maio 04, 2011

«3 de Maio: o nosso futuro "encaixado" no intervalo de um jogo de futebol»

Recebi hoje esta mensagem, com a simples indicação de autoria de JB. Não sei de todo quem seja. Mas de tal modo, em três pinceladas, denuncia o cerne de muitas das questões que nos afligem, que me senti obrigado a partilhar convosco o seu conteúdo, com uma altíssima chapelada ao autor. Cá vai: 

Terça-feira, 3 de Maio de 2011, Portugal:

A RTP1, empresa pública muito zeladora da sua missão de serviço público, transmitiu um jogo de futebol entre dois clubes estrangeiros no horário em que normalmente estaria a transmitir o Telejornal.


(NOTA ós-despois - Já me chegou a autoria: João Barbosa, muito curiosamente um animoso «companheiro de armas» no mundo das escrevinhações, o que mais me apraz registar.) 

O Primeiro-Ministro esperou pelo intervalo de um jogo de futebol entre dois clubes estrangeiros para fazer um comunicado ao País sobre o acordo com o FMI - comunicado em que, afinal, não ouvimos um Primeiro-Ministro mas um candidato a Primeiro-Ministro em campanha eleitoral.


A RTP1 retomou o assunto depois de ter terminado a transmissão do jogo de futebol entre dois clubes estrangeiros.


Dá que pensar...


Dá que pensar sobre o admirável serviço público da "nossa" televisão, sobre o admirável sentido de Estado do nosso Primeiro-Ministro,sobre o Admirável Mundo Velho de um político e de uma televisão ajoelhada. Golpe de marketing, manipulação, controlo das mentes, areia para os olhos dos portugueses, os mesmos de quem o senhor candidato a PM espera os votos da reeleição.


Mas também dá que pensar sobre os nossos valores como Povo. Condicionar o horário de graves assuntos, directamente relacionados com a resolução dos nossos profundos problemas, ao horário de um jogo de futebol entre dois clubes estrangeiros? Triste (ou será, antes, Admirável?) País que precisa de Ronaldo e Mourinho (que até esteve ausente) como analgésicos para as suas dores...


Como escreveu George Shaw, "A democracia é um método que assegura que não seremos governados melhor do que merecemos."  Que tenhamos isso bem presente a 5 de Junho.


JB 

maio 03, 2011

Qual liberdade, marionetas?

Livres?
Nem os animais são livres!
Só é livre quem
não tem estômago.
Enquanto o nosso corpo
gradear a vida
para a manter dentro de nós
para que o coração
continue a palpitar
para que o sangue
continue a fluir nas veias
a vida há-de vingar-se
por a fazermos prisioneira
por a usarmos para animar
a nossa pobre carne
e continuará
a fazer de nós
escravos da nossa própria fome.

Do morto-vivo ao vivo-morto ou de como este mundo está estranho…

Obama liquida sumariamente Ossama, assistindo em directo à execução, ainda que de longe. Foram precisos dez anitos para a tecnologia mais avançada do mundo localizar um perturbante homem de turbante, aliás congeminado in vitro pelas estruturas da CIA, segundo consta, para o desempenho de um papel que, alegadamente, veio a distorcer, quando um rebate anti-imperialista lhe assaltou a consciência. Mas tudo bem. Vale mais tarde do que nunca, dir-se-á…  - estou a falar, claro, dos dez anitos.

O «mundo ocidental» respira de alívio. Ou não?

Um dos mandamentos da Santa Madre Igreja, baluarte de coisas tão despiciendas como a Declaração Universal dos Direitos do Homem – não matarás! - foi lançado às urtigas, sem um piscar de olhos. Então e esta coisa é para valer, daqui para a frente? Foi instituído um novo paradigma que altera aquele postulado pelo de mata, sim, mas só se for muito útil ou mesmo necessário… Assim, sim, sem hipocrisias espúrias! Zás-trás! Chateia? Limpa-se-lhe o sarampo! Tribunais? Para quê? O gajo preocupou-se com tribunais quando atirou com os aviões contra o império ocidental?

Pelo caminho, vai-se dizendo, com descontracção notável, que se empacotou o corpo e se lançou no mar alto… para quê? Para evitar um eventual local de romagem? E tanta malvadez, tanta virulência não contaminará algum peixinho necrófago que, reproduzindo-se, venha a fazer alastrar aquele terrorismo todo pelo mundo fora? Acautelem-se os banhistas!

Mas que estupidez! Que desperdício! Qualquer romeiro que se dirigisse ao putativo túmulo seria, de imediato, engavetado, como se de ratoeira gigante se tratasse, e estava salvaguardada a tranquilidade ocidental. Alegar-se-ia que o engavetado ia em busca de inspiração para actos aleivosos, que lhe chegariam das emanações ossâmicas, do paraíso onde repousa com as suas setenta virgens, e justificada estaria a detenção.

Nem parece de americanos esta gritante falta de espírito prático…

Creio que não será preciso deixar registado que considero qualquer acto terrorista absolutamente deplorável. Mas como definir um acto como terrorista ou não quando os «guardiões do templo» bombardeiam um prédio, sacam o presuntivo criminoso e lançam o seu cadáver ao mar?

Estaremos em presença do outro mandamento do anafado e burgesso vigário de aldeia do século XIX, sobejamente zurzido por Junqueiro, quando apregoava da pequenez do seu alto púlpito: «olhai para o que eu digo, não olheis para o que eu faço»?   

Entretanto, conforme dizia hoje mesmo um comentador espertalhóide, há que localizar imediatamente o próximo inimigo principal do ocidente, pois que o terrorismo não morreu com Ossama. Inimigo que permita assestar armas nessa direcção, a bem da civilização… que sem inimigos à vista, a coisa parece não funcionar em todo o seu esplendor, digo eu…

maio 02, 2011

Um mundo mais seguro?!!?

Segundo declarações do Presidente dos EUA, Barack Obama, Osama Bin Laden foi ontem mandado desta para melhor, colocando-se um ponto final numa caça ao homem que durava já há uma década.
O que me faz mais confusão, no meio de tudo isto, é observar norte-americanos a festejar na rua, como se a morte daquele que era considerado a maior ameaça ao mundo ocidental permitisse acabar com o terrorismo que vem do oriente [porque outro(s) há].
Nisso, são apoiados pelo "nosso" Durão Barroso, o que só prova que a estupidez mascarada de ingenuidade não tem nacionalidade.

O terrorismo, senhores, está vivo e recomenda-se.
Aguardemos a onda de ódio, traduzido em actos de vingança, que aí vem.

maio 01, 2011

"Temos é que ser gente, pá!" (ou A Actualidade de Um Imortal)

"O que é preciso é criar desassossego. (...)
Quando começamos a procurar álibis para justificar o nosso conformismo, então está tudo lixado! Acima de tudo, é preciso agitar, não ficar parado, ter coragem, quer se trate de música ou de política. E nós, neste país, somos tão pouco corajosos que, qualquer dia, estamos reconduzidos à condição de 'homenzinhos' e 'mulherzinhas'. Temos é que ser gente, pá!"

José Afonso, 1985 (cit. por Viriato Teles)

abril 29, 2011

Estamos em muito mau Estado!


Eu sei, eu sei, é uma evidência. Mas que fique registado.
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O OrCa verseja a um Estado detestado:

"neste estado em mau estado
mísero estado de sítio
bateria de bom grado
mas com pau, que não de lítio...


ao estado em mau estado
talvez só recauchutá-lo
a começar pelo gado
que dele mama… e chutá-lo


chutá-lo mas com vigor
não com prosa nem com verso
mas no cu com pundonor
pròs limites do universo!"

Conversa de Café sobre a Crise III: novos paradigmas, precisa-se do Homem Novo


...Homem velho, prefere ficar sem as coisas por imposição de outros, do que prescindir delas de livre vontade, por assumir que não precisa delas para ser feliz..


...A gente não se consegue convencer dum facto incontornável ao estatuto deste "Homem Velho"-
Ilusoriamente julgamos ter chegado ao poder em rede com as novas tecnologias da informação.
Na verdade, assistimos apenas a um fenómeno de transição desse Poder.
Ele é o outro rosto da Fortuna e tal como esta, nunca desaparece: apenas muda de mãos. O meio tempo em julgamos te-lo, foi apenas o momento e meio de transporte das mãos de alguns, para as mãos de outros.
O Poder é sempre de Direita, hierárquico, castrador e coercivo.
A escala de valores do "Homem Velho" assenta de forma natural nestes particulares e não existe de facto Poder de Esquerda.
Como ultrapassar este estágio e entrar numa nova Era?
Como evitar o regresso novamente a uma época de repressão e caça às bruxas?
Estas serão as armas dos novos donos do Poder.
A rede informática global, a Internet, deverá sofrer o primeiro revés com a implementação generalizada dos conteúdos pagos, acessos limitados a perfis determinados, exclusão de tópicos e bloqueamento por sistema. A Era da comunicação em rede livre e aberta pode ter os dias contados. A concentração de Poder conduzirá de forma objectiva ao domínio de toda a informação.
Como escapar então a este sistema opressor que tem na crise económica apenas uma das frentes de actuação?
Eles são extremamente pragmáticos, frios e eficazes, jogam com os nossos medos a seu favor. Quando alguns de nós falam já em desespero que precisavam dum (atrasado mental) dum Salazar, eles, os promotores da crise, esfregam as mãos de contentes.
A única solução é o Homem Novo, outros paradigmas, outros valores, um regresso ao caminho do Humanismo esclarecido, à prossecução da Utopia. Mas isso exigirá em primeiro lugar o desapego e o despojamento, e o Homem velho, prefere ficar sem as coisas por imposição de outros, do que prescindir delas de livre vontade, por assumir que não precisa delas para ser feliz. O Homem Velho é esse ser que assume ser prisioneiro das coisas que guarda em vez de usar as coisas para se libertar da sua condição de ser escravo delas.
O Homem Velho, ama o seu carro, porque ele é Seu em primeiro lugar e só depois porque cumpre o objectivo de aliviar o binómio tempo/distância. E para mantê-lo, manter o "nível de vida" trabalha desalmadamente, produz sem sentido para ter uma "vida melhor" quando na verdade apenas vive para dar uma vida melhor aos que o exploram desumanamente.
Gente que dorme cinco horas, que passa três quatro ou mais em transportes, que come em pé, que nunca vai ao cinema, nem a um festival, que trabalha sábados e domingos, não tem uma vida melhor; apenas tem a vida suficiente para se iludir e manter viva a chama.
Então se vivemos para uma ilusão, porque não há-de a ilusão ser a nossa Utopia?...

Poderíamos começar com o "Não pagamos!"
E atrás de nós podem vir outros. A Islândia abriu o baile, Irlanda e Grécia e até Espanha podem seguir. E depois veremos o que acontece.
Veremos onde e porquê aparecem as contas do que devemos e porquê é que devemos, o que é que essas dívidas representam. Até que ponto soube bem a certas entidades que nós acumulássemos "dívida."
Quando se paga a um país para não produzir, os pagadores tem interesses em que assim seja. Uma mera aritmética simples diz que não é possível a um País que nada produz trocar eternamente esse Nada por bens. Então não nos deixam produzir e agora dizem que lhes devemos? O que queriam então? Que tivéssemos um arco-íris com uma ponta em Portugal e outra na Alemanha, e um pote cheio de ouro para lhes pagar as contas?
Eu assumo a desobediência civil global; Não pagamos. Pois se há dívidas no valor destes montantes, vamos desmontar a contabilidade global e ver quem é que está a lucrar de forma agiota com esta situação. E tenho dito! E para que conste, sou pagador com as contas (por enquanto) em dia.

abril 28, 2011

O que temos a esconder?!

"Para defender o País e a sua dignidade a negociação tem de ser discreta."
José Sócrates hoje,
a respeito das negociações em curso com
a «troika» (Comissão Europeia, BCE, FMI)

O que é que esta malta anda a beber?!

"Tendo em conta a base comparável, isto é, o mesmo universo das administrações públicas considerado para a determinação do défice de 2009, o défice de 2010 foi de 6,8% do PIB (*1), isto é, menos 2,7 pontos percentuais do que no ano anterior. Este é um indicador evidente do esforço de consolidação realizado."
«Defender Portugal - Construir o Futuro» - Programa eleitoral do PS para o período 2011-2015

Partindo de bases como esta, fazem-me lembrar aquela anedota do dono de uma vacaria que aceitou a sugestão do filho para contratarem consultores que lhes indicassem como poderiam expandir o negócio. Ao fim de muitas semanas de visitas dos consultores à vacaria, reuniões, «brainstormings» e assim, o dono da vacaria recebeu um relatório com 3.287 páginas, acompanhado da respectiva factura de prestação dos serviços, num valor com muitos zeros (*2).
O relatório começava assim:
"Partindo do pressuposto que as vacas são esféricas..."

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(*1) para quem tem andado distraído (como esta malta do PS), o valor real do défice em 2010 foi de 9,1 por cento. Os valores reais, recorde-se, foram corrigidos pelo Instituto Nacional de Estatística no passado dia 23 de Abril. Ora nesse sentido, o défice de 2010 não recuou 2,7 pontos percentuais, como refere o programa eleitoral do PS, mas antes 0,4 por cento.

(*2) se não imagina de quantos zeros se trata, distraia-se com este Concurso Público anunciado no Diário da República N.º 63, Série II de 2011-03-30 (Parte L - Contratos Públicos):

Anúncio de procedimento n.º 1462/2011
Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária
Aquisição de Serviços de Elaboração de Propostas de Decisão de Propostas de Contra-Ordenação [este título não é um mimo?]
Valor: 1200000.00 EUR [conte os zeros]

abril 27, 2011

Por debaixo dos panos

Do JN de hoje:
O sociólogo Boaventura Sousa Santos defendeu, terça-feira, que os portugueses deviam recusar-se a pagar a dívida do Estado, evocando o exemplo da Islândia (...)
"Nós não sabemos como chegámos a esta dívida porque ela foi feita nas nossas costas", argumentou o professor da Universidade de Coimbra (...)
Na sua intervenção, Boaventura Sousa Santos defendeu "uma democracia mais participativa" em que os cidadãos possam ter "mais poder de decisão", sobretudo no que diz respeito à aplicação de verbas por parte do Governo.
"O cidadão pode e deve ter uma palavra para decidir onde é que o seu dinheiro é aplicado. Se isso acontecesse não tínhamos comprado submarinos, por exemplo", sustentou.


Pois... mas o que acontece é precisamente o oposto: as medidas a tomar estão a ser discutidas «por debaixo dos panos». E vão-nos ser apresentadas como factos consumados. Aliás, Ana Gomes, que eu muito admiro, desiludiu-me quando a ouvi defender, há dias, que estes assuntos não devem ser tratados na praça pública. Deveriam ser! Com total transparência! Fartos de «iluminados» em torres de marfim estamos nós!




«Por debaixo dos panos» - Ney Matogrosso

O que a gente faz
É por debaixo dos pano
P'ra ninguém saber
Se eu ganho mais
Ou se vou perder
(...)
É debaixo dos pano
Que a gente não tem medo
Pode guardar segredo
De tudo que se vê
(...)
É debaixo dos pano
Que a gente esconde tudo
E não se fica mudo
E tudo quer fazer
É debaixo dos pano
Que a gente comete um engano
Sem ninguém saber...
É debaixo dos pano
Que a gente
Entra pelo cano
Sem ninguém ver
(...)

A posta que o passado já nos ensinou e o presente examina

Assistimos, e a coisa arrasta-se há semanas, às imagens de gente abatida a tiro por polícias, exércitos ou mesmo mercenários contratados por poderes contestados pelas respectivas populações.

É hediondo sob qualquer perspectiva e até o mais convertido a qualquer causa deveria enojar-se de qualquer participação directa ou indirecta em tal infâmia.

Quando um líder ordena o uso de força excessiva contra os seus cidadãos comete uma traição à sua Pátria, para além de incorrer precisamente naquilo que qualquer sistema democrático pretende impedir, o abuso de poder que só é possível quando um povo confia aos seus governantes o livre arbítrio na escolha de como proceder quando, por exemplo, um número significativo de pessoas se revolta e sai à rua para manifestar as suas razões.

Esse poder excessivo só se faz sentir quando não existe ou simplesmente soçobra a democracia a sério num país e de repente, como se tem visto ao longo da História da Humanidade e se vê agora em directo pelos canais de televisão ou na internet, as populações vêem virar-se contra si os meios adquiridos sob o pretexto de manter a ordem e preservar a soberania. Se para invocar este último os tiranos necessitam de uma ameaça externa, um inimigo forjado ou mesmo real, para o primeiro existe a necessidade de regras elementares de contenção e de poderes efectivos para contrariar eventuais excessos na respectiva interpretação.

Ou seja, os povos que agora morrem pela mudança foram os mesmos que se deixaram embalar no canto de sereias maquiavélicas e ignoraram a emergência da democracia como único entrave a este tipo de situações.

E é precisamente a democracia que muitos no nosso lado burguês da questão, este hemisfério norte à beira de uma convulsão por contágio facilitado pelos efeitos de uma crise financeira sem final previsto, contestam agora enquanto culpada de todos os males de que a incompetência de muitos, a ganância de uns quantos e o oportunismo de alguns saem incólumes por via do branqueamento mediático das suas (más) acções.

O passo seguinte deste meu raciocínio é simples.

A manter-se este ritmo crescente de abandono dos mecanismos da democracia ao nosso dispor, abstenção crescente e similares, descrédito permanente das classes políticas e dos próprios órgãos do poder e outras cavadelas na sepultura onde onde um dia a nossa liberdade irá jazer, o caminho ficará escancarado para os espertos, os carismáticos, os populistas, os extremistas que angariam apoio popular pelo timbre mais grosso na postura e no discurso, potenciais ditadores daqueles que o passado provou exímios na manipulação da própria democracia enquanto trampolim.

Aconteceu no passado, no nosso passado, e no de muitas outras gentes incapazes de discernirem a tempo dos custos elevados, dos riscos exagerados que corremos quando desertamos ou enfraquecemos a difícil construção de um regime decente com um sistema funcional.

Os povos que agora morrem pela mudança foram os mesmos que não levaram a sério a hipótese de um futuro com as contas trocadas, os mesmos que sempre partiram do princípio de que o bom senso ou, no mínimo, um pouco de decência por parte dos seus líderes e respectivos séquitos de acólitos bastaria para manter as coisas tranquilas e se evitar sempre o pior.

Portugal ainda é um membro de pleno direito da União Europeia, mas encontra-se refém de uma decisão a tomar por outra nação, a Finlândia, que pode, há quem o afirme, empurrar-nos para a bancarrota e para todas as consequências a nível social que isso implica. Para cenários caóticos como os vividos pelos gregos mas com a situação económica sob a alçada desta Europa egoísta e ingrata que nos pode deixar cair, coisa impensável não muito tempo atrás e aparentemente impossível de se verificar perante idêntico problema em Estados-Membro com mais relevância económica ou apenas com mercados maiores e mais apetecíveis do que o português.

Perante a simples, e espero que remota, possibilidade de nos entregarem à nossa sorte no vórtice do furacão tudo passa a ser possível no contexto de degradação da imagem dos diversos poderes em quem deveríamos confiar para combatermos o que de mau aí venha. Tudo passa a ser possível, aumentando de forma exponencial o risco de coisa séria na inversa proporção da perda efectiva de credibilidade e, por inerência, de autoridade dos escolhidos para nos conduzirem por tal breu.

Isto não é ficção, as lições da História, da nossa História, estão aí para o provar.

E olhando o exemplo dos outros, os que vivem (e morrem) agora no caos de autênticas guerras civis que a falta de uma democracia sólida declarou e analisando bem as escolhas dos países mais poderosos quanto aos palcos da sua intervenção, não vejo no horizonte, em caso de bronca da grossa, alguém interessado em nos deitar a mão.

abril 25, 2011

Mais Abril!

Mais Abril, sim, de referências. Abril desse orgulho de se tomar em nossas mãos o destino, hasteando bandeiras de Liberdade - essa mesma, a que se escreve com maiúscula, no tempo e no modo!


- ... Era a manhã imatura de neblinas de 25 de Abril de 1974. Nas mãos trementes, uma máquina fotográfica Voightlander, com filme de 36 fotografias, a preto e branco; mas no coração ganhava alento uma aventura de mil arco íris. Com 25 de Abril, sempre!     

quando Abril chega mais perto
cansa o viver de joelhos
neste tempo sempre incerto
de secar cravos vermelhos

no presente enclausurado
sem golpe de asa que o fira
vive um povo amortalhado
nos pântanos da mentira

na tristeza triste infinda
do país onde me perco
quantos se lembram ainda
da flor nascida no esterco?

a nossa raiz de esperança
que em tempos de solidão
na noite mais triste lança
a sua voz que diz NÃO!

não ao inglório viver
não ao pasmo não à fome
não a um futuro sem ser
não a um povo sem nome

triste foi Pedro soldado
sem barcos e já sem guerra
desfeito o nome bordado
mas dando o seu nome à terra

terra de uma flor ridente
das portas que Abril abriu
soldado poeta gente
flor de mãos que aí floriu

erguida por mãos libertas
noutro sonho noutro dia
tantas novas descobertas
de outra cor de outra harmonia

e lá vem sempre outro Abril
um combate outra vontade
outra cor no céu de anil
que anuncia a liberdade

por Abril por mim por ti
Abril maior mundo afora
e ser português aqui
por ser português agora!


- Fotografia e poema de Jorge Castro

abril 23, 2011

A «camisa-de-forças dourada»

Peter Singer escrevia em 2002, no seu livro «One World: The Ethics of Globalization»*:

"(...) As forças do mercado global fornecem incentivos a que cada país aceite aquilo que Thomas Friedman chamou «uma camisa-de-forças dourada»: um conjunto de políticas que implicam a libertação do sector privado da economia, a diminuição da burocracia, a manutenção de uma inflação reduzida e a eliminação de restrições ao investimento estrangeiro. Se um país se recusar a aceitar a camisa-de-forças dourada, ou tentar retirá-la, o rebanho electrónico - os cambistas, os corretores e quem toma decisões respeitantes ao investimento realizado pelas multinacionais - poderá afastar-se a galope noutra direcção, levando consigo o capital de investimento que os países desejam para para manter as respectivas economias em crescimento. (...)"

Como se vê, nada de novo por baixo do Sol.

* página 37 da edição portuguesa de 2004 da Gradiva: «Um só mundo: a ética da globalização», colecção Filosofia Aberta, com revisão científica de Desidério Murcho, co-orientador da minha tese de mestrado.

abril 22, 2011

Os objectivos finais dos promotores das Crises, ou o pecado mortal do Acreditar

...Os bens, valor real, ficarão nas mãos deles e nós com a virtualidade da dívida...

Nesta altura em que a Crise nos ameaça submergir a um ponto onde julgávamos não ser possível chegar, pois pensávamos ter descido tanto que não seria possivel descer mais e só poderíamos rapidamente subir, impõe-se que façamos algumas reflexões sobre os mecanísmos psico-sociais que estão subjacentes a este fenónemo, maduro que ele está para a "ajuda e intervenção estrangeira" às mãos "competentes" do FMI.
Como é que se chega a este patamar?
Pelo pecado mortal...

O pecado mortal é o acreditar.
E é pelo pecado que nos vencem.
Acreditamos que o dinheiro tem valor.
Acreditamos que há coisas que valem dinheiro, numa subversão torpe do seu contrário: o que vale dinheiro são as coisas, possui-las de facto é que é o valor real!
Troca-se o bem pelo seu valor virtual, e de repente ficamos com o virtual e eles com os bens.
Será?
É!
Neste contexto, eles ainda não tem os bens, mas ao agitar o valor do virtual, e a hipervaloriza-lo, todo o mundo corre atrás do dinheiro pelo valor que se lhe atribui, numa corrida de pesadelo.
Quanto mais se corre atrás dele, mais ele vale.
Mas será que vale?
Não!
Não vale nada, mas está nas mãos dos que nos fazem acreditar que sim.
Qual é o objectivo final?
Ficar-nos com tudo.
Com os nossos bens, riquezas e força de trabalho.
As soluções do FMI demonstram à saciedade:
PRIVATIZE-SE.
E assim, as coisas - bens reais - ficam nas mãos deles e nós com a virtualidade perfeita, nem dinheiro teremos, mas a perfeita virtualidade de o ficarmos a dever a quem nos levou tudo pelo pecado nosso do acreditar...


abril 21, 2011

2010

Afecto? Terceira porta à esquerda.
Sexo? Segundo andar, terceiro corredor, porta vermelha; antes de se deitar com a sua boneca respectiva, dirija-se ao balcão e indique as posições que pretende à recepcionista.
Amor? Preencha o formulário; na parte final, descreva como o pretende num mínimo de duas linhas e num máximo de seis; sente-se no sofá e aguarde a sua vez.
Paixão? Profunda? Desça à sub-cave número dois, inspire e expire profunda e rapidamente ao longo da descida.
Amizade? Suba ao telhado e aguarde a sua vez junto aos restantes ingénuos.
Poema para pôr ao peito? Fique aqui, não se mova; a Tragédia virá brevemente ajudá-lo.
Ego para remendar? É na fila que dá a volta ao quarteirão.
Beijos e abraços e outras coisas simples? Dirija-se a uma das marionetas em qualquer canto da repartição.

Pedidos especiais são sujeitos a análise prévia, utilize o e-mail que consta do formulário número quatro. Não danifique as semi-pessoas que o vão assistir. Identifique o que pretende antes de se dirigir à repartição. Não nos responsabilizamos por mentiras que conte a si próprio. Não nos responsabilizamos por mentiras que nos conte. As infracções serão severamente punidas com coimas elevadas.
Se ainda existir uma pessoa dentro de si, sugerimos que salte do telhado: sentir-se-á muito melhor junto dos outros assim que quebrar e matar a alma.

Retrato (não generalizador) de um país

Por detrás do ecrã do computador e através da janela, plantam-se três ou quatro árvores novas no jardim. Coisas compridas fininhas e leves, que uma só pessoa carrega.
Ainda assim, andam quatro homens a fazer o serviço: enquanto um cava, os outros conversam. Depois descansa o que cavou e os outros acompanham. Finalmente, alguém mete a árvore pequenina na depressão escavada e conversam mais um bocadinho, até que alguém se lembra que o buraco tem de ser fechado.
Andam quatro homens a fazer de conta que trabalham, sob uma chuva miudinha (e nem essa parece afectá-los) e isso chateia-me à brava.

O «nonsense» do regime e uma possível solução inovadora.

Se tentarmos olhar desapaixonadamente para o que se passa em Portugal, há assim como que uma imanência que ressalta, tipo aura luminescente, a rodear todo o território nacional, e que parece conferir-nos um estatuto diverso e divergente do resto do mundo.

Creio que, já em 1902, Júlio Dantas na sua Ceia dos Cardeais, referia «como é diferente o amor em Portugal». De facto, se estivesse apenas no amor essa diferença, talvez até passássemos despercebidos, aconselhando-se tão só uma acautelada e doméstica gestão dos afectos. 

Mas não. A coisa vai mais longe, em termos de originalidade. Dir-se-ia, mesmo, que se cultiva por cá o contraciclo, a excentricidade, o encanto de alguma marginalidade com o excesso apaixonado pelo trivial, que tantas vezes descamba na inveja versus o ser-capaz-de-fazer, na virulenta maledicência em vez da humilde autocrítica… enfim, em consabidas maleitas de que não há meio de nos regenerarmos ou, então, não queremos mesmo regeneração nenhuma e nestas águas é que nos sentimos a navegar de feição.

E somos, por isso mesmo, capazes de casar a maior estagnação com a realização dos mais piramidais feitos, que não lembravam a ninguém nem ao mundo todo. E lá vamos, em marcha progressiva, sendo felizes, sobreviventes, acomodados, até eventualmente, atingirmos esse estadio supremo do não-ser, que será uma mistura de Disneylândia com o País das Maravilhas da Alice, cultivado numa espécie de grande armazém de sucatas ao abandono, do qual o proprietário se tenha ausentado para parte incerta há mais de uma dúzia de anos…. 

O Presidente da República exerce o seu superior magistério junto dos cidadãos através do Facebook, ferramenta a que se alcandorou pela mão de algum parente mais novo, que lhe revelou, de súbito, um mundo novo onde os amanhãs cantam sempre que um homem quiser e sem contraditório.

O Primeiro-Ministro, um case study de mentiroso compulsivo, de estilo rasca no discurso mas de assessorias sempre à mão, impinge ao país a mais desbragada governação, em exercícios alucinados de autismo… e colhe noventa e tal por cento de votos de apoio na sua família de apaniguados, numa preocupante manifestação de «coisa nossa» mas, ainda assim, temperada a alecrim e rosmaninho, muito ibérica, muito chegadinha ao mar.

Isto, apesar de ser claro até para a UGT – indubitavelmente próxima do PS - quais os principais culpados da actual situação, e cito da sua muito recente (de 19 de Abril, p.p.) posição oficial sobre o processo negocial com a EU, BCE e FMI:

A UGT sempre defendeu que não deveríamos recorrer ao pedido de ajuda externa, face aos condicionamentos políticos, económicos e sociais a que a mesma conduz.

Os sacrifícios que foram exigidos aos portugueses nos últimos 3 anos, primeiro devido à crise financeira e consequente crise económica, e depois devido à necessidade de redução do défice orçamental, poderiam e deveriam ter evitado tal situação.

Infelizmente, erros políticos nacionais e a não resposta adequada da União Europeia à especulação financeira, que recaiu sobre alguns Países, conduziram à actual situação.  

Entretanto, o que temos? As «forças da ordem» mendigam dinheiro para fardamentos. Os juízes não têm verba para os tinteiros das impressoras. Os professores perderam a paciência, algures entre o enésimo relatório e o milionésimo primeiro grito ingloriamente soltado na expectativa de que a turma se cale para o ouvir. O funcionalismo público vai assumindo, com garbo e denodo, o seu estatuto de causador de todos os males do mundo e assume a diminuição de vencimentos como corolário «lógico» da coisa. As empresas públicas querem ser privatizadas. As empresas privadas fazem questão de assumir que o Estado interfira nelas até ao limiar conveniente das conveniências muito próprias e intransmissíveis dos seus gestores. O fisco constrange o cidadão miserável até ao seu mais miserável cêntimo e olha com bonomia para os rios de duvidosos dinheiros que lhe vão perpassando debaixo dos olhos em mais do que duvidosos negócios. Os ucranianos são muito bem vindos, como os caboverdianos já o foram, mas apenas para darem serventias, agora de preferência com formação superior, colhendo nós, os reguilas, ao desbarato, o investimento que, na Ucrânia, se terá feito na atribuição dos seus conhecimentos académicos. Sem atentarmos que os nossos jovens licenciados estão a pirar-se lá para fora… quem sabe, um destes dias para a Ucrânia. Agricultura, Pescas e Indústria foram e mantêm-se a banhos, algures, em parte mais do que incerta. Etc., etc., etc.

Enfim, este é o consagrado discurso da desgraça, de que todos estamos aparentemente fartos, mas que não muda, nem está para mudar.

Alguém próximo de mim preconizou – e eu subscrevo – que a solução do governo do país passaria pela contratação de gestores credenciados, através de anúncio no jornal. Talvez sob o olhar atento da Presidência e da Assembleia da República.

Alguém tem alguma coisa contra? Estariam salvaguardadas as instituições democráticas. Combater-se-ia, em termos de não obrigatoriedade de distribuir lugares pelos amigos, o compadrio instalado e aniquilador de qualquer desidério nacional. E talvez se combatesse com mais eficácia o sacrossanto défice. Volto a perguntar: alguém tem alguma coisa contra?

Ou, colocada a questão de outro modo: haveria alguma diferença, em termos de independência nacional, relativamente ao que ocorre actualmente sob a batuta da «troika»? Eu, daqui, não estou a ver, mas pode haver por aí quem saiba mais e melhor…

Causalidade II

Absolutamente alinhado com a ciência da Causalidade, as escolhas que fazemos ao longo de um percurso não determinam apenas os factores externos ao nosso EU interior, como quem conhecemos, quem amamos, o que fazemos ou como lá chegamos. Determinam também a nossa própria forma de estar e de viver. O nosso coração, a nossa saudade ou o nosso sorriso.
Alguém demasiado focado em determinada tarefa, princípio, ofício, não demorará muito a estar rodeado de vazio humano, sem ter alguém com quem partilhar momentos e sentimentos, e sem que com ele estes sejam partilhados. Alguém muito preocupado em ordenar, mandar, dirigir sem que com respeito tenha atingido esse estádio, estará em pouco tempo a comandar um exército de bolhas de ar sem eco. E muito provavelmente nem dará conta que isso aconteceu.
Um indivíduo que não dê pela passagem de outro na sua vida, não retirará nada que o outro queira oferecer, não dará nada em troca, não haverá proveito. Haverá solidão exponencial no percurso da sua vida.

“Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.”
Antoine de Saint-Exupéry.


abril 20, 2011

A mentira, por Ricky Gervais

Se calhar estou a ficar como aqueles professores que tanto parodiava, enquanto estudante, por citarem sempre os mesmos autores, fossem eles filósofos ou homens do direito. Tratava-se de gente que, de algum modo, admiravam, pelo que lhes aludiam muitas vezes.
Ora o mesmo se passa comigo. Mas, em vez de Hegel ou Picco de la Mirandola, passo a vida a reportar o meu discurso para Ricardo Araújo Pereira ou Ricky Gervais. Cada um é para o que nasce (e quem nasce lagartixa nunca chega a jacaré, já se sabe).
Serve o intróito para aludir a um filme que apanhei hoje, num dos Telecines, graças a um princípio de gripe (que espero que não passe disso) que me impediu de ir treinar e a um zapping muitíssimo bem sucedido e oportuno: The Invention of Lying (um viva para a tradução!), de 2009, escrito e realizado por Ricky Gervais e Matthew Robinson. Ora, se não conheço o segundo, bastou-me o nome do primeiro (e a leitura da sinopse) para ficar por ali.
Imagine-se um mundo igualzinho ao nosso mas com uma diferença substancial: a mentira é um conceito desconhecido e ninguém possui a capacidade para dizer "coisas que não são" (tradução minha). Deste modo, num banco, por exemplo, qualquer cliente levanta dinheiro sem assinar papeladas e, no caso de uma incongruência quanto a valores, entre o cliente e o sistema, a razão é sempre dada ao cliente, porque o sistema pode falhar mas o cliente não diz "coisas que não são": assim, se um cidadão se apresenta num balcão e quer levantar mil euros, ainda que o sistema dga que ele só possui duzentos na conta, é os mil que leva para casa. Porque não há mentiras.
Pense-se agora que determinado indivíduo descobre, certo dia, que possui a capacidade de dizer inverdades. Ou mentiras, diríamos nós, que estamos habituados a elas. Primeiro, para se safar de uma situação problemática, depois para fazer a mãe feliz, logo de seguida para conquistar a mulher dos seus sonhos ou para recuperar o emprego perdido e o prestígio nunca havido.

A questão, em si, é brilhante.
A questão vista por Ricky Gervais (e o outro, claro, o coisinho, o co-argumentista) é divinal.
Sem querer roubar o gozo da descoberta e da análise a quem quiser ganhar um par de horas de prazer inquieto, fica só a ideia de que a crítica à religião e ao modo como ela foi criada estão presentes, numa ode ao racionalismo e ao ateísmo, de que Gervais se mostrou já adepto.

A ver. Muito.