, bem como para a sua correcção; apoio administrativo; e, o recurso mais escasso de todos: tempo. Exijam que se cumpra o Estatuto da Carreira Docente: “O direito ao apoio técnico, material e documental exerce-se sobre os recursos necessários à formação e informação do pessoal docente, bem como ao exercício da actividade educativa”. E nos regulamentos da avaliação: “O docente tem direito a que lhe sejam garantidos os meios e condições necessários ao seu desempenho, em harmonia com os objectivos que tenha acordado”.
Ou terão que ser os cônjuges dos professores a cobrar do Estado tudo o que este devia providenciar? Algum professor já apresentou factura dos riscos que lhe são feitos no carro? Do tempo que trabalha em casa fora do horário laboral? Dos tinteiros, resmas de papel e outros materiais que paga do seu bolso?
Sabes que mais? Se as coisas se mantiverem como estão, a culpa é dos professores, ao permitirem, com o seu voluntarismo, que o Ministério da Educação continue a fazer omeletas sem ovos, usando o truque de pôr a cabeça de cada professor.... num ovo!
Cem mil abraços,

Paulo Proença de Moura
Página on-line da revista «Perspectiva». Na secção das Crónicas estão disponíveis os meus textos anteriores.