dezembro 31, 2010

O diálogo sobre o ateísmo continua

... a propósito do excelente texto de Rick Gervais «Why I'm an atheist», trazido e traduzido pela Ana Andrade:

OrCa:
"Antes de mais, as boas vindas à Ana. O Paulo sabe rodear-se!
Depois, o assunto: - acredito ou não em Deus. Pois eu não tenho motivos para acreditar ou deixar de acreditar em Deus, desde logo pela elementar razão de que o próprio nunca me pregou uma aldrabice que me levasse a deixar de acreditar nele... Porventura, falta de oportunidade. E a verdade-verdadinha é a de que ele não faz parte dos meus contactos de email, nem do Facebook.
Daí, a minha posição algo cínica e dubitativa sobre a matéria.
Por outro lado e pelas elementares razões anunciadas, a que podemos acrescentar o facto - esse, sim, universalmente conhecido - de Deus nunca ter aparecido em qualquer televisão remetem-nos, por questões de liminar lógica formal, à sua presuntiva não-existência, dado que é sabido que quem não aparece na televisão não existe.
Ainda que o conceito de Deus, levado à sua abstracção máxima - entendível por humanos, entenda-se... - de que Deus é o Universo, já o traz um pouco para mais perto de nós - e será razão bastante e óbvia para não caber nas televisões, até atendendo à sua dimensão circunstancial e ao reduzi tamanho dos estúdios.
Por outro lado - e seguindo em jeito de silogismo - se Deus é o Universo e se nós o incorporamos, então nós somos um pouco de Deus.
Ora, como o conceito não é quantificável - ninguém pode dizer que bocadinho de Deus é - cada um de nós é Deus! Atenção que este conceito deve ser extensivo aos vírus, às anémonas, aos repolhos, às minhocas, aos morcegos e, até, ao engenheiro Sócrates, etc., etc. Enfim, este sim, é um conceito pandémico.
Deus não estará, então, e como apregoam alguns, dentro de nós, mas somos nós próprios.
E, aí sim, eu não apenas acredito em Deus, como o conheço muito bem. Privo com ele nos mais desvairados locais e circunstâncias. E, aqui e ali, era até bem capaz de o achar merecedor de reprimenda ou vergastada, para além dos inumeráveis elogios quanto às suas manifestações.
Simplesmente não sou capaz de abranger toda a riqueza multidisciplinar do conceito atendendo à multiplicidade (que tende para infinito) das suas caras e manifestações contraditórias. E isso revela a minha limitação humana. Ainda que progrida, em cada momento, e se enriqueça esse conhecimento… assim a modos que um up-grade que a vida nos faz.
O tremendo disto tudo são as noções do infinitamente grande e do infinitamente pequeno… Eu explico-me: se Deus é o Universo, tudo bem, está (quase) percebido. Agora, se o Universo que nós presumimos ir conhecendo (pouco e mal) não é mais do que uma pindérica célula de um sinal na nádega direita de um Super-Universo? As nossas máquinas de calcular mais sofisticadas não comportarão dígitos para estas equações.
Maior do que esta baralhação conceptual só mesmo o discurso de um elenco governamental como aquele de que, hoje, dispomos…
Diria, em jeito de remate eternamente adiado, que Deus existe fundamentalmente sempre que nos dá jeito e alguns descobriram que, para viverem, mais vale bater a outras portas ou pedir noutras freguesias. Esses serão os ateus, em que me incluo. Não estarão certos nem errados – é tudo uma questão de divina opinião.
No meio disto tudo, igrejas, apóstolos, seguidores, teólogos e outra gente muito respeitável fazem-me sempre recordar aquele senhor que vende atoalhados na feira de São Pedro de Sintra e que não está ali para enganar ninguém. Felizmente que, pelo menos a esse, eu não sou obrigado a comprar nada."

Charlie:
"Ora bem, que agradável é poder trocar / complementar / esgrimir e coisas que tais, com estes excelentes compinchas (eu disse compinchas, Nelo).
Espero que tenham passado bem esta quadra festiva dedicado ao Natalis Solis Invictus a que o Cristianismo colou o nascimento do menino, menino esse que também foi buscar a outro culto, mas isso são por ora outras conversas. O que ressalta das apreciações sobre Deus(es), é a inevitabilidade da sua emergência. Para os que dizem não acreditar em nada de origem divina, relembro esta frase a propósito que Pessoa imortalizou:
- Onde está Deus, mesmo que não exista!...
Saramago chama à Biblia um manual de maus costumes e à luz da corrente humanista actual é-o certamente, mas tal como a Igreja afirma, é a palavra de Deus escrita pelos Homens, nos contextos histórico-culturais vigentes, donde se pode inferir desde a efabulação à mentira...
A personagem mítica de Cristo sofreu, por outro lado, do mesmo processo de «limpeza» que verificamos com Superman [Superman envolvia-se no início em ambientes sórdidos e assassinatos. Também os seus poderes eram mais limitados. A sua força vinha do sol amarelo da Terra, já que em Krypton o sol era vermelho. Também não voava nem tinha visão raios X, e os seus inimigos usavam filtros vermelhos sobre os prédios ou em aviões para combatê-lo. Com o tempo mitificou-se e tornou-se um semideus praticamente indestrutível, com um perfil moral de acordo com o padrão vigente. Mais um exemplo perfeito do fenomeno de mitificação que está na origem dos Deuses]. Da vida de Cristo resta como elemento de irascibilidade o episódio com que inicia a sua vida pública já em adulto, quando corre à chibatada os vendilhões do Templo. Cristo é depois e até à sua crucificação, a bondade e a doçura, o milagre e a palavra, mas sabe-se hoje pelos escritos do mar morto e outros textos, que ele seria um entre os muitos revoltados contra o ocupante Romano e que seria tudo menos doce e de comportamento mais consentâneo com os acontecimentos supracitados no templo. Um terrorista, diriam hoje....
- O que é então Deus? - perguntamos. Deus não cabe nas nossas classificações, pois sempre que o fazemos tiramos-lhe a divindade. Ao atribuirmos-lhe umas propriedades /qualidades, fazêmo-lo com exclusão de outras, o que o limita. E Deus só pode ser tudo por ser omnipotente. Ou será Ele a exclusão das nossas limitações e defeitos: o Bem?
O Bem e o Mal, como diria Nietzsche, são meras subjectividades, dependendo de que lado do benefício está o sujeito. Visto assim, cada ser humano tem o seu próprio Deus. Desde aqueles que não aceitam a sua existência até aos que fazem depender toda a sua existência Dele.
Podemos fazer um exercício académico: Imaginemos um Deus Criador de um Ser inteligente que não acredita nesse que o cria. Do mesmo modo, Ele cria um outro homem e, este sim, é crente. Podemos assim imaginar um novo perfil de Deus, um Deus gozão, que se esconde e enche o papinho de risota enquanto assiste escondido à discussão entre os dois.
Outro exercício é em tom contrário: Dois homens, um cria Deus e o outro desmonta esse Deus... Curiosamente, verificamos como em ambos os casos os argumentos convergem: a existência de Deus está sempre no fulcro.
Podemos ainda extrapolar. Deus criou o homem dando-lhe a conhecer apenas os limiares da sua existência, já que para O entender é preciso estar dotado da Sua infinita sabedoria e assim, em cada estágio da evolução, Deus dá-se a mostrar mais e mais, sempre à frente do entendimento no limite da fronteira humana, tendo como objectivo final a reunião com ele. A travessia do povo eleito pelo deserto durante 40 anos, como é referido na Bíblia, em que Moisés nunca chega à terra prometida, é uma perfeita analogia deste conceito.
Sendo então Deus revelado consoante o estado de cada ser humano, - ...sou da altura do que vejo, disse Pessoa... - temos assim para cada um de nós um Deus à medida. Todos os Deuses da Antiguidade seriam apenas aspectos dele que o Homem de então podia entender. Ele não existe para além do nosso entendimento, mesmo que não precise desse nosso entendimento para não existir, pois se Deus é tudo, é a existência mas também o seu contrário, a não existência. O Ateu é assim a prova mais cabal de que Deus existe, afirmando-a através da negação. Não ter Deus é possivelmente a forma mais divina e fantástica da sua criação.
Eu, Charlie, como Ateu, afirmo-o..."

dezembro 30, 2010

ó gente da minha terra...

Assalta-me, com inusitada frequência e cada vez mais, uma estranha sensação de me sentir – ou parecer que querem fazer sentir-me – um estranho numa terra estranha, conforme o título dessa obra de ficção de Robert Einlein que me povoou leituras de juventude.

Ele é a aceitação amorfa e acrítica ­– explicitamente amorfa e acrítica, pois parece fazer-se apanágio de tal­ – por parte da (aparentemente) grande maioria dos meus concidadãos em face das mais despudoradas atitudes governamentais no esbulho da coisa pública, na aldrabice ou sistemática contradição do que ainda ontem foi assegurado como verdade absoluta, na deriva alucinada de políticas nos pilares da cidadania que são a Saúde, o Ensino e o Trabalho… e o resto!

Ele é a moldura humana que se desassossega, que grita e se esgadanha para encher até aos bordos salas de espectáculo ouvindo lamechices medíocres e péssimas interpretadas por lamechas medíocres e péssimos, mais ou menos andróginos mas, invariavelmente, sequer sem pinga de voz que lhes valha a eles e às lamechices que entoam, ainda que com muito espectáculo de luzes, umas coristas conspicuamente descascadas e, até – pasme-se! – grupos orquestrais de qualidade, em palco, que tanto escasseiam para abrilhantar outros eventos mais razoáveis. E fazendo carreira – ou fazendo tony, que vai dar ao mesmo – com irrazoáveis proventos de fazer inveja a um santo, financiados por tudo quanto é poderes públicos… com os dinheiros públicos que, por sua vez, tanta falta fazem em tanto buraco de que este País se farta.

Ele é o fervor clubista que faz comerem-se vivos milhares de adeptos de equipas adversárias – claro, apenas do futebol que, quanto ao resto, o desporto dá saúde mas é só paisagem –, aparentemente sem qualquer espírito valorativo ou crítico em relação ao mundo de interesses que norteia e faz mover os futebóis… e, afinal, os faz mover a eles, também, lamentáveis marionetas desses jogos de interesses. Adeptos que se insurgem e se revoltam e insultam e apedrejam tudo e todos sempre que um qualquer «dirigente desportivo» dos tais futebóis lança uma atoarda idiota sobre qualquer peça de uma equipa adversária.

Ele é as manifestações lamentosas das escolas privadas quando o estado anuncia que lhes vai cortar subsídios, a elas que são privadas e que assim nasceram e querem ser mas que também contribuem desgraçadamente para o descrédito do ensino público através de habilidades demagógicas mas elitistas, e que vivem, afinal, sob a dependência da asa acolhedora do dinheiro de nós todos… mas que se querem manter privadas. Claro que haverá algumas de real interesse público, lá onde o Estado se demitiu por qualquer razão mais ou menos histórica e cujo desagrado se fundamenta em sólidas razões contratuais. Mas aí, pergunto eu, de que estará à espera o Estado para suprir tais carências? Agora, seguramente, essa função supletiva territorial não incidirá nas escolas privadas dos grandes centros urbanos e que também abicham o sacrossanto subsídio… 

Os exemplos da minha estranheza dariam obra monumental que ninguém leria e que não serviria rigorosamente para nada, como para pouco ou nada servirão estas poucas linhas que sobre o assunto estou a escrever.

Estarei porventura mal informado sobre os mais diversificados itens. Mas a verdade é que tento manter-me informado… e continuo desinformado. E, assim, me vou mantendo opinativo quiçá sem fundamento, mas indignado até por essa falta de fundamento.

Mas pasmo. E, pasmando, manifesto-me, quer seja ou não lido.

Força frustre, talvez, e inócua, seguramente, perante o eco que jornais, rádios e televisões dão a estas estranhas coisas, que vão transformando a vida do País – as nossas vidas – num imenso circo em que os Césares e os Neros já nem cuidam de preocupações com o pão.

Esse, pelos vistos, vai ficando pelas Misericórdias e misericordiosamente nas mãos e nas preocupações daquelas faixas da população que ainda têm um par de sapatos a mais, lá por casa, ou um cobertor, ou uns cêntimos disponíveis para algum dos incontáveis peditórios com que somos assolados, como para a recolha de bens alimentares em grandes superfícies que matam a fome a quem a tem por um ou dois dias mas que tês esse extraordinário efeito colateral de rechear ainda mais os alforges dos donos dessas grandes superfícies.

Talvez o mundo esteja, na verdade, a mudar de paradigmas. Mas não é seguramente na senda da sociedade da abundância, de onde advirá a riqueza cultural humana, mas antes no sentido daquela outra sociedade, preconizada por Orwell, onde o triunfo dos porcos desgraça a vida de todos os animais da quinta ou onde uma pseudo-elite detentora de tudo raciona e determina o que é «bom» e «mau» para cada um de nós e onde, em boa verdade, ninguém é dono de nada, nem sequer do livre pensamento ou do livre arbítrio.

E tudo decorre, paulatinamente, sob o nosso olhar pachorrento, anestesiado e conformista…

Mas não será, pois, esta uma crónica pessimista ou derrotista porque, afinal, é fácil mudar este estado de coisas. Basta NÓS querermos, dos nossos pequenos aos grandes gestos. E esta é uma boa altura – tão boa como outra qualquer – para alterarmos comportamentos. Bom ano de 2011, acrescido de IVA a 23% que o Estado, coitado, precisa, necessita, carece…

dezembro 25, 2010

Diálogo sobre o ateísmo...

... a propósito do excelente texto de Rick Gervais «Why I'm an atheist», trazido e traduzido pela Ana Andrade:

Antonino:
"Fascinante... Talvez por isso, no 'In Memoriam' do meu pai eu escrevi mais ou menos isto: «Era um homem bom por amor da bondade e justo por amor da justiça». Realmente, se assim não fosse, andávamos todos a agir num modelo de PEC (Pagamento Especial por Conta) que seria algo assim: Tu vais pagando já agora, que Eu depois acerto contigo e vejo se tens a dar ou a receber.
Gostei."

Charlie:
"Excelente aperitivo para um brainstorming. A Fé é aquele elemento imponderável que está sempre um passo à frente da razão. Por mais absurda que possa parecer esta afirmação, o suprassumo da racionalidade, consubstanciado na figura do cientista, persegue a decifração dos enigmas do conhecimento movido pela intuição, a fé, e apoia-se na racionalidade para a sustentar e, logo de seguida, a questionar. Se há Deus? Claro que há! Deus é a entidade impessoal que existe em cada homem. Cria os mundos e o Homem em espaços determinados de tempo que possam caber nos contextos que este lhe destinou.
Toda a gente acredita em Deus e, quando diz que não acredita, expressa a forma mais assertiva de acreditação e que consiste no acto da negação. Toda a negação tem como contraponto o universo afirmativo contra o qual se debate. Provar que Deus não existe passa pela criação de novos universos de sinal contrário, subordinados a Deus e potencialmente berços de novos deuses!
Do outro lado, a aceitação em Fé da divindade tradicional não existe esforço - Deus não precisa de ser provado, pois Deus é sempre mito e os mitos não precisam de provas. A Fé sim. Ela é a fronteira entre os estímulos da intuição - vindos directamente da vida instintiva - e da razão. Dessa relação instável nasce a necessidade obsessiva da afirmação constante da Fé. Para o crente, Deus não se questiona. A Fé sim, essa exige do crente a paga constante do tributo."

Antonino:
"Brainstorming... bem pensado. Após a leitura do texto e do comentário, as ideias surgem, debatem-se e vão. As que ficam deixam que pensar. Na essência do texto, os deuses são criações humanas e são os homens que se servem da sua criação para justificarem coisas boas e coisas más. Ser ateu e acreditar nos outros é a forma mais divina de expressarmos a nossa fé. Digo: «acredito em ti» e logo tu existes. Repito uma ideia, os nossos actos devem ser ditados pelos limites do humano e não pela transcendência da fé. Quando a própria Igreja deixou/deixa de obedecer à lei dos homens e não se lembra de que poderá 'arder no Inferno' gera partos aberrantes como a Inquisição e as purgas."

dezembro 22, 2010

"Why I'm an atheist", por Rick Gervais

Rick Gervais é um génio humorístico, todos (ou pelo menos os que acompanham a sua carreira ou, vá, os que assistiram ao The Office original) o sabem.
O que eu não sabia é que ele escreve coisas que eu gostaria de ter escrito, porque sou uma grande invejosa. Como não escrevi, cabe-me a postura humilde (e humilhada) de reproduzir aqui um ensaio de pensamento crítico a que, enquanto professora, atribuiria nota máxima.

(Atrevi-me a fazer uma tradução do original, que só não me deu água pela barba porque eu não tenho barba, por um lado [ao menos, até ver] e, por outro, porque tive como partenaires o mui viajado P.R., nas expressões [mais] idiomáticas e o sempre atento P.M [meu-co-contribuidor], na revisão final. Obrigada aos dois pela ajuda e ao último, em particular, por ter cometido a insanidade de me convidar para fazer parte desta coisa séria que é o Persuacção.)

Senhoras e senhores, eis Rick Gervais no seu melhor.

Por que não acreditas em Deus? Fazem-me esta pergunta a toda a hora. Tento sempre dar uma resposta sensível e racional, o que é sempre estranho, uma perda de tempo e desprovido de sentido. As pessoas que acreditam em Deus não necessitam de uma prova da sua existência e certamente não pretendem evidências do contrário. São felizes com a sua crença. Inclusivamente, dizem coisas como “para mim, é verdade” e “trata-se de fé”. Ainda assim, eu dou a minha resposta lógica, porque sinto que não sendo honesto seria paternalista e indelicado da minha parte. É, portanto, irónico que “eu não acredito em Deus porque não há qualquer prova científica da sua existência e, pelo que sei, a própria definição de Deus é uma impossibilidade lógica no Universo conhecido” acabe por ser simultaneamente paternalista e indelicado.

Arrogância é outra acusação. Que me parece particularmente injusta. A ciência procura a verdade. E não discrimina. Para o melhor e para o pior, descobre coisas. A ciência é humilde. Sabe o que sabe e sabe o que não sabe. Baseia as suas conclusões e crenças em fortes provas – provas essas que são constantemente actualizadas e melhoradas. A ciência não fica ofendida quando surgem novos factos e aceita o corpo do conhecimento. Não se agarra a práticas medievais só porque são tradicionais. Se o fizesse, não teríamos uma injecção de penicilina; baixaríamos as calças, enfiaríamos uma sanguessuga e rezaríamos. O que quer que seja em que se “acredite”, nunca será tão eficaz como a medicina. Novamente, poder-se-á dizer “comigo, funciona”, mas também os placebos funcionam. O que quero dizer é que Deus não existe. Não estou a dizer que a fé não existe. Eu sei que a fé existe. Verifico-o a toda a hora. Mas acreditar numa coisa não faz dela uma verdade. Esperar que uma coisa seja verdadeira não faz dela uma verdade. A existência de Deus não é subjectiva. Ele ou existe ou não existe. Não é uma questão de opinião. Podemos ter as nossas próprias opiniões. Mas não podemos ter os nossos próprios factos.


Por que é que não acredito em Deus? Não, não, por que é que se acredita em Deus? Certamente que o ónus da prova está no crente. Foi ele quem começou tudo isto. Se eu me chegasse ao pé de alguém e dissesse “Por que não acreditas que eu posso voar?”, dir-me-iam “Por que haveria de acreditar?”, e eu responderia “Porque é uma questão de fé”. Se eu, depois, dissesse “Prova que eu não posso voar; vês, não consegues prová-lo, pois não?” provavelmente virar-me-iam as costas, chamariam a segurança ou atirar-me-iam da janela e diriam “Então voa aí, seu lunático de m****!”

Trata-se, evidentemente, de uma questão espiritual. A religião é um assunto diferente. Como ateu, não vejo nada de “errado” na crença num deus. Não acredito que haja um deus, mas acreditar nele não faz mal algum. Se ajuda de algum modo, então tudo bem, para mim. É quando a crença começa a infringir os direitos das pessoas que começa a preocupar-me. Eu nunca negaria a alguém o direito de acreditar num deus. Só preferiria que não se matassem pessoas que acreditam num deus diferente, vá. Ou que não se apedrejasse alguém até à morte porque um certo livro de regras diz que a sua sexualidade é imoral. É esquisito que alguém acredite que um poder omnisciente, omnipotente e omnipresente, responsável por tudo quanto acontece, possa igualmente querer julgar e castigar as pessoas por aquilo que são. De tudo quanto consigo coligir, o pior que se pode ser é mesmo um ateu. Os primeiros quatro mandamentos confirmam este ponto. Há um deus, eu sou esse deus, mais ninguém é, ninguém é tão bom e não te esqueças disso. (Não matar não é mencionado senão no número 6).

Quando confrontado com alguém que leva a minha irreligiosidade tão a peito, eu respondo “Foi o modo como Deus me fez”.
Mas de que é que os ateus são, na verdade, acusados?

A definição de Deus no dicionário é “criador sobrenatural e supervisor do universo”. Incluídos nesta definição estão as divindades, as deusas e os seres sobrenaturais todos. Desde o início da história, que é marcado pelo início da escrita pelos Sumérios há cerca de seis mil anos, os historiadores catalogaram mais de 3.700 seres sobrenaturais, dos quais 2.870 podem ser considerados divindades.

Sendo assim, da próxima vez que alguém me disser que acredita em Deus, direi “Qual? Zeus? Hades? Júpiter? Marte? Odin? Krishna? Vishnu? Rá?…” E se me responderem “Só Deus. Eu acredito no Deus Uno”, eu assinalarei que esse alguém é quase tão ateu como eu. Eu não acredito em 2.870 deuses e ele não acredita em 2.869.

Eu costumava acreditar em Deus. O Deus Cristão, quero dizer.

Eu adorava Jesus. Era o meu herói. Mais do que estrelas pop. Mais do que futebolistas. Mais do que Deus. Deus era, por definição, omnipotente e perfeito. Jesus era um homem. Teve de se esforçar. Teve tentações mas derrotou o pecado. Era íntegro e corajoso. Mas Ele era o meu herói porque Ele era bondoso. E Ele era bondoso para toda a gente, não oferecia pressão, tirania ou crueldade aos seus pares. Não queria saber quem era quem. Amava todos. Que homem! Eu queria ser tal como Ele.

Um dia, quando tinha cerca de 8 anos, estava a desenhar a crucificação, como trabalho de casa de Estudos Bíblicos. Eu também adorava arte. E a natureza. Gostava de como Deus fizera os animais. Eles também eram perfeitos. Incondicionalmente belos. Era um mundo espantoso.

Eu vivia numa casa pobre, típica da classe trabalhadora, em Reading, cerca de quarenta milhas a oeste de Londres. O meu pai era um trabalhador e a minha mãe dona de casa. Nunca me envergonhei da pobreza. Era quase nobre. Para além disso, toda a gente que eu conhecia vivia na mesma situação e eu tinha tudo aquilo de que precisava. A escola era gratuita. As minhas roupas eram baratas e estavam sempre limpas e passadas a ferro. E a mãe estava sempre a cozinhar. Ela também estava a cozinhar no dia em que eu desenhava a cruz.

Estava sentado à mesa da cozinha quando o meu irmão veio para casa. Ele era onze anos mais velho do que eu, pelo que deveria ter 19. Era tão esperto como toda a gente que eu conhecia, mas também atrevido. Era daqueles que não se calava e se metia em sarilhos. Eu era um bom rapaz. Ia à igreja e acreditava em Deus – que alívio para uma mãe da classe trabalhadora. É que, tendo crescido onde eu cresci, as mães não esperavam que os seus filhos se tornassem médicos, limitavam-se a esperar que eles não fossem parar à cadeia. Vai daí, educavam-nos a acreditar em Deus e eles seriam bons e obedientes à lei. É um sistema perfeito. Quer dizer, quase. 75% dos Americanos são cristãos tementes a Deus; 75% dos presos são cristãos tementes a Deus. 10% dos americanos são ateus; 0.2% dos presos são ateus.

Mas enfim, lá estava eu desenhando alegremente o meu herói quando o meu irmão Bob perguntou: “Por que acreditas em Deus?”. Uma questão tão simples. Mas a minha mãe entrou em pânico. “Bob”, disse ela num tom que eu sabia que significava “cala-te!”. Mas porque é que aquilo era uma coisa má de ser perguntada? Se houvesse Deus e minha fé fosse forte o suficiente, não importaria o que as pessoas diriam.

Oh... espera lá. Não há Deus. Ele sabe-o e ela também o sabe, lá no fundo. Era tão simples quanto isto. Comecei a pensar no assunto e a colocar mais perguntas e, no espaço de uma hora, era ateu.

Uau! Não há Deus. Se a mãe me mentiu acerca de Deus, ter-me-á mentido também sobre o Pai Natal? Sim, claro, mas o que é que isso interessa? Os presentes continuaram a vir. E assim também os presentes do recém-descoberto ateísmo. Os presentes da verdade, da ciência e da natureza. Aprendi sobre a evolução – uma teoria tão simples que somente os grandes génios ingleses poderiam ter apresentado. Evolução das plantas, dos animais e do ser humano – com imaginação, livre arbítrio, amor e humor. Já não precisava de uma razão para a minha existência mas tão só de uma razão para viver. E imaginação, livre arbítrio, amor, humor, diversão, música, desporto, cerveja e pizza são razões boas quanto baste para viver.

Mas para viver uma vida honesta é preciso a verdade. Essa é a outra coisa que aprendi naquele dia: que a verdade, apesar de chocante ou desconfortável, no limite conduz à libertação e à dignidade.

Então o que significa realmente a questão “Por que não acreditas em Deus?” Penso que quando alguém faz essa pergunta está, na realidade, a questionar a sua própria crença. Em certa medida, está a perguntar “O que é que faz de ti especial?”, “Por que é que ainda não te fizeram uma lavagem ao cérebro como a nós?”, “Como te atreves a dizer que eu sou tolo e não vou para o céu?, Vai à m****”. Vamos ser honestos, se uma só pessoa acreditasse em Deus, seria considerada bastante estranha. Mas como é uma posição muito popular, é aceite. E por que é que se trata de uma perspectiva muito popular? É óbvio. Trata-se de uma proposição atraente. Crê em mim e viverás para sempre. Mais uma vez, se fosse só um caso de espiritualidade, estaria bem.

“Faz aos outros...” é uma maneira prática de proceder. Eu vivo de acordo com esse princípio. A capacidade de perdoar é provavelmente a maior das virtudes. Mas é exactamente isso: uma virtude. Não apenas uma virtude cristã. Ninguém possui a capacidade de ser bom. Eu sou bom. Só não acredito que vou ser recompensado por isso no céu. A minha recompensa é aqui e agora. É saber que tentei fazer o que era correcto. Que vivi uma vida boa. E é aqui que a espiritualidade perde o sentido, quando se torna um bastão para agredir as pessoas. “Faz isto ou arderás no inferno”.

Não arderás no inferno. Mas sê bom, de qualquer modo.

dezembro 01, 2010

Bem haja, Padrinho!

Sempre tive orgulho no meu padrinho.
Desde pequeno, os meus pais transmitiram-me uma forte admiração pelo Zé Alberto, nosso familiar, oficial pára-quedista que combatia em África.
Primeiro em Angola, depois em Moçambique e finalmente, pouco antes do 25 de Abril, na Guiné.
Na sala de estar da casa dos meus pais, sempre esteve e continua uma fotografia dele, jovem oficial fardado. E também tenho ainda um avião de brinquedo da BOAC (companhia de aviação inglesa que terminou em 1974) que o meu padrinho me enviou pelo correio, juntamente com uma bola.
Um dia, escrevi uma redacção dedicada a ele:

"Re de acção
U mêu pãdrinho
U mêu pãdrinhu è ofissial paraqedista.
Cuando pra là foi çaltava dus aviôez.
Agòra enpurra os ôtros."

Recentemente, já com o meu padrinho reformado, acompanhei, com a mesma admiração de sempre, as notícias sobre a missão que ele integrou de resgate de corpos de soldados pára-quedistas que morreram em combate na Guiné, numa operação comandada por ele e que tinha como missão atingir e reforçar a guarnição de Guidage, cercada na altura pelo PAIGC.
Infelizmente, nunca tive oportunidade para ouvir, como sempre desejei, as suas memórias e experiência riquíssimas. Mas agora, tenho este livro que o meu padrinho, José de Moura Calheiros, escreveu: «A Última Missão». Para todos os que quiserem saber.
Já vos disse que tenho muito orgulho no meu padrinho?

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«A Última Missão»

novembro 28, 2010

A Filosofia e a Gestão - uma aula da Dra. Ana Andrade

A jornalista Joana Pereira, da revista «Exame», colocou algumas perguntas à Dra. Ana Andrade, professora de Pensamento Crítico da Universidade Católica do Porto. Quando li as respostas, achei logo que não seriam publicadas na íntegra na revista «Exame». E isso confirmou-se, pois só foram usados pequenos excertos no artigo. E logo na altura combinámos que eu publicaria as respostas dela:

Que contributos pode ter a Filosofia na Gestão? Normalmente, vende-se a ideia de que a Filosofia não tem aplicabilidade prática… Que pontes existem entre estas duas disciplinas?
Na verdade, a Filosofia contemporânea é vulgarmente encarada como algo que pertence ao reduto de um núcleo de iluminados, fechados numa qualquer torre de marfim do conhecimento, que discutem entre si (ou, no limite, consigo próprios) e escrevem, uns para os outros, máximas, aforismos e teorias crípticas que mais ninguém se preocupa em perceber. De resto, chego a pensar que se caiu no extremo de considerar que quanto mais indecifrável for uma teoria filosófica mais complexa e, consequentemente, mais respeitada ela se torna.
Mas nem sempre foi assim: basta pensar em Sócrates, que passava os seus dias na ágora, a discutir com os cidadãos de Atenas grandes questões filosóficas; ou mesmo em Marx, cuja filosofia económica e política indicava um caminho a seguir. E ambos (com um iato de vinte e quatro séculos) pretendiam que as suas ideias fossem usadas, enquanto modo de vida.
Quanto a mim, ou a Filosofia e os que a fazem descem da tal torre de marfim e fazem Filosofia para seres humanos, enquanto seres humanos que são, ou esta será uma área do saber que, como dizem os mais pessimistas, estará condenada a não ser reconhecida para além de um restrito circuito académico que se alimenta a si mesmo de uma verborreia abstracta, sem qualquer aplicabilidade.
Felizmente, e a partir da década de 1980, a Filosofia começa a ressurgir enquanto prática e, nos primeiros anos do século XXI, são inúmeras as obras, escritas por filósofos para não-filósofos, que constituem grandes sucessos de vendas, o que vem demonstrar que as pessoas estão a fazer as pazes com um saber que se distanciou delas mas que soube reformular-se (num processo nunca concluído), para voltar a elas. Como diz Rowland Smith, autor de Pequeno Almoço com Sócrates (Lua de Papel, 2010, ISBN 9789892309699, 224 pp. ), “é preciso voltar a estabelecer ligação entre a filosofia e temas como a vida, a morte, o sexo e o amor. Esse é o verdadeiro espírito da filosofia, não o de um quebra cabeças.”
Neste sentido, é fácil perceber por que é que a consultoria filosófica (algo que está a ser fortemente implementado nos países de raiz anglo-saxónica) está a trabalhar lado a lado com a Gestão.

Quais as correntes filosóficas que costuma aplicar à Gestão (ou, pelo menos, as que têm maior aplicação)? De forma muito sucinta, como é que analisa/explica a aplicabilidade dessas correntes à Gestão?
Creio que esta questão seria mais facilmente respondida por um gestor do que por uma professora de Pensamento Crítico (e outras filosofices). De qualquer modo, e porque a Gestão de Empresas é um saber bastante recente, os filósofos sempre se preocuparam mais com a sua área-mãe, a Economia. E, nesta área, surgem inevitavelmente nomes como:
• Desde logo, ARISTÓTELES (384 a.C.-322 a.C.) que, com o contributo que deu à lógica e à argumentação, erigiu todo o background teórico necessário a qualquer profissional que, como o gestor, age tendo em vista a mudança, o ajuste ou reajuste, ou mesmo a micro-revolução. Mas, para se inteirar destes factos, não há fonte melhor do que o livro do Dr. Paulo Moura, PERSUACÇÃO – O QUE NÃO SE APRENDE NOS CURSOS DE GESTÃO.
• ADAM SMITH (1723-1790), que defendia que a iniciativa privada deveria agir livremente, com pouca ou nenhuma intervenção governamental, mesmo porque “o mercador ou comerciante, movido apenas pelo seu próprio interesse egoísta (self-interest), é levado por uma mão invisível a promover algo que nunca fez parte do interesse dele: o bem-estar da sociedade”;
• DAVID RICARDO (1772-1823), que se debruça sobre temas como a teoria do valor-trabalho, as relações entre o lucro e os salários ou o comércio internacional;
• JOHN STUART MILL (1806-1873), cuja teoria utilitarista (a acção moral é aquela que provoca a maior felicidade ao maior conjunto de pessoas) pode ser aplicada à Gestão como a muitas outras áreas do saber;
• JOHN MAYNARD KEYNES (1883-1946), defensor do Estado intervencionista e considerado o pai da macroeconomia moderna (pelo que os seus estudos não serão tão directamente pertinentes para a Gestão de Empresas), fundamenta ainda hoje grande parte dos planos económicos traçados pelas nações ocidentais.
• JOHN RAWLS (1924-2002), cuja teoria corresponde a uma reacção ao utilitarismo clássico (de J. Stuart Mill), que defendia que se uma acção maximiza a felicidade, não importa se a felicidade é distribuída de maneira igual ou desigual. Ora Rawls parte de algo muito diferente: todos os bens sociais primários (liberdades, oportunidades, riqueza, rendimento e as bases sociais da auto-estima) devem ser distribuídos de maneira igual, a menos que uma distribuição desigual de alguns ou de todos estes bens beneficie os menos favorecidos. De resto, em cada um dos princípios rawlsianos mantém-se a ideia de distribuição justa: assim, uma desigualdade de liberdade, oportunidade ou rendimento será permitida se beneficiar os menos favorecidos.
Todas estas teorias filosófico-económicas (sem demérito para muitas outras) podem, em maior ou menor grau, ser aplicadas na Gestão de Empresas. Contudo, crê-se, com Paulo P. de Moura, que o maior e mais profícuo contributo da Filosofia, para a área da Gestão, prende-se justamente com a teoria da argumentação, com a lógica informal, com a arte de convencer, para mudar — a que poderíamos adir reflexões sobre ética ou, naturalmente, a actividade de um consultor filosófico ou filósofo de empresa.

O Paulo Moura falou-me no conceito de “consultoria filosófica” e disse-me para falar consigo sobre este tema. No que consiste? Como se procede?
Estou convicta de que, a curto ou médio prazo (embora não necessariamente nos países do Sul da Europa, ainda agarrados aos modelos tradicionais de gestão, quase familiar, e por isso avessos à evolução empresarial tal como tem vindo a acontecer nos países do Norte da Europa e Estados Unidos da América), o filósofo de empresa (ou consultor filosófico) será um colaborador permanente e de suprema importância nas organizações do século XXI, “com lugar reservado no parque de estacionamento da empresa”, no dizer de Lou Marinoff (MAIS PLATÃO, MENOS PROZAC, Ed. Presença, 2002).
Apesar de não se tratar de um fenómeno novo (basta pensar na tradição filosófica que remonta à Antiguidade Grega e na praxis de autores como Sócrates, Platão e Aristóteles ou todo o movimento sofista), a verdade é que é difícil pensar numa filosofia prática, empresarial, quando o que temos em mente é o academismo circunscrito a que esta área do saber se votou. Mas a verdade é que, para os gregos antigos, a filosofia não era algo apartado da vida; pelo contrário, tratava-se de um modo de vida que buscava o bem, a justiça, a verdade, a autenticidade e outros valores determinantes. Deste modo, a filosofia não começou por ser (nem se quedava em ser) um puro exercício intelectual mas antes um modo de transformar modos de ser, de actuar e de ver o mundo.
Ora é justamente nesta concepção que radica, em última análise, a pedra de toque do que é, hoje, a consultoria filosófica. Esta, assumidamente multifacetada, é uma actividade que não só fornece a análise lógica de um assunto ou problema em particular como, mais ainda, explora a relação daquele assunto ou problema com todo o vastíssimo sistema de crenças e valores que norteiam o comportamento humano.
É a capacidade de “dar um passo atrás”, de ver o problema na sua universalidade e, depois, de o decompor e de o analisar radicalmente (no sentido de descer à sua raiz) que constituirá uma mais-valia determinante numa empresa ou em qualquer organização.
A consultoria filosófica é já considerada como uma actividade séria: há filósofos a trabalhar como consultores para governos, indústrias e profissões, proporcionando serviços que visam a previsão e resolução de conflitos entre princípios morais e códigos de conduta profissionais ou, mais frequentemente, a relação entre princípios éticos abstractos e exercícios concretos de ética. E isto reveste-se de suma importância numa era em que, se a empresa actuar de acordo com princípios éticos, os prejuízos financeiros (decorrentes de indemnizações por danos éticos, por exemplo) poderão ser significativamente reduzidos. Por outro lado, é por demais evidente que as organizações íntegras funcionam melhor do que as que têm vícios. Também é verdade que todos sabemos que é possível gerir um negócio lucrativo sem qualquer ética; mas os que assim procedem estão permanentemente em alerta, temendo a polícia ou qualquer outra entidade reguladora, com medo de sofrer represálias e de terem de prestar contas pelos seus actos. Aplicar princípios éticos é muito mais vantajoso para o ser humano enquanto pessoa e enquanto homem ou mulher de negócios.
O consultor filosófico ou filósofo de empresa a tempo inteiro poderá ainda aconselhar os trabalhadores na resolução de problemas que interferem com o desempenho das suas tarefas (o que nada tem que ver com a acção de um psicólogo), animar reuniões de trabalho no sentido de melhorar as performances de fornecedores e gestores e, ainda, actuar junto dos mais elevados níveis da direcção para melhorar as dinâmicas empresariais.
Todas estas actividades, de cariz claramente filosófico, são cruciais para se tirar mais e melhor partido do trabalho e da vida — e qualquer delas terá de ser levada a cabo por indivíduos formados filosoficamente.

Falta pensamento crítico na Gestão? Tem exemplo práticos que possa dar?
Falta pensamento crítico ao ser humano em geral; logo, também os gestores carecerão dele. O pensamento crítico que o espírito filosófico proporciona é, ou deveria ser, transversal a todas as áreas do conhecimento, isto é: mal estará a humanidade no dia em que só quem for detentor de uma licenciatura em Filosofia (mesmo porque nem todos os que passam pelo curso superior são dotados de pensamento crítico) possui a autonomia, a inquietude e a angústia que o pensamento filosófico produz em quem o vive.
Defendo que o ser humano do século XXI está demasiado preocupado em contrariar o stress, a ansiedade, a insatisfação. Para tal, procura conforto espiritual e físico nas religiões e práticas desportivas que os levam à meditação, tornando-se pessoas mais calmas, menos combativas, menos críticas. E o mal radica justamente aqui: o ser humano deve querer sentir-se acordado, atento, vivo. E se o fizer, efectivamente, é inevitável que se sinta angustiado, desconfortável, inconformado, porque se depara com injustiças, com questões para as quais (ainda) não há resposta, com o mal, com a imperfeição. É daqui que nasce o pensamento crítico que deverá levar (se pretendermos, como eu defendo que se deve pretender) à mudança prática de situações que desejamos diferentes. Identificar o que está errado é fácil; empreender toda uma estrutura de raciocínio que nos leva do erro à sua superação é difícil, dá trabalho, é uma maçada: há que desconstruir o problema, dividi-lo em sub-problemas e atacar cada um de per se, no sentido de compreender o todo e solucioná-lo. Não é algo imediato, nao há fast philosophy. Mas só assim caminharemos no sentido de formar uma humanidade que sabe quem é, o que faz e porque age como age.
Do mesmo modo, um gestor que use da mesma atitude crítica saberá lidar com recursos, pessoas e bens de um modo cuidado, fundamentado e, sobretudo bem estruturado, porque analítico e assente num raciocínio consequente.

Pode indicar algumas máximas dos filósofos antigos que tenham grande aplicação no mundo das empresas e dos gestores? Que lições têm estes filósofos a dar aos gestores?
Qualquer das respostas anteriores poderá caber nesta última questão. Mais do que máximas ou aforismos, o que a Filosofia tem a dar à Gestão é uma praxis, um modo de estar e de agir no mundo empresarial, que vai desde a resolução teórica de problemas à (re)organização estrutural ou valorativa de uma organização.

Quem fala assim, pode ter câimbras mas não é gago!

«Lições (úteis) de filosofia para executivos»

A «Exame» nº 260 (Dezembro/2010) publicou um artigo que teve a minha colaboração, bem como da minha amiga Dra. Ana Andrade, professora de Pensamento Crítico da Universidade Católica do Porto.
Clicando na imagem, acede a esse artigo, em formato pdf:

novembro 07, 2010

"Mudança da hora contribui para depressões sazonais"

Permito-me transcrever na íntegra, pela sua importância, um excelente artigo publicado pelo «Diário de Notícias» em 30/10/2010 (véspera da mudança de hora):

"Adaptação a novo horário deve começar a ser feito dias antes de mudar a hora. Estudo em Espanha alerta para os efeitos no trabalho.
Começar a deitar-se uma hora mais cedo e antecipar as horas das refeições. Estes são alguns dos truques que os portugueses devem adoptar para se prepararem para a mudança da hora. Na próxima madrugada, os ponteiros serão atrasados 60 minutos quando o relógio marcar as 02.00.
Um dos problemas da entrada na hora de Inverno é a depressão sazonal, também conhecida por depressão de Inverno. Com a diminuição da duração da luz solar, o organismo aumenta a produção de melatonina e diminui a de serotonina - hormona cuja produção é potenciada pela exposição à luz.
«O que acontece é que estas alterações biológicas provocam mudanças no indivíduo, potenciam o cansaço, a irritabilidade e a insónia», explica a psicóloga Filomena Chainho. Sendo normal esta depressão sazonal, a psicóloga acrescenta que estes sintomas são potenciados pela mudança da hora. «O desconforto pode ir de 24 horas até cinco dias», sublinha Filomena Chainho, acrescentando que, «se durar mais do que os cinco dias poderá ser mais preocupante».
Para minimizar os efeitos desta depressão sazonal e, mais concretamente, da mudança para a hora de Inverno, Filomena Chainho dá alguns conselhos. «Deve-se procurar dormir o melhor possível nos dias antes da mudança da hora e, por norma, a partir da quinta-feira anterior à entrada no horário de Inverno a pessoa deve procurar ir dormir uma hora mais cedo», frisa.
Outra das mudanças que podem ser feitas nas rotinas diz respeito à hora da refeição. «Se se almoçar às duas da tarde, nos dias antes pode começar a almoçar uma hora mais cedo», aconselha Filomena Chainho.
Mas as alterações provocadas pela mudança legal da hora não se notam apenas na vida pessoal.
De acordo com uma sondagem realizada pela Albenture - empresa especializada na conciliação da vida pessoal e vida laboral - em Espanha, 56% dos sete mil trabalhadores inquiridos manifestaram que a mudança horária lhes cria algum tipo de perturbação.
Segundo este estudo, 60% dos entrevistados consideram que lhes afecta sobretudo no sono, enquanto 11% apontam para implicações no trabalho e cerca de 10% apontam a hora de almoço.
O cansaço é o sintoma mais habitual, seguido da depressão (10%), falta de concentração (7%), ansiedade (6%) e até da falta de apetite (1%).
Ainda de acordo com o trabalho desenvolvido pela Albenture, o tempo de adaptação necessário entre aqueles que dizem sofrer de transtornos varia muito.
Enquanto 5% asseguram que não precisam mais de 24 horas para regressar à rotina normal, cerca de 39% garantem precisar de dois a três dias para se adaptarem ao novo horário. Já 31% dizem necessitar de uma semana e 21%, de mais de sete dias."

Já conhece a minha petição para acabarem com a mudança de hora?

Consulta e assina a petição
Não à mudança de hora - petição aqui

(desenho do mestre Raim)

"O Planeta não nos pediu licença para existir e não nos vai pedir licença para desistir!"

"Ontem à noite [2-11-2010], estive a ver um programa que vejo sempre que posso e que, como todos os que têm particular interesse, passa tarde e na rtp2 (é o programa do José Fialho Gouveia). Ontem, fiquei especialmente deliciada; só me apetecia bater palmas!... O entrevistado era um Senhor, Cientista russo, Professor da Universidade do Algarve, a falar do «problema» (?!) das alterações climáticas e da «nossa influência» (?...) nas mesmas! Nem imaginam o quanto fiquei contente, por ouvir alguém desta envergadura defender (de forma científica, claro!) as mesmas coisas que eu ando para aí a dizer há anos (só com base na observação e raciocínio... e bom senso - sim, também tenho algum!... lol), sobre a treta da escassez dos combustíveis fósseis, sobre o ridículo do problema das emissões de CO2, sobre o disparate do protocolo do Kioto... sobre cientistas que têm que se dedicar aos «projectos» para os quais há financiamento e, o que é óbvio, da forma como nos tiram dinheiro para tentar resolver este «enorme problema»!...
Bom, consegui encontrar o artigo que esteve na base daquela entrevista, para quem estiver interesssado! Eu acho que vale a pena, sempre, conhecer as opiniões de quem anda contra-corrente! (eu sei que isto é muito faccioso da minha parte!... lol)

http://clima-virtual-vs-real.blogspot.com/2010/06/terra-ja-foi-salva-ha-2010-anos.html

O Planeta não nos pediu licença para existir e não nos vai pedir licença para desistir! Nós é que temos a mania de que somos importantes!... (isto, sou eu que digo!)
Sandra Eichmann"

Deste claro, detalhado e muito interessante artigo (que, pelos vistos, o Jornal de Negócios não quis publicar) de Igor Khmelimskii - excelente exercício de argumentação racional - retiro estes dois excertos:

"Impacto no orçamento de famílias

A implementação de uma redução da ordem dos 30% nas emissões de CO2 pelos países desenvolvidos irá aumentar os preços de todos os tipos de energia em cerca de 4 vezes, pois os preços correntes das energias renováveis são cerca de 10 vezes superiores aos das energias tradicionais. Assim, quem gasta actualmente cerca de 300 euros mensais com a energia eléctrica, gás e gasolina, irá ter de pagar cerca de 1200 euros, quer seja sob a forma de preços directos, quer sob a forma de impostos, usados para subsidiar as energias renováveis. De facto, foi previsto pelo projecto-lei sobre o aquecimento global, chumbado recentemente pelo parlamento Australiano, exactamente um crescimento efectivo de 400% nos preços da energia para o consumidor. Além do crescimento dos custos directos teremos também o custo acrescido dos transportes e da energia para as empresas, sendo de esperar um aumento significativo do preço de todos os bens e serviços.

Impacto na economia nacional

As empresas nacionais irão perder a competitividade que ainda lhes resta, suportando o aumento de custos provocados pela subida dos preços da energia, concorrendo com as empresas de países em desenvolvimento. Para sobreviver terão de transferir as suas operações para estes países, alimentando assim o desemprego estrutural e permanente em Portugal e nos outros países desenvolvidos, pois a produção nesses países deixará de ser economicamente viável."

Triálogo (diálogo a três) sobre a mudança de hora

A propósito da minha petição para se acabar com a mudança de hora, recebi este e-mail, que originou uma troca de mensagens e que suscitou um comentário do Jorge Castro:
Mário Feliciano - "Problemas à saúde, ao bem estar e à segurança das pessoas? Porquê? Porque amanhece mais cedo e os miúdos podem ir para a escola sem ser de noite no inverno? Os argumentos usados, como o da mudança da hora da ordenha, são perfeitamente patéticos! Se os animais continuam a seguir o ritmo do nascer e pôr-do-sol, que diferença faz o acerto do relógio? Ainda por cima contrdizem-se a si próprios ao invocar que o sono devia seguir o ritmo do anoitecer e amanhecer. Pois é precisamente isso que esta mudança de hora faz.
É como as deputadas que na ânsia de protagonismo resolveram propor a abolição dos feriados a meio da semana. Muita gente há neste país entretida a fazer coisa nenhuma! Hoje em dia tudo serve de pretexto para invocar problemas psicológicos e de saúde. Até o fim das férias provoca depressões. Haja paciência! Não haverá nada de mais interessante com que se preocupem?
Não só não assino a petição como, se for preciso, faço campanha contra ela. Tenham juízo."
Paulo Moura - "Está no seu direito a ter a sua opinião e a defendê-la. Agora... com esse “tom” e a fazer ataques pessoais, fica a falar sozinho!"
Mário Feliciano - "Peço desculpa se considerou alguma expressão como um ataque pessoal. Não era essa a intenção. O "ataque", se assim lhe quer chamar, é à petição e às razões da mesma."
Paulo Moura - "Se não era intenção, a expressão "tenham juízo" foi muito infeliz. Quanto aos argumentos que «ataca», como já disse, está no seu direito e respeito. Os seus contra-argumentos também são «atacáveis». Mas não quero fazer disto uma discussão entre duas pessoas. A petição certamente será divulgada por alguns órgãos de comunicação social. Nessa altura será debatida. Se atingir as 4.000 assinaturas, será obrigatória a discussão em plenário da Assembleia da República. Serão muitas oportunidades para «atacar» esta petição e defender os seus argumentos."
Mário Feliciano - "Também não quero entrar pela discussão pessoal, mas já agora, e uma vez que a menciona, a expressão "tenham juízo" é porque acho uma total perda de tempo com um assunto que não o justifica, quando há coisas bem mais úteis, graves e importantes do que discutir se há ou não hora de inverno e hora de verão. Por exemplo, acabar com as acumulações de reformas dos políticos mereceria não uma, mas 10 petições. E bem pior foi quando tivemos a hora igual ao resto da Europa por razões meramente economicistas, só porque os senhores empresários acham que a diferença horária prejudica os negócios... Por causa disso no verão anoitecia quase à meia-noite. Isso sim, é que causava distúrbios no ritmo biológico das pessoas, era um completo absurdo, de tal forma que quando o governo de Durão Barroso tentou voltar a esse horário houve um parecer negativo do Observatório Astronómico de Lisboa, pois ficaríamos com 3 horas de diferença em relação à hora solar. Isso é que mereceria uma petição se voltasse a acontecer. Felizmente houve o bom-sendo de repor a hora no fuso horário de Greenwich.
Agora, de facto, este tema, com todo o respeito pelo direito que lhe assiste de promovê-lo... para mim não faz sentido.
E por aqui me fico. Pela minha parte termino aqui a discussão."
Paulo Moura - "Está a ver como não estamos de acordo? Pela sua "lógica", enquanto houver assuntos mais importantes para tratar, não se trata de mais nada?! Como para mim o mais relevante é a minha saúde e a mudança de hora afecta-me, durante vários dias, duas vezes por ano, todos os anos, permito-me fazer o que posso para me manifestar e para auscultar outros concidadãos.
Agradeço-lhe o trabalho que teve de me escrever (salvo a parte mais ofensiva). Pela minha parte, também termino a discussão."
Jorge Castro - "Caro Mário Feliciano:
Eu creio piamente no direito à opinião. Aplaudo-o. Reverencio-o, até. Por formação, por educação, por ideologia. Posto isto, permita-me que lhe refira coisas elementares que o seu comentário me suscita:
- Porque considerará o meu caro concidadão que está no direito de me considerar pateta porque não comunga, nesta especiosa matéria, da mesma opinião do que eu?
- Por outro lado, a questão que coloca quanto à «nossa» eventual ausência de coisas mais interessantes que «nos» preocupem, deve ser considerada mera questão retórica e, como tal, irrelevante. Já o mesmo não se poderá considerar quanto à admoestação no sentido de termos juízo, que mais não seja porque essa é matéria que sempre carece, no mínimo, de que se peçam meças ao interlocutor, sendo o juízo essa coisa tão volátil quanto se sabe… E, por favor, nunca por nunca ser presuma que o seu interlocutor é mestre na arte de estar entretido em fazer coisa nenhuma, pois aí, sim, a asserção pode ser ofensiva. Sabe, ele há gente capaz de se entreter com as mais desvairadas ocorrências! E em acumulação - o que chega a ser tremendo.
Veja bem que eu, por exemplo, estou para aqui entretido a remeter-lhe esta resposta porquanto considero, liminarmente, ser o meu interlocutor merecedor e digno dela.
- Quanto à matéria de facto que nos trouxe a este amável convívio, interessa considerar que não há, no mundo, coisas de maior ou menor importância se não atendermos previamente ao subjectivismo ou ao circunstancialismo das mesmas. Ora, a verdade é que, a mim, a mudança da hora me causa transtorno, até ao nível biológico… e contra isso, caro amigo, não posso fazer nada que o console. Mas também não o devo calar apenas pela razão de que, para si, o meu transtorno não é matéria de incómodo.
E já reparou que os seus estimáveis argumentos contra a «nossa» tomada de posição contra a mudança da hora podem servir exactamente para alguém se questionar sobre esta elementar evidência: então, se não há problema nenhum, se a questão é tão pacífica, porque é que, afinal, se hão-de desperdiçar tantos recursos a mudar o raio da hora, chateando meia-dúzia de concidadãos, ainda que a mim não me cause mossa nenhuma? Enfim, é deixá-la estar como está…
Convenhamos que é um belo exercício de democracia.
- E, não, o que as senhoras deputadas à cata de protagonismo, como alega, pretendem não é uma feliz comparação. Desde logo, porque eu nem quero protagonismo nenhum para além daquele que já tenho. Depois, porque as senhoras deputadas falam do suposto interesse da nação, do colectivo, e «nós» falamos do interesse do indivíduo – que também existe, benzam-no todas as divindades.
E deixe-me confessar-lhe uma coisa: a mudança da hora nem me causa problemas psicológicos nem de saúde. Simplesmente me chateia. Muito. Até por aquilo que considero ser a sua incomensurável inutilidade. E as coisas inúteis não servem para nada. E isso é-me bastante.
Mas considero muito louvável que promova uma petição a favor da mudança da hora, claro. Não por reacção, mas por convicção. Até para ver se a sua argumentação me convence a mudar de opinião. Uma coisa lhe asseguro: não me ouvirá recomendar-lhe a que tenha juízo…
Com consideração,
Jorge Castro"

novembro 03, 2010

A mudança de hora vista com humor por um mestre do dito

Miguel Esteves Cardoso
O bom tempo no mau
Crónica no «Público» de 2010-11-02


"No domingo mudou a hora. Tudo ficou uma hora mais cedo. Pela primeira vez na vida, decidi não obedecer. Desobecedi. Deixei os meus relógios à hora que era antes de chegarem as bruxas, todos os santos e los muertos dos mexicanos.
Fiz como fiz com o acordo ortográfico. Não liguei. Durante seis meses, pensarei que toda a gente acorda uma hora mais tarde. Ou seja, pela parte que me toca, que os restaurantes abrem mais tarde para almoçar (à uma) mas, para compensar, fecham mais tarde para jantar.
O sol não liga nenhuma à hora de nascer ou de se pôr. Como me explicou Sebastião Carvalho, numa carta, lusco-fusco vem do latim de “luz que foge”, pelo que nunca se pode aplicar ao amanhecer.
Ao não alterar os relógios e ao alterar o computador, dei comigo a pensar que a primeira acção era boa (não contrariar a mecânica dos cronómetros), mas a segunda era má (ir contra o acompanhamento automático dos terminais ligados à Internet). É boa esta mistura de 50 por cento de bom com 50 por cento de mau, como o cocktail Rusty Nail, que é metade de belo whisky de malte e metade do enjoativo licor Drambuie.
É verdade que estou adiantado metade do ano - mas todos os outros estão atrasados. Na outra metade, quando a hora volta a ser igual à minha, são os outros que vêm acertar a hora comigo.
Assim tenho sempre a hora certa e - não sei explicar como - um bocadinho mais de tempo. Já de razão, se calhar, tenho um pouco menos. Mas acaba por compensar."

Aposto que o MEC assinará a minha petição, quando a conhecer:


Consulta e assina a petição
Não à mudança de hora - petição aqui

(desenho do mestre Raim)


Obrigado, Carlos Carvalho, pela pista!

outubro 29, 2010

Vamos ver a argumentação que vai ser utilizada, a favor e contra

Quem concorda comigo decerto assina e divulga esta petição, que quero apresentar à Assembleia da República com pelo menos 4.000 assinaturas (para ser obrigatoriamente agendada para apreciação em Plenário da Assembleia da República): «Não à mudança de hora».

Consulta e assina a petição

Para quem quiser divulgar esta petição na sua página, há «banners» disponíveis aqui.

junho 28, 2010

Uma grande verdade

"O que nos distingue enquanto espécie não abona a nosso favor"
Mark Rowlands
(filósofo inglês que investiga "o lado obscuro dos atributos associados à nossa superioridade sobre os outros animais: a inteligência, a moral e a consciência de que somos mortais")

Desde a minha adolescência, com os cães Tarzan e Tejo que tivemos em nossa casa, que eu questionava os meus Pais e a minha Avó, os três professores primários, sobre essa apregoada (pelos próprios seres humanos) superioridade. Do meu Pai, as únicas «respostas» que tive foram:
- O nosso cão é muito esperto: a gente diz-lhe "vens ou não vens?" e ele vem ou não vem.
- O nosso cão, quando está com os outros cães de Caria, costuma dizer-lhes: "o meu dono é muito esperto. Só lhe falta ladrar".

junho 23, 2010

Os argumentos da natureza

Gostei de ler este artigo do Público: «Pavan Sukhdev: A invisibilidade económica da natureza é um problema».

"Pavan Sukhdev é o economista indiano que interrompeu a sua carreira de banqueiro no Deutsche Bank para liderar o projecto que liga os europeus, o G8 e as Nações Unidas: convencer as sociedades de que tanto a destruição como o usufruto da biodiversidade e dos ecossistemas têm um valor. A realidade vai dando razão ao trabalho da equipa de Sukhdev, que terminará antes da cimeira da biodiversidade, a realizar em Outubro, em Nagoya, no Japão."

Pois... como pode a natureza argumentar contra a orientação para o lucro? Pavan Sukhdev aponta o caminho:
"Os decisores ainda não agem tendo em conta os benefícios públicos. Como, por exemplo, os benefícios de ter água e ar limpos, de não ter inundações em França e na Alemanha e secas na Índia. Esses casos são vistos como catástrofes naturais, as pessoas não os ligam com a ecologia que deve ser protegida, apesar de existirem todas as razões para o fazer. Há locais, desde Nova Iorque a São Francisco e Bombaim, onde as florestas são usadas como reservatórios de água para abastecer as cidades. Por isso, deviam estar a pensar em investir em infra-estruturas ecológicas. No fim de contas, isto é um bem público.
Todos pagamos impostos, é dinheiro público que deveria ser usado para o bem de todos. Este pensamento ainda não existe em muitos governos. Alguns estão à frente, mas ainda assim a atenção está voltada para criar riqueza privada, na mão das empresas.
Temos de repensar a nossa política de impostos e começar a taxar as externalidades, como as emissões poluentes, e não apenas os lucros e receitas. O esgotamento de recursos deveria ser taxado, por exemplo."
Mas corremos o risco de conservar apenas o que nos pode dar lucro...
"Sim, há um risco de isso acontecer. É uma questão ética enorme (...). Ao mostrar que os ecossistemas têm valor, estaremos nós a criar o risco de, de alguma forma, reduzirmos a natureza e o seu objectivo apenas à sua utilidade, ao que é antropocêntrico? Existe esse risco. Mas ao mesmo tempo temos de reconhecer que a valorização é uma instituição social, não se trata de um grupo de economistas.
A sociedade valoriza aquilo que tem valor para ela. E, por vezes, essa valorização pode nem ter referência à economia ou a números. Se valorizarmos um monumento ou uma floresta sagrada para uma comunidade, não há nada que diga que precisamos de os proteger por algum motivo. E, assim, a protecção acontece por si mesma, sem precisar de razões. Mas em outras situações precisamos de demonstrar que tem impacto económico, e aí a política muda."


Cartoon visto aqui

maio 12, 2010

Abençoada matemática que não é uma batata

"As estatísticas são muito claras e apontam para que apenas 0,03% dos casos [de pedofilia] ocorram na Igreja."
Cardeal Saraiva Martins
numa entrevista ao jornal i
publicada em 6 de Maio de 2010

Vamos lá então fazer continhas.
Há em todo o mundo 1 papa, 192 cardeais, 5.002 bispos e 409.166 padres da Igreja Católica (fontes: «The Pontifical Yearbook 2010» via EWTN.com; e Wikipedia) - total: 414.361.
A população mundial é actualmente de cerca de 6.800.000.000 habitantes.
Ou seja, a estrutura básica da Igreja representa 0,006% da população mundial.
Como "0,03% dos casos [de pedofilia] ocorrem na Igreja", 0,03% a dividir por 0,006% é 5. Ou seja, haverá o quíntuplo de incidência de casos de pedofilia na Igreja em relação à média mundial?

maio 07, 2010

Petição pela extinção das lombas nas estradas portuguesas


Lomba «disfarçada» de passagem de peões, à entrada da Mealhada, vindo de Grada. De um lado, um passeio. Do outro, uma valeta e um terreno agrícola. Passagem? Só se for de ovelhinhas. Repare-se na areia no chão, posta por causa dos derrames de óleo naquela armadilha.

Já tinha enviado há um ano uma carta para ao presidente da Câmara Municipal da Mealhada sobre este assunto. A resposta foi inócua. Há um mês enviei uma carta idêntica para o presidente da Câmara Municipal de Anadia. Ainda não tive resposta.
Agora assinei esta petição da iniciativa de cidadãos das Caldas da Rainha:

"É com indignação que todos os dias vemos surgir inúmeras lombas ao longo das estradas portuguesas, por vezes sem que qualquer tipo de sinalização as denuncie. Justificam-nas afirmando: “objectivo de fazer reduzir a velocidade excessiva das viaturas”.
A verdade é que, não se pode combater esta infracção com outra ilegalidade, colocando obstáculos nas estradas, omissos na lei e que põem em causa a segurança dos seus utilizadores.
Nascem como cogumelos! Como acontece, por exemplo, no concelho de Caldas da Rainha. No troço rodoviário Caldas da Rainha – Benedita, 20 km portanto, existem 16 lombas. Se contarmos a viagem de regresso, são 32 no total… Ocorre ainda que numa distância de 1 km, existem 6 lombas, algumas com apenas 50 m entre elas.
Apenas os veículos do tipo todo-o-terreno estão mecanicamente preparos para ultrapassar estes obstáculos, ao contrário dos utilitários (a esmagadora maioria das viaturas em circulação em Portugal), que sendo baixos, facilmente embatem nesses empecilhos, mesmo circulando com velocidade reduzida.
Por outro lado, há um acréscimo significativo de poluição, resultante do “pára/arranca” interminável a somar ao desgaste da viatura, que tanto nos custa a “sustentar”… Resumidamente, pagamos as lombas, o combustível e o mecânico e contribuímos mais para o aquecimento global!
Aquele/a que teve esta “esplêndida” ideia, decerto não considerou a circulação das ambulâncias e outros veículos de emergência, nos preciosos minutos que perdem na transposição destes entraves. Ora na eventualidade de um sinistrado em estado crítico ter de ser transportado rapidamente para o hospital necessitando de ser reanimado durante o transporte, estes obstáculos podem fazer a diferença entre salvar ou perder aquela vida!
Já para não falar nos custos com a sua implementação, cujos saem do erário público, ou seja, do bolso de todos os contribuintes, verbas essas que, alegadamente, nunca são suficientes para o que realmente é necessário.
Pelos fundamentos apresentados, vêm os abaixo assinados, nos termos da Constituição da República Portuguesa e ao abrigo das leis vigentes, fazer petição para que sejam removidas todas as lombas que se encontram nas estradas portuguesas em geral, e nos concelhos de Alcobaça e Caldas da Rainha em particular.
Os signatários"

A petição está disponível aqui.

Entretanto, descobri este artigo muito interessante sobre as lombas ditas redutoras de velocidade.