E também por duas razões, outras, relevantes: nem gosto de tomar a árvore pela floresta, nem gosto que a floresta esconda a bela individualidade de cada árvore que a enforma. Digo isto, obviamente, como esclarecimento quanto à minha abordagem às motivações dos organizadores do protesto.
Tenho, entretanto, o privilégio de privar de perto com muitos e muitos jovens que não são enquadráveis na moldura definida pelo Shark. E que estão mais do que motivados para protestar contra o verdadeiro estado de sítio para onde nos conduziram os sucessivos governos do centrão - afinal, os únicos destinatários do protesto. E para que não fiquem dúvidas, estou a falar do PSD e do PS – enquanto partidos no poder -, que partilham o(s) poder(es) entre si há dezenas de anos, e todos os seus apaniguados das franjas da manjedoura estatal, mais ou menos «independentes», analistas do convénio, economistas dos interesses, engenheiros das malfeitorias, etc., etc.
Quanto à má-formação inquestionável de tantos e tantos jovens - onde reconheço muita razão à argumentação do Shark - a questão é esta: quem é que os mal-formou? Os pais, os parentes próximos, os professores, os padres, a sociedade que vimos construindo e onde eles se inserem? Quem é que lhes compra as consolas e os jogos? Quem é que permite que, na mesa do restaurante, o pimpolho matraqueie nessa consola, enquanto os pais olham para o infinito? Quem é que se demitiu e demite do seu mais que nobre magistério de influência paternal? Quem é que lhes põe os carros nas mãos (estou a falar dos filhos das classes médias e altas, claro, que os outros ou andam a pé ou vão roubá-los)? Quem é que lhes fornece o guito para os shots e outras minudências estimulantes? Quem é que permite o descalabro no sistema do ensino público, que parece institucionalmente apostado em só formar idiotas desde a mais tenra idade, se os paizinhos não tiverem dinheiro e discernimento bastante para lhes facultarem «instrumentos paralelos» para a vida, instrumentos, uma vez mais, dos que se pagam com duro metal sonante? Quem é que cria, como paradigma de cidadania, o ambiente imbecilizante dos Morangos com Açúcar do nosso descontentamento?
Então, chegado o tempo de juntarem dois e dois e não atingirem resultado nenhum, se acham que devem protestar, pois que protestem. Porque são, também, muitos os jovens que dão o corpo no Egipto, que o dão na Líbia, que o deram no Kosovo, na Sérvia, como já o tinham dado no Vietnam. Antigamente, chamávamos-lhe o idealismo e a generosidade da juventude… e sentíamos orgulho por isso. Teremos o direito, hoje, de até isso lhes negar?
Se, desgraçadamente, os jovens portugueses não se revêem nos partidos e demais instituições existentes que poderiam enquadrar este protesto com outro élan organizativo e «perspectivação política»... a culpa também será deles? E a alternativa, enquanto não formarem o(s) novo(s) partido(s) – como se tal fosse elementarmente exequível –, é calarem-se e continuarem, precariamente, a recibo verde?
Também conheço muitas abécolas, amorfas ou alienadas, como aquelas que referes. Mas sempre as conheci, desde que a mim me conheço, desde aqueles para os quais a sua política era o trabalho ou o futebol, até aos que andavam sempre de carteira recheada pela bem-aventurança de paizinhos bem instalados.
E, já agora, tenho um filho, com licenciatura concluída mas já atropelada por Bolonha – outra cagada «economicista» sem nome – que já passou por meia-dúzia de ocupações qualitativamente relevantes, ao longo de meia dúzia de anos, até como professor universitário (!!!), que para tanto lhe chegam formação e saberes, e que desde os seus 20 anos faz questão de tentar viver com independência não subsidiada e sem cunhas... e só lhe aparecem ou maus pagadores (as excepções são raras) ou esquemas a seis meses, mal pagos, mas tudo com muitas palmadas nas costas e louvores à excelência.
Se me aparecer por aí algum andróide que me prove que se pode assim construir um futuro diverso do dos sem-abrigo, eu agradeço a informação. Ele ainda tem esperança de que o mundo que ajudei a construir cumpra regras. Eu já não sei se verei esse amanhã cantante…
Como ele, uma imensidão, que lamentavelmente apenas vê futuro na emigração. Se o que devemos advogar é essa sangria de tantos dos melhores – cuja formação, aliás, também pagámos com os nossos impostos –, enquanto nação, enquanto povo, enquanto cidadãos, então estamos conversados e Portugal está bem entregue nas mãos dos socretinos a que temos direito e em quem cordeiramente votamos.
Ou, se calhar, afinal Portugal não tem relevância e ser português ainda menos e venham de lá os chineses, ou os indianos, como ontem vieram os americanos e, antes deles, os franceses, enquanto culturas dominantes, a bem do «progresso do mundo». Desse «progresso» a que assistimos nos diários e amarfanhantes conflitos de interesses, sob a égide dos sacrossantos e inatacáveis «mercados».
Não, Shark amigo, eu compreendo muito do que dizes desse grupo de jovens que caracterizas, mas eles não são todos. E amanhã também vou manifestar-me com eles. Contra... qualquer coisa, a bem do meu descontentamento. Não foi para isso que houve Abril! E nesse Abril, estes de que falamos, uns e outros, nem eram ainda nascidos. Pelo que, daí para cá, o que há e por muito que nos custe é de nossa exclusiva responsabilidade.
No meio disto tudo, quer os Deolinda quer os Homens da Luta são efeitos perfeitamente colaterais, como o foi a Tourada de outros tempos, ou a Grândola Vila Morena ou o E Depois do Adeus. E espúria será, até, a comparação. Mas está muito na natureza humana localizar ícones ou pontos de referência para cada um não se perder ainda mais da tribo...












