abril 09, 2010

abril 06, 2010

Gestores de tachos - a experiência de outro santo inocente

"Olá, puto Paulo
A carta poderia ter sido escrita por mim, de tal forma ela mostra a massa de que somos feitos.
Há uns anos vieram dar-me uma concessão de máquinas fotocopiadoras da Xerox.
Como eu não entendia nada disso, recusei.
Bem me arrependi, pois o caramelo que ficou com o concessão passou a ser meu cliente e passava a vida a levar-me as placas das fotocopiadoras para reparação.
Ora cá está.
Nada como ser realmente bem ignorante.
Se fores muito ignorante arranjas quem te faça as coisas das quais não entendes um corno.
Se souberes algo dum assunto, pensas sempre não saber o suficiente.
Abraço
Carlos Almeida"

abril 02, 2010

A minha segunda carta na revista online «Free Zone»



Gestores de tachos

Olá

Desde que foste para Lisboa, ainda não te tinha escrito sobre um assunto que te diz respeito e que, como bem sabes, muito me incomoda: ver pessoas a quem são atribuídos cargos de administração e direcção, muito menos por mérito técnico de gestão do que por compadrio político ou cunhas pessoais.
Este desagrado transforma-se numa grave alergia quando tenho conhecimento dos níveis de remuneração auferidos por essas pessoas.
Obviamente, não se trata apenas dos salários de base mas de todas as outras remunerações, prémios e regalias complementares, em dinheiro e em espécie.
Sabes-me explicar os critérios de selecção dessas pessoas? E os critérios que levam à atribuição das suas remunerações? Se souberes diz-me, que eu adoro aprender.
Como te deves lembrar, quando comecei a trabalhar, depois de tirar a licenciatura em economia, foi nos serviços regionais da região Centro de uma empresa pública de grande dimensão. Nessa altura, imaginava (só os podia imaginar, pois raramente saíam de Lisboa “para a província”) os administradores dessas empresas como seres fora de série, quase “deuses da gestão”.
Alguns anos mais tarde, fui trabalhar para uma empresa industrial de média dimensão. Passados alguns anos passei a fazer parte da administração dessa empresa.
Entretanto, houve uma mudança de accionistas, o administrador-delegado foi afastado e fui convidado para o substituir.
Recusei, por entender faltar-me experiência para tal.
Depressa me arrependi, quando verifiquei que a pessoa que foi contratada para esse cargo entendia menos daquilo do que eu percebo de lagares de azeite.
Perguntas-me o que aprendi?
Valeu-me a experiência, por tudo o que teve de mau. Mas aprendi a não menosprezar os meus conhecimentos e experiências… e a entender bem melhor estes cargos de gestão. Fiquei a saber que, na prática, as preocupações e compromissos pessoais tendem a sobrepor-se, levando a formas de pensar e de estar fortemente egoístas, em detrimento da organização e, em última análise, dos seus clientes/ utentes/ cidadãos.
Como já alguém disse, “muitos executivos despendem muita energia e engenho trabalhando para as suas próprias compensações e «pára-quedas dourados»”.
E como eu penso que deveria ser na prática, perguntas-me tu? Simples: a avaliação e selecção deviam ser feitas tendo em conta que valor acrescentado pode uma pessoa dar a uma organização num dado cargo. E essa avaliação deveria ser contínua pois, como já escrevi no meu livro «Persuacção», “por paradoxal que pareça, o gestor «ideal» deveria ser aquele que se tornasse dispensável, que desse o lugar a outro nesse cargo, quando se apercebesse que o valor acrescentado que dá à organização é reduzido, inexistente, ou mesmo negativo”.
Desculpa o incómodo e toma lá um abraço do
Paulo Proença de Moura

Carta publicada aqui, na revista online «Free Zone»

abril 01, 2010

Esta miúda não vai longe. É que... já lá chegou!

A Ana Andrade apareceu na televisão (TVI 24), numa reportagem sobre o curso de «Cidadania Responsável» que ela lecciona na Universidade Católica. Podem vê-la, ouvi-la e comentar aqui.
Isto explicadinho por ela é muito melhor: "O Curso de Cidadania Responsável, a decorrer às sextas-feiras na Universidade Católica do Porto, foi estruturado por esta vossa criada, em resposta a um desafio do Professor Doutor Agostinho Guedes (vénia, Grande-Chefe!), Director da Escola de Direito. Um projecto pioneiro e de que me dá muito gozo fazer parte. O curso é oferecido pela Escola de Direito (onde dou duas cadeiras, integradas na licenciatura de Direito) mas é um projecto paralelo, que pretendemos desenvolver anualmente."
É pena eu não conseguir encontrar nenhuma referência ao curso na página da Universidade Católica...


Ver video (no Facebook)

março 22, 2010

Pornoeconomia - a versão do Jorge Castro

"no dia da Poesia
fui a uma casa de tia
deixar por lá algum verso
que de atrevido ou perverso
nos fizesse algum sentido
ou trouxesse demasia
no concerto do universo

mas fiquei desiludido
por não haver nesse abrigo
as boas putas coitadas
já todas escorraçadas
por morais e bons costumes
e outros tantos estrumes
em que é o mundo pródigo

só lá encontrei uns velhos
rameiros politiqueiros
que a malta já não indulta
mas cheios de bons conselhos
malvados alcoviteiros
de pôr todos de joelhos
a bem dos da face oculta

e por quanto se anuncia
a não louvar velhas putas
por ser indigno e machista
digo eu que há mais poesia
nessas penosas labutas
do que na corja chupista
que nos esmifra a carteira
bem mais que alguma rameira
muito mais que as velhas putas.


Jorge Castro"

E ele próprio esclarece:
"Reposicionemos a cena, sem linguagem encriptada:
- Ele há os gestores de topo, depois vêm os outros gestores, até aos gestorzinhos. Logo abaixo, há uma cáfila de agentes bem remunerados - directores, directores adjuntos, subdirectores, etc. - que constituem o exército, os homens (ou mulheres) de mão que, metendo a mão na merda, estão mais em contacto com os servos.
Acima e ao lado dos primeiros do elenco estarão os governantes.
O meu protopoema, na verdade, é dirigido à cáfila dos que fazem cumprir as ordens do dono, aos «intermediários», ao exército de paus-mandados com quem convivemos no dia-a-dia... e com os quais, tantas vezes, condescendemos, também por interesse, por cobardia ou por simples acomodação.
O que se passa com a alteração sucessiva das regras das pensões, por exemplo, justificaria por si só um levantamento nacional. Mas quem quer, com tanto tomate que anda para aí à solta, empunhar essa bandeira?
O que vemos nós? Uma correria desarvorada às reformas, antes que seja «tarde». Tarde para quê? Para batermos a bota ou para levarmos com ela, ritmadamente, no cu?
Quanto ao mais, a poesia serve para o que quisermos. A maior parte das vezes para nada ou muito pouco. Ainda assim, diz-se que é uma arma carregada de futuro...
Jorge Castro"

março 21, 2010

Pornoeconomia

Rui Pedro Soares recebe 1,5 milhões de euros da PT em 2009

Eu acho isto* pornográfico!

PT divulga pela primeira vez os salários dos gestores

Estes valores pretendem remunerar o quê? O risco? A responsabilidade? O desgaste rápido? Alguém me explica?
Sim, no resto da Europa também é assim:
Remuneração a gestores da PT é 35% inferior à média europeia
O que isso quer dizer é que não é só em Portugal que isto se passa. Engraçado, não me lembro de alguma vez ouvir falar em «justiça económica». Será tabu?...

* Não me refiro somente ao caso específico deste senhor. Isto, como sempre ouvimos nos cursos de economia, é "sem perda de generalidade"

Entretanto, li no Facebook este comentário do Amadeu Magalhães:
"Portugal é o melhor patrão do mundo! É a conclusão a que chego, tendo em conta os ordenados que pagamos aos nossos empregados, que gerem o nosso dinheiro e cargos de mais «responsabilidade». Não me parece difícil de perceber onde está a origem dos nossos problemas: andamos na horta, mas não vemos as couves!"

março 20, 2010

Os bancos, a especulação, a crise... e os economistas

"Os banqueiros falharam por incompetência"
Joseph Stiglitz
Prémio Nobel da Economia 2001


Excertos de uma entrevista para «Le Nouvel Observateur» publicada na «Visão» de 11 de Março de 2010, em que Joseph Stiglitz, depois de ter alertado para os perigos da "financialização» da economia, denuncia a avidez dos bancos e a sua recusa de qualquer reforma financeira:
Qual é a sua reacção face à especulação contra os elos fracos da Zona Euro?
É incrível: as dívidas externas e os défices públicos da Grécia, Portugal, Espanha e Itália são resultado da salvação dos bancos, cujas malfeitorias causaram a crise. E, agora, estas mesmas instituições fazem fortunas mordendo a mão dos seus salvadores! Mas não deveríamos admirar-nos. Não mudaram nem as regras nem as motivações destas instituições. Foi-lhes dado dinheiro barato para fazerem o que queriam, sem limitações, e eles utilizam-no para maximizar os seus lucros, sem se preocuparem com os custos sociais induzidos.
(...) A avidez de Wall Street é a única causa da crise? Os reguladores não falharam?
(...) a responsabilidade primordial [é] dos banqueiros. Não só não fizeram o seu trabalho e destruíram a nossa economia, como fizeram a campanha para atribuir a culpa a outros. Os banqueiros falharam por incompetência e por avidez: puseram em prática um sistema de remunerações que incentiva a assumpção de riscos excessivos e as estratégias a curto prazo. É verdade que os reguladores não impediram os bancos de se portarem mal. Mas quando alguém rouba uma loja, acusamos o ladrão... não a polícia, por não estar no local. E os economistas também tiveram um papel importante, ao legitimarem a ideologia da desregulamentação.
É muito crítico sobre a forma como o presidente dos EUA, Barack Obama, geriu a crise. Mas não terá ele herdado os remédios da equipa de Bush? Poderia fazer reformas enquanto a casa ardia?
Barack Obama podia ter feito mais. Fez campanha com «a mudança em que podemos acreditar» mas escolheu uma equipa económica associada aos políticos de ontem. Deu centenas de milhares de milhões de dólares aos bancos, sem impor condições. E, em lugar de recapitalizarem os seus bancos, os financeiros utilizaram o dinheiro para irem de férias, pagar a si próprios superbónus e distribuir dividendos. Por não ter actuado com vigor suficiente, perdeu parte da sua credibilidade.
(...)
As reformas definidas no G20 são à medida da crise?
Se as novas normas sobre os fundos próprios dos bancos forem efectivamente aplicadas, as coisas vão mudar. (...) Se tivéssemos reconduzido as «alavancas financeiras» autorizadas, de 30 para 1 (rácio dívida/capital) para... 10 ou 12 para 1, nunca teríamos tido um problema desta amplitude. A reforma dos bónus também deverá limitar a excessiva tomada de riscos (...).
Mas como asseguramos que a redução da dimensão dos bancos não afecta a sua capacidade para financiar a economia?
Reduzir a importância do sector financeiro é uma coisa boa. O facto de este sector pesar 40% no total dos lucros das empresas demonstra a que ponto a nossa economia está distorcida. Uma reforma pertinente encorajaria, pelo contrário, actividades mais úteis: o capital de risco, o crédito às empresas, a investigação...
Podemos levar a cabo essas reformas simultaneamente em todos os países ocidentais?
Isso seria o ideal, mas não é realista. Se esperarmos por uma acção concertada, não faremos nada. Os banqueiros apostam, de resto, nesta paralisia. Cada governo deve fazer o que lhe parecer adequado à sua situação. O argumento da concorrência desleal é uma falsa questão. O core business da banca continuará a ser local. Quanto às actividades especulativas, pouco importa que emigrem para as Caraíbas. De qualquer forma, não têm grande utilidade social. Interessam essencialmente aos apostadores e aos seus accionistas.
_________________________________________
Noutro artigo («as tragédias da austeridade») da mesma revista, a respeito da crise e revolta social na Grécia, podia ler-se:
"Manhattan (...) há três meses, decorreu um jantar num hotel de luxo onde alguns dos maiores gestores de fundos especulativos do mundo, caso do SAC Capital Advisers e do Soros Fund Management, terão discutido a melhor estratégia para fazer descer a cotação do euro, arrastando-a para uma quase paridade com o dólar. Objectivo: o lucro, claro. Afinal, estes fundos conseguem endividar-se 20 ou 30 vezes mais que o valor do seu capital e uma simples variação de 5% da taxa de câmbio pode render-lhes o dobro ou o triplo do investimento feito (...)"

fevereiro 28, 2010

A minha primeira carta de trás da serra na nova revista «Free Zone»

Está disponível desde ontem o número zero da nova revista online gratuita «Free Zone». Além do Pedro Laranjeira, director da revista, colaboram outros amigos nossos: Miss Joana Well (com a sua excelente "carta aberta sobre a prostituição"), Jorge Castro (com uma oração à EDP) e Raim (que ilustra, magistralmente como sempre, a minha carta de trás da serra do marido de uma professora).
A revista completa está disponível para descarregar aqui, em formato pdf.



Estatuto da Carreira Indecente
Olá

Há tanto tempo que não te escrevia...
Como tens andado, no meio deste rebuliço que invade a nossa habitual pacatez e nos faz «rufar os tambores»?
Desculpa mas, mesmo sabendo que tu tens os teus próprios problemas, vou aproveitar o teu ombro amigo para desabafar.
Como sabes, a minha mulher é professora do ensino secundário. Vinte anos depois de uma vida de cigano, em que ela correu praticamente o país todo, optou por ficar numa escola, mesmo sendo ainda distante de casa, mas que lhe dava a estabilidade por que ela sempre ansiou.
O que se tem passado nestes anos mais recentes, nem precisas que te conte... ou até precisarias, porque o que é divulgado pelo governo, pelos sindicatos e pela própria comunicação social é muito deturpado. Na minha empresa, estou farto de ser alvo de chacota dos meus colegas quando me atiram com lugares-comuns como "os professores não querem trabalhar", "os professores estavam era mal habituados", "os professores não querem ser avaliados" e por aí fora. Revolta-me sempre que alguém critica os professores porque "um professor do meu filho balda-se às aulas e ninguém faz nada". Ai, sim? E os pais alertaram a escola? "Nós?! Para os nossos filhos terem problemas?!"
Quando pergunto aos meus colegas se na nossa empresa todos são competentes, estranhamente calam-se.
Estou farto! De ler artigos nos jornais como no «Económico» de 21 de Fevereiro de 2010, «Professores portugueses trabalham menos», quando em letra miudinha dizem que "se contarmos o trabalho fora da escola, os professores são a classe que mais horas trabalha, quando comparado com outras profissões". E mesmo a conclusão do título é falaciosa: usam um estudo da OCDE que refere que os professores portugueses, na sala de aula, gastam em média 18,5 horas por semana, contra 17,2 de média da OCDE e 16,4 da União Europeia. E que o número de horas por semana na escola é de 34,1 em Portugal, quando na OCDE são 30,5 e na UE 30,4. A conclusão deste artigo, obtêm-na do trabalho escolar total: 38,7 horas semanais em Portugal, contra 43,6 da OCDE e 42,2 da União Europeia. Consegues dizer-me como medem eles o trabalho fora da escola? E não achas estranho que os professores em Portugal gastem 4,6 horas semanais a trabalhar em casa, quando na OCDE (dizem) gastam 13,2 e na União Europeia 11,7 horas?! Olha, eles que venham a minha casa fazer o trabalho da minha mulher em 4,6 horas semanais!
Estou farto! De pagar arranjos da pintura do carro dela porque os alunos lho riscam (e diz-me ela que é normal), de estar sempre a comprar papel, tinteiros de impressora (e tanto que ela gasta...) e outro material, de ter comprado um computador portátil para ela levar para a escola ("dá-me jeito") e que vem de lá sempre cheio de vírus...
Estou farto! Das constantes reuniões dela marcadas fora de horas ("tem que ser"), das noites e fins-de-semana que não podemos aproveitar "porque tenho de trabalhar" e da consequente indisponibilidade dela para a família ("estou de rastos").
Estou farto! De reler o Estatuto da Carreira Docente, que sensatamente diz que os professores devem ter os recursos necessários à sua actividade. E o tempo é o recurso mais importante de todos! Estou farto que isto esteja só no papel. Desafio-te a encontrares outra profissão por conta de outrem em que o trabalhador tenha que comprar os seus instrumentos de trabalho e pagar as despesas em serviço. Aliás, julgo que se deveria criar para os professores a categoria de «trabalhador por conta de outrem... mas pouco».
Desculpa o tempo que te roubei e recebe um abraço do

Paulo Proença de Moura
Se clicar na imagem pode ver em todo o seu esplendor o Paulo Moura a levar à sua mulher a comida que ele... encomendou a um «take away»
Ilustrações - Grande Mestre Raim

fevereiro 27, 2010

O argumento do lápis azul

Aprendi com o meu Pai, desde criança, a absorver as lufadas de ar fresco que eram sempre - e continuam a ser - os artigos do Jornal do Fundão (de que o meu Pai era o correspondente em Caria). Tive o prazer de conhecer pessoalmente o António Paulouro, fundador do jornal e excelente Pessoa. Sempre soube dos artigos censurados antes do 25 de Abril, por vezes páginas inteiras que deixavam a redacção do JF numa azáfama para substituir os espaços vazios. O JF, nas suas edições actuais, recorda sempre exemplos dessa censura. O desta semana 25 de Fevereiro) conta o que se passou com uma notícia de Julho de 1967 em que se falava de José Afonso, "o precursor de nomes e talentos como Adriano Correia de Oliveira, Luís Cília e Manuel Freire". Sacrilégio! O lápis azul (com uma seta bem marcada) obrigou a que o artigo saísse sem duas palavras que apareciam juntas, provocando urticária aos senhores do lápis azul: "José"... e "Afonso".

fevereiro 22, 2010

No Brasil como em Portugal

"Basta dessa inutilidade de voto em branco e voto nulo.
O país deve adotar o voto contra.
A verdadeira, e simples, revolução democrática."


Millôr Fernandes
no Twitter

fevereiro 03, 2010

Carta aberta à senhora Ministra da Saúde

Transcrevo a carta aberta do meu amigo Jorge Castro. Que, como ele próprio diz, "esta minha porventura pouco razoável exposição de intimidades e privacidades possa contribuir para um Portugal bem mais ameno, que nos justifique Abril e atenue os Dezembros do nosso descontentamento":

"Carta aberta à senhora Ministra da Saúde - Serviço Nacional de Saúde, o estado demencial a que nos conduziu o primado da Economia

À Senhora Doutora Ana Jorge,
Ministra da Saúde

Por volta do dia 15 de Dezembro de 2009 – há cerca de mês e meio, portanto – a minha Mãe, sem que nada o levasse a supor, perdeu subitamente a capacidade de andar.
A Mãe tem 83 anos e padece, há cerca de dezoito anos, de doença de foro oncológico, sendo assistida regularmente no Hospital dos Capuchos, em Lisboa, seja em tratamentos, consultas ou exames de rotina. A situação sempre esteve, aparentemente, diagnosticada e controlada. Tem tido, assim, uma boa qualidade de vida, face à adversidade da sua doença, sem dores ou queixas especiais e levando uma vida normal.
De há cerca de três anos a esta parte notámos nós, os filhos, um decréscimo de medicamentação e, até, de exames. Não sendo nenhum de nós Médico, consideramos tal um bom indício, tanto mais que sempre acompanhámos a Mãe às consultas e nada nem ninguém nos alertou ou explicou sobre eventual evolução da doença.
Perante essa incapacidade súbita de locomoção – e porque em recente consulta de Clínica Geral, no Centro de Saúde que a assiste, perante queixa de dores nas costas e perda de sensibilidade nos dedos da mão direita por parte da Mãe, a Médica sugeriu a aquisição de um colchão e, posteriormente, prescreveu Voltaren «para ver se passava» - recorremos a consulta privada que, de imediato, promoveu um recurso a Neurologia… do qual resultou que, em 24 horas, a Mãe foi encaminhada de urgência para o Hospital de São José, em Lisboa, para ser submetida a uma bateria de exames, tendo o Especialista avisado de que deveríamos contar com intervenção cirúrgica imediata. Isto ocorreu em 20 de Dezembro de 2009.
É impossível descrever a via sacra a que a nossa Mãe foi submetida desde então, sem que ela ou os filhos tivéssemos qualquer voto na matéria. Tentarei sintetizar:
- dia 17 de Dezembro – internamento no Hospital de São José, em Lisboa;
- dia 18 de Dezembro – transferência para o Hospital São Francisco Xavier, onde iniciou uma série de exames;
- dia 20 de Dezembro - transferência para o Hospital Egas Moniz, para ressonância magnética e eventual cirurgia – quer uma, quer outra ocorreram sem que os filhos, presentes diariamente, ou, sequer, a própria, fossem previamente informados sobre o que quer que fosse. O único contacto registado, por parte da instituição, foi para me questionarem (aqui «descobriram» o meu telemóvel) se estava disposto a pagar 195 euros para um colete ortopédico, a utilizar no pós-operatório, colete não comparticipado pelo SNS…
- dia 4 de Janeiro de 2010 – decorrendo Fisioterapia e recuperação pós-operatória (a intervenção cirúrgica teve lugar em 28 de Dezembro de 2009), a metástases extensíssimas na região dorsal, já com grave infiltração óssea, sou informado pelo Hospital de que a Mãe tinha tido alta e estava já a caminho do Hospital de Cascais – suposta área de residência (?) - onde ficaria na Unidade de Oncologia. A pressa desumana com que tudo isto ocorre, leva a que a Mãe fosse despejada pelos próprios serviços do Hospital Egas Moniz, num expediente no mínimo desumano e, no limite, criminoso, no Serviço de Urgência do Hospital de Cascais, sem qualquer referenciação, aí permanecendo cerca de 24 horas, sem alimento ou medicação, perante o seu e nosso desespero. Valeu aqui algum expediente e a habitual movimentação de influências, vulgo cunha… ou poderemos imaginar que a Mãe ainda hoje por lá andaria perdida. Ainda assim, de três dias de espera numa maca nos corredores do Hospital não a salvámos - e, recorde-se, em pleno período pós-operatório. Nem da repetição de um rosário de exames mais ou menos agressivos, para redefinir o quadro clínico!
A partir daqui pensar-se-ia que a situação se estabilizaria. Mas ainda não! Para além da consulta de Oncologia a que já fora submetida no Egas Moniz, teve consulta desta Especialidade também no Hospital de Cascais, depois no Instituto Português de Oncologia e, por fim, no Hospital dos Quadrantes, em Carnaxide, onde foi prescrita uma bateria de 10 sessões de Radioterapia… em ambulatório! Para tal a Mãe teve alta do Hospital de Cascais no próprio dia do primeiro tratamento!!! Quatro consultas de Oncologia no espaço de 10 dias, agravadas pela necessidade de deslocação do doente ainda em recuperação da intervenção e sem capacidade de locomoção, para quê…?! Duvidarão os Médicos ou as Instituições uns dos outros ou trata-se de algum perverso ou maquiavélico esquema montado para incrementar proventos à custa de sofrimentos alheios?
Também aqui não tivemos voto na matéria, sempre nos sendo apresentado cada passo como dado adquirido.

Éticas, deontologias ou mera arte de viver em comunidade são, assim, trucidadas pela paranóia dos custos ou da rentabilização cega e, afinal, anacrónica assumindo, através do cumprimento cego de diktats de que ninguém sabe localizar exacta proveniência, foros do recurso à «esperteza saloia» para o descarte de mais um fardo em que está constituído cada paciente… porque já lá está uma imensidão deles à espera de vez, cabendo a cada um o «direito» à sua dose de mau trato e desconforto.
E a Mãe esteve sempre no Serviço de Medicina. Nem conseguimos apurar se a Unidade de Oncologia de Cascais tem, afinal, camas próprias que justificassem o encaminhamento feito pelo Hospital de Egas Moniz.
Importa acrescentar que, face ao lamentável insuficiente número de ambulâncias existente na Grande Lisboa, em cada deslocação o doente é deixado para tratamento e fica a aguardar, em maca, que a ambulância regresse… o que chegou a levar seis horas (!) de espera. Os bombeiros têm ordens estritas para acorrer a outros casos, deixando o doente no tratamento – que, no caso, demora escassos 15 minutos - o que também representa um conceito distorcido de bom serviço prestado e de rentabilização mais do que duvidosa face ao trânsito caótico de Lisboa! Importa, também, sublinhar que neste longuíssimo mês de horrores, contam-se já por cerca de duas dezenas as deslocações de ambulância, entre instituições e desvarios diversos.
Com todas estas andanças e maus tratos, a Mãe desenvolveu um quadro de escaras de grande gravidade, desidratação e assustadora infecção urinária com óbvia necessidade de tratamento urgente - em pleno internamento hospitalar! E assim teve alta!
Conseguimos, por força dessa alta, um lugar num lar que nos oferece as melhores condições de assistência total face a este pavoroso desenvolvimento. Enfrentamos e assumimos os encargos sem hesitações. Felizmente para nós, paciente e filhos, nunca foi esse o problema. Mas nunca nos colocaram, sequer, uma perspectiva de alternativa. Existe uma «lógica» hipócrita - que será até de defesa pessoal - a impelir cada profissional da saúde a fingir ignorar o que se passa a jusante do seu próprio acto. A «bola» é passada e, a partir daí, lavam-se as mãos...
Pelo caminho ficam as sucessivas ausências de aflição nos nossos locais de trabalho, para acorrer… nunca se sabe bem a quê, mas com as decorrentes mazelas profissionais que são conhecidas e que, de momento, nem contabilizámos... e lá vamos contando com a boa vontade de colegas. Fica, ainda, por referir uma imensidão de pormenores mais ou menos lúgubres, presenciados ou por nós vividos no dia-a-dia destas instituições cujo relato daria a esta missiva uma extensão que lhe retiraria utilidade.
Resta, talvez, referir que ao nível do contacto pessoal e de humanidade não há quase nada a dizer das larguíssimas dezenas de profissionais da saúde – médicos, enfermeiros ou pessoal auxiliar – com quem contactámos ao longo deste mês. Mas verifica-se, do mesmo modo, uma total impotência e falência institucionais para dar uma resposta civilizada, racional ou consequente face a um quadro como o descrito.
O paciente (leia-se, também, contribuinte) é, institucionalmente, tratado como um vulgar saco de batatas, descartável no mais curto espaço de tempo, sem escrúpulo nem redenção, mesmo que tenha os seus impostos em dia… afinal, aquilo que faz o sistema funcionar, quando não são desbaratados os recursos por parte dos responsáveis pelo poder político. Sim, porque o desperdício deste andar em bolandas tem, também ele, custos insondáveis, irracionais e em puro desperdício, para além da notória barbaridade perpetrada sobre o estado de saúde do paciente.
Todos temos a nossa hora. A nossa Mãe também terá a sua. Exige-se, apenas, a dignidade devida a um ser humano, num regime de direito e democrático. Preceito da Constituição que nos regula, bem como da Declaração Universal dos Direitos do Homem que nos deve nortear. Não é o que se está a passar no nosso Serviço Nacional de Saúde. E não estamos, sequer, em qualquer estado de guerra.
E eu sinto uma profunda vergonha pelo País que estou a legar ao meu filho!
Aqui eu deixo, à superior consideração de V. Excelência, não apenas como espúrio desabafo, mas como testemunho presencial e denúncia, a entender como acto de cidadania, que permitirá V. Exa. que eu divulgue, no interesse da comunidade. Nem será, neste contexto, relevante o anúncio do nome da paciente, como não será curial factualizar, ainda mais, as ocorrências descritas, por não haver aqui intuitos de algum modo persecutórios. Tão só isto: o testemunho que possa revelar-se útil para uma inversão de valores que é urgente.


Jorge Castro"

janeiro 24, 2010

Finalmente começa-se!

ilustração: http://www.wku.edu/
Enquanto a Ana Andrade não avança com um projecto na área da consultoria filosófica para empresas (aceitam-se apostas para o tempo que vai demorar até que ela avance), ela própria mostra-nos que há quem já esteja a começar, ensinando as crianças portuguesas a pensar.
Trata-se de um "projecto pioneiro a nível nacional [em desenvolvimento na Escola Tomás de Borba, em Angra do Heroísmo, com coordenação de Mário Cabral] que permite um primeiro contacto com o raciocínio filosófico a crianças do pré-escolar e do primeiro ciclo do ensino básico", através de jogos, adivinhas e contos. O objectivo é treinar os alunos para o raciocínio com regras e a estruturação do pensamento.
Quando chegará esta formação aos gestores?
Fico à espera de resposta, Ana Andrade!

janeiro 18, 2010

Bem haja, senhor Oswaldo Martins!

Comunicado da Administração da Pavigrés Cerâmicas SA:

Que pena a Chancelaria das Ordens Honoríficas Portuguesas não ter ligado à carta que lhes escrevi há uns anos em que sugeria que fosse atribuída ao senhor Oswaldo Martins a comenda da Ordem do Mérito Agrícola, Comercial e Industrial - Classe Mérito Industrial. Bem que a merecia!

dezembro 26, 2009

Persuasão dos mendigos

Quem, como eu, já tocou viola (com o meu parceiro Mário Rui na gaita de beiços) em tantas ruas, estações de caminhos de ferro, túneis de metro em Coimbra e por essa Europa fora... ainda dá mais valor à estratégia do mendigo da direita.

novembro 27, 2009

Dinheiro público

"Dinheiro público é o dinheiro que o governo tira dos que não podem escapar e dá aos que escapam sempre."
Millôr Fernandes
no Twitter

novembro 25, 2009

Uma leitura... de uma leitora do «Persuacção»

"Quando pensei em comprar o livro e mesmo depois de ler a crítica, achei muito interessante mas não tinha bem a ideia do que ia encontrar. No entanto, esta é uma área que me interessa bastante e estava muito curiosa. Agora que o li, e apesar da filosofia implícita no livro, que por vezes me fazia ter que ler de novo para entender devidamente, acho que consegui perceber a mensagem principal.
É daquelas coisas que realmente nos fazem pensar e chegamos à conclusão que é mesmo assim que as coisas se passam, até na nossa vida pessoal e não só no dia-a-dia das empresas. Hoje em dia, as empresas actuam num mercado em constante mudança ou adaptação às novas realidades/necessidades e cada empresa individualmente tem que estar atenta a esse facto e não pode ficar para trás, tem que acompanhar essa evolução. Mas é no interior dessas organizações que a maior parte das vezes aparecem entraves a essa mudança. O gestor tem por isso que estar preparado para lidar com empregados acomodados e que argumentam para a não mudança.
Como refere no livro e muito bem, nas nossas universidades não são abordadas questões como a argumentação, argumentação falaciosa, retórica, etc. Por isso, este livro vem de encontro a estas questões, preencher a lacuna existente na formação do empresário/gestor.
Gostei muito do livro. Mais que isso, aprendi muito com ele, por isso parabéns por ter partilhado connosco, leitores, o fruto da sua experiência.

Cumprimentos,
Marta Pires"

Eu é que lhe agradeço, Marta, esta síntese tão completa do «Persuacção». Só espero que alguma coisa lhe seja útil na sua vida profissional e mesmo, como muito bem diz, na vida "lá fora".

outubro 24, 2009

A falácia do CO2 e do aquecimento global

Um facto: à custa da paranóia do aquecimento global e das emissões de dióxido de carbono (CO2) muitas negociatas se criaram e desenvolvem... e são colocados obstáculos a muitas iniciativas, quer empresariais, quer de melhoria de condições de vida em países subdesenvolvidos.
O Canal 4 britânico produziu um documentário devastador intitulado "A Grande Fraude do Aquecimento Global". Aqui está, dividido em nove partes: