março 20, 2010

Os bancos, a especulação, a crise... e os economistas

"Os banqueiros falharam por incompetência"
Joseph Stiglitz
Prémio Nobel da Economia 2001


Excertos de uma entrevista para «Le Nouvel Observateur» publicada na «Visão» de 11 de Março de 2010, em que Joseph Stiglitz, depois de ter alertado para os perigos da "financialização» da economia, denuncia a avidez dos bancos e a sua recusa de qualquer reforma financeira:
Qual é a sua reacção face à especulação contra os elos fracos da Zona Euro?
É incrível: as dívidas externas e os défices públicos da Grécia, Portugal, Espanha e Itália são resultado da salvação dos bancos, cujas malfeitorias causaram a crise. E, agora, estas mesmas instituições fazem fortunas mordendo a mão dos seus salvadores! Mas não deveríamos admirar-nos. Não mudaram nem as regras nem as motivações destas instituições. Foi-lhes dado dinheiro barato para fazerem o que queriam, sem limitações, e eles utilizam-no para maximizar os seus lucros, sem se preocuparem com os custos sociais induzidos.
(...) A avidez de Wall Street é a única causa da crise? Os reguladores não falharam?
(...) a responsabilidade primordial [é] dos banqueiros. Não só não fizeram o seu trabalho e destruíram a nossa economia, como fizeram a campanha para atribuir a culpa a outros. Os banqueiros falharam por incompetência e por avidez: puseram em prática um sistema de remunerações que incentiva a assumpção de riscos excessivos e as estratégias a curto prazo. É verdade que os reguladores não impediram os bancos de se portarem mal. Mas quando alguém rouba uma loja, acusamos o ladrão... não a polícia, por não estar no local. E os economistas também tiveram um papel importante, ao legitimarem a ideologia da desregulamentação.
É muito crítico sobre a forma como o presidente dos EUA, Barack Obama, geriu a crise. Mas não terá ele herdado os remédios da equipa de Bush? Poderia fazer reformas enquanto a casa ardia?
Barack Obama podia ter feito mais. Fez campanha com «a mudança em que podemos acreditar» mas escolheu uma equipa económica associada aos políticos de ontem. Deu centenas de milhares de milhões de dólares aos bancos, sem impor condições. E, em lugar de recapitalizarem os seus bancos, os financeiros utilizaram o dinheiro para irem de férias, pagar a si próprios superbónus e distribuir dividendos. Por não ter actuado com vigor suficiente, perdeu parte da sua credibilidade.
(...)
As reformas definidas no G20 são à medida da crise?
Se as novas normas sobre os fundos próprios dos bancos forem efectivamente aplicadas, as coisas vão mudar. (...) Se tivéssemos reconduzido as «alavancas financeiras» autorizadas, de 30 para 1 (rácio dívida/capital) para... 10 ou 12 para 1, nunca teríamos tido um problema desta amplitude. A reforma dos bónus também deverá limitar a excessiva tomada de riscos (...).
Mas como asseguramos que a redução da dimensão dos bancos não afecta a sua capacidade para financiar a economia?
Reduzir a importância do sector financeiro é uma coisa boa. O facto de este sector pesar 40% no total dos lucros das empresas demonstra a que ponto a nossa economia está distorcida. Uma reforma pertinente encorajaria, pelo contrário, actividades mais úteis: o capital de risco, o crédito às empresas, a investigação...
Podemos levar a cabo essas reformas simultaneamente em todos os países ocidentais?
Isso seria o ideal, mas não é realista. Se esperarmos por uma acção concertada, não faremos nada. Os banqueiros apostam, de resto, nesta paralisia. Cada governo deve fazer o que lhe parecer adequado à sua situação. O argumento da concorrência desleal é uma falsa questão. O core business da banca continuará a ser local. Quanto às actividades especulativas, pouco importa que emigrem para as Caraíbas. De qualquer forma, não têm grande utilidade social. Interessam essencialmente aos apostadores e aos seus accionistas.
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Noutro artigo («as tragédias da austeridade») da mesma revista, a respeito da crise e revolta social na Grécia, podia ler-se:
"Manhattan (...) há três meses, decorreu um jantar num hotel de luxo onde alguns dos maiores gestores de fundos especulativos do mundo, caso do SAC Capital Advisers e do Soros Fund Management, terão discutido a melhor estratégia para fazer descer a cotação do euro, arrastando-a para uma quase paridade com o dólar. Objectivo: o lucro, claro. Afinal, estes fundos conseguem endividar-se 20 ou 30 vezes mais que o valor do seu capital e uma simples variação de 5% da taxa de câmbio pode render-lhes o dobro ou o triplo do investimento feito (...)"

fevereiro 28, 2010

A minha primeira carta de trás da serra na nova revista «Free Zone»

Está disponível desde ontem o número zero da nova revista online gratuita «Free Zone». Além do Pedro Laranjeira, director da revista, colaboram outros amigos nossos: Miss Joana Well (com a sua excelente "carta aberta sobre a prostituição"), Jorge Castro (com uma oração à EDP) e Raim (que ilustra, magistralmente como sempre, a minha carta de trás da serra do marido de uma professora).
A revista completa está disponível para descarregar aqui, em formato pdf.



Estatuto da Carreira Indecente
Olá

Há tanto tempo que não te escrevia...
Como tens andado, no meio deste rebuliço que invade a nossa habitual pacatez e nos faz «rufar os tambores»?
Desculpa mas, mesmo sabendo que tu tens os teus próprios problemas, vou aproveitar o teu ombro amigo para desabafar.
Como sabes, a minha mulher é professora do ensino secundário. Vinte anos depois de uma vida de cigano, em que ela correu praticamente o país todo, optou por ficar numa escola, mesmo sendo ainda distante de casa, mas que lhe dava a estabilidade por que ela sempre ansiou.
O que se tem passado nestes anos mais recentes, nem precisas que te conte... ou até precisarias, porque o que é divulgado pelo governo, pelos sindicatos e pela própria comunicação social é muito deturpado. Na minha empresa, estou farto de ser alvo de chacota dos meus colegas quando me atiram com lugares-comuns como "os professores não querem trabalhar", "os professores estavam era mal habituados", "os professores não querem ser avaliados" e por aí fora. Revolta-me sempre que alguém critica os professores porque "um professor do meu filho balda-se às aulas e ninguém faz nada". Ai, sim? E os pais alertaram a escola? "Nós?! Para os nossos filhos terem problemas?!"
Quando pergunto aos meus colegas se na nossa empresa todos são competentes, estranhamente calam-se.
Estou farto! De ler artigos nos jornais como no «Económico» de 21 de Fevereiro de 2010, «Professores portugueses trabalham menos», quando em letra miudinha dizem que "se contarmos o trabalho fora da escola, os professores são a classe que mais horas trabalha, quando comparado com outras profissões". E mesmo a conclusão do título é falaciosa: usam um estudo da OCDE que refere que os professores portugueses, na sala de aula, gastam em média 18,5 horas por semana, contra 17,2 de média da OCDE e 16,4 da União Europeia. E que o número de horas por semana na escola é de 34,1 em Portugal, quando na OCDE são 30,5 e na UE 30,4. A conclusão deste artigo, obtêm-na do trabalho escolar total: 38,7 horas semanais em Portugal, contra 43,6 da OCDE e 42,2 da União Europeia. Consegues dizer-me como medem eles o trabalho fora da escola? E não achas estranho que os professores em Portugal gastem 4,6 horas semanais a trabalhar em casa, quando na OCDE (dizem) gastam 13,2 e na União Europeia 11,7 horas?! Olha, eles que venham a minha casa fazer o trabalho da minha mulher em 4,6 horas semanais!
Estou farto! De pagar arranjos da pintura do carro dela porque os alunos lho riscam (e diz-me ela que é normal), de estar sempre a comprar papel, tinteiros de impressora (e tanto que ela gasta...) e outro material, de ter comprado um computador portátil para ela levar para a escola ("dá-me jeito") e que vem de lá sempre cheio de vírus...
Estou farto! Das constantes reuniões dela marcadas fora de horas ("tem que ser"), das noites e fins-de-semana que não podemos aproveitar "porque tenho de trabalhar" e da consequente indisponibilidade dela para a família ("estou de rastos").
Estou farto! De reler o Estatuto da Carreira Docente, que sensatamente diz que os professores devem ter os recursos necessários à sua actividade. E o tempo é o recurso mais importante de todos! Estou farto que isto esteja só no papel. Desafio-te a encontrares outra profissão por conta de outrem em que o trabalhador tenha que comprar os seus instrumentos de trabalho e pagar as despesas em serviço. Aliás, julgo que se deveria criar para os professores a categoria de «trabalhador por conta de outrem... mas pouco».
Desculpa o tempo que te roubei e recebe um abraço do

Paulo Proença de Moura
Se clicar na imagem pode ver em todo o seu esplendor o Paulo Moura a levar à sua mulher a comida que ele... encomendou a um «take away»
Ilustrações - Grande Mestre Raim

fevereiro 27, 2010

O argumento do lápis azul

Aprendi com o meu Pai, desde criança, a absorver as lufadas de ar fresco que eram sempre - e continuam a ser - os artigos do Jornal do Fundão (de que o meu Pai era o correspondente em Caria). Tive o prazer de conhecer pessoalmente o António Paulouro, fundador do jornal e excelente Pessoa. Sempre soube dos artigos censurados antes do 25 de Abril, por vezes páginas inteiras que deixavam a redacção do JF numa azáfama para substituir os espaços vazios. O JF, nas suas edições actuais, recorda sempre exemplos dessa censura. O desta semana 25 de Fevereiro) conta o que se passou com uma notícia de Julho de 1967 em que se falava de José Afonso, "o precursor de nomes e talentos como Adriano Correia de Oliveira, Luís Cília e Manuel Freire". Sacrilégio! O lápis azul (com uma seta bem marcada) obrigou a que o artigo saísse sem duas palavras que apareciam juntas, provocando urticária aos senhores do lápis azul: "José"... e "Afonso".

fevereiro 22, 2010

No Brasil como em Portugal

"Basta dessa inutilidade de voto em branco e voto nulo.
O país deve adotar o voto contra.
A verdadeira, e simples, revolução democrática."


Millôr Fernandes
no Twitter

fevereiro 03, 2010

Carta aberta à senhora Ministra da Saúde

Transcrevo a carta aberta do meu amigo Jorge Castro. Que, como ele próprio diz, "esta minha porventura pouco razoável exposição de intimidades e privacidades possa contribuir para um Portugal bem mais ameno, que nos justifique Abril e atenue os Dezembros do nosso descontentamento":

"Carta aberta à senhora Ministra da Saúde - Serviço Nacional de Saúde, o estado demencial a que nos conduziu o primado da Economia

À Senhora Doutora Ana Jorge,
Ministra da Saúde

Por volta do dia 15 de Dezembro de 2009 – há cerca de mês e meio, portanto – a minha Mãe, sem que nada o levasse a supor, perdeu subitamente a capacidade de andar.
A Mãe tem 83 anos e padece, há cerca de dezoito anos, de doença de foro oncológico, sendo assistida regularmente no Hospital dos Capuchos, em Lisboa, seja em tratamentos, consultas ou exames de rotina. A situação sempre esteve, aparentemente, diagnosticada e controlada. Tem tido, assim, uma boa qualidade de vida, face à adversidade da sua doença, sem dores ou queixas especiais e levando uma vida normal.
De há cerca de três anos a esta parte notámos nós, os filhos, um decréscimo de medicamentação e, até, de exames. Não sendo nenhum de nós Médico, consideramos tal um bom indício, tanto mais que sempre acompanhámos a Mãe às consultas e nada nem ninguém nos alertou ou explicou sobre eventual evolução da doença.
Perante essa incapacidade súbita de locomoção – e porque em recente consulta de Clínica Geral, no Centro de Saúde que a assiste, perante queixa de dores nas costas e perda de sensibilidade nos dedos da mão direita por parte da Mãe, a Médica sugeriu a aquisição de um colchão e, posteriormente, prescreveu Voltaren «para ver se passava» - recorremos a consulta privada que, de imediato, promoveu um recurso a Neurologia… do qual resultou que, em 24 horas, a Mãe foi encaminhada de urgência para o Hospital de São José, em Lisboa, para ser submetida a uma bateria de exames, tendo o Especialista avisado de que deveríamos contar com intervenção cirúrgica imediata. Isto ocorreu em 20 de Dezembro de 2009.
É impossível descrever a via sacra a que a nossa Mãe foi submetida desde então, sem que ela ou os filhos tivéssemos qualquer voto na matéria. Tentarei sintetizar:
- dia 17 de Dezembro – internamento no Hospital de São José, em Lisboa;
- dia 18 de Dezembro – transferência para o Hospital São Francisco Xavier, onde iniciou uma série de exames;
- dia 20 de Dezembro - transferência para o Hospital Egas Moniz, para ressonância magnética e eventual cirurgia – quer uma, quer outra ocorreram sem que os filhos, presentes diariamente, ou, sequer, a própria, fossem previamente informados sobre o que quer que fosse. O único contacto registado, por parte da instituição, foi para me questionarem (aqui «descobriram» o meu telemóvel) se estava disposto a pagar 195 euros para um colete ortopédico, a utilizar no pós-operatório, colete não comparticipado pelo SNS…
- dia 4 de Janeiro de 2010 – decorrendo Fisioterapia e recuperação pós-operatória (a intervenção cirúrgica teve lugar em 28 de Dezembro de 2009), a metástases extensíssimas na região dorsal, já com grave infiltração óssea, sou informado pelo Hospital de que a Mãe tinha tido alta e estava já a caminho do Hospital de Cascais – suposta área de residência (?) - onde ficaria na Unidade de Oncologia. A pressa desumana com que tudo isto ocorre, leva a que a Mãe fosse despejada pelos próprios serviços do Hospital Egas Moniz, num expediente no mínimo desumano e, no limite, criminoso, no Serviço de Urgência do Hospital de Cascais, sem qualquer referenciação, aí permanecendo cerca de 24 horas, sem alimento ou medicação, perante o seu e nosso desespero. Valeu aqui algum expediente e a habitual movimentação de influências, vulgo cunha… ou poderemos imaginar que a Mãe ainda hoje por lá andaria perdida. Ainda assim, de três dias de espera numa maca nos corredores do Hospital não a salvámos - e, recorde-se, em pleno período pós-operatório. Nem da repetição de um rosário de exames mais ou menos agressivos, para redefinir o quadro clínico!
A partir daqui pensar-se-ia que a situação se estabilizaria. Mas ainda não! Para além da consulta de Oncologia a que já fora submetida no Egas Moniz, teve consulta desta Especialidade também no Hospital de Cascais, depois no Instituto Português de Oncologia e, por fim, no Hospital dos Quadrantes, em Carnaxide, onde foi prescrita uma bateria de 10 sessões de Radioterapia… em ambulatório! Para tal a Mãe teve alta do Hospital de Cascais no próprio dia do primeiro tratamento!!! Quatro consultas de Oncologia no espaço de 10 dias, agravadas pela necessidade de deslocação do doente ainda em recuperação da intervenção e sem capacidade de locomoção, para quê…?! Duvidarão os Médicos ou as Instituições uns dos outros ou trata-se de algum perverso ou maquiavélico esquema montado para incrementar proventos à custa de sofrimentos alheios?
Também aqui não tivemos voto na matéria, sempre nos sendo apresentado cada passo como dado adquirido.

Éticas, deontologias ou mera arte de viver em comunidade são, assim, trucidadas pela paranóia dos custos ou da rentabilização cega e, afinal, anacrónica assumindo, através do cumprimento cego de diktats de que ninguém sabe localizar exacta proveniência, foros do recurso à «esperteza saloia» para o descarte de mais um fardo em que está constituído cada paciente… porque já lá está uma imensidão deles à espera de vez, cabendo a cada um o «direito» à sua dose de mau trato e desconforto.
E a Mãe esteve sempre no Serviço de Medicina. Nem conseguimos apurar se a Unidade de Oncologia de Cascais tem, afinal, camas próprias que justificassem o encaminhamento feito pelo Hospital de Egas Moniz.
Importa acrescentar que, face ao lamentável insuficiente número de ambulâncias existente na Grande Lisboa, em cada deslocação o doente é deixado para tratamento e fica a aguardar, em maca, que a ambulância regresse… o que chegou a levar seis horas (!) de espera. Os bombeiros têm ordens estritas para acorrer a outros casos, deixando o doente no tratamento – que, no caso, demora escassos 15 minutos - o que também representa um conceito distorcido de bom serviço prestado e de rentabilização mais do que duvidosa face ao trânsito caótico de Lisboa! Importa, também, sublinhar que neste longuíssimo mês de horrores, contam-se já por cerca de duas dezenas as deslocações de ambulância, entre instituições e desvarios diversos.
Com todas estas andanças e maus tratos, a Mãe desenvolveu um quadro de escaras de grande gravidade, desidratação e assustadora infecção urinária com óbvia necessidade de tratamento urgente - em pleno internamento hospitalar! E assim teve alta!
Conseguimos, por força dessa alta, um lugar num lar que nos oferece as melhores condições de assistência total face a este pavoroso desenvolvimento. Enfrentamos e assumimos os encargos sem hesitações. Felizmente para nós, paciente e filhos, nunca foi esse o problema. Mas nunca nos colocaram, sequer, uma perspectiva de alternativa. Existe uma «lógica» hipócrita - que será até de defesa pessoal - a impelir cada profissional da saúde a fingir ignorar o que se passa a jusante do seu próprio acto. A «bola» é passada e, a partir daí, lavam-se as mãos...
Pelo caminho ficam as sucessivas ausências de aflição nos nossos locais de trabalho, para acorrer… nunca se sabe bem a quê, mas com as decorrentes mazelas profissionais que são conhecidas e que, de momento, nem contabilizámos... e lá vamos contando com a boa vontade de colegas. Fica, ainda, por referir uma imensidão de pormenores mais ou menos lúgubres, presenciados ou por nós vividos no dia-a-dia destas instituições cujo relato daria a esta missiva uma extensão que lhe retiraria utilidade.
Resta, talvez, referir que ao nível do contacto pessoal e de humanidade não há quase nada a dizer das larguíssimas dezenas de profissionais da saúde – médicos, enfermeiros ou pessoal auxiliar – com quem contactámos ao longo deste mês. Mas verifica-se, do mesmo modo, uma total impotência e falência institucionais para dar uma resposta civilizada, racional ou consequente face a um quadro como o descrito.
O paciente (leia-se, também, contribuinte) é, institucionalmente, tratado como um vulgar saco de batatas, descartável no mais curto espaço de tempo, sem escrúpulo nem redenção, mesmo que tenha os seus impostos em dia… afinal, aquilo que faz o sistema funcionar, quando não são desbaratados os recursos por parte dos responsáveis pelo poder político. Sim, porque o desperdício deste andar em bolandas tem, também ele, custos insondáveis, irracionais e em puro desperdício, para além da notória barbaridade perpetrada sobre o estado de saúde do paciente.
Todos temos a nossa hora. A nossa Mãe também terá a sua. Exige-se, apenas, a dignidade devida a um ser humano, num regime de direito e democrático. Preceito da Constituição que nos regula, bem como da Declaração Universal dos Direitos do Homem que nos deve nortear. Não é o que se está a passar no nosso Serviço Nacional de Saúde. E não estamos, sequer, em qualquer estado de guerra.
E eu sinto uma profunda vergonha pelo País que estou a legar ao meu filho!
Aqui eu deixo, à superior consideração de V. Excelência, não apenas como espúrio desabafo, mas como testemunho presencial e denúncia, a entender como acto de cidadania, que permitirá V. Exa. que eu divulgue, no interesse da comunidade. Nem será, neste contexto, relevante o anúncio do nome da paciente, como não será curial factualizar, ainda mais, as ocorrências descritas, por não haver aqui intuitos de algum modo persecutórios. Tão só isto: o testemunho que possa revelar-se útil para uma inversão de valores que é urgente.


Jorge Castro"

janeiro 24, 2010

Finalmente começa-se!

ilustração: http://www.wku.edu/
Enquanto a Ana Andrade não avança com um projecto na área da consultoria filosófica para empresas (aceitam-se apostas para o tempo que vai demorar até que ela avance), ela própria mostra-nos que há quem já esteja a começar, ensinando as crianças portuguesas a pensar.
Trata-se de um "projecto pioneiro a nível nacional [em desenvolvimento na Escola Tomás de Borba, em Angra do Heroísmo, com coordenação de Mário Cabral] que permite um primeiro contacto com o raciocínio filosófico a crianças do pré-escolar e do primeiro ciclo do ensino básico", através de jogos, adivinhas e contos. O objectivo é treinar os alunos para o raciocínio com regras e a estruturação do pensamento.
Quando chegará esta formação aos gestores?
Fico à espera de resposta, Ana Andrade!

janeiro 18, 2010

Bem haja, senhor Oswaldo Martins!

Comunicado da Administração da Pavigrés Cerâmicas SA:

Que pena a Chancelaria das Ordens Honoríficas Portuguesas não ter ligado à carta que lhes escrevi há uns anos em que sugeria que fosse atribuída ao senhor Oswaldo Martins a comenda da Ordem do Mérito Agrícola, Comercial e Industrial - Classe Mérito Industrial. Bem que a merecia!

dezembro 26, 2009

Persuasão dos mendigos

Quem, como eu, já tocou viola (com o meu parceiro Mário Rui na gaita de beiços) em tantas ruas, estações de caminhos de ferro, túneis de metro em Coimbra e por essa Europa fora... ainda dá mais valor à estratégia do mendigo da direita.

novembro 27, 2009

Dinheiro público

"Dinheiro público é o dinheiro que o governo tira dos que não podem escapar e dá aos que escapam sempre."
Millôr Fernandes
no Twitter

novembro 25, 2009

Uma leitura... de uma leitora do «Persuacção»

"Quando pensei em comprar o livro e mesmo depois de ler a crítica, achei muito interessante mas não tinha bem a ideia do que ia encontrar. No entanto, esta é uma área que me interessa bastante e estava muito curiosa. Agora que o li, e apesar da filosofia implícita no livro, que por vezes me fazia ter que ler de novo para entender devidamente, acho que consegui perceber a mensagem principal.
É daquelas coisas que realmente nos fazem pensar e chegamos à conclusão que é mesmo assim que as coisas se passam, até na nossa vida pessoal e não só no dia-a-dia das empresas. Hoje em dia, as empresas actuam num mercado em constante mudança ou adaptação às novas realidades/necessidades e cada empresa individualmente tem que estar atenta a esse facto e não pode ficar para trás, tem que acompanhar essa evolução. Mas é no interior dessas organizações que a maior parte das vezes aparecem entraves a essa mudança. O gestor tem por isso que estar preparado para lidar com empregados acomodados e que argumentam para a não mudança.
Como refere no livro e muito bem, nas nossas universidades não são abordadas questões como a argumentação, argumentação falaciosa, retórica, etc. Por isso, este livro vem de encontro a estas questões, preencher a lacuna existente na formação do empresário/gestor.
Gostei muito do livro. Mais que isso, aprendi muito com ele, por isso parabéns por ter partilhado connosco, leitores, o fruto da sua experiência.

Cumprimentos,
Marta Pires"

Eu é que lhe agradeço, Marta, esta síntese tão completa do «Persuacção». Só espero que alguma coisa lhe seja útil na sua vida profissional e mesmo, como muito bem diz, na vida "lá fora".

outubro 24, 2009

A falácia do CO2 e do aquecimento global

Um facto: à custa da paranóia do aquecimento global e das emissões de dióxido de carbono (CO2) muitas negociatas se criaram e desenvolvem... e são colocados obstáculos a muitas iniciativas, quer empresariais, quer de melhoria de condições de vida em países subdesenvolvidos.
O Canal 4 britânico produziu um documentário devastador intitulado "A Grande Fraude do Aquecimento Global". Aqui está, dividido em nove partes:

















setembro 30, 2009

Muito mal, senhor Presidente da República!

Se a declaração ao país feita ontem na televisão fosse um exame de argumentação, estava chumbado.
No tema da informática (correio electrónico), então, nem tenho palavras para...


Cavaco amuado (foto gentilmente gamada ao DN)

setembro 28, 2009

Nada como usar um caso concreto para percebermos melhor uma ideia

Apresentei no dia 25 de Setembro uma proposta de distribuição dos lugares da Assembleia da República que contasse com os não votantes, votos brancos e nulos como lugares a ficarem vazios no parlamento.
Agora que já temos resultados provisórios (o apuramento dos resultados dos círculos eleitorais do estrangeiro será realizado a 7 de Outubro) das eleições realizadas em 27 de Setembro, já podemos comparar os resultados oficiais com o que resultaria da minha proposta:


Os resultados provisórios oficiais



A comparação da distribuição de deputados oficial... com a do cavalheiro

O que resultaria disto?

1) Dos 226 lugares já distribuídos (faltam 4 a distribuir pelos votantes no estrangeiro), 133 ficariam ocupados proporcionalmente ao número total de inscritos (portugueses com direito a voto);

2) 93 lugares ficariam vagos, correspondentes aos portugueses que não votaram, votaram em branco ou cujo voto foi considerado nulo;

3) 4 lugares ficariam atribuídos a partidos que, pela lei vigente, não têm direito a qualquer deputado. Os quatro "maiores partidos pequenos" foram o PCTP/MRPP, o MEP, o PND e o MMS.

Que tal? Para começar, poupava-se tanto dinheirinho...

setembro 25, 2009

O voto inútil (seguido de dois contributos... mas estes a sério)


- Eu quero que o meu voto seja útil.
- E como vais fazer isso, Louro?
- Ó Moura, vou votar mas voto num partido que não tenha hipótese de eleger algum deputado. Assim, o meu voto conta, pois não é considerado branco nem nulo. Mas é um voto que vai mostrar o meu descontentamento com os partidos do poder.
- Mas... ó Louro, se não me engano os votos que contam são os dos partidos que elegem pelo menos um deputado. Caso contrário, teríamos lugares vagos no plenário da Assembleia da República. Agora... eu acho é que, se estamos numa democracia representativa, a Assembleia da República deveria representar exactamente os resultados das eleições. Contando com tudo.
- Como?
- Ó Louro, somos pouco mais de 10 milhões de habitantes. Destes, com 18 ou mais anos seremos uns... 6 milhões. Contando com os emigrantes, seremos uns 7 ou 8 milhões de cidadãos com direito a voto. Bastaria fazer uma regra de três simples e teríamos os lugares da assembleia legislativa atribuídos de forma rigorosamente proporcional: as abstenções seriam lugares que ficariam vagos, assim como os votos em branco; aos votos nulos corresponderiam, em número proporcional, deputados que fossem autênticas nulidades; e os partidos ficariam com deputados na justa proporção de votos atribuídos pelos eleitores.
- Pois, Moura, mas isso é a brincar...
- Pois é, Louro. Mas se fosse a sério, só alteraria a parte dos votos nulos, que também corresponderiam a lugares vagos. É que, deputados que são umas nulidades, seria difícil isolá-los nesse novo grupo parlamentar...

Paulo Moura
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Matemática perversa

Há coisas em que raramente se pensa... ou raramente se percebem, mas que desvirtuam por completo a seriedade dos princípios ditos democráticos.
Por exemplo:
Quando se diz que um Partido tem maioria absoluta, será que tem mesmo?...
Tecnicamente tem, verdadeiramente nem sempre!
Porquê?
Vejamos a perversidade da matemática que atribui mandatos para a Assembleia da República. Vejamos, a título de exemplo recente, o que foi a "maioria absoluta" do Partido Socialista de 2005 a 2009:
O PS elegeu 121 deputados, contra 109 das restantes forças com assento parlamentar, daí a maioria.
Para tal, no entanto, recebeu 2.588.312 votos dos portugueses (representando 45,8% do total de votantes), contra 2.868.180 das outras forças com assento parlamentar (representando 49,89% dos votantes) - se lhe somarmos os votos dos outros portugueses que não se fizeram representar na AR e votaram mas não no PS, o número passa a 2.990.307 (representando 51,91% dos votantes), ou seja, mais de metade dos votantes votou contra o PS, ou seja, quase mais meio milhão de portugueses (exactamente 401.995) votaram contra o Partido que acabou por ter o direito de legislar sozinho.
É claro que a democracia tem que ter regras, aproximações e arredondamentos, mas a verdade pura e dura dos números não pode ser ignorada: os números representam cidadãos de pleno direito, um português por cada número.
Portanto, sempre que uma lei foi aprovada pelo partido com maioria absoluta contra todos os outros, as "normas" foram cumpridas, é verdade, mas é verdade também que os deputados mandatados por 2.588.312 portugueses ganharam aos representantes de 2.868.180 cidadãos....
É chato, não é...? Pois, mas é assim que funciona e "as regras são para se cumprir", principalmente se "as regras" forem "a lei", como é o caso. Também a decisão do árbitro é "lei", mas, quando a televisão mostra depois que afinal não foi "penalty"... é chato!
Ou seja, a matemática eleitoral de atribuição de mandatos é perversa!
Os Portugueses não são correctamente representados nos órgãos de poder!

Pedro Laranjeira
http://www.laranjeira.com/
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A técnica do leque

You've got a point, diria eu, se me desse para essas inglesices. Mas como não dá, digo-te que tens aí uma proposta com pernas, se não para andar, pelo menos para botar figura. E nada como umas belas pernas para se alegrar um cenário.
Sem destrambelhar o tema e na via de originalidades que alterem o actual sistema bolorento que define a constituição da Assembleia, aqui deixo o meu contributo opinativo:
- A partir de um quantitativo de votos pré-definido, todos os partidos concorrentes (ou movimentos de cidadãos organizados) teriam assento parlamentar, o qual, por sua vez, a partir da votação obtida por esse partido «menor», se desenvolveria, proporcionalmente, até ao partido «maior».
O leque partidário ficaria muio mais aberto e, por consequência, as ideias também.
Confesso que só me falta fazer as contas para apurar se este método «a partir de baixo» será exequível. Mas lá que seria muito mais representativo, não tenho dúvidas.
E proporcionaria, facilitando, essa coisa realmente democrática que é a necessidade de os divergentes serem capazes de convergir, em função do interesse mais alargado (ou mais nacional) em contraponto com as «maiorias absolutas» da treta que são, em meu entender, a maior e mais descarada perversão do regime.

Jorge Castro
blog Sete Mares

setembro 18, 2009

Euromilhões e crise

Gosto sempre de relembrar a minha teoria e do Alex Narigudo sobre a economia e os «peidos da avó», que já é de 1980, éramos nós dois estudantes de economia em Coimbra.
Ou seja, a minha alergia à especulação já vem de muito longe.
Se ainda não repararam, esta crise da economia deve-se (não é deveu-se, porque não é passado) à especulação: dos poderosos das finanças mudiais... e das famílias, que assumiram que "isto vai dar para tudo".
Pois o Euromilhões entra nesta minha alergia, como forma de especulação dos milhões de pessoas que acham que "os números que vão sair serão estes". E dão a ganhar muitos milhões a quem gere este - e outros - jogos de fortuna e azar.
Os muitos milhões de prémios (que põem as pessoas a sonhar) saem de um bolo de muitos mais milhões das apostas que são feitas. Serei só eu que faço estas contas?!
Ou seja, com o Euromilhões quem é que ganha todas as semanas uns bons milhões? Claro que é a entidade gestora (não sei qual é mas gostava de ser o dono).

setembro 17, 2009

Regra básica de comunicação

Ler ou ouvir tudo com atenção e até ao fim.

Isto para não se passar convosco o que me aconteceu hoje de manhã, a ler uma notícia do jornal «as Beiras»:


Como é que se cegam os ouvidos?!



Ah, bom!

setembro 14, 2009

Classe mínima

Em Portugal, parece-me que a classe média não atinge os mínimos.