março 11, 2011

Comentário à opinião, muito legítima, mas algo desiludida, do Shark sobre a manifestação do dia 12…

 Antes de mais e do alto dos meus 59 anos, amanhã também estarei na manifestação. Não sei em qual, nem sei ao serviço de quê, mas NÓS todos deixamos chegar isto a tal ponto, que alguma responsabilidade devemos, colectivamente, assumir. Nem que seja a do protesto e a desse outro conceito tão marginalizado quanto esquecido que se chama solidariedade.

E também por duas razões, outras, relevantes: nem gosto de tomar a árvore pela floresta, nem gosto que a floresta esconda a bela individualidade de cada árvore que a enforma. Digo isto, obviamente, como esclarecimento quanto à minha abordagem às motivações dos organizadores do protesto.

Nem será porque uma tal manifestação alberga dois ou dois mil totós que os motivos passam a ser menos nobres.

Tenho, entretanto, o privilégio de privar de perto com muitos e muitos jovens que não são enquadráveis na moldura definida pelo Shark. E que estão mais do que motivados para protestar contra o verdadeiro estado de sítio para onde nos conduziram os sucessivos governos do centrão - afinal, os únicos destinatários do protesto. E para que não fiquem dúvidas, estou a falar do PSD e do PS – enquanto partidos no poder -, que partilham o(s) poder(es) entre si há dezenas de anos, e todos os seus apaniguados das franjas da manjedoura estatal, mais ou menos «independentes», analistas do convénio, economistas dos interesses, engenheiros das malfeitorias, etc., etc.   

Quanto à má-formação inquestionável de tantos e tantos jovens - onde reconheço muita razão à argumentação do Shark - a questão é esta: quem é que os mal-formou? Os pais, os parentes próximos, os professores, os padres, a sociedade que vimos construindo e onde eles se inserem? Quem é que lhes compra as consolas e os jogos? Quem é que permite que, na mesa do restaurante, o pimpolho matraqueie nessa consola, enquanto os pais olham para o infinito? Quem é que se demitiu e demite do seu mais que nobre magistério de influência paternal? Quem é que lhes põe os carros nas mãos (estou a falar dos filhos das classes médias e altas, claro, que os outros ou andam a pé ou vão roubá-los)? Quem é que lhes fornece o guito para os shots e outras minudências estimulantes? Quem é que permite o descalabro no sistema do ensino público, que parece institucionalmente apostado em só formar idiotas desde a mais tenra idade, se os paizinhos não tiverem dinheiro e discernimento bastante para lhes facultarem «instrumentos paralelos» para a vida, instrumentos, uma vez mais, dos que se pagam com duro metal sonante? Quem é que cria, como paradigma de cidadania, o ambiente imbecilizante dos Morangos com Açúcar do nosso descontentamento?

É que (e muito longe da teoria do «bom selvagem», entenda-se) quando um puto cá chega – e, desde logo, devia chegar por um acto responsável e consciente de quem mandou a respectiva queca, o que muito raramente ocorre – o mundo está feito e (mal) pronto para o receber. E ele vai fazer-se a ele, completamente dependente das circunstâncias que o envolvem.

Então, chegado o tempo de juntarem dois e dois e não atingirem resultado nenhum, se acham que devem protestar, pois que protestem. Porque são, também, muitos os jovens que dão o corpo no Egipto, que o dão na Líbia, que o deram no Kosovo, na Sérvia, como já o tinham dado no Vietnam. Antigamente, chamávamos-lhe o idealismo e a generosidade da juventude… e sentíamos orgulho por isso. Teremos o direito, hoje, de até isso lhes negar?

Se, desgraçadamente, os jovens portugueses não se revêem nos partidos e demais instituições existentes que poderiam enquadrar este protesto com outro élan organizativo e «perspectivação política»... a culpa também será deles? E a alternativa, enquanto não formarem o(s) novo(s) partido(s) – como se tal fosse elementarmente exequível –,  é calarem-se e continuarem, precariamente, a recibo verde?

Por estas e por muitas outras, caro Shark, atenção, que precisamos de ir com calma...

Também conheço muitas abécolas, amorfas ou alienadas, como aquelas que referes. Mas sempre as conheci, desde que a mim me conheço, desde aqueles para os quais a sua política era o trabalho ou o futebol, até aos que andavam sempre de carteira recheada pela bem-aventurança de paizinhos bem instalados.

E, já agora, tenho um filho, com licenciatura concluída mas já atropelada por Bolonha – outra cagada «economicista» sem nome – que já passou por meia-dúzia de ocupações qualitativamente relevantes, ao longo de meia dúzia de anos, até como professor universitário (!!!), que para tanto lhe chegam formação e saberes, e que desde os seus 20 anos faz questão de tentar viver com independência não subsidiada e sem cunhas... e só lhe aparecem ou maus pagadores (as excepções são raras) ou esquemas a seis meses, mal pagos, mas tudo com muitas palmadas nas costas e louvores à excelência.

A propósito, por uma prestação de serviço de cerca de seis meses, numa autarquia, a «recibo verde», teve de pagar ao estado mais do que aquilo que recebeu! E não é conversa da treta, que eu posso testemunhá-lo. É neste estado-vampiro (ou sanguessuga, para o caso…) que os «putos» não se querem rever. E eu também não.    

Se me aparecer por aí algum andróide que me prove que se pode assim construir um futuro diverso do dos sem-abrigo, eu agradeço a informação. Ele ainda tem esperança de que o mundo que ajudei a construir cumpra regras. Eu já não sei se verei esse amanhã cantante…  

E, não obstante, nunca foi criada e produzida tanta riqueza no mundo!

Como ele, uma imensidão, que lamentavelmente apenas vê futuro na emigração. Se o que devemos advogar é essa sangria de tantos dos melhores – cuja formação, aliás, também pagámos com os nossos impostos –, enquanto nação, enquanto povo, enquanto cidadãos, então estamos conversados e Portugal está bem entregue nas mãos dos socretinos a que temos direito e em quem cordeiramente votamos.

Ou, se calhar, afinal Portugal não tem relevância e ser português ainda menos e venham de lá os chineses, ou os indianos, como ontem vieram os americanos e, antes deles, os franceses, enquanto culturas dominantes, a bem do «progresso do mundo». Desse «progresso» a que assistimos nos diários e amarfanhantes conflitos de interesses, sob a égide dos sacrossantos e inatacáveis «mercados».

Não, Shark amigo, eu compreendo muito do que dizes desse grupo de jovens que caracterizas, mas eles não são todos. E amanhã também vou manifestar-me com eles. Contra... qualquer coisa, a bem do meu descontentamento. Não foi para isso que houve Abril! E nesse Abril, estes de que falamos, uns e outros, nem eram ainda nascidos. Pelo que, daí para cá, o que há e por muito que nos custe é de nossa exclusiva responsabilidade.

No meio disto tudo, quer os Deolinda quer os Homens da Luta são efeitos perfeitamente colaterais, como o foi a Tourada de outros tempos, ou a Grândola Vila Morena ou o E Depois do Adeus. E espúria será, até, a comparação. Mas está muito na natureza humana localizar ícones ou pontos de referência para cada um não se perder ainda mais da tribo...

Não se entenda, entretanto, todo este arrazoado como uma polémica estéril ou picardia de somenos. Trata-se apenas, digamo-lo assim, de uma declaração de voto, enquanto direito que nos assiste.   
O Paulo sugeriu outro poema... mas saiu este. Que é soneto e terá algo a ligá-lo a muitas das razões que, amanhã, dia 12 de Março de 2011, irão agitar as consciências da(s) cidade(s).

como iremos dar de nós algum sinal
exaltando de repente a madrugada
a fazer-se em tons de anil e quase nada
mas que suscite o ressurgir de um madrigal?

como tentar então unir o que é diverso
como soltar de nós a voz no tempo incerto
como trazer o sempre longe p’ra mais perto
vesti-lo enfim com a coragem de algum verso?

porque o porvir nunca se faz de mãos fechadas
se não se abrirem essas mãos à vida acesa
que nos desperta em horizontes e alvoradas

algum caminho haverá tenho a certeza
como sabemos outrossim das mil estradas
que surgem sempre pela mão da Natureza

A liberdade de expressão tem o costado largo...

... e é em nome dela que bestialidades destas não são (fortemente) penalizadas.
Enquanto não percebermos que a nossa liberdade acaba quando violamos a liberdade dos outros, enquanto não nos convencermos que a Constituição (e o Código Civil, c'um raio!) não são uns livrinhos bonitos para ter na estante, que só os juristas e candidatos a juristas têm de ler, viveremos num país de vale-tudo, onde qualquer cidadão de bem, cioso da sua intimidade, a vê devassada por impropérios e ofensas advindas de um dito médico (pago pelo Estado português) que, graças à nacionalidade norte-americana, não deve estar obrigado à formação e reciclagem profissionais a que os trabalhadores portugueses estão vinculados.
Porque, se o estivesse, saberia que a sua "opinião" está ultrapassada. Há quase 40 anos, caramba!!!

(Pornográfico, como diria a nossa São.)

março 10, 2011

Indiferença

O indiferente age com desdém;
O que tem desprezo pelos demais;
O que prefere a desconsideração, apatia e insensibilidade no trato com os restantes semelhantes;
Os que praticam acções desenhadas com frieza;
É o sono da alma, o adormecimento da personalidade.

É pior a indiferença de um dito benemérito envolto em supostas responsabilidades sociais, que os gritos estridentes de pessoas de quem nada se espera;
É o péssimo pecado para com um semelhante, pior que odiá-los, vestir o lobo com pele de cordeiro e atraiçoá-lo com indiferença, a essência da desumanidade;
É o perpétuo adeus;

E os que advogam a Liberdade?
Será que falam daquela que os permite dizer o pensam sem se preocuparem com o limiar da interferência na Liberdade do próximo? Ou andar livremente na rua? E no seio dessa Liberdade qual a reacção interior quando passam pelos semáforos? E pelos vãos das escadas, o que fazem perante o que vêem, se é que sequer olham.

E os que proclamam a Igualdade?
Será aquela Igualdade que coloca no mesmo patamar dos restantes aqueles que sem condições para o trabalho, vivem cada dia sem preverem comida ou dormida quente para dali a umas horas? Ou será a Igualdade daqueles que convergidos pela contingência política de um sistema implementado, não encontram alternativas senão prostituírem-se de todas as formas conhecidas e mesmo as mais subtis, para poderem sobreviver?

E os que preconizam a Fraternidade?
É aquela em que uma pessoa com condições de vida, seja em que medida forem, ajuda o seu semelhante a somar dividendos ficando de consciência tranquila quanto à beneficência que praticou?

Não serão estes conceitos hipócritas quando não efectivamente trabalhados em conjunto?

Contudo existem claramente uns poucos que somam estes conceitos à Tolerância, seguem-nos diariamente, e juntos conseguem fazer alguma diferença nos protocolos sociais e morais implementados.
São poucos, são quase nenhuns, e menos ainda os que se expõem...

março 09, 2011

A posta numa manif à rasca mas montes de bué

A sério que gostava de poder levar a sério o levantamento popular (virtual, até ver) que a música dos Deolinda, a crise financeira ou a simples sede de protagonismo de uma geração maioritariamente constituída por gente mimada, arrogante e demasiado umbiguista para reunir o arcaboiço necessário a um movimento colectivo espontâneo como os que viram na televisão e pretendem reproduzir na versão limpinha de um país democrático onde não existe um mauzão para lhes soltar as feras aos calcanhares suscitou.

Mas não posso. E explico-vos porquê.

Nunca fui um entusiasta dos rebels without a cause, excepto na sua componente lúdica. Uma revolução não acontece só porque sim, tal como uma manifestação não faz sentido quando se aliam a futilidade de um objectivo imbecil e despropositado, típico de quem não percebe pevas do que se passa à sua volta porque nunca esteve lá para ver, e a motivação dispersa por queixas que não passam da denúncia de problemas que todos conhecemos mas sem qualquer bitaite acerca de hipotéticas soluções.

O Sporting está mal e perde demasiados jogos? Expulsem todos os jogadores. Já agora, como a nossa Liga é muito inferior à espanhola e à inglesa acabem com o futebol no país.

O Ensino não corresponde às expectativas? É correr com o Corpo Docente no seu todo.

O país está em crise? É correr com toda a classe política.

E depois logo se vê.

Claro que o entusiasmo vai crescendo, há a popularidade da gaja parva que ela é, as mais de 20 mil clicadelas numa página revolucionária do Facebook e agora até já ganharam o festival da canção.

Os sinais multiplicam-se perante o olhar deslumbrado das gaiatas e dos gaiatos que depois de uma vida burguesa e sem dificuldades parecidas sequer com as que mobilizaram os seus pais e avós décadas atrás descobriram a pólvora sem fumo da contestação popular, da tenda armada na praça, do insulto impune ao agente de autoridade porque viva a liberdade e o people tá todo na rua a gritar.

Mas afinal vão gritar o quê, estes fedelhos que nunca mostraram interesse sequer em conhecer o funcionamento das instituições que querem agora, na prática, confiadas ao vazio?

Claro que muitos já sentem na pele as consequências do mau bocado que estamos a passar e juntarão a sua voz aos paladinos da moda contra o monstro de contornos difusos que é a classe política no seu todo, livres do jugo de partidos e outras organizações expiatórias de uma culpa que não assumem na sua birra mediática, tal como ninguém os ouve falar acerca de tomarem o seu posto nos bastiões tomados pela força do berreiro inconsequente na sua utopia abastada de meninas e de meninos que concordam na ideia de que estudar não serve para nada e por isso é certo e sabido que vão todos aprender os ofícios que dão futuro à pessoa, uma geração inteira a trabalhar no duro, pasteleiros, carpinteiros, serventes da construção civil e sem um canudo que só serve para atrapalhar.

Sentem-se poderosos, como os bandos de chimpazés, assim todos unidos num grupo grande quanto baste para impressionar os mais cépticos e para os contagiar com o impacto de uma imensa mole de carolas nos ecrãs de televisão. E nos monitores dos seus portáteis, as armas que esgrimem com a mestria de quem acha que sabe tudo e se habituou a vergar com chantagem emocional os adultos pelo ponto fraco do remorso pela sua falta de disponibilidade para os criar.

Cresceram na convicção de que berrar, como faziam em pequenos (ainda mais pequenos), sempre acaba por resultar numa vitória qualquer, tanto lhes dá.

Razões de queixa legítimas existem e talvez um dia até justifiquem que o poder caia na rua quando de entre os que gritam sobressaiam os líderes do futuro, inteligentes, consequentes, animados por uma convicção e dotados de um projecto alternativo que sirva melhor o país como o anseiam.

Mas do que já sei desta agitação das águas, aposto que a montanha não irá parir nem um rato de pedra.

Irá apenas abortar os delírios patetas de uma ínfima parte de uma geração que, como qualquer outra, engloba no seu seio um pequeno séquito de jovens calhaus.

Prostituição: carta aberta. Pelos e-mails que me enviam a pedir conselho. Pela responsabilidade de desmanchar ilusões.

Riscos? Todos. Tudo em nós fica em risco. A vida. A saúde física. O equilíbrio mental. Tudo. Uma pequena parte do que nos acontece depende da cautela; a grande parte depende da sorte. E não se pode confiar na sorte. E não se pode confiar em quase ninguém. Porque as pessoas que tiveram poucas ou nenhumas oportunidades na vida costumam ficar com as garras mais saídas. E as garras estão preparadas para arranhar. E muitas já só sabem sobreviver a arranhões. E muitas arranham-te porque acham que és uma ameaça ou porque isso lhes traz ganhos e outras arranham-te só porque sim. E vais estar num sitio onde ninguém sabe o nome de ninguém, ninguém sabe a morada de ninguém, ninguém sabe quem é quem. E podes bater na porta errada ou na porta muito errada. E podes abrir a porta à pessoa errada ou à pessoa muito errada. Num dia podes ter uma arma na cabeça, noutro podes ter uma faca no pescoço ou até uma doença grave. Ou podes simplesmente sentir-te mal, apenas porque viver assim te faz sentir mal ou porque alguém te fez sentires-te mal. A dignidade pode transformar-se em areia que escorrega entre dedos e os sonhos podem começar a cheirar a naftalina.

Dificuldades? Todas. Tudo é difícil. Começar. Sair daqui.Ter clientes. Não ter clientes. Perceber que a realidade luxuosa que se imagina não existe para a maioria ou que não se chega lá pelo menos sem começar mais baixo. E mais baixo pode ser ganhar trinta ou quarenta euros (ou menos) por cada pessoa que nos despe. E perceber que mesmo que se aceite isso, pode ganhar-se pouco, muito pouco. Sim, eu sei que ali digo que são duzentos ou duzentos e cinquenta euros. E é a responsabilidade de dizer isso que me faz confessar que já foram 25 euros. E que não consegui melhorar as condições por ser muito bonita - não sou - ou por ser muito inteligente. Sorte, foi pura sorte. E a sorte maior que tenho, depois de tudo, é a de estar viva - por sorte, sim.

Dicas? Tem mesmo que ser? Tens mesmo que...? Tentaste os caminhos todos? É que se vais arriscar vida, saúde física e mental, um dia podes ter que explicar a ti mesma(o) porque te fizeste tanto mal. E como vou eu dar dicas a quem pretende iniciar-se, se eu mesma não vejo a hora de sair e só agora tive um vislumbre da porta de saída? Ninguém nos força, ninguém nos obriga, ninguém nos retém aqui mas parecemos presas em teias e ficamos, quase sempre, muito mais tempo do que prevíamos. Acreditem. Ao entrar corre-se sempre o risco de ficar aqui como se fosse a única vida que se conheceu até agora; há quem fique até depois da fase em que se torna ridículo pela idade. Cuidado com o mundo, cuidado com as ilusões, ambição não é ganância, cuidado com a falta de segurança, arriscar o mínimo e rejeitar tudo o que não permitir manter a dignidade.

Não gosto de escrever acerca da minha actividade como prostituta, nem mesmo acerca da prostituição no geral. É a responsabilidade que sinto que me faz fazer isto. Porque recebo vários e-mails de homens e mulheres a pedir conselho. Porque os valores que pratico e o que escrevo podem dar a ideia de luxo e facilidade. Porque não é assim. Porque foi ainda mais difícil, tremendamente mais difícil do que agora é. Penso que cada resposta que dou a cada pergunta pode influenciar uma vida. Penso que o que escrevo por aqui e a forma como consigo fazer as coisas agora podem influenciar decisões. Penso que não tenho a culpa... mas terei culpa se não perceber que, ao virar costas à responsabilidade e ao manter o silêncio, posso mesmo vir a ter. De mim, o que vão ouvir, é a parte deste mundo que é feia, porca e má. E ainda vos asseguro que, depois disso, o que resta por contar é - existe - , mas é muito pouco.

Crise Financeira; Crise Humana ou Apenas Crise

(Dissertação Poetizada)

Singular o cansaço quando associado ao rejubilo das nossas pontuais vitórias.
A vida coloca-nos de feição ao caminho das metas, ajuda-nos a lá chegar para... para depois retirar-nos a capacidade de solenizar e congratular.
Observamos... à procura dos comuns intervenientes dessas lides, aqueles que nos acompanham nesses pequenos nadas que temos energicamente a veleidade de transformarmos em tudo, e... não está lá ninguém.
Não reparamos que dia após dia um ou outro foi desaparecendo, para nos depararmos com a triste e funesta realidade de passarmos a ser eremitas naquele lugar.
Nesse espaço, quando isolados, sentimo-lo ermo e frio, sem Luz, cor ou abraço.
Poucos serão os que desejam estar sós em lugares desses que quando preenchidos de calor humano se transmuta em Nirvana de vida.
E o ajustado desenlace... não será certamente regressar, mas ajudar todos os que devemos, podemos ou queremos a trepar os degraus, levantar dos tombos, transpor os obstáculos e agarrar-lhes nas mãos e puxar; puxá-los para nós, onde só acompanhados podemos (vir a) ser verdadeiramente felizes.

março 08, 2011

No Dia Internacional da Mulher, aos homens (e às mulheres também)

Tenho mil e um desejos irrealistas e um deles é acabar com o Dia Internacional da Mulher, quando for um perfeito disparate a necessidade de defender um dos géneros.
Até lá, ainda que somente uma vez por ano, digam-nos que somos o máximo e ofereçam-nos rosas e levem-nos a jantar e admitam que os nossos defeitos são qualidades e que nenhum homem aguentaria o que as mulheres aguentam e tudo o que de bom se lembrarem.
Nos outros 364 dias, porém, não se esqueçam de que o mundo não é só o vosso país, nem a vossa casa, nem a vossa empresa onde, aparentemente, tudo vai bem. Mesmo porque, se conseguirem ver para lá do que é aparente, dificilmente irá.













Recadinho final às mulheres: se são daquelas que se dizem "femininas, não feministas", tenham a decência de calar a bocarra e de pensar que há mulheres que não se podem dizer o que quer que seja.

José Soeiro, do Bloco de Esquerda, critica os falsos recibos verdes, inclusive no próprio aparelho estatal, e a precariedade

a luta é uma alegria

O autor desta crónica aqui declara solenemente que está de corpo e alma com os Homens da Luta nesta sua aventura pela Eurovisão.

Contra os fariseus da «opinião pública», arvorados em mentores do pensamento de um povo, dos defensores mais ou menos assumidos do politicamente correcto, e muito a favor da paródia de ir à casa da senhora Merkel gritar, ao som de bombos, que «A Luta É Uma Alegria», estou com o Jel, o Falâncio e os amigos.

Pasmo de ler opiniões de melindrados e de malandrins de vários quadrantes invocando que, assim, se dá uma má imagem da «grande qualidade da música portuguesa». A hipocrisia aliada à estupidez, assanhada pela demagogia, atinge, na verdade, píncaros inexcedíveis! É, então, aquele o fórum preferencial para a música ligeira de qualidade? Muito me espanta...

E, pior, faz-me lembrar comentários que ouvi quando o Fernando Tordo levou a Tourada, do Ary dos Santos, ao mesmíssimo  festival da Eurovisão. Sem fazer comparações espúrias, faço, no entanto, aquelas que me parecem óbvias. 

E, hoje, a Tourada é um ícone. E não tanto pela qualidade literária do poema ou do brilhantismo da melodia, mas muito mais pela ousadia de, ali e então, se ter tido a coragem de chamar os bois pelos nomes, com a agilidade bastante para tourear a Censura, mesmo num espectaculozinho para a burguesia acomodada como é essa coisa do Festival da Eurovisão - comercialão então, como agora. 

Mais: face à piroseira generalizada das musiquinhas que, com ligeiríssimas excepções, ontem por ali passaram, só há mesmo uma atitude a tomar: viva os Homens da Luta!

(Sim, sim, arvorado em burguês acomodado, eu assisti, este ano, ao festival na versão doméstica... Portanto, sempre falo do que ouvi.)       

- Por razões pessoais de oportunidade, esta crónica é publicada excepcionalmente, em simultâneo nos blogs PersuAcção e Sete Mares.

março 07, 2011

"Dona Cila" - Maria Gadú

Se há coisa que me comove é o amor.
(Tanto que já devo ter usado a frase anterior em vários posts)
Todos os tipos de amor, sim, mas sobretudo o amor entre seres humanos, porque o ser humano não é fácil de amar.
Somos egoístas e refilões e pouco condescendentes e cheiramos pior do que qualquer animal se não tomamos banho (desafio qualquer um a ficar um mês sem um duche, como os cães, ou a lavar-se com a língua, como os gatos - a expressão "cheiro a cão" tornar-se-ia obsoleta) e somos pouco transparentes e medrosos e invejosos e tantas coisas más que já estou a ficar deprimida.
Ainda assim, há sempre quem nos ame. Mesmo como os nossos defeitos, ou apesar deles, o que é absolutamente extraordinário, se nos dedicarmos a pensar seriamente no assunto. Há quem goste de coisas em nós que nem os próprios suportamos. E há por quem estejamos dispostos a dar a vida, se pudermos.
E isso é grandioso e, quanto a mim, muito maior do que a racionalidade que nos fartamos de apregoar (tantas vezes na sua ausência).

É esta infinita capacidade de amar (o trabalho, os bichos, um hobby mas, acima de tudo, os outros, sejam eles familiares, amigos ou amantes) que faz de nós humanos.
O amor é, por isso, algo de delicioso.
Como é deliciosa a canção de Maria Gadú que descobri este fim de semana. Sobre o amor. Um amor maior do que a vida, porque acompanha a morte.
Vale a pena ouvir a letra e assistir, com olhos de ver, ao teledisco (sim, sim, eu ainda digo "teledisco").
Ao pé de amores assim, tudo o resto nos parece comezinho. E menor.

março 03, 2011

estaremos, agora e também, a criar a «geração na merda»?

Na Escola Secundária (pública) de Linda-a-Velha, às portas de Lisboa -  escola com mais de mil alunos, portanto não estando ainda para fechar nos próximos dois ou três meses, consoante as práticas ministeriais socretinas -, por ausência absoluta de pessoal dito auxiliar ou de apoio ou de qualquer outra coisa, compete aos professores e aos alunos (!!!...???) a limpeza das casas de banho, vulgo sanitários, bem como das salas de aula.


Fica, assim, dado um importante passo no sentido, que se adivinha desidério superior desta maralha mandante, de transformar o ensino público, em Portugal, numa actividade de merda – e, aqui, perdoem-me,  mas se não utilizo o vernáculo, ainda me dá uma coisinha má...!

Na verdade e se é verdade o que foi dito na notícia, segundo a qual, desde 2008, esta escola perdeu 12 funcionários a quem competiam as nobres funções de manter a escola limpa e segura, estamos perante um extraordinário problema quase quântico, a saber:

- Como se arroga o ministério da Educação o direito a tratar assim os impostos de nós todos, mormente os dos pais e encarregados de educação daqueles jovens?

- Como pagará ao pessoal docente tão desenrascada tarefa? E como a enquadrará? Deverá ser considerada tempo lectivo, se executada em comum com os alunos, ou, tal como as substituições de má fama, tempo não lectivo, eventualmente desempenhado em horário pós-laboral, não remunerado, como as reuniões?

- Como se olharão ao espelho os progenitores excelentíssimos ao confraternizarem com esta actividade lúdica (?), cívica (?), cultural (?), que não sei que tipo de créditos irá conferir internacionalmente aos seus gentis descendentes? - Parece-me que já estou a ver: certificado de habilitações de 12º ano, com pós-graduação em serviços de limpeza…

- Como nos olhamos, afinal, todos nós, no mesmo espelho, ao compactuarmos com esta indecência generalizada que assola o ensino público? Que cara de palhaço é que veremos?

Assim, sim, mobilidade, polivalência e precariedade elevadas ao seu expoente máximo, com os patrocínios de Ajax Limpa-Vidros e WC-Pato. Mas a malta não terá vergonha, pelo menos?

Afinal, diz-me lá tu, para além de onde estavas no 25 de Abril, se tencionas continuar a votar nesta apagada e vil tristeza, nesta gentinha sem terra que chame sua, nesta seita de apátridas e vendilhões, que desbaratam o futuro, atascando o presente nesta… merda?

E informam os bonzos do ministério que lá para a Páscoa recorrerão a um outsourcing, com quatro adventícios, para suprir a falta da tal dúzia acima referida.

Valha-nos um burro aos coices! Esta seita maléfica está a conseguir do povão dos futebóis e dos caracóis o que nem o Mao terá conseguido durante a Revolução Cultural na China: professores e alunos para limparem retretes. Não porque tal fosse contrário ao espírito revolucionário de então, mas porque na escola é suposto aproveitar-se o tempo para uns ensinarem e outros aprenderem… outras coisas, sei lá, como ler, escrever e contar. Isso, sim, é que é revolucionário como o caraças!

A não ser que a Escola Secundária (pública) de Linda-a-Velha seja um pólo de formação profissional especializado e especialmente vocacionado para a formação de limpadores de casas de banho e outros equipamentos sanitários… e, nesse caso, retiro tudo o que disse, com as minhas desconsoladas desculpas.

Nota depois da nota: e quem dirige aquela escola fica-se, mudo e quedo? Denunciou a situação a quem de direito ou não? E, se sim, sem resultados práticos como parece evidente, não coloca o lugar à disposição, pelo menos? É tanto assim o temor que devem aos mandantes? Ou consideram-se (in)justamente remunerados? Estarão ainda vivos e a mexer? O que é que se passa por lá? Alguém sabe?               

As relações dos outros

Nunca percebi muito bem por que é que um casal não resolve as coisas entre si, antes de as vir badalar aos amigos. É sempre injusto para o membro da parelha que está a ser motivo de conversa e, quanto a mim, é confrangedor para os amigos. Pelo menos, para aqueles que o são de ambos e têm a amizade acima da cusquice.
Há cerca de um mês (demasiado tempo, eu sei), fui confessora de algo que não me apetecia ouvir.
Soube que uma relação acabara, para um dos lados de um casal, e que só se mantinha, no dizer de quem comigo falava, por uma questão de altruísmo, "porque não é justo acabar com uma relação só porque uma das partes não se sente bem".
Vou exceptuar-me a comentar esta última ideia pelo respeito que a pessoa, por outros motivos, me merece e passar ao que de facto me interessa: possuidora daquela informação, e sendo amiga da metade que (como o corno) seria a última a saber que já não era gostada, que fazer?
Nada, dir-me-ia a maioria. O melhor, nestas coisas, é não fazer nada. Não te metas. Eles são adultos, que se resolvam. Não és advogada de ninguém: se fores falar com o que permanece na ignorância, o outro até tem a vida facilitada, não teve de ser ele a lançar a bomba.
Aproveitei-me do facto de ter ido para a neve para "esquecer" o assunto; de resto, podia ser que o autor do desabafo fizesse o que me permiti sugerir-lhe: que conversasse com a outra pessoa, que lhe falasse do amor acabado (de que eu já sabia há muito tempo, mas de que só agora ouvira falar), que fosse honesto, era o mínimo que (se) esperava dele.
No entanto, um dia antes da partida, jantámos juntos e o que sentiu necessidade de "partilhar comigo" (não me lixem, não foi partilha!) estava como se nada fosse. (Que direito tivera de me tirar o sono para agora fazer de conta que nada acontecera?!)

Mas hoje falei com a outra metade. Quis saber como estava. E não estava bem, por motivos vários, todos relacionados com a parelha. Que lhe tinha feito X, Y e Z. Pedi-lhe desculpa pelo que lhe ia dizer e por não lho ter dito antes e contei-lhe. Porque gostaria que fizessem o mesmo comigo e, sobretudo, porque acho que é o que deveria ter feito desde logo. Mas pelo menos houve menos drama, menos indignação (da minha parte).
Sei que, se alguém vai ficar mal no meio disto tudo, para além da metade que está a tentar perceber qual era a matrícula do camião que lhe passou por cima, sou eu. É dos livros. Um dia, reconciliam-se, passam uma borracha no assunto e, porque eu lhes faço lembrar a merda que fizeram, em mim também.
Mas, at the end of the day, se o fizerem, que tipo de amigos são?!
(Tento convencer-me e não estou convencida.)

A minha verdadeira natureza é esta e ser assim dá-me cabo da mioleira.

fevereiro 28, 2011

ó ai ó Deolinda...

Olhai, senhores, como é diferente a bruteza em Portugal. E, também, como tanta bacorada proferida sobre o recente tema dos Deolinda, me deixa uma indizível sensação de vergonha, enquanto representante dos pais que têm toda a responsabilidade em quantas gerações rasca, ou à rasca ou nem-nem vêm produzindo nos últimos quatro decénios…

Desde fazer comparações espúrias com o José Afonso – o que é tão estúpido, anacrónico e insultuoso para o próprio como para os Deolinda, pois, como devia ser sabido, cada roca com seu fuso e cada tempo com seu uso… – até aproveitar para menosprezar ou mesmo denegrir a imagem do grupo musical, numa prática muito própria dos portugas retardados ou diminuídos mentais por razões não fisiológicas,  mas bem instalados nas tetas da porca estatal, tudo tem valido para esses mais desvairados gurus da nossa praça lavrarem as sentenças mais disparatadas a propósito… de tal despropósito.

Ouvidos, lidos ou vistos, curiosamente nenhum ou poucos, muito poucos tiveram o discernimento ou o golpe de asa de apurar, tão-somente, que o único paralelismo legítimo a considerar nestas considerações é a capacidade mobilizadora que uma canção pode ter, de súbito arvorada em bandeira de um qualquer movimento social de descontentamento que não encontra, à mão de semear, outro modo expedito de se manifestar.

Sendo que esse poder mobilizador surge quando os «mercadores» ou «mercadófilos» – entenda-se, os defensores intransigentes dos mercados – cuidavam de que a malta já estava sem capacidade de reacção, através das suas anestesiantes argumentações do fim do mundo, a muito breve trecho.

E tudo porque eles não sabem que o sonho comanda a vida, como ensinava Gedeão a quem o sabia ouvir, e que a palavra cantada é, porventura, a manifestação acordada e consciente mais próxima desse estado de sonho.

Na verdade, se olharmos, por exemplo, para uma canção como E depois do Adeus, de José Nisa (letra) e José Calvário (música), interpretada por Paulo de Carvalho, a qual, nas próprias palavras do autor da letra, foi escolhida pelos militares de Abril exactamente pela sua letra inócua, de tal modo que iludisse suspeitas da censura pidesca e da PIDE censória, e que veio a transformar-se num hino à Liberdade e, muito mais ainda do que isso, à luta pela Liberdade… enfim, tal facto deveria levar-nos a outros discernimentos.

Mas a seita das invejas e das mordomias instaladas, os bonzos do medo, da intriga e da mediocridade, tremem tanto quando alguma manifestação de massas lhes foge ao controlo e às suas «científicas previsões», que o único argumento que encontraram nas t(r)ementes cabecinhas apreensivas, foi… desmerecer os Deolinda, como se a banda tivesse tido alguma coisa a ver com aquela manifestação espontânea do público, que tanto os perturbou.

Ou como se a sua qualidade musical – positiva ou negativa, nem vem ao caso ­– é que estivesse na origem da reacção do público.

É tanto mais curioso este fenómeno quanto é interessante verificar que alguns «esquerdófilos» da nossa praça da alegria de imediato afinaram pelo mesmo diapasão…

Ai – ai os ais deste país… –, estas coisas das movimentações espontâneas do povo causam sempre muita angústia e intranquilidade a quem, nem que seja muito no recôndito do seu travesseiro, sabe e confessa que o fosso cultural entre si próprio e o tal povo, a que um dia pertenceu mas agora nem por isso, se alargou, alargou, alargou… até lhes parecer um mar intransponível onde correm o risco de naufrágio e de afogamento se alguma onda neles embater e os arrastar.

E lá tiveram de encontrar o bode expiatório nos Deolinda, tal como foi o Zeca o bode expiatório preferencial da inversão de valores do regime salazarento em que, de tanto ser o cantor perseguido, ficavam os patetas sem saber se era ele, Zeca, a causa ou o efeito dos males sociais que a (quase) todos afligiam.

Creio bem que, se ainda houvesse a Sagrada Inquisição – que ele há outras… – os bons dos Deolinda estariam a um passo do patíbulo e das chamas… Assim, apenas correm o risco de levarem com algum opinativo enxovalhado.  

De resto, todo o incipiente político sabe ou devia saber que nenhuma canção pode mudar o mundo. Mas o que muitos sabidões da política sabem bem é que essa mesma canção pode ajudar muito, em determinado momento do processo histórico, lá isso pode. E isso, eles sabem-no bem demais.

Quando transformam em carne picada laboral gerações sucessivas de jovens, sem eira nem beira em termos de segurança no trabalho, pela violação reles da legislação existente, sob o olhar cúmplice e complacente dos governantes do «centrão», e alimentando assim um cancro social que, inevitavelmente, explodirá nas mãos de todos nós, eles sabem bem demais que se trata de uma questão de tempo e de chicote. Mas um escoa-se e o outro desgasta-se.

fevereiro 26, 2011

O elogio do pijama

Se pudesse, dava aulas de pijama. E ia às compras de pijama. E ao ginásio (perdão, health club) e a entrevistas e a reuniões e a festas e a jantares de amigos.
Pretendo fazer o culto do pijama, essa farpela que todos usam e que ninguém valoriza o suficiente.
Escolher um pijama é um ritual tão solene como comprar uns sapatos. Deve ser simultaneamente confortável e elegante. Nao pode ser um pijama qualquer, tem que ser algo com que não me envergonhe de abrir a porta da rua, se tocarem à campainha fora de horas. Tem que ser algo com que goste de me ver ao espelho. E fora dele.
O pijama tem sido desconsiderado pela sociedade. Qualquer farrapinho velho o substitui. Afinal, pensa-se, é para dormir, e a dormir ninguém nos vê (falo para os solteiros, convictos ou pela-força-das-circunstâncias, e para os casados-que-acham-que-já-não-têm-de-fazer-esforços-porque-a-parelha-também-os-não-faz, reduzindo a dita parelha a "ninguém").
Eu faço o elogio do pijama. De algodão, com bonecos, de flanela, de xadrez, polar, monocolor ou policromático, de seda na versão negligé, de alças, manga comprida ou manga 3/4, o pijama reflecte as tendências e ajusta-se-lhes.
Gosto de pijamas. Nao há nada que me lembre que reúna melhor conceitos tao díspares como paz, fim de semana, descanso, filmes, chocolate, bicharada, quente.

fevereiro 22, 2011

Há tantos anos a jogar ao rapa, chegou a vez do dominó

O que fará mover aquele mar de gente que perturba a tão aparente quanto frágil quietude dos países do norte de África? O que leva a que tantos homens e mulheres, avós, pais e filhos, desçam à rua com gritos e pedras de revolta que tanto afligem a nossa pantanosa pacatez?

E afligem porquê? Porque não temos o expediente fácil e costumeiro da cegueira do conflito religioso ou, até, da alienada paixão clubística, na origem de tão imensas multidões? Porque a evidência de se estar disposto a dar o corpo às balas pela causa da justiça social está tão afastada assim das penosas consciências europeias ou «ocidentais»?

A verdade é que, talvez ainda algo afastados das realidades quotidianas que originam tais revoltas, nós, portugueses, aqui bem perto, temos vindo a ser conduzidos para esse redil de iniquidades sociais, através de diversos processos de anestesia, quase sem um estremecimento, quase sem um pestanejar.

Mas as realidades estão aí. Intempestiva e inesperadamente, uma perda de emprego. De súbito, o dinheiro que não chega para uma prestação. De repente, o frigorífico vazio, perante um olhar já reticente de fome. O cortar numa ida ao teatro. O desespero do enésimo emprego precário. A angústia de falta de apoios sociais. A vergonha de pedir.

Depois, como sempre, a malta vai-se ajeitando. Ou tentando… Descobrindo ou inventando alternativas, onde a legalidade, entendida como promotora da equidade e alicerce nacional, pode ser o último factor a considerar porque o ser solidário se vai esvaziando de sentido.

A amargura desesperada da solidão, quando já não existem mais cordas para esticar… A tensão de quem já nada tem a perder.

E, muito pelo contrário, o voltar a descobrir o quanto a união faz a força. O sair para a rua, num outro Abril, de braço dado com um irmão no infortúnio ou na injustiça, um breve e fraco regato, que engrossa em furiosa corrente sem dar tempo a resguardos de última hora. E, por fim, um mar de gente que nada nem ninguém segura.

«Do rio que tudo arrasta se diz violento. Ninguém diz violentas as margens que o oprimem», como já nos referenciava Brecht.

Aquele que, amanhã, se mostrar surpreso perante o desvario da populaça ou é imbecil… ou é imbecil. E África, nos tempos que vão correndo, está à distância de coisa nenhuma.

E, enquanto os bonzos continuam a jogar ao rapa, há-de chegar o momento em que a tal corrente imparável da queda das peças do dominó, que ninguém soube apurar quando se iniciou, os atinja, com apelo e com agravo, e aí – talvez para bem da imensa maioria – será tarde demais para apurarem que no jogo que jogavam, para além do rapa e do tira, também tinham, por opções, o põe e o deixa.

«Morte e ressurreição de Keynes»

Uma aula enviada pelo Zé Luís com a seguinte anotação:
"Meus caros amigos, não dêem por mal empregue esta excelente aula de macro-economia sobre a Teoria de Keynes. Vai-nos ajudar a compreender melhor «o buraco» onde fomos metidos! E agora, para sair daqui?"

fevereiro 21, 2011

Não me chocam, à partida, os direitos adquiridos...




... mesmo assumindo que são sempre discutíveis, em maior ou menor grau.
Mas revoltam-me os luxos, mordomias, alcavalas,... adquiridos!

fevereiro 18, 2011

«Planeta Humano» - documentário da BBC

3 minutos e 33 segundos de espanto com a raça humana!
Recomendo que vejam este video em ecrã inteiro, neste link.