janeiro 23, 2011

Carta de trás da Serra - Viva o CORTEX!

Olá!

Olha que as coisas por aí estão bem complicadas... e nós por cá é que nos tramamos.
A ti'Marquinhas que, como sabes, sabe tudo, disse-me que ouviu dizer que o Estado não sabe o que tem nem onde gasta. Que o João Cantiga Esteves (revista Visão de 27/5/2010) contou 13.740 entidades (das quais mais de 600 fundações) que recebem dinheiro do Estado, de forma regular. "São camadas em cima de camadas, instituto atrás de instituto, muitos deles para tratar de assuntos semelhantes". "O Estado não consegue entrar no concreto, a nível do local, do projecto, da entidade". Há "Estado em cima de Estado". "O próprio Estado arranjou mecanismos para contornar as leis em vigor, dos quais são exemplos as fundações, os institutos públicos, as empresas municipais,..." Procura-se "contrariar a lei que se aplica ao financiamento autárquico, como a dos limites de endividamento ou a dos limites de cargos e mordomias". As autarquias também "fogem às regras e violam boas práticas da administração pública", com "a duplicação de encargos, de administrações e de direcções". "A Fundação para a Prevenção e Segurança, a Fundação para as Comunicações.... O que é isso? Qual é o objecto social, a missão, o património?". "No meio disto tudo, ainda somos bombardeados com notícias de ajustes directos, sem concurso público...". "Há um Estado clássico (ministérios, direcções-gerais, etc.) e depois temos institutos públicos, fundações, associações...". Os funcionários, conselhos de administração, etc. destas empresas e institutos não entram na contabilidade da administração pública".
E que achas tu das consultorias técnicas no exterior, gabinetes, assessores, adjuntos...?
"Houve um programa (PRACE – Programa de Reestruturação da Administração Central do Estado) que "foi uma tentativa interessante, mas ficou aquém dos objectivos. Na hora da verdade, os agentes políticos bloqueiam". O Estado social promete aos cidadãos um conjunto de benefícios sociais sem sustentabilidade.
O ping-pong entre partidos alternadamente no poder dá no que se vê.
Por tudo isto, peço-te que me mandes uma lista com as 13.740 entidades que recebem dinheiro do Estado, se não for muito incómodo para ti, para eu dar uma vista de olhos. E, como me parece que o SIMPLEX tem tido algum sucesso, proponho que se crie o programa CORTEX - acrónimo de Contribuintes Reunidos Todos Em Êxtase.
E não se poderia, entretanto, seguir a sugestão de "interrupção na democracia" da Manuela Ferreira Leite? Pensa nisso, que eu entretanto vou ter que ir a casa do Quatro Papos-secos ver como está a recuperar do braço desde que caíu da cerejeira. E tentar convencê-lo a não cortar a árvore, que estava quietinha e não tem culpa nenhuma.
Quando deixas essa vida e regressas à nossa terra?
Recebe um abraço do
Paulo Moura

janeiro 22, 2011

Procuro é o bem estar

Já desde os meus tempos de puto estudante de economia que sempre assumi que o objectivo último das pessoas e das organizações deve ser o bem estar. Sempre fui adepto, desde que estudei essa matéria na FEUC, da Economia do Bem Estar.
O lucro deve ser uma forma de obter esse bem estar, não um fim em si. E não são, de forma alguma, antagónicos. Aliás, da obtenção do lucro depende o bem estar de todos os que dependem de uma organização, investidores obviamente incluídos.
Vejamos três exemplos de quem pensa assim, com trechos da revista «Visão» de 23/12/2010:
Muhammad Yunus, Nobel da Paz de 2006, fundador do Banco Grameen, que empresta pequenas quantias (microcrédito) aos mais necessitados - defende o conceito de negócio social, convencendo as empresas a investir na solução de graves problemas humanos, gerando receitas que cubram os custos mas sem daí retirarem dividendos (se houver lucros, deverão reverter para os pobres). Como ele refere numa entrevista: "a psicologia das empresas vai no sentido de correr para o dinheiro. Mas os gestores são pessoas como nós. Só funcionam como uma máquina porque estão dentro dela. A partir do momento em que chegam a casa, falam com a família e são como qualquer pessoa, preocupam-se com a pobreza e os conflitos mundiais. Todos os seres humanos querem contribuir para mudar o mundo, faz parte do nosso ADN. E uma empresa é feita de pessoas."
José Mourinho (sim, sim, "the special one") - numa entrevista diz: "Ganhar não pode ser uma obsessão (...). Perguntam-me, às vezes, se o meu objectivo é ganhar a Champions League pela terceira vez, se é ganhar não sei o quê... Não, nada disso, aquilo que eu procuro mesmo é a felicidade (...) A procura de felicidade devia ser, hoje, fundamental na vida das pessoas.
Reino do Butão, pequeno Estado nos Himalaias com 700 mil habitantes e 47 mil Km2 - não apostam no turismo porque "(...) então, seria necessário transformar também os nossos templos em museus e as nossas festas em espectáculos. Sem contar que precisaríamos de esvaziar as aldeias para conseguir mão-de-obra". Evitam a exploração imprudente de recursos naturais. Usam o conceito de FNB - Felicidade Nacional Bruta, com 72 indicadores que valorizam o bem estar psicológico, ambiente, saúde, educação, cultura, nível de vida, utilização do tempo, actividades sociais e boa governação.

janeiro 21, 2011

Carta aberta aos mercados

Senhores mercados,

Só vos queria dizer que, ao contrário do que nos impingem os políticos e a comunicação social, eu sei muito bem que não são vocês que estão nervosos. Vocês estão bem descansadinhos, protegidos por buracos na legislação internacional e sem terem que responder criminalmente por usarem a especulação financeira para ganharem balúrdios a acrescerem aos balúrdios de que dispõem.
Nervosos estamos nós! Nervosos e mal pagos!

A bem da noção
Paulo Moura

Breve reflexão de estranheza em período eleitoral para a Presidência da República

Num alargado círculo de relações e apesar de todos sabermos que o voto é secreto, mas também porque muito boa gente já assumiu a Democracia como modo de vida, tive artes de, também eu,  ir fazendo a minha sondagem, limitadinha, a pobre - como, aliás todas as sondagens -  mas despretensiosa.

Coisa negra e contraditória, pois sou dos que consideram que as sondagens, publicamente anunciadas, deveriam ser ilegalizadas por serem descaradas condicionantes ao livre arbítrio de cada livre pensador – que deve ser cada um de nós. Mas como vivemos no reino da rebaldaria das éticas, olha...

O certo é que lá fui ouvindo um e outro, independentemente de conotações partidárias, e obtive um resultado clamoroso: há gente capaz de anunciar o seu voto em todos os candidatos, excepto num, a saber, Aníbal Cavaco Silva, aquele das origens humildes, dez anos de desgoverno e vai para cinco de apagada presidência  e outras menores minudências.

Mas como tanto guru, sondagem, opinativo de rádio e televisão a darem-nos como garantida a sua definitiva e esmagadora vitória, vão ver que – a concretizarem-se tais poderes divinatórios – teremos ali um candidato eleito pela «maioria silenciosa»... ou também há povo que engana o povo? Uma das duas ou as duas juntas, só pode...! 
 

janeiro 15, 2011

lá vai uma, lá vão duas, três pombinhas a voar...

Aprecio sobremaneira dedicar alguma atenção ao que se vai passando pelo mundo, não de forma sistemática, academista ou erudita, mas assim ao correr da pena das opiniões, que cada um tem a sua, e nada como uma saudável esgrima das mesmas para mantermos os neurónios funcionais.

É apenas por isto que estou a partilhar convosco duas ou três, muito fresquinhas, quais brancas pombas no ar voando, que respigo do jornal que hoje acompanhou as torradas da manhã acinzentada deste sábado.

Lá vai uma: Carla H. Quevedo, opinativa no jornal Metro, em artigo que intitula Homofobia e Liberdade de Expressão, arrepia-se, a partir do recente caso passional (?) ocorrido nos States com protagonistas portugueses, com os comentários homofóbicos que pululam, a propósito, em tudo que é caixa de comentários. E chega a questionar-se se Portugal não será um país de homofóbicos, em extrapolação abrangente e perturbadora.

Claro que se imagina que a pergunta seja retórica. Mas também retórica, ainda que algo infeliz, é a sua afirmação, supostamente em defesa da liberdade de expressão, pela qual nos faz saber que, em sua opinião, «a balbúrdia inerente à democracia é preferível à compostura própria do politicamente correcto».

Esta da «balbúrdia inerente à democracia» é que não lembra ao demo. Foge-nos, assim, de quando em vez o pezinho para o achinelado dos conceitos e tudo se estraga e tudo se revela. Será que a nossa senhora opinativa terá querido referir-se à diversidade e, canhestramente, lhe chamou balbúrdia? Ou desconhecerá o significado do termo que, ingenuamente, assim achincalha a democracia? O tempora     

Mas louvo-lhe a apreciação inicial desassombrada, ao referir o caso como sendo (mais um) de violência doméstica. Na verdade terá sido apenas isso o que motivou uma morte, quaisquer que sejam os outros contornos. Uma banalidade, pois, se atentarmos à quantidade de mulheres mortas em cada ano que passa, também por violência doméstica, sem um milésimo da projecção mediática, em todos os casos somados, que este lamentável incidente imerecidamente teve. O mores

Lá vão duas: televisão e jornal encresparam-se de novo com notícias sobre um estudo da Universidade de Trás-os-Montes versando a possível incidência do radão como causa de cancro e com especial incidência na região de Amarante, já que o radão existe no granito e este, como é sabido, tem larga aplicação habitacional com especial incidência no Norte do país.

Já não é a primeira vez que tal informação nos assalta, não sei se com o intuito de criar mais um mito urbano, ou se, na verdade, para nos alertar para qualquer coisa que não se sabe bem o que seja…

E digo isto porque não me consta que exista algum estudo que, em paralelo, nos demonstre, no terreno, a incidência de casos de cancro que o tal radão esteja a ocasionar.

Uma coisa sem a outra, pode ser muito bem intencionada, mas há-de ir parar ao inferno das lixeiras tóxicas porque não nos serve para nada.

Ou o estudo da respeitável Universidade está incompleto, ou o filtro da nossa comunicação nos está a esconder o essencial, promovendo uma vez mais o medo, o pavor irracional como modo de dominação das consciências.

Então, como é? A malta de Amarante deve começar já a demolir as casas e o património, com ou sem apoios de Bruxelas, ou isto é só a gente a falar?

Três pombinhas a voar: Cascais e Oeiras fedem graças à existência da estação de tratamento de lixos de Trajouce. Coisa grave, de saúde pública, e que, para além da pestilência inerente, cheira pior porque tal pestilência já se verifica há cerca de vinte anos.

Já há uma data de anos atrás, quando confrontado com a evidência, em deslocação oficial às instalações para verificação do seu alto nível de sofisticação mas perante as queixas dos cidadãos – chegou a dizer-se que haveria uma unidade idêntica no andar inferior de um restaurante no Mónaco, salvo erro – Mário Soares, projectando abdominalmente a opinião, qual Galileu dos tempos modernos, afirmou perante o óbvio: «- E, contudo, fede!».   

Ora, desta nova queixa generalizada por parte da população, o senhor Domingos Saraiva, apresentado como responsável por tal unidade e depois de referir que «todas as instalações da Trtatolixo estão muito degradadas», avançou com esta piramidal evidência: «- Nós percebemos que o mau cheiro existe, mas não conseguimos alterar enquanto não fizermos obras»…

Querem melhor certificado de honestidade, de probidade, que a deste ilustre cidadão? Ora, vá lá, deixem-se disso!

Deve ser esta – digo eu – mais uma prova cabal da tal «balbúrdia democrática» a que a Carla Quevedo se referia.

Continuemos, então, tranquilamente a fazer o favor generalizado de sermos felizes.

janeiro 14, 2011

Do amor, segundo os meus alunos e não só

Um dos temas que os meus alunos de Pensamento Crítico em avaliação contínua mais escolhem, no âmbito dos textos argumentativos que têm de escrever, é o amor dito romântico. Sobretudo os de primeira matrícula e, dentro destes, aqueles que, porque são alunos de Direito na Universidade Católica do Porto, têm todas as certezas e repudiam quaisquer dúvidas (o que lhes vai passando, com a idade e a experiência), dissertam assertivamente sobre o que era o amor "antigamente" (mas há um "antigamente", para miúdos de dezoito anos, no que toca ao amor, ou somente um saber-por-ouvir-dizer, acrítico e heterónomo?) e o "desastre" em que se tornou hoje.
E porque as pessoas abandonam casamentos sem pensar, e que no tempo dos avós é que era em grande, porque os matrimónios eram para a vida toda (as/os amantes também, mas isso não ouviram eles dizer) e as pessoas eram felizes como tudo e não havia primos homossexuais (pois não, os que o eram tinham mulher/marido e filhos e amantes como os hetero-) e (já agora) o Natal era uma maravilha porque havia espírito familiar e consumismo zero e patati-patatá e trecolareco.
Quando leio estas atrocidades, apetecia-me fechá-los comigo numa sala e perguntar-lhes quem lhes mentiu tanto. E dizer-lhes que, se calhar, os avós e pais e tios que lhes contam estas patacoadas sonharam toda a vida em viver num país onde o divórcio fosse permitido ou numa cidade grande, onde não fosse uma vergonha trocar o marido ou a mulher por um/uma namorado/a. E que não tem mal algum pensar em amores em vez de no Amor, porque este tem várias caras e vários tempos e não dura para sempre. E (já agora), lembrar-lhe que hoje cada um vive o Natal como quer e que o espírito familiar não é inversamente proporcional ao consumismo, e que se na casa deles só sentem este último e nem réstea daquele, se calhar é melhor aproveitarem a consoada e terem uma conversa comprida, daquelas que as famílias à séria devem ter sempre que há uma chatice, com ou sem consumismo.
E, já que estava com a mão na massa, juntaria aos meus alunos um certo amigo, que acha que ficar com alguém de quem deixou de se gostar é altruismo: não se sente bem com a situação, mas tudo é melhor do que dar ao outro o desgosto de ficar sem a sua insuperável presença (porque isso seria, lá está, egoísmo, o que provavelmente constitui pecado mortal).
Fecharia a porta e deixá-los-ia a falar sem uma professora ou uma amiga a avaliá-los. Podia ser que, entre adolescentes e trintões, chegassem a uma qualquer conclusão, sem me porem com taquicardias nem vontade de lhes dar um valente puxão de orelhas.

Conversa de Café sobre a Crise II

...Se eu te der uma caixa de papéis a dizer que és dono da Lua, 'tás podre de rico...

Olá, gente. Espero que continuem o saudável hábito de misturar aromas e lugares comuns por entre as sinfonias de chávenas e chapinhar de colheres.
Ora, não é pela hora do café que o pessoal resolve todos os problemas... dos outros?
Eu, rapaziada, ninas e ninos, não sou excepção (que me perdoem os modernaços, que "exceção" soa-me a qualquer coisa que o corpo deita fora).

Mas foi entre uns cafés, zitos ou zinhos, enquanto os companheiros se digladiavam sobre tácticas e apitos, foras de jogo e arbitragens, que os interrompi com uma tirada, ela mesmo, toda off-side:
- Malta. Quanto vale uma coisa que não tem valor?
Depois de me olharem uns instantes e de olharem uns para os outros, saiu:
- Tu tás parvo... se não tem valor, é porque não vale nada, ou melhor, vale zero.
- Então, quer dizer, que se eu te der uma caixa cheia de papéis a dizer que és dono da Lua, tás tão podre de rico como se não te der coisa alguma, não é?
- Exacto.
- Pois é aí que eu estou a matutar e não consigo perceber.
- Não percebes o quê?
- Não percebo como é que alguém pode falar em prejuízos se perder algo que não tem qualquer valor.
- Mas que coisa é que tás praí a asneirar, pá?
- Ouve lá. O BPN não estava cravadinho em acções sem valor?
- Pois tava. O BPN e muitos outros.
- Então se essa coisa, a vigarice, digo, a que chamam activos tóxicos não valem uma ponta dum corno, porque é que temos todos que estar a pagá-las?
- Como dizes?
- Vá! Então expliquem-me se souberem.: se não valem nada, tanto faz que as guardem ou deitem fora. Uma coisa é que eu quero entender: Se dizem que elas não valem e temos que estar a tirar o pão da boca, para aquilo, é porque afinal valem! Mas sabem? Continuam a dizer que não valem, que são tóxicos... hehehe eufemismos do caraças, este nome que lhe arranjaram - tóxicos - para nos chamar de estúpidos.
- É ... tens razão, pá. Agora temos que ser, queiramos ou não, tóxicodependentes e pagar para a veia. Olha, mas isso que dizes de não valer mas ter de ser pago faz lembrar as conversas do Marcelo quando opinava sobre o aborto: É crime? É! Deve ser castigado? Não! Aqui é o contrário: Tem valor? Não! Tem que ser pago? Sim!
- Heheheheehe. Deste-lhe em cheio, pá! Sabes? Estava a pensar, os gajos - que tinham como parceiros a apregoar o produto, as tais Agências de Rating - põem um papel qualquer na praça que vale zero mas dizem que vale X, os outros que o têm acrescentam-lhe ao X um Y que vendem a outros e estes dizem que valem X+Y+Z e aquilo vai sempre crescendo, e cada um que compra o comboio de papelada, X+Y+Z+T+D+B elevado a "n", pensa que tem o bilhete premiado da lotaria entre os dedos, até ao dia em que descobrem estar o papel cheio de caruncho.
- A desfazer-se entre os dedos, queres tu dizer...
- É isso. Ora esta é que é a porra que não entendo de maneira alguma. Porque será que não atiram esses activos (?) simplesmente para o caixote do lixo como eu faço com os papéis do euromilhões todas as semanas em vez de ir reclamar à Santa Casa que me pague os milhões que não me saíram?... Pode ser que com mais um cafezinho entenda.
- Então não entendes, pá?
- Não entendo não.
- Então vá, explico-te. Levantaste a conversa mas depois resvalaste tanto que às vezes pareces mesmo totó: até à véspera as tais Agências não conseguiam ver nenhum buraquinho naquela treta, e agora esburacam-nos para tapar os buracos daquilo. É só isso, pá, um negócio de tapa-buracos...
- E a gente deixa?...
- Deixamos porque eles vão roendo devagarinho e, quando damos por ela, estamos que nem nos podemos mexer, a cair aos bocados e sem defesa...

Charlie

janeiro 11, 2011

Diário solidário e (ainda por cima) natalício de um grande administrador de uma grande empresa - apontamentos de jornada em prol do combate à pobreza

Hoje, depois de cumpridos os compromissos de agenda do dia e concluída que foi a última reunião do Conselho de Administração da empresa, dei instruções à minha secretária para contactar o habitual tipo da agência noticiosa, informando da minha hora de saída…

Tenho de me deslocar àquele banco de recolha de roupa e outras dádivas (de que nunca me lembro do raio do nome…), a fim de cumprir algumas obrigações de solidariedade, que ficam sempre bem e são tão necessárias nos dias que vão correndo, com tanta miséria que para aí vai.

Este ano, a coisa está fácil: tenho, no armário do gabinete, aquele fato com uma pequena mancha de café -  que a Mónica Andreia, sempre estouvada, verteu sobre mim quando rodopiou para me deixar apreciar a mini – eh-eh-eh… aquilo mais parece um cinto largo do que uma saia (pois, pois, já sei que é uma piada seca, velha e relha mas que se adapta, ai não se não se adapta…) - e uns ursitos de peluche que sobraram do Natal do ano passado… E está feita a festa!

E um tipo faz um vistaço, ora pois, que o fatinho é novo, ainda está catita e é de marca! Mas já não justifica a ida à lavandaria.

Depois, lá para as sete da tarde, temos aquela cena de lavagem de pés aos sem-abrigo, que é coisa bem apanhada e tem um impacto mediático do caraças, ainda que seja uma javardeira dos diabos. Mas estão lá aquelas enfermeiras, todas jeitosas, para nos desinfectarem… 

- Qualquer semelhança com factos ou personagens reais de algum pequeno e pantanoso mundo é pura e lamentável coincidência, por muito piroso e nonsense que tudo pareça.


janeiro 07, 2011

Só me apetece brincar...

... quando leio com números (de 13740 entidades públicas, referente a 2009 o Tribunal de Contas só recebeu a contabilidade de 1724 e fiscalizou 418... a cada 12 dias nasce uma nova fundação... a despesa pública aumenta a uma velocidade de 152 mil euros por minuto...) o que todos já sabíamos:

O Estado é um monstro com muitos milhares de cabeças.
E ninguém sabe ao certo quantas!

Se temos que transportar a nossa cruz, esta deve colocar-se no escudo de armas nacional. E sou só eu que vejo ali um smile?

janeiro 05, 2011

Vão lixar o Camões!!

Lá pela escola-da-noite, que também funciona mal de dia, deve andar tudo louco.
Há dias, em jeito de mensagem de toma-lá-que-é-para-acabares-o-ano-em-beleza, foi enviada a todos os formadores, a pedido do presidente do executivo, uma circular advinda da Direcção Geral dos Recursos Humanos da Educação (DGRHE) que nos fazia saber que, doravante, só seria considerado "nocturno" o trabalho prestado a partir das 22h.
Muito bem, os senhores estão lá no seu direito mas, quando aceitei o lugar, há dois anos atrás, trabalho nocturno era aquele que se prestava a partir das 19h e até às 23h; mais, quando re-aceitei o ligar, uns meses depois e, novamente (depois de grande hesitação) em Setembro último, continuava a ser exactamente assim, pelo que o (magro) salário que nos era pago, tinha a bonificação de 1,5, conforme a lei.
Que se altere a lei, acho lindamente, nada de novo, leis são alteradas e reajustadas e revistas todos os dias. Mas não me mudem as regras a meio do jogo que eu agarro na bola e tiro a equipa (que sou só eu, mas basto-me) de campo e não se fala mais nisso.
Vai daí, enviei um e-mail directamente ao Executivo, com o conhecimento dos meus colegas, a dizer que, a aplicarem-se as novas directrizes (que, segundo a circular, teriam efeitos imediatos) ao meu caso, deixava desde já patentes os meus votos do maior sucesso para quem ficasse. Mas que eu não ficaria.
Ah, e tal, blablablá, que provavelmente aquilo não nos atingiria ("pessoal docente e não docente", dizia o texto), que talvez conseguíssemos uma excepção (é isso e acabar com a fome no mundo), para eu ter calma (as minhas pulsações nunca se alteraram). E que se ia consultar a Direcção Geral da Educação do Norte (DREN) para se tentar perceber a abrangência da norma.
Ora eu, que não sou formada em direito mas sei ler português, insisti nos sublinhados, mas aceitei esperar. A resposta tardou mas veio: que a senhora da DREN tinha sido muito compreensiva e que concordava que era uma injustiça e patatipatatá e que deveríamos esperar até novas instruções.
Ai o camandro, que aqui já me estava a chegar a mostarda ao nariz.
Gosto pouco de ser tomada por burra e menos ainda que se adie o inevitável.
Lá seguiu novo e-mail a manifestar o meu mais profundo apreço pelo sentido de justiça de todos e mais alguns, mas que o que cada um acha vale muito pouco quando há uma norma que deve ser cumprida.
É para esperar?
Espero.
Mas em casa.
Não mexo nem mais uma palha enquanto não me garantirem, por escrito, que o meu trabalho é majorado como o foi até aqui. Se os outros aceitarem ficar, em claro desrespeito por si, pela sua profissão, e pelos direitos e garantias que o Código do Trabalho lhes faz assistir, é com eles. Eu tenho (muito) mais que fazer.
Só me perguntam onde andam os sindicatos quando há questões desta enormidade para resolver, mas que não enchem as parangonas dos jornais.

janeiro 04, 2011

mensagem de ano bem bom

Perante o arrazoado mais ou menos infame, mais ou menos balofo, vazio de conteúdo ou, até, mais ou menos idiota das ditas mensagens de natais e anos novos que vamos ouvindo nesta época, do tipo bolo-rei de terceira categoria, seco e pobre em frutos, por parte dos organismos oficiais, porque não a hei-de emitir também eu, cidadão português comum, classe média, europeu, ocidental, nem-Nato-nem-Pacto-de-Varsóvia – como se dizia –, nem anti, nem pró «economias emergentes» e sem convicção especial em salvadores providenciais mais ou menos embrulhados na neblina dos dias?

De facto, sendo certo que de médico e de louco cada um tem um pouco – e quem diz médico, dirá político, ou economista ou simples filósofo com a mesma ligeireza – porque não aventurar-me eu em panaceias de curandeiro da urbe e da plebe?

Então, cá vai uma mão-cheia bem intencionada de propostas avulsas, daquelas, claro, de que o inferno se vai enchendo:

- Em 2011, faça um pouco mais e melhor do que em 2010. Verá que tudo lhe parecerá mais e melhor do que no ano anterior! E se o que fez foi uma porcaria muito grande, verá que o reconhecimento dos demais, ao longo deste ano, será muito mais óbvio e é sempre gratificante sermos reconhecidos, nem que seja pelos piores motivos – olhe-se para os exemplos que vêm de cima, de quem (des)norteia este Portugal de nós todos, e apure-se se tal facto lhes causou alguma mossa...

- Em 2011, pense um bocadinho mais nos outros. Verá que os outros pensarão um bocadinho mais em si… que mais não seja sempre que lhes entupir a caixa de correio electrónico com pps da treta, ou os inundar de mensagens facebookianas perfeitamente irrelevantes, para que eles fiquem capazes de o estrangular mal lhe ponham a vista em cima.

- Em 2011, combata o aumento do custo dos combustíveis como faz um amigo meu que vai para 20 anos a meter sempre a mesma importância de combustível na sua viatura… não gastando assim nem mais um cêntimo, ano após ano. Claro que, actualmente, já tem o carro pousado sobre quatro cepos e transporta a gasolina num jerrycan, apenas para poder pôr o motor a trabalhar ocasionalmente. Mas a verdade – como punhos! – é que não gasta nem mais um cêntimo em combustível, quaisquer que sejam os aumentos, e cumpre assim o nobre objectivo a que se propôs!

- Em 2011, dedique-se à apanha sazonal da azeitona ou de qualquer outro produto agrícola, aí durante uns seis mesitos do ano. Nos restantes seis dedique-se de corpo e alma ao Fundo de Desemprego – verá que companhia não lhe faltará, circunstância expedita de desenvolver novos conhecimentos e de, assim, se lhe abrirem novas expectativas relacionais… para a apanha, na próxima época, de um qualquer outro produto agrícola sazonal, porventura.

- Em 2011, se está a pensar comprar casa… não compre uma, compre duas. Mas tenha o cuidado de as adquirir junto de um estabelecimento de ensino superior. Vai habitar uma delas com a sua família e aluga a outra a vinte alunos deslocados e, talvez até, a um ou dois professores, com os respectivos arrendamentos totalmente isento de impostos – o Estado não quer saber disso para nada e não o incomodará – , o que lhe permitirá fazer face ao duplo encargo e, com boa gestão, talvez até amealhar algum… Pelo lado dos alunos, ensardinhados na casa alugada, a proximidade intensa com os demais colegas poderá promover novas e interessantes experiências. Há aqui, pois, uma vertente social não despicienda.

- Em 2011, esqueça tudo o que lhe sugeri acima e inscreva-se mas é nas «jotas» de algum dos partidos com futuro ou com presente. Aqui as tácticas poderão ser diversificadas, mas tente ser, ao mesmo tempo, um imenso bajulador do «chefe» e um chato terrível junto dos seus pares. Com duas ou três fintas de corpo, lá pelos vinte e quatro anos está director (ou mais…) de uma empresa pública, pelos vinte e cinco estará na Assembleia da República e, a partir daí, o céu não é o limite. Ah, e já poderá contar, colateralmente, com duas reformas asseguradas, aí a partir dos trinta e dois ou trinta e cinco anos. Qualquer paralelo com situações parlamentares actualmente existentes é pura coincidência, claro.

- Em 2011, solicite um financiamento à banca ou ao FMI ou ao Diabo e abra (mais) uma grande superfície; de seguida, contacte algumas organizações humanitárias e disponibilize espaço nessa mesma grande superfície para a recolha de bens alimentares e outros adquiridos e pagos pelos solidários concidadãos, em sucessivas campanhas contra a fome, o frio ou o que seja. Fará um vistaço, socialmente falando, e vai assegurar um escoamento dos seus produtos muito acima das expectativas de qualquer prospecção de mercado mais optimista.    

Como vê, caro concidadão, a crise pode ser uma janela de oportunidades… nem que seja de alumínio anodizado. Basta puxar pelo bestunto, abdicar de qualquer racionalidade e, bem no fundo, estar-se nas tintas para o próximo.

- Jorge Castro

janeiro 02, 2011

Conversa de Café sobre a Crise.

A Crise é a mãe de todas as crises.
É coisa que dita deste modo parece um chavão mas, na verdade, a crise é a tal criatura mitológica de múltiplas cabeças que, quanto mais se cortam, mais elas aumentam. À luz do argumento espalhado e aceite de forma carneira pela acéfala população, o Estado tem que cortar despesas para poupar esses cidadãos a mais encargos. Ao mesmo tempo em que diz ir reduzir despesa, aumenta os impostos, de onde concluimos que reduzir despesa é um empreendimento muito caro, tanto mais caro quanto mais se cortam: mais e mais cabeças emergem por cada corte feito. A economia não tem compartimentos estanques e os recursos desviados para uma área ficam em falta noutras, prioritariamente nessas que são geradoras dos impostos de que o Estado precisa. O aumento de impostos em quadro de crise tem assim um efeito multiplicador sobre a própria crise.
A maior parte de nós já está anestesiado pela progressiva e lenta marcha da caravana dos média. É a tal metáfora do sapo cozido lentamente. Se o pusessem em água a ferver, ele saltaria de imediato para fora do tacho mas, aquecendo a água devagar, o sapo acomoda-se à modorra do quentinho e quando dá por ela ferve sem dar um ai.
A palavra crise, espalhada como um vírus na sociedade, tem um efeito multiplicador a nível do comportamento colectivo também e, repare-se, as crises económicas são antes de mais psicológicas.
Podemos ver isso na nossa vida prática do dia a dia. Aliás, não há melhor forma de entender as coisas macro que reduzi-las ao universo micro. Lembrei-me de um mês em que não pude usar o carro e onde a poupança da gasolina me custou um par de sapatos e uns serviços de táxi, sem falar na perda de tempo. Também me ocorre a compra de um estojo de chaves para um desenrascanço. Estava de fim de semana em casa de amigos e ofereci-me para um consertozito de ocasião. Assim lá fui à loja chinesa quase ao lado e adquiri as ferramentas. Coisa barata, já se vê, pois estamos em crise e era apenas para uma intervenção breve. Acabei por partir as chaves e ter que ir comprar umas de qualidade. A poupança ficou-me pelo preço fantástico da aquisição de um estojo e de uma colecção de sucata. Todos nós temos casos destes na nossa vidinha do dia a dia. Sei lá... olhem, por exemplo, o vizinho que poupou na conta da água e depois começou a ir comprar as laranjas e demais produtos que a hortinha deixou de produzir. Saltando para o Estado, aquela ministra que despediu dois craques informáticos – ganhavam muito acima da tabela – e contratou depois duas ou três dezenas para fazer o trabalho dos anteriores, mas a um custo por cabeça muito inferior. Upa-upa! Foi uma poupança! Ou ainda e voltando ao meu universo pequenito, o caso de um empregado de uma empresa pública que percorreu de carro, acompanhado do chauffeur, durante uma tarde inteira, todas as lojas da cidade para comprar ao melhor preço um conjunto de pilhas recarregáveis. Acredito que em termos de poupança estas pilhas deverão ter sido as mais caras da História da Humanidade!
As crises são, e sabêmo-lo pela História, ocorrências cíclicas, mas esta tem alguns contornos deveras bizarros.
Nunca se produziram tantos bens e a preços tão baixos como nestes tempos. O comércio é no fundo a troca de bens e serviços. Trocamos o que nos sobra pelo que nos está em falta.
O dinheiro é a expressão abstracta do seu valor. Mas o facto de serem muito baratos deveria querer dizer que temos pouco que dar em troca da sua aquisição. E aqui começa o paradoxo: ao adquirir uma televisão não preciso de dar muito em troca, mas acontece que o que eu tenho para dar não é aceite pelo vendedor pois, para o seu mercado, o meu barato é-lhe caro e não tem escoamento para o que eu produzo. Para que ele aceitasse eu teria que dar-lhe muito mais do que lhe ofereço. Curioso, não é? Como algo barato só o é se atendermos à sua expressão monetária. Recorro então ao dinheiro. Troco o dinheiro pelo bem. Onde é que está o dinheiro? Não o tenho, tenho bens e expectativa de produzir mais, a força do trabalho. O sistema acredita em mim, acredita no sistema e os Países entram em dívida. A dívida não é algo mau por si mesma, não a devemos temer, o que é grave não é dever, mas sim não ter meios para saldar a dívida. A expectativa dos credores é receber dinheiro a partir dos bens que vamos produzindo mas se os Países de onde importamos não querem os nossos bens, então a solução mais rápida é depreciar o seu valor e vender a preço mais baixo para estimular de algum modo a troca e é isto que acontece quando os Estados vão aos mercados financiar-se. E o que era barato passa a ficar muito mais caro pois há que somar ao preço de compra todos os outros custos: dívida, desemprego e depreciação da produção interna.
Outra solução consiste na inovação, de forma a ir ao encontro de novos mercados, mas isso também custa e leva tempo de investimento, além do tempo da formação de capital humano, sem contar na amortização do investimento antes que haja de facto retorno e num país em crise não há espaço para investimentos demorados mesmo que se venham a revelar produtivos a longo prazo. A inovação, se bem que possa ser feita em tempos de crise, deve ser antes levada a cabo nos períodos de abundância e de bons negócios.
Entramos assim na espiral da crise. Pouca gente entende o custo do importar barato. De modo geral apenas se vê o imediato. O lucro fácil, muito localizado no indivíduo mas de efeito perverso sobre toda a sociedade. E neste quadro o que faz o Estado? Exige mais de nós para que, ao termos menos recursos, evitemos essas trocas. O que é grave nisto é o facto de isto fazer com que se limitem todas as trocas e não só as importadas e isto vai fazer com que os bens produzidos cá dentro não circulem com a necessária velocidade para gerar o dinheiro que o Estado exige para o seu próprio funcionamento. Não temos mais fronteiras nem política monetária independente, não podemos aplicar taxas alfandegárias ou mexer com a cotação da moeda. A crise actual é, assim, um monstro sem solução. Talvez a desvalorização rápida do €uro pudesse fazer alguma coisa, ou a aplicação de taxas alfandegárias europeias, baseadas – sei que é utopia – na apreciação dos bens produzidos a baixo preço mas a custo da sobre exploração humana. Apenas isso atenuaria de algum modo o sufoco económico em que presentemente vivemos. Mas o dinheiro é Poder, é afrodisíaco e quem o tem não quer por nada que este perca valor e, tal como disse, o ambiente de crise não gera a confiança para que os detentores o ponham a circular. A tão falada entrada do FMI não resolveria coisa alguma, antes a agravaria. E isto porque vivemos num espaço comum onde todos estão em crise. A receita de aumentar as exportações diminuindo as importações, aplicada a todos os países, faria reduzir ainda mais a actividade económica global. A técnica Espartana do Fundo Monetário, funciona quando apenas um País está em dificuldades num contexto em que os seus parceiros estão de boa saúde financeira.
Qual a solução?
Não me cabe dar, sou apenas um cidadão sem formação nesta área, mas já se ultrapassaram os limites da razoabilidade. Metade de quatro galinhas são duas, metade de duas é uma, metade de uma galinha é meia galinha mas meia galinha não é um ser vivo e é nisso que nos estão a transformar. Meia galinha, em que a parte da cabeça está no Estado, deixando-nos a traseira à sua disposição.
Mas podíamos fazer um exercício simples e recuar novamente à troca directa de bens e serviços.
E num ápice daríamos conta dos inúmeros becos que não devolvem serviços nem bens à sociedade que os sustenta. Dito de outro modo, trabalhamos para a inutilidade e esse esforço desperdiçado faz-nos falta: a ninguém apetece carregar água escassa de um poço para a despejar na abundância de um rio que a leva indiferente ao esforço realizado. E é esta sensação de inutilidade que me trespassa quando me esmifram os escassos €uros nesta toada crescente de um Estado que, não me servindo, está cada vez mais caro.
- Vai um cafezinho?

dezembro 31, 2010

Decisões de Ano Novo

Nenhuma.
Népia.
Zero.

Nunca compreenderei por que é que, numa mudança de minuto hetero-imposta, a maioria dos humanos ocidentalizados se vêem na obrigação de comer passas à bruta, enquanto elencam doze desejos (e se só tiverem sete? e se lhes apetecer desejar quinze coisas diferentes?) e prometem a si mesmos que mudarão mil e uma coisas que sabem, à partida, que não vão cumprir.
Eu cá, tomo decisões ao meio dia de uma terça-feira, a meio de Agosto, como as tomo num domingo de Inverno, se achar necessário. As decisões tomam-se quando é preciso, não quando nos dizem que são para ser tomadas.
O Ano Novo não nos traz nada (nem bons resultados nos exames, nem turmas fantásticas, nem um Governo melhor, nem o fim da crise), nós é que traremos coisas aos doze meses que aí vêm - será assim tão difícil de perceber?

"Ah, é costume!"
ou
"É tradição, não sejas chata."

Vão-se lixar mas é todos, porque se estão à espera que o mundo (o vosso e o outro) mude à meia noite do dia um de Janeiro, estão a perder 364 dias cheios de minutos em que podem, isso sim!, fazer qualquer coisa para que a (vida) melhore.
E não peçam, executem.
Não desejem, façam.
Não esperem, alcancem.

Se eu tivesse uma só palavra a dizer sobre o assunto, diria que a Passagem de Ano é mais uma fraude que se inventou para se adiarem atitudes, decisões e vontades, enunciando-as apenas.
Se sou contra a Passagem de Ano?
Que disparate!!
Trata-se de uma festa e eu sou a favor de festas!!
Que vou fazer?
Sair, comer e beber, rir e divertir-me.
E, nisso, o dia de hoje não difere em nada dos outros dias do ano.

O texto sobre o ateísmo mereceu comentários interessantes...

... dos nossos amigos do Bairro Norton de Matos:

Tonito:
"Bom artigo.
O meu Deus não me chateia nada, ele tem a vida que entende,eu tenho a minha."

Alfredo Moreirinhas:
"Gostei!... Não há mais nada a comentar!...Achei uma delícia e fiquei com um argumento de peso!..."

Quito:
"Eu, que tenho a vivência de mais de duas décadas com populações dos meios rurais, apercebo-me quanto a religião é parte integrante das suas vidas, Há, até, uma certa «irracionalidade» na forma como dão uma qualquer explicação Divina para qualquer desgraça. Tudo tem, para aqueles povos, uma lógica. Este pequeno texto que acabo de ler, a brincar põe o leitor a meditar. Em meu modesto entender, Deus é algo de espiritual. Não existe acima de nós. Está dentro de nós, na forma como respeitamos e ajudamos o nosso semelhante. A forma como abraçamos as grandes causas colectivas. E esse Deus, o tal que existe dentro de nós, não é imaterial. Eu, modestamente, até consigo vê-Lo, quando nas noites escuras, fixo o céu estrelado. É uma cumplicidade Divina com o Mistério da Natureza, que certamente terá a sua explicação científica e se renova no suceder dos dias e das noites. Gostei do texto."

Chico Torreira:
"Bem, como sempre ouvi dizer que melhor com Deus que com o diabo, ao contrário, eu vou pelo Deus Uno que engloba os 2869 pequeninos Deuses.
Na realidade um texto que teoricamente nos faz pensar mas, na prática, não creio que vá alterar a crença de cada um. Isto também me faz pensar pois, teoricamente, era natural que alterasse."

Carlos Viana:
"Uma interrogação, logo à partida: em que limbo foram colocadas os 830 seres sobrenaturais que não foram considerados divindades?
Outra interrogação: será que eu sou mesmo ateu? Durante toda a minha vida apregoei que, tal como meu Pai, «sou ateu, graças a Deus».
Era uma forma de escapar ao ter que saber se acreditava no Deus Uno, nesse Deus que estava ligado, por culpa da Igreja Católica, aos mais hediondos crimes cometidos contra a humanidade.
O meu ateísmo, e não será só o meu, é fruto da revolta sentida contra os crimes cometidos em nome de Deus.
Bem vistas as coisas, estou disponível para adorar qualquer um dos 2869 deuses que tenha um CV sem crimes. Pelo menos isso eu exijo!"

O diálogo sobre o ateísmo continua

... a propósito do excelente texto de Rick Gervais «Why I'm an atheist», trazido e traduzido pela Ana Andrade:

OrCa:
"Antes de mais, as boas vindas à Ana. O Paulo sabe rodear-se!
Depois, o assunto: - acredito ou não em Deus. Pois eu não tenho motivos para acreditar ou deixar de acreditar em Deus, desde logo pela elementar razão de que o próprio nunca me pregou uma aldrabice que me levasse a deixar de acreditar nele... Porventura, falta de oportunidade. E a verdade-verdadinha é a de que ele não faz parte dos meus contactos de email, nem do Facebook.
Daí, a minha posição algo cínica e dubitativa sobre a matéria.
Por outro lado e pelas elementares razões anunciadas, a que podemos acrescentar o facto - esse, sim, universalmente conhecido - de Deus nunca ter aparecido em qualquer televisão remetem-nos, por questões de liminar lógica formal, à sua presuntiva não-existência, dado que é sabido que quem não aparece na televisão não existe.
Ainda que o conceito de Deus, levado à sua abstracção máxima - entendível por humanos, entenda-se... - de que Deus é o Universo, já o traz um pouco para mais perto de nós - e será razão bastante e óbvia para não caber nas televisões, até atendendo à sua dimensão circunstancial e ao reduzi tamanho dos estúdios.
Por outro lado - e seguindo em jeito de silogismo - se Deus é o Universo e se nós o incorporamos, então nós somos um pouco de Deus.
Ora, como o conceito não é quantificável - ninguém pode dizer que bocadinho de Deus é - cada um de nós é Deus! Atenção que este conceito deve ser extensivo aos vírus, às anémonas, aos repolhos, às minhocas, aos morcegos e, até, ao engenheiro Sócrates, etc., etc. Enfim, este sim, é um conceito pandémico.
Deus não estará, então, e como apregoam alguns, dentro de nós, mas somos nós próprios.
E, aí sim, eu não apenas acredito em Deus, como o conheço muito bem. Privo com ele nos mais desvairados locais e circunstâncias. E, aqui e ali, era até bem capaz de o achar merecedor de reprimenda ou vergastada, para além dos inumeráveis elogios quanto às suas manifestações.
Simplesmente não sou capaz de abranger toda a riqueza multidisciplinar do conceito atendendo à multiplicidade (que tende para infinito) das suas caras e manifestações contraditórias. E isso revela a minha limitação humana. Ainda que progrida, em cada momento, e se enriqueça esse conhecimento… assim a modos que um up-grade que a vida nos faz.
O tremendo disto tudo são as noções do infinitamente grande e do infinitamente pequeno… Eu explico-me: se Deus é o Universo, tudo bem, está (quase) percebido. Agora, se o Universo que nós presumimos ir conhecendo (pouco e mal) não é mais do que uma pindérica célula de um sinal na nádega direita de um Super-Universo? As nossas máquinas de calcular mais sofisticadas não comportarão dígitos para estas equações.
Maior do que esta baralhação conceptual só mesmo o discurso de um elenco governamental como aquele de que, hoje, dispomos…
Diria, em jeito de remate eternamente adiado, que Deus existe fundamentalmente sempre que nos dá jeito e alguns descobriram que, para viverem, mais vale bater a outras portas ou pedir noutras freguesias. Esses serão os ateus, em que me incluo. Não estarão certos nem errados – é tudo uma questão de divina opinião.
No meio disto tudo, igrejas, apóstolos, seguidores, teólogos e outra gente muito respeitável fazem-me sempre recordar aquele senhor que vende atoalhados na feira de São Pedro de Sintra e que não está ali para enganar ninguém. Felizmente que, pelo menos a esse, eu não sou obrigado a comprar nada."

Charlie:
"Ora bem, que agradável é poder trocar / complementar / esgrimir e coisas que tais, com estes excelentes compinchas (eu disse compinchas, Nelo).
Espero que tenham passado bem esta quadra festiva dedicado ao Natalis Solis Invictus a que o Cristianismo colou o nascimento do menino, menino esse que também foi buscar a outro culto, mas isso são por ora outras conversas. O que ressalta das apreciações sobre Deus(es), é a inevitabilidade da sua emergência. Para os que dizem não acreditar em nada de origem divina, relembro esta frase a propósito que Pessoa imortalizou:
- Onde está Deus, mesmo que não exista!...
Saramago chama à Biblia um manual de maus costumes e à luz da corrente humanista actual é-o certamente, mas tal como a Igreja afirma, é a palavra de Deus escrita pelos Homens, nos contextos histórico-culturais vigentes, donde se pode inferir desde a efabulação à mentira...
A personagem mítica de Cristo sofreu, por outro lado, do mesmo processo de «limpeza» que verificamos com Superman [Superman envolvia-se no início em ambientes sórdidos e assassinatos. Também os seus poderes eram mais limitados. A sua força vinha do sol amarelo da Terra, já que em Krypton o sol era vermelho. Também não voava nem tinha visão raios X, e os seus inimigos usavam filtros vermelhos sobre os prédios ou em aviões para combatê-lo. Com o tempo mitificou-se e tornou-se um semideus praticamente indestrutível, com um perfil moral de acordo com o padrão vigente. Mais um exemplo perfeito do fenomeno de mitificação que está na origem dos Deuses]. Da vida de Cristo resta como elemento de irascibilidade o episódio com que inicia a sua vida pública já em adulto, quando corre à chibatada os vendilhões do Templo. Cristo é depois e até à sua crucificação, a bondade e a doçura, o milagre e a palavra, mas sabe-se hoje pelos escritos do mar morto e outros textos, que ele seria um entre os muitos revoltados contra o ocupante Romano e que seria tudo menos doce e de comportamento mais consentâneo com os acontecimentos supracitados no templo. Um terrorista, diriam hoje....
- O que é então Deus? - perguntamos. Deus não cabe nas nossas classificações, pois sempre que o fazemos tiramos-lhe a divindade. Ao atribuirmos-lhe umas propriedades /qualidades, fazêmo-lo com exclusão de outras, o que o limita. E Deus só pode ser tudo por ser omnipotente. Ou será Ele a exclusão das nossas limitações e defeitos: o Bem?
O Bem e o Mal, como diria Nietzsche, são meras subjectividades, dependendo de que lado do benefício está o sujeito. Visto assim, cada ser humano tem o seu próprio Deus. Desde aqueles que não aceitam a sua existência até aos que fazem depender toda a sua existência Dele.
Podemos fazer um exercício académico: Imaginemos um Deus Criador de um Ser inteligente que não acredita nesse que o cria. Do mesmo modo, Ele cria um outro homem e, este sim, é crente. Podemos assim imaginar um novo perfil de Deus, um Deus gozão, que se esconde e enche o papinho de risota enquanto assiste escondido à discussão entre os dois.
Outro exercício é em tom contrário: Dois homens, um cria Deus e o outro desmonta esse Deus... Curiosamente, verificamos como em ambos os casos os argumentos convergem: a existência de Deus está sempre no fulcro.
Podemos ainda extrapolar. Deus criou o homem dando-lhe a conhecer apenas os limiares da sua existência, já que para O entender é preciso estar dotado da Sua infinita sabedoria e assim, em cada estágio da evolução, Deus dá-se a mostrar mais e mais, sempre à frente do entendimento no limite da fronteira humana, tendo como objectivo final a reunião com ele. A travessia do povo eleito pelo deserto durante 40 anos, como é referido na Bíblia, em que Moisés nunca chega à terra prometida, é uma perfeita analogia deste conceito.
Sendo então Deus revelado consoante o estado de cada ser humano, - ...sou da altura do que vejo, disse Pessoa... - temos assim para cada um de nós um Deus à medida. Todos os Deuses da Antiguidade seriam apenas aspectos dele que o Homem de então podia entender. Ele não existe para além do nosso entendimento, mesmo que não precise desse nosso entendimento para não existir, pois se Deus é tudo, é a existência mas também o seu contrário, a não existência. O Ateu é assim a prova mais cabal de que Deus existe, afirmando-a através da negação. Não ter Deus é possivelmente a forma mais divina e fantástica da sua criação.
Eu, Charlie, como Ateu, afirmo-o..."

dezembro 30, 2010

ó gente da minha terra...

Assalta-me, com inusitada frequência e cada vez mais, uma estranha sensação de me sentir – ou parecer que querem fazer sentir-me – um estranho numa terra estranha, conforme o título dessa obra de ficção de Robert Einlein que me povoou leituras de juventude.

Ele é a aceitação amorfa e acrítica ­– explicitamente amorfa e acrítica, pois parece fazer-se apanágio de tal­ – por parte da (aparentemente) grande maioria dos meus concidadãos em face das mais despudoradas atitudes governamentais no esbulho da coisa pública, na aldrabice ou sistemática contradição do que ainda ontem foi assegurado como verdade absoluta, na deriva alucinada de políticas nos pilares da cidadania que são a Saúde, o Ensino e o Trabalho… e o resto!

Ele é a moldura humana que se desassossega, que grita e se esgadanha para encher até aos bordos salas de espectáculo ouvindo lamechices medíocres e péssimas interpretadas por lamechas medíocres e péssimos, mais ou menos andróginos mas, invariavelmente, sequer sem pinga de voz que lhes valha a eles e às lamechices que entoam, ainda que com muito espectáculo de luzes, umas coristas conspicuamente descascadas e, até – pasme-se! – grupos orquestrais de qualidade, em palco, que tanto escasseiam para abrilhantar outros eventos mais razoáveis. E fazendo carreira – ou fazendo tony, que vai dar ao mesmo – com irrazoáveis proventos de fazer inveja a um santo, financiados por tudo quanto é poderes públicos… com os dinheiros públicos que, por sua vez, tanta falta fazem em tanto buraco de que este País se farta.

Ele é o fervor clubista que faz comerem-se vivos milhares de adeptos de equipas adversárias – claro, apenas do futebol que, quanto ao resto, o desporto dá saúde mas é só paisagem –, aparentemente sem qualquer espírito valorativo ou crítico em relação ao mundo de interesses que norteia e faz mover os futebóis… e, afinal, os faz mover a eles, também, lamentáveis marionetas desses jogos de interesses. Adeptos que se insurgem e se revoltam e insultam e apedrejam tudo e todos sempre que um qualquer «dirigente desportivo» dos tais futebóis lança uma atoarda idiota sobre qualquer peça de uma equipa adversária.

Ele é as manifestações lamentosas das escolas privadas quando o estado anuncia que lhes vai cortar subsídios, a elas que são privadas e que assim nasceram e querem ser mas que também contribuem desgraçadamente para o descrédito do ensino público através de habilidades demagógicas mas elitistas, e que vivem, afinal, sob a dependência da asa acolhedora do dinheiro de nós todos… mas que se querem manter privadas. Claro que haverá algumas de real interesse público, lá onde o Estado se demitiu por qualquer razão mais ou menos histórica e cujo desagrado se fundamenta em sólidas razões contratuais. Mas aí, pergunto eu, de que estará à espera o Estado para suprir tais carências? Agora, seguramente, essa função supletiva territorial não incidirá nas escolas privadas dos grandes centros urbanos e que também abicham o sacrossanto subsídio… 

Os exemplos da minha estranheza dariam obra monumental que ninguém leria e que não serviria rigorosamente para nada, como para pouco ou nada servirão estas poucas linhas que sobre o assunto estou a escrever.

Estarei porventura mal informado sobre os mais diversificados itens. Mas a verdade é que tento manter-me informado… e continuo desinformado. E, assim, me vou mantendo opinativo quiçá sem fundamento, mas indignado até por essa falta de fundamento.

Mas pasmo. E, pasmando, manifesto-me, quer seja ou não lido.

Força frustre, talvez, e inócua, seguramente, perante o eco que jornais, rádios e televisões dão a estas estranhas coisas, que vão transformando a vida do País – as nossas vidas – num imenso circo em que os Césares e os Neros já nem cuidam de preocupações com o pão.

Esse, pelos vistos, vai ficando pelas Misericórdias e misericordiosamente nas mãos e nas preocupações daquelas faixas da população que ainda têm um par de sapatos a mais, lá por casa, ou um cobertor, ou uns cêntimos disponíveis para algum dos incontáveis peditórios com que somos assolados, como para a recolha de bens alimentares em grandes superfícies que matam a fome a quem a tem por um ou dois dias mas que tês esse extraordinário efeito colateral de rechear ainda mais os alforges dos donos dessas grandes superfícies.

Talvez o mundo esteja, na verdade, a mudar de paradigmas. Mas não é seguramente na senda da sociedade da abundância, de onde advirá a riqueza cultural humana, mas antes no sentido daquela outra sociedade, preconizada por Orwell, onde o triunfo dos porcos desgraça a vida de todos os animais da quinta ou onde uma pseudo-elite detentora de tudo raciona e determina o que é «bom» e «mau» para cada um de nós e onde, em boa verdade, ninguém é dono de nada, nem sequer do livre pensamento ou do livre arbítrio.

E tudo decorre, paulatinamente, sob o nosso olhar pachorrento, anestesiado e conformista…

Mas não será, pois, esta uma crónica pessimista ou derrotista porque, afinal, é fácil mudar este estado de coisas. Basta NÓS querermos, dos nossos pequenos aos grandes gestos. E esta é uma boa altura – tão boa como outra qualquer – para alterarmos comportamentos. Bom ano de 2011, acrescido de IVA a 23% que o Estado, coitado, precisa, necessita, carece…

dezembro 25, 2010

Diálogo sobre o ateísmo...

... a propósito do excelente texto de Rick Gervais «Why I'm an atheist», trazido e traduzido pela Ana Andrade:

Antonino:
"Fascinante... Talvez por isso, no 'In Memoriam' do meu pai eu escrevi mais ou menos isto: «Era um homem bom por amor da bondade e justo por amor da justiça». Realmente, se assim não fosse, andávamos todos a agir num modelo de PEC (Pagamento Especial por Conta) que seria algo assim: Tu vais pagando já agora, que Eu depois acerto contigo e vejo se tens a dar ou a receber.
Gostei."

Charlie:
"Excelente aperitivo para um brainstorming. A Fé é aquele elemento imponderável que está sempre um passo à frente da razão. Por mais absurda que possa parecer esta afirmação, o suprassumo da racionalidade, consubstanciado na figura do cientista, persegue a decifração dos enigmas do conhecimento movido pela intuição, a fé, e apoia-se na racionalidade para a sustentar e, logo de seguida, a questionar. Se há Deus? Claro que há! Deus é a entidade impessoal que existe em cada homem. Cria os mundos e o Homem em espaços determinados de tempo que possam caber nos contextos que este lhe destinou.
Toda a gente acredita em Deus e, quando diz que não acredita, expressa a forma mais assertiva de acreditação e que consiste no acto da negação. Toda a negação tem como contraponto o universo afirmativo contra o qual se debate. Provar que Deus não existe passa pela criação de novos universos de sinal contrário, subordinados a Deus e potencialmente berços de novos deuses!
Do outro lado, a aceitação em Fé da divindade tradicional não existe esforço - Deus não precisa de ser provado, pois Deus é sempre mito e os mitos não precisam de provas. A Fé sim. Ela é a fronteira entre os estímulos da intuição - vindos directamente da vida instintiva - e da razão. Dessa relação instável nasce a necessidade obsessiva da afirmação constante da Fé. Para o crente, Deus não se questiona. A Fé sim, essa exige do crente a paga constante do tributo."

Antonino:
"Brainstorming... bem pensado. Após a leitura do texto e do comentário, as ideias surgem, debatem-se e vão. As que ficam deixam que pensar. Na essência do texto, os deuses são criações humanas e são os homens que se servem da sua criação para justificarem coisas boas e coisas más. Ser ateu e acreditar nos outros é a forma mais divina de expressarmos a nossa fé. Digo: «acredito em ti» e logo tu existes. Repito uma ideia, os nossos actos devem ser ditados pelos limites do humano e não pela transcendência da fé. Quando a própria Igreja deixou/deixa de obedecer à lei dos homens e não se lembra de que poderá 'arder no Inferno' gera partos aberrantes como a Inquisição e as purgas."

dezembro 22, 2010

"Why I'm an atheist", por Rick Gervais

Rick Gervais é um génio humorístico, todos (ou pelo menos os que acompanham a sua carreira ou, vá, os que assistiram ao The Office original) o sabem.
O que eu não sabia é que ele escreve coisas que eu gostaria de ter escrito, porque sou uma grande invejosa. Como não escrevi, cabe-me a postura humilde (e humilhada) de reproduzir aqui um ensaio de pensamento crítico a que, enquanto professora, atribuiria nota máxima.

(Atrevi-me a fazer uma tradução do original, que só não me deu água pela barba porque eu não tenho barba, por um lado [ao menos, até ver] e, por outro, porque tive como partenaires o mui viajado P.R., nas expressões [mais] idiomáticas e o sempre atento P.M [meu-co-contribuidor], na revisão final. Obrigada aos dois pela ajuda e ao último, em particular, por ter cometido a insanidade de me convidar para fazer parte desta coisa séria que é o Persuacção.)

Senhoras e senhores, eis Rick Gervais no seu melhor.

Por que não acreditas em Deus? Fazem-me esta pergunta a toda a hora. Tento sempre dar uma resposta sensível e racional, o que é sempre estranho, uma perda de tempo e desprovido de sentido. As pessoas que acreditam em Deus não necessitam de uma prova da sua existência e certamente não pretendem evidências do contrário. São felizes com a sua crença. Inclusivamente, dizem coisas como “para mim, é verdade” e “trata-se de fé”. Ainda assim, eu dou a minha resposta lógica, porque sinto que não sendo honesto seria paternalista e indelicado da minha parte. É, portanto, irónico que “eu não acredito em Deus porque não há qualquer prova científica da sua existência e, pelo que sei, a própria definição de Deus é uma impossibilidade lógica no Universo conhecido” acabe por ser simultaneamente paternalista e indelicado.

Arrogância é outra acusação. Que me parece particularmente injusta. A ciência procura a verdade. E não discrimina. Para o melhor e para o pior, descobre coisas. A ciência é humilde. Sabe o que sabe e sabe o que não sabe. Baseia as suas conclusões e crenças em fortes provas – provas essas que são constantemente actualizadas e melhoradas. A ciência não fica ofendida quando surgem novos factos e aceita o corpo do conhecimento. Não se agarra a práticas medievais só porque são tradicionais. Se o fizesse, não teríamos uma injecção de penicilina; baixaríamos as calças, enfiaríamos uma sanguessuga e rezaríamos. O que quer que seja em que se “acredite”, nunca será tão eficaz como a medicina. Novamente, poder-se-á dizer “comigo, funciona”, mas também os placebos funcionam. O que quero dizer é que Deus não existe. Não estou a dizer que a fé não existe. Eu sei que a fé existe. Verifico-o a toda a hora. Mas acreditar numa coisa não faz dela uma verdade. Esperar que uma coisa seja verdadeira não faz dela uma verdade. A existência de Deus não é subjectiva. Ele ou existe ou não existe. Não é uma questão de opinião. Podemos ter as nossas próprias opiniões. Mas não podemos ter os nossos próprios factos.


Por que é que não acredito em Deus? Não, não, por que é que se acredita em Deus? Certamente que o ónus da prova está no crente. Foi ele quem começou tudo isto. Se eu me chegasse ao pé de alguém e dissesse “Por que não acreditas que eu posso voar?”, dir-me-iam “Por que haveria de acreditar?”, e eu responderia “Porque é uma questão de fé”. Se eu, depois, dissesse “Prova que eu não posso voar; vês, não consegues prová-lo, pois não?” provavelmente virar-me-iam as costas, chamariam a segurança ou atirar-me-iam da janela e diriam “Então voa aí, seu lunático de m****!”

Trata-se, evidentemente, de uma questão espiritual. A religião é um assunto diferente. Como ateu, não vejo nada de “errado” na crença num deus. Não acredito que haja um deus, mas acreditar nele não faz mal algum. Se ajuda de algum modo, então tudo bem, para mim. É quando a crença começa a infringir os direitos das pessoas que começa a preocupar-me. Eu nunca negaria a alguém o direito de acreditar num deus. Só preferiria que não se matassem pessoas que acreditam num deus diferente, vá. Ou que não se apedrejasse alguém até à morte porque um certo livro de regras diz que a sua sexualidade é imoral. É esquisito que alguém acredite que um poder omnisciente, omnipotente e omnipresente, responsável por tudo quanto acontece, possa igualmente querer julgar e castigar as pessoas por aquilo que são. De tudo quanto consigo coligir, o pior que se pode ser é mesmo um ateu. Os primeiros quatro mandamentos confirmam este ponto. Há um deus, eu sou esse deus, mais ninguém é, ninguém é tão bom e não te esqueças disso. (Não matar não é mencionado senão no número 6).

Quando confrontado com alguém que leva a minha irreligiosidade tão a peito, eu respondo “Foi o modo como Deus me fez”.
Mas de que é que os ateus são, na verdade, acusados?

A definição de Deus no dicionário é “criador sobrenatural e supervisor do universo”. Incluídos nesta definição estão as divindades, as deusas e os seres sobrenaturais todos. Desde o início da história, que é marcado pelo início da escrita pelos Sumérios há cerca de seis mil anos, os historiadores catalogaram mais de 3.700 seres sobrenaturais, dos quais 2.870 podem ser considerados divindades.

Sendo assim, da próxima vez que alguém me disser que acredita em Deus, direi “Qual? Zeus? Hades? Júpiter? Marte? Odin? Krishna? Vishnu? Rá?…” E se me responderem “Só Deus. Eu acredito no Deus Uno”, eu assinalarei que esse alguém é quase tão ateu como eu. Eu não acredito em 2.870 deuses e ele não acredita em 2.869.

Eu costumava acreditar em Deus. O Deus Cristão, quero dizer.

Eu adorava Jesus. Era o meu herói. Mais do que estrelas pop. Mais do que futebolistas. Mais do que Deus. Deus era, por definição, omnipotente e perfeito. Jesus era um homem. Teve de se esforçar. Teve tentações mas derrotou o pecado. Era íntegro e corajoso. Mas Ele era o meu herói porque Ele era bondoso. E Ele era bondoso para toda a gente, não oferecia pressão, tirania ou crueldade aos seus pares. Não queria saber quem era quem. Amava todos. Que homem! Eu queria ser tal como Ele.

Um dia, quando tinha cerca de 8 anos, estava a desenhar a crucificação, como trabalho de casa de Estudos Bíblicos. Eu também adorava arte. E a natureza. Gostava de como Deus fizera os animais. Eles também eram perfeitos. Incondicionalmente belos. Era um mundo espantoso.

Eu vivia numa casa pobre, típica da classe trabalhadora, em Reading, cerca de quarenta milhas a oeste de Londres. O meu pai era um trabalhador e a minha mãe dona de casa. Nunca me envergonhei da pobreza. Era quase nobre. Para além disso, toda a gente que eu conhecia vivia na mesma situação e eu tinha tudo aquilo de que precisava. A escola era gratuita. As minhas roupas eram baratas e estavam sempre limpas e passadas a ferro. E a mãe estava sempre a cozinhar. Ela também estava a cozinhar no dia em que eu desenhava a cruz.

Estava sentado à mesa da cozinha quando o meu irmão veio para casa. Ele era onze anos mais velho do que eu, pelo que deveria ter 19. Era tão esperto como toda a gente que eu conhecia, mas também atrevido. Era daqueles que não se calava e se metia em sarilhos. Eu era um bom rapaz. Ia à igreja e acreditava em Deus – que alívio para uma mãe da classe trabalhadora. É que, tendo crescido onde eu cresci, as mães não esperavam que os seus filhos se tornassem médicos, limitavam-se a esperar que eles não fossem parar à cadeia. Vai daí, educavam-nos a acreditar em Deus e eles seriam bons e obedientes à lei. É um sistema perfeito. Quer dizer, quase. 75% dos Americanos são cristãos tementes a Deus; 75% dos presos são cristãos tementes a Deus. 10% dos americanos são ateus; 0.2% dos presos são ateus.

Mas enfim, lá estava eu desenhando alegremente o meu herói quando o meu irmão Bob perguntou: “Por que acreditas em Deus?”. Uma questão tão simples. Mas a minha mãe entrou em pânico. “Bob”, disse ela num tom que eu sabia que significava “cala-te!”. Mas porque é que aquilo era uma coisa má de ser perguntada? Se houvesse Deus e minha fé fosse forte o suficiente, não importaria o que as pessoas diriam.

Oh... espera lá. Não há Deus. Ele sabe-o e ela também o sabe, lá no fundo. Era tão simples quanto isto. Comecei a pensar no assunto e a colocar mais perguntas e, no espaço de uma hora, era ateu.

Uau! Não há Deus. Se a mãe me mentiu acerca de Deus, ter-me-á mentido também sobre o Pai Natal? Sim, claro, mas o que é que isso interessa? Os presentes continuaram a vir. E assim também os presentes do recém-descoberto ateísmo. Os presentes da verdade, da ciência e da natureza. Aprendi sobre a evolução – uma teoria tão simples que somente os grandes génios ingleses poderiam ter apresentado. Evolução das plantas, dos animais e do ser humano – com imaginação, livre arbítrio, amor e humor. Já não precisava de uma razão para a minha existência mas tão só de uma razão para viver. E imaginação, livre arbítrio, amor, humor, diversão, música, desporto, cerveja e pizza são razões boas quanto baste para viver.

Mas para viver uma vida honesta é preciso a verdade. Essa é a outra coisa que aprendi naquele dia: que a verdade, apesar de chocante ou desconfortável, no limite conduz à libertação e à dignidade.

Então o que significa realmente a questão “Por que não acreditas em Deus?” Penso que quando alguém faz essa pergunta está, na realidade, a questionar a sua própria crença. Em certa medida, está a perguntar “O que é que faz de ti especial?”, “Por que é que ainda não te fizeram uma lavagem ao cérebro como a nós?”, “Como te atreves a dizer que eu sou tolo e não vou para o céu?, Vai à m****”. Vamos ser honestos, se uma só pessoa acreditasse em Deus, seria considerada bastante estranha. Mas como é uma posição muito popular, é aceite. E por que é que se trata de uma perspectiva muito popular? É óbvio. Trata-se de uma proposição atraente. Crê em mim e viverás para sempre. Mais uma vez, se fosse só um caso de espiritualidade, estaria bem.

“Faz aos outros...” é uma maneira prática de proceder. Eu vivo de acordo com esse princípio. A capacidade de perdoar é provavelmente a maior das virtudes. Mas é exactamente isso: uma virtude. Não apenas uma virtude cristã. Ninguém possui a capacidade de ser bom. Eu sou bom. Só não acredito que vou ser recompensado por isso no céu. A minha recompensa é aqui e agora. É saber que tentei fazer o que era correcto. Que vivi uma vida boa. E é aqui que a espiritualidade perde o sentido, quando se torna um bastão para agredir as pessoas. “Faz isto ou arderás no inferno”.

Não arderás no inferno. Mas sê bom, de qualquer modo.

dezembro 01, 2010

Bem haja, Padrinho!

Sempre tive orgulho no meu padrinho.
Desde pequeno, os meus pais transmitiram-me uma forte admiração pelo Zé Alberto, nosso familiar, oficial pára-quedista que combatia em África.
Primeiro em Angola, depois em Moçambique e finalmente, pouco antes do 25 de Abril, na Guiné.
Na sala de estar da casa dos meus pais, sempre esteve e continua uma fotografia dele, jovem oficial fardado. E também tenho ainda um avião de brinquedo da BOAC (companhia de aviação inglesa que terminou em 1974) que o meu padrinho me enviou pelo correio, juntamente com uma bola.
Um dia, escrevi uma redacção dedicada a ele:

"Re de acção
U mêu pãdrinho
U mêu pãdrinhu è ofissial paraqedista.
Cuando pra là foi çaltava dus aviôez.
Agòra enpurra os ôtros."

Recentemente, já com o meu padrinho reformado, acompanhei, com a mesma admiração de sempre, as notícias sobre a missão que ele integrou de resgate de corpos de soldados pára-quedistas que morreram em combate na Guiné, numa operação comandada por ele e que tinha como missão atingir e reforçar a guarnição de Guidage, cercada na altura pelo PAIGC.
Infelizmente, nunca tive oportunidade para ouvir, como sempre desejei, as suas memórias e experiência riquíssimas. Mas agora, tenho este livro que o meu padrinho, José de Moura Calheiros, escreveu: «A Última Missão». Para todos os que quiserem saber.
Já vos disse que tenho muito orgulho no meu padrinho?

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«A Última Missão»