
Foi um sonho e agora é um livro. Já está disponível a encomenda online no site da editora Apenas: Brinquedo de Estranhos, Marioneta de Sonhos. :)))


A esta hora está a sair da rua a manif da geração à rasca e até parece compostinha nos écrãs da televisão.
Contudo, tenho estado atento às entrevistas de rua (as que verdadeiramente definem o calibre de um movimento desta natureza) e fico cada vez mais boquiaberto perante a ausência de credibilidade tanto da causa como, e acima de tudo, da juventude que hoje a protagoniza.
A verdade é esta: a maioria das pessoas na rua não sabem ao que vão. E as que sabem só têm um objectivo e verbalizam-no: fazer cair este Governo, como se estivéssemos a falar do Sporting e estivesse em causa mudar de treinador.
O problema é que não faltam treinadores melhores do que aquele que o Sporting deixou sair, mas as alternativas de poder escasseiam e nenhuma das pessoas presentes na manif faz a mínima ideia ou tem a menor intenção de apresentar a sua.
Cada vez mais é nítido que a malta à rasca quer apenas o sangue de um bode expiatório, procuram a vitória possível de criarem as condições ideais para derrubarem um Executivo cheias de esperança no senhor que se seguir. Mas sem o nomearem, sem soluções para os problemas que os movem e que, quem tem visto o que eu vejo não pode negar, acabam por nem estar directamente ligados ao que serve de mote para esta contestação popular porque sim.
É mesmo, como alguém já referiu, a geração tiririca (tirem os que lá estão porque pior do que está não fica) e utilizam a sua capacidade de mobilização virtual e mediática para algo que feito assim, sem norte, não passa aos meus olhos de uma fantochada.
Das pessoas entrevistadas quase metade dificilmente se podem apelidar de jovens e apresentaram justificações quase sempre ligadas à mobilização de ordem familiar ou se tratava de pequenos grupos representativos de classes que ali se juntaram por oportunismo descarado, para aproveitarem os holofotes dos media e dizerem de suas razões.
Uma manif assim só pode ser um sucesso, chamando por uns (os jovens) mas reunindo outros que se aproveitam do pretexto para darem mais um empurrãozinho na ansiada queda do Governo que, como já se percebeu, dará lugar a um outro capaz de dar a volta a isto numa pressa do camandro.
Eu nem percebo porque insiste o actual Governo em manter-se em funções. Se for verdade que têm garantidos tachos magníficos cá fora não sei o que estão a fazer lá dentro. E se o povo (venham eleições e logo se tiram as conclusões) diz que os que lá estão são maus é porque acredita que os próximos farão melhor e eu sinceramente gostava de ver isso, mas por outro lado tenho que privilegiar os interesses do país e desses não faz parte substituir um Governo baseado num partido que, mal ou bem, está unido em torno de um líder por um outro Governo formado pelo partido alternativo cujo presente (mas sobretudo o passado) esclarecem acerca da forma como se entendem entre si.
Num clima de crise financeira e com vários abutres externos com o cerco montado à espera do safanão que constitui o seu sinal de entrada no castelo, não consigo entender a lógica da malta supostamente tão à rasca que lhes quer abrir os portões com esta sua intervenção queixinhas que continua a dar-me a razão que eu preferiria perder:
Não fazem a mínima ideia do que querem fazer a seguir.
E eu, como muitos outros à rasca propriamente ditos, tenho um presente concreto para gerir e não me compadeço da ameaça de um futuro feito pelos que não sabem por, nem para, onde querem ir.
300 mil manifestantes em Lisboa e 80 mil no Porto. É obra!
É claro que o meio envolvente pode determinar/condicionar a evolução de um indivíduo mas se lhes damos acesso a mais informação do que em algum momento da História da Humanidade esteve ao dispor dos plebeus isso permite aos melhores moldarem as suas convicções e, por tabela, abraçarem a democracia participativa como opção.
Deveriam até ser capazes de formarem uma alternativa séria (porra, eleitorado potencial não lhes falta), para poderem criar as condições para as tais manifes bem organizadas e com soluções e não apenas queixinhas.
E não aceito de forma alguma o paralelo com as causas pelas quais tiveram que se bater os que citas. O país é democrático e qualquer cidadão pode (deve) ser capaz de berrar com base em ideais bem concretos e não em queixinhas que se somam às dos restantes e não justificam (até pelas benesses que lhes apontas por via dos pais que criticas) especial relevância em relação à dos reformados ou mesmo à dos trabalhadores que se vêem, esses sim, à rasca para honrarem compromissos já assumidos.
E é a palavra compromisso a chave do meu raciocínio.
É baril participar numa manife, bem o sabemos. Mas a coisa nasce e morre ali se não há planos sérios para o futuro da coisa. E esses, não há volta a dar, fazem-se antes da gritaria e não depois de se ver no que dá, depois de contar espingardas.
É uma cobardia política e um comodismo intelectual, convirás.
Claro que reconheço o perigo das generalizações, mas eles mesmos ao aceitarem rótulos e ao elevarem os mesmos à condição de punch line abraçam a generalização que até lhes convém (para parecerem uma organização com um fio condutor e apelarem à força da multidão).
São a geração à rasca e qualquer de nós sabe que à rasca, insisto, estão aqueles que para além de lhes sustentarem os vícios ainda têm que honrar compromissos e, lá está, fazerem funcionar os mecanismos da democracia que entre outros privilégios que, por exemplo, os jovens líbios não possuem, lhes garante o direito à livre manifestação das suas dores.
E esse não contesto, de todo. Pelo contrário, é o meu apreço (e o meu currículo) nessa matéria que mais motiva o tom da posta que serve de base para esta prazenteira troca de impressões.
A luta popular merece o respeito de ser levada a sério, não pode ser confiada ao livre arbítrio das conjunturas e dos impulsos agregadores. Merece, por exemplo, aquilo que as revoltas no Egipto ou na Tunísia possuíam: causas sérias.
E agora vamos lá à seriedade deste pseudo-movimento deolinda:
dificuldades? recibos verdes? As gerações anteriores à deles conheceram o trabalho sem direito a férias, a necessidade de alugarem casas a meias com hóspedes para as poderem pagar e uma data de coisas que conhecerás tão bem como eu, porra...
Fizeram o quê? Um 25 de Abril, que por muitas pedras que lhe mandem aos telhados de vidro que as múltiplas seitas e associações lhe criaram nestas décadas ainda hoje lhes oferece de bandeja uma democracia que não sabem (nem querem - o discurso abstencionista e a alergia à política partidária predominam) cultivar e defender.
Preferem dar nas vistas, aproveitarem a embalagem do que vêem na tv para reclamarem uma voz que ninguém lhes nega no sistema em vigor. Têm é que vergar a mola, investirem tempo e carola para fazerem aquilo que vão para a rua exigir a terceiros.
E isso é uma seca, não prestigia a pessoa como encher a boca a dizer "eu estive lá".
Mesmo que esse "lá" não passe de uma birra, por muito que alguns deles vejam o futuro negro neste presente cinzento.
Mudem o mundo, mas com maneiras. Com inteligência, com persistência, com ideias alternativas que em não existindo fazem com que os protestos de rua apenas sirvam para apelar ao vazio.
E se para os líbios e os egípcios isso não é ir para pior, na nossa democracia ocidental antes pelo contrário.
A sério que gostava de poder levar a sério o levantamento popular (virtual, até ver) que a música dos Deolinda, a crise financeira ou a simples sede de protagonismo de uma geração maioritariamente constituída por gente mimada, arrogante e demasiado umbiguista para reunir o arcaboiço necessário a um movimento colectivo espontâneo como os que viram na televisão e pretendem reproduzir na versão limpinha de um país democrático onde não existe um mauzão para lhes soltar as feras aos calcanhares suscitou.
Mas não posso. E explico-vos porquê.
Nunca fui um entusiasta dos rebels without a cause, excepto na sua componente lúdica. Uma revolução não acontece só porque sim, tal como uma manifestação não faz sentido quando se aliam a futilidade de um objectivo imbecil e despropositado, típico de quem não percebe pevas do que se passa à sua volta porque nunca esteve lá para ver, e a motivação dispersa por queixas que não passam da denúncia de problemas que todos conhecemos mas sem qualquer bitaite acerca de hipotéticas soluções.
O Sporting está mal e perde demasiados jogos? Expulsem todos os jogadores. Já agora, como a nossa Liga é muito inferior à espanhola e à inglesa acabem com o futebol no país.
O Ensino não corresponde às expectativas? É correr com o Corpo Docente no seu todo.
O país está em crise? É correr com toda a classe política.
E depois logo se vê.
Claro que o entusiasmo vai crescendo, há a popularidade da gaja parva que ela é, as mais de 20 mil clicadelas numa página revolucionária do Facebook e agora até já ganharam o festival da canção.
Os sinais multiplicam-se perante o olhar deslumbrado das gaiatas e dos gaiatos que depois de uma vida burguesa e sem dificuldades parecidas sequer com as que mobilizaram os seus pais e avós décadas atrás descobriram a pólvora sem fumo da contestação popular, da tenda armada na praça, do insulto impune ao agente de autoridade porque viva a liberdade e o people tá todo na rua a gritar.
Mas afinal vão gritar o quê, estes fedelhos que nunca mostraram interesse sequer em conhecer o funcionamento das instituições que querem agora, na prática, confiadas ao vazio?
Claro que muitos já sentem na pele as consequências do mau bocado que estamos a passar e juntarão a sua voz aos paladinos da moda contra o monstro de contornos difusos que é a classe política no seu todo, livres do jugo de partidos e outras organizações expiatórias de uma culpa que não assumem na sua birra mediática, tal como ninguém os ouve falar acerca de tomarem o seu posto nos bastiões tomados pela força do berreiro inconsequente na sua utopia abastada de meninas e de meninos que concordam na ideia de que estudar não serve para nada e por isso é certo e sabido que vão todos aprender os ofícios que dão futuro à pessoa, uma geração inteira a trabalhar no duro, pasteleiros, carpinteiros, serventes da construção civil e sem um canudo que só serve para atrapalhar.
Sentem-se poderosos, como os bandos de chimpazés, assim todos unidos num grupo grande quanto baste para impressionar os mais cépticos e para os contagiar com o impacto de uma imensa mole de carolas nos ecrãs de televisão. E nos monitores dos seus portáteis, as armas que esgrimem com a mestria de quem acha que sabe tudo e se habituou a vergar com chantagem emocional os adultos pelo ponto fraco do remorso pela sua falta de disponibilidade para os criar.
Cresceram na convicção de que berrar, como faziam em pequenos (ainda mais pequenos), sempre acaba por resultar numa vitória qualquer, tanto lhes dá.
Razões de queixa legítimas existem e talvez um dia até justifiquem que o poder caia na rua quando de entre os que gritam sobressaiam os líderes do futuro, inteligentes, consequentes, animados por uma convicção e dotados de um projecto alternativo que sirva melhor o país como o anseiam.
Mas do que já sei desta agitação das águas, aposto que a montanha não irá parir nem um rato de pedra.
Irá apenas abortar os delírios patetas de uma ínfima parte de uma geração que, como qualquer outra, engloba no seu seio um pequeno séquito de jovens calhaus.


Recadinho final às mulheres: se são daquelas que se dizem "femininas, não feministas", tenham a decência de calar a bocarra e de pensar que há mulheres que não se podem dizer o que quer que seja.