maio 14, 2011

As novas escolas secundárias são lindas, não são?

Pois... mas não foram feitas para o bem estar e a saúde, dos alunos, professores e funcionários.
O programa Biosfera, da RTP2, alertou para os problemas das escolas secundárias que foram remodeladas pela empresa Parque Escolar EPE:



Uma amiga minha, professora numa destas escolas "muito lindas", fez o seguinte comentário a este programa:
"Dei uma escapadela ao trabalho e vi o vídeo. Já tenho visto alguns programas «Bioesfera». Os que vi foram de qualidade, reconheci-lhes rigor e cuidado de apresentação da informação. Mas mesmo que não tivesse este registo na minha memória o simples facto de viver dentro de uma escola «parque escolar» fez-me abanar a cabeça em jeito afirmativo durante os 6.27 minutos do vídeo. Quem me visse diria «Ou tem Parkinson ou está a concordar!».
Infelizmente tenho que concordar (ressalvo as intervenções do Sr. da Parque Escolar)! Sofri horrores de frio nos laboratórios durante o inverno, com temperaturas de 7 e 8 graus medidas com sensores de laboratório altamente fiáveis e agora sofro com o calor deste Verão antecipado. Se abrimos uma janela o sistema dispara e o barulho é tal que me julgo um «pardal parvo que fez ninho no motor de um avião».
Muito teria para conversar sobre isto mas o dever burocrático-administrativo da função docente (que já teve tempos mais interessantes) chama-me. Vou fazer mais uma grelha de monitorização para que os números não faltem!
Que falte o conhecimento, o desenvolvimento de competências, o investimento na construção da cidadania e tudo o mais que gera pessoas capazes de nos garantir uma reforma condigna, mas que não nos falte a estatística!
Desculpa o desabafo e obrigada pelos registos que nos vai enviando.
(assinatura legível)"

privatizando, privatizando, privatizando...

Face à presença do FMI, a troika externa, amparada pela troika interna, é altura de relembrar os Cadernos de Lanzarote.

«Privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei, privatize-se a nuvem que passa, privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno e de olhos abertos. E finalmente, para florão e remate de tanto privatizar, privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas privadas, mediante concurso internacional. Aí se encontra a salvação do mundo... e, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos

- José Saramago - Cadernos de Lanzarote - Diário III - pag. 148

maio 12, 2011

Outros tempos?!...



"Os desassossegos de Portugal são de longo e médio prazo, e só eles nos ajudam a entender o modo como damos resposta às crises de curto prazo. Durante o século XVIII, os barcos que traziam o ouro do Brasil aportavam a Lisboa, mas seguiam muitas vezes para Inglaterra para que a nossa dívida soberana fosse paga. Quem quiser ver paralelos com o que se passa hoje basta substituir barcos por internet e Inglaterra por credores sem rosto."
Boaventura de Sousa Santos
Crónica «O desassossego da oportunidade» na revista «Visão» de 2011-05-05

maio 11, 2011

Uma árvore genealógica que todos os que nos governam deveriam conhecer

Em Betanzos, uma povoação galega, sede de concelho e situada perto d'A Corunha, onde para além de um centro histórico simpático, existe ainda um parque temático conhecido como El Pasatempo que é único no seu género.

Trata-se de um "parque enciclopédico", construído no final do século XIX/início do século XX por 2 irmãos, os García Naveira, beneméritos nascidos em Betanzos que, após fazerem fortuna no estrangeiro, regressaram à sua terra Natal onde decidiram contribuir para o bem-estar dos seus conterrâneos, construindo escolas, obras de assistência social e este parque, no qual incluíram alusões às maravilhas que encontraram nas suas viagens à volta do Mundo, isto para além de várias lições sobre os aspectos do quotidiano.

Entre as referências à pirâmide de Quéops, ao canal do Panamá ou ainda a reconstituição de uma gruta, com estalactites e estalagmites, é possível encontrar esta curiosa árvore genealógica do Capital:

Vendo associados ao Capital, termos como "constancia", "ahorro", "firmeza", "honor", "economia", "trabajo", "orden", "prevision", "entendimento", "voluntad", "caracter" e "rectitud", leva-nos a colocar a questão: Serão os nossos governantes demasiado evoluídos ou estes irmãos García Naveira é que eram mesmo do século passado?

por dar que pensar...

Mão amiga fez-me chegar a mensagem abaixo. Dá que pensar...

"Na última semana beatificámos um papa,
casámos um príncipe,
fizemos uma cruzada e matámos um mouro.
Bem-vindos à Idade Média!"

(autor desconhecido)

A misteriosa Ilha da Páscoa, Fukushima, ou a fábula da rã e o escorpião


...O que queres que eu faça? É da minha natureza...


Quando nos detemos nas misteriosas estátuas gigantes que na orla circundam a Ilha da Páscoa, a primeira impressão que nos toma é a de assombro. Constituída a sua paisagem de uma desolação que nos últimos anos tem vindo a ser muito lentamente alterada pelas politicas introduzidas, interrogamo-nos sobre a origem do povo e como foi possível terem talhado e transportado tanta quantidade de pedra em monoblocos, erguê-los, continuando sempre a construir mais e mais até uma súbita e repentina paragem. Existem, a atestar este facto, sítios onde estátuas de diversos tamanhos, algumas gigantescas, ficaram com o trabalho a meio de ser concluido e outras completas mas certamente intransportáveis.
Os estudos arqueológicos e antropológicos levados a cabo trouxeram à luz do dia parte da história daquela ilha envolta em mistério, que se descobriu ter descambado em tragédia. Descoberta e habitada por Polinésios após longa viagem – quiçá perdidos por via duma tempestade -, rapidamente as gerações sucessivas se dividiram em tribos e iniciaram a estranha e fascinante construção competitiva de estátuas protectoras. Ao que se julga saber, cada tribo empenhava-se por construir uma estátua maior que a da tribo rival, numa toada em constante crescendo. O transporte era feito recorrendo a troncos de madeira sobre os quais as imensas estátuas eram deslocadas até aos locais escolhidos. A madeira servia ainda para a construção das habitações e das canoas com que eles, sendo um povo do mar, se dedicavam à pesca. O processo de desflorestação terá levado séculos. Ao mesmo tempo que a população aumentava, os recursos da ilha iam-se reduzindo e o coberto vegetal, com toda a sua riqueza faunística, ao não serem observados os intervalos de tempo necessários à sua renovação, acabou por desaparecer. Os Rapanui, nome pelo qual os remanescentes habitantes da ilha se intitulam, acabaram por ficar privados do seu recurso mais precioso, a madeira, e sem ela nem podiam transportar as estátuas, nem construir lares e muito menos canoas, nem para pescar e muito menos para sairem na procura de outros destinos, pelo que acabaram por envolver-se em lutas fratricidas pela posse dos recursos remanescentes, tendo resvalado por fim e tragicamente para o canibalismo...

Impõe-se neste ponto da narrativa fazer uma paragem para reflexão: Não teriam os chefes, mais velhos e sábios, a determinado momento, observado que não deveriam continuar a desbastar de foram intempestiva as árvores, que mais tarde lhes fariam falta?
Penso que sim. A idade traz sabedoria e abater uma floresta para transporte de estátuas, privando uma área determinada de caça e expondo os solos à erosão numa ilha pequena onde a terra é escassa, é um dado que ressalta ao mais elementar bom senso.
Então, porque continuaram eles a construir e a transportar as estátuas até esgotarem todos os recursos da ilha em matéria de madeiras, condenando-os definitivamente a permanecer num sítio sem alternativas?
A resposta reside numa característica humana: a sua natureza.

Lembramos a este propósito a fábula da rã e do escorpião. O escorpião pretendia atravessar um rio e, para esse efeito, pediu encarecidamente a uma rã que o fizesse transportando-o às costas. A rã, sabedora do mau feitio do escorpião, consentiu na proposta mas avisando o escorpião que, se a mordesse, acabariam por morrer os dois. Iam ambos já no meio do rio, quando o escorpião de repente mordeu a rã. Incrédula e desesperada a rã gritou:
- Escorpião!... Escorpião!... O que foste fazer... Assim morreremos os dois...
- Eu sei...
- Mas então... porquê? Porque é que me mordeste?
- O que queres que eu faça? - respondeu o escorpião - é da minha natureza...

Saltando da ilha para os tempos actuais, vemos como nada mudou na natureza humana.
Os cientIstas não saberiam dos imensos riscos que as centrais nucleares comportam?
Os acidentes que tem havido não são o aviso de que “nesta ilha que é o planeta”, qualquer dia não haverá um só sítio onde se possa viver sem que esteja fatalmente contaminado? A lei de Murphy é uma curiosidade, ou um facto estatístico cientificamente comprovado?
O paradigma económico baseado na energia que deixa como herança radiações e a desolação, é afinal o quê?
Que sentido faz um futuro sem Futuro? A ilha da Páscoa não ensina nada?
Quando os mega especuladores encetaram o movimento de produtos financeiros chamados agora eufemisticamente de “tóxicos”, não saberiam de antemão de que, tal como no jogo da pirâmide, - e seguindo as curvas de Gauss -, fatalmente se atingiria o ponto crítico e consequente ruptura?
Sabiam, sabia toda a gente, mas todos os Bancos a nível mundial continuaram a investir nas estátuas das acções que destruiriam a ilha da economia.
Então, como agora, o mais importante é o Poder, nem que não sobre uma única árvore, um único peixe, um único homem: no fim é o Dinheiro que reina, não o Homem, tal como a desolação povoada de Estátuas na Ilha da Páscoa demonstra.
Tal como os Rapanui, mais importante que a sensatez é o despique, nem que seja à custa da depredação total do mais importante à sua sobrevivência. Exactamente como o escorpião disse, é da sua natureza.


Charlie

maio 09, 2011

Eles que se federem

Um dos argumentos que habitualmente me esfregam nas ventas de cada vez que arrisco assumir o meu eurocepticismo é o de que enquanto entraram os milhões que melhoraram a nossa condição de vida não refilei.

Por acaso até refilei, quando percebi que investimos os ditos em cursos de formação da treta enquanto outros apostavam na dinamização da economia onde ela mais precisava. Mas isso não evita deixar-me sempre em maus lençóis perante aqueles que acreditam numa Europa unida e até federada.

Jamé, digo eu, a essa ideia tão peregrina aos meus olhos como a de uma Ibéria que me revolve as entranhas por lhe perceber a única e mesquinha motivação económica, equivalente em muitos aspectos às que impulsionam os euroentusiastas.

No entanto, e mesmo podendo alongar esta posta até quase à fronteira com Espanha com uma argumentação mais sustentada, existem alguns fundamentos que acredito razoáveis para esta minha aversão a qualquer tipo de fusões ou de federações ou mesmo de uniões que transcendam a simples associação de interesses económicos e financeiros, com Schengen e tudo mas sem o alinhar pela mesma bitola dos outros em matérias que dizem respeito apenas à soberania nacional da qual não abdico, ainda que muitos a dêem por perdida na sequência dos nossos problemas com o pilim.

Eu não acredito no modelo europeu de tendência federalista e jamais o levarei a sério enquanto nos Estados Unidos da Europa não deixarem de existir coisas tão estapafúrdias nesse contexto federal como haver diferentes salários mínimos nos Estados-Membro. É como imaginar salários mínimos distintos na Estremadura e no Alentejo.

Também não papo o grupo de uma Europa federada com exército comum enquanto houver países como a França e o Reino Unido a intervirem na Líbia tendo a Alemanha a manifestar o seu repúdio para quem a queira ouvir.

Aliás, isso deixa-me até de pé atrás quanto ao discernimento dos nossos parceiros europeus em caso de conflito de interesses directo entre dois ou mais dos restantes países da União. Basta uma seca prolongada para a questão das fronteiras mudar de figura e percebermos o que vale de facto esta subordinação a um poder central europeu.

Claro que toda a gente adivinha o apocalipse subsequente a deixarmos de pertencer a essa árvore das patacas que afinal produz euros, mas eu sou daqueles que gostam de acreditar que é na adversidade que os portugas mostram o seu melhor e recuso-me a aceitar a noção de que somos um país de putos incapazes de se orientarem a sós e sem a mão que nos embala o berço, sem esses tutores que, de resto, nem se têm revelado tão incólumes assim aos abanões externos desta maravilha que é a economia global.

Por isto e mais uns pós não embarco no grande sonho europeu. Não o acredito viável, não o acredito indispensável e não o acredito capaz de sobreviver aos extremos da adversidade, tão evidentes os nacionalismos à flor da pele.

E por isso, mais uma questão de instinto que me diz ser mesmo uma má ideia e a hesitação finlandesa comprova, só aceitaria uma ligação europeia isenta de interferências em assuntos que, em última análise e com ou sem tratados, quando toca a doer cada país trata dos seus.

Eu sou um português em aflição e mesmo assim sinto-me capaz de tratar dos meus.

proponho que proponhas que se proponha uma proposta...

Diário da República – II Série
Quarta-Feira, 30 de Março de 2011 Número 63

PARTE L - CONTRATOS PÚBLICOS
AUTORIDADE NACIONAL DE SEGURANÇA RODOVIÁRIA
Anúncio de procedimento n.º 1462/2011
MODELO DE ANÚNCIO DO CONCURSO PÚBLICO

1 - IDENTIFICAÇÃO E CONTACTOS DA ENTIDADE ADJUDICANTE
NIF e designação da entidade adjudicante:
600082563 - Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária
Serviço/Órgão/Pessoa de contacto: ANSR - NAGO - Ana Calambra
Endereço: Av. Casal de Cabanas; Urbanização Cabanas Golf n.º 1
Código postal: 2734 507
Localidade: Barcarena
Telefone: 00351 214236921
Fax: 00351 214236902
Endereço Electrónico: amcalambra@ansr.pt

2 - OBJECTO DO CONTRATO
Designação do contrato: Aquisição de Serviços de Elaboração de Propostas de Decisão de Propostas de Contra-Ordenação
Tipo de Contrato: Aquisição de Serviços
Valor do preço base do procedimento 1200000.00 EUR
Classificação CPV (Vocabulário Comum para os Contratos Públicos)
Objecto principal
Vocabulário principal: 79100000
Valor: 1200000.00 EUR

3 - INDICAÇÕES ADICIONAIS
O concurso destina-se à celebração de um acordo quadro: Não
O concurso destina-se à instituição de um sistema de aquisição dinâmico: Não
É utilizado um leilão electrónico: Não
É adoptada uma fase de negociação: Não

Lê-se no Diário da República e, a não ser um documento forjado por almas maldosas e apostadas no desassossego nacional, está aqui uma excelente oportunidade para abichar 1200000  € (parece que não me enganei nos zeros…).

Malta, ‘bora ir?

Vejam bem: Aquisição de Serviços de Elaboração de Propostas de Decisão de Propostas de Contra-ordenação.

A ver se eu percebi: a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária quer adquirir os serviços de alguém que seja capaz de elaborar propostas de decisão – será que por lá não há ninguém com tal estupenda capacidade? – relativamente a outras propostas, só que estas últimas são de contra-ordenação. Clarinho como a água!

A partir do momento em que se consiga perceber o sentido profundo da capacidade de elaborar propostas de decisão de propostas de contra-ordenação, nada será como dantes neste país das maravilhas.

E, no fundo, talvez tudo até seja mais fácil do que parece. Ora, vejamos: alguém me pespega uma proposta de contra-ordenação à frente. Eu olho para ela com um ar inteligente e intimidatório e proponho qualquer coisa como: proponho que se decida que esta proposta de contra-ordenação deva ser liminarmente lançada ao lixo!

Ora bem, ou a lançam ao lixo ou não. Eu cá só fiz a minha proposta, em boa conformidade com a matéria a concurso e lavo daí as minhas mãos. Abro a carteira e recebo o pagamento, quer a minha proposta à proposta seja seguida, quer não, pois o trabalhinho já ninguém mo tira. Venha outra…

Escapou-me alguma coisa? Ou podemos concluir como é diferente a arte da contra-ordenação em Portugal!

Mentir ou não mentir? Eis a questão

Uma mentira é uma mentira, certo? Mas... e se isto não for assim tão simples? Este jogo interactivo faz-nos pensar sobre as respostas morais às diferentes mentiras.

Um trabalho do Professor Timothy Chappell, de The OpenLearn team (The Open University).

«Primeiro contacto técnico do FMI com um Tuga taxista»

(recebido por e-mail)

"Hotel Tivoli? Daqui, do aeroporto, é um tiro...
Então o amigo é o camone que vem mandar nisto? A gente bem precisa. Uma cambada de gatunos, sabe? E não é só estes que caíram agora. É tudo igual, querem é tacho. Tá a ver o que é? Tacho, pilim, dólares. Ainda bem que vossemecê vem cá dizer alto e pára o baile...
O nome da ponte? Vasco da Gama. A gente chega ao outro lado, vira à direita, outra ponte, e estamos no hotel. Mas, como eu 'tava a dizer, isto precisa é de um gajo com pulso. Já tivemos um FMI, sabe? Chamava-se Salazar. Nessa altura não era esta pouca-vergonha, todos a mamar. E havia respeito...
Ouvi na rádio que amanhã o amigo já está no Ministério a bombar. Se chega cedo, arrisca-se a não encontrar ninguém. É uma corja que não quer fazer nenhum. Se fosse comigo era tudo prà rua. Gente nova é qu'a gente precisa. O meu filho, por exemplo, não é por ser meu filho, mas ele andou em Relações Internacionais e eu gostava de o encaixar. A si dava-lhe um jeitaço, ele sabe inglês e tudo, passa os dias a ver filmes. A minha mais velha também precisa de emprego, tirou Psicologia, mas vou ser sincero consigo: em Junho ela tem as férias marcadas em Punta Cana, com o namorado. Se me deixar o contacto depois ela fala consigo, ai fala, fala, que sou eu que lhe pago as prestações do carro...
Bom, cá estamos. Um tirinho, como lhe disse.
O quê, factura? Oh diabo, esgotaram-se-me há bocadinho."

maio 08, 2011

Presos por ter net e presos por não ter

Sempre investi no optimismo moderado no que respeita ao efeito da circulação acelerada da informação na internet. Se, por um lado, as revoluções já iniciadas e as que não tardarão a produzir-se em nações onde tal seria impensável, com as redes sociais a assumirem um protagonismo que me favorecia a melhor expectativa, acabam por constituir uma vitória para valores que nos são gratos, liberdade e democracia, não é menos verdade que a internet pode constituir uma ameaça real para qualquer cidadão pela crescente credibilidade atribuída a tudo quanto circula sem filtro na rede que apanhará sem dúvida muito peixe graúdo pela exposição dos seus esqueletos ocultos mas da mesma forma poderá conferir golpes irreversíveis em reputações comprovadamente imaculadas.

O dilema existe e já deu origem a algumas intervenções do foro jurídico, primeiras investidas do longo braço da lei no mundo virtual onde impera, pela própria dinâmica da net, a da selva. Os mais habilidosos têm ao dispôr uma ferramenta onde estão agora a entrar, depois da fornada inicial de gente maioritariamente jovem ou com formação superior, pessoas de todas as idades e percursos, fascinadas pelo fenómeno e sem o calo que as defenda das múltiplas armadilhas tão fáceis de criar por qualquer espertalhão.

A opinião pública, cada vez mais determinante nas opções dos decisores políticos a nível mundial, está pela primeira vez na História a fazer-se fora do âmbito dos media ou da propaganda tradicionais e já existem sinais claros do quanto cresce a influência deste novo meio na evolução das ideias e na formação de opiniões.

É aqui que entramos no terreno movediço do embuste, da bombástica divulgação de factos e até de alegados documentos cuja autenticidade ninguém pode validar, coisas que acabam por se desmascarar por questões de pormenor tão infantis como os seus criadores. O problema é que os diversos poderes podem dispor dos melhores e a neblina do anonimato é fácil de arquitectar.

Ou seja, é perigosamente fácil dar início a pelo menos um boato suficientemente propagado para obter o efeito da mentira mil vezes repetida e que no caso concreto pode ecoar junto de milhões.

Parece uma questão irrelevante, uma ameaça hipotética. Mas não é. A net, ironicamente um símbolo moderno da liberdade de expressão, é uma ameaça tão séria para as democracias que a promovem como para as ditaduras que a tentam silenciar.

Se para os tiranos em funções a internet pode assemelhar-se a um aríete capaz de fazer desmoronar a muralha da desinformação sempre tão eficaz na subjugação dos povos, para os aprendizes de feiticeiro que tanto se esforçam para dominarem os media pode antes surgir como a chave da porta para a propagação de elementos fulcrais para influenciarem com igual eficácia as multidões necessárias para, por exemplo, alterar o sentido de voto num plebiscito eleitoral.

E se os meios se distinguem em tudo, nos fins existe um paralelo assustador e para o qual o único mecanismo disponível, o recurso à Justiça, assume quase sempre o rosto do papão para a liberdade sagrada que os cibernautas exigem mas em última análise podem com essa euforia libertária hipotecar.

maio 07, 2011

Homens da Luta - ridendo castigat mores

A entrevista, vi-a em directo numa das televisões nacionais.
O vídeo, publicou-o uma amiga no Livro das Caras.
E eu não resisto a reproduzi-lo aqui, esperando que tenham pachorra para clicar no play e ouvir o que eles têm para dizer.
Porque estes senhores serão, à primeira vista, apenas uns grandes chalaceiros.
Mas basta um segundo olhar e um ouvido moderadamente atento para perceber que, por baixo dos figurinos à PREC e dos penteados esquisitos, há coisas para dizer, cérebros que não páram e uma inteligência invulgar.
Mais: estes senhores não só não estão a ridicularizar a imagem de Portugal, como temeram os espíritos mais bacocos, como estão a engrandecê-lo. Com eles, talvez o resto da Europa fique iludida, a pensar que representam um povo que sabe o que quer, que luta por aquilo em que acredita e que, finalmente!, substituiu os queixumes pelo humor.

maio 06, 2011

A minha primeira experiência prática de democracia

Foi em 1975, no Liceu da Covilhã. O professor de Educação Física não veio nesse dia e, como estávamos já todos equipados com fatos de ginástica, decidimos aproveitar o tempo para fazermos um jogo de futebol. Houve um colega que quis ir para guarda-redes mas nenhum outro se ofereceu para a outra baliza.
Alguém teve uma ideia genial:
- Fazemos uma votação.
Ninguém se opôs nem apresentou alternativas, pelo que ele continuou:
- Quem vota no Paulo Moura para guarda-redes?
Todos levantaram a mão... e eu também, mas para lhes  fazer um manguito... e fui para o balneário mudar de roupa.

E eis que me pronuncio (finalmente) sobre o acordo ortográfico

Sou contra.
Tão contra como sou contra o preço dos bilhetes do cinema e dos Louboutins.
Tão contra como sou contra a temperatura das águas do Atlântico, na costa oeste de Portugal, sobretudo ao largo da Invicta.
Tão contra como sou contra o Luís Filipe Reis vender discos ou o José Castelo Branco existir.

A questão que se coloca é: valerá ser contra algo que é iminente e para que a minha opinião não vale um charuto? Pois. Há coisas que merecem o desgaste de energia; outras, porque constituem clara e prévia derrota, nem por isso.
É verdade que ainda não adoptei as novas regras (e só o farei quando o período de transição findar, no final do corrente ano), mas conheço-as (e ensino-as) porque creio ser perfeitamente disparatada a atitude (que oiço a gente que me merece todo o respeito) do quero-lá-saber-do-acordo-não-faço-tenções-de-o-seguir. Quem assim agir, a partir de Janeiro próximo, passa a dar erros ortográficos, quando pensa ser um arauto do bom português.

Vai daí, e para que não se continuem com os mitos de que facto passará a fato e que homicídio se escreverá sem "h", porque este é mudo (what???) que o acordo mexe no que quer que seja com a pontuação, fiquem-se com um site onde todas as dúvidas podem ser dissipadas.

maio 05, 2011

A posta no sapo chamado José

É compreensível que no contexto de degradação crescente da imagem da que se convencionou apelidar de classe política, particularmente notória no hermetismo das estruturas partidárias que os produzem e albergam, as ideologias comecem a perder protagonismo no momento das decisões eleitorais.

É isso o que explica o facto de muito boa gente se preparar para ir votar contra o Sócrates e não a favor de qualquer alternativa em concreto.

A armadilha, como a sentem muitas pessoas e depois de centralizadas as atenções não nos partidos mas nas respectivas lideranças, consiste numa ausência de opções credíveis de entre as alternativas ao mau da fita da moda.

Ou seja, as pessoas começam por se despolitizarem para poderem concentrar-se no perfil de um Primeiro-Ministro alternativo ao que todos querem ver pelas costas e dão consigo perante um cenário confrangedor.

Se pusermos de parte as ideologias, embora tal não faça muito sentido se queremos levar a Democracia a sério, podemos de imediato apontar baterias para dois dos cinco candidatos com maiores hipóteses de virem a governar o país.

Claro que só mesmo a brincar poderíamos considerar Louçã ou Jerónimo para o cargo de PM, sobretudo desde que, ao recusarem falar com o FMI, confirmaram que os seus partidos emparceiram numa estratégia (e numa ideologia) que em termos práticos faria com que a eleição de qualquer deles implicasse o imediato isolamento do país relativamente à União Europeia. Não há mesmo hipótese de conciliação entre as propostas de ambos e a realidade factual como nos é imposta.

E se Jerónimo, por muito boa pessoa que pareça, é um líder refém do seu Partido e da inegável (e indispensável, por uma questão de sobrevivência) ortodoxia que mantém coesa a casa comunista, por outro lado é fácil de adivinhar a sua transfiguração caso se visse confrontado com a necessidade de implantar em todo um país o pulso de ferro que mantém em sentido o seu eficaz aparelho partidário, sem abébias para a contestação individual dos superiores interesses do colectivo. É assim, e gostos não se discutem.

Já de Louçã, a pessoa, a poucos portugueses ouvi referirem ser uma figura que inspire confiança. Existe algo de escorregadio na atitude e na expressão do forever young e é difícil acreditar que alguém o leve a sério como potencial PM deste país, ademais tendo-se colado à birra comuna relativamente à discussão do futuro imediato do país com os de fora que ajudaram a chamar.

Restam três.

O homem das feiras e o das barrac(ad)as

Começo por Paulo Portas que com tanto calo nisto dos confrontos se tornou aos poucos num encanto de imagem, um encantador de serpentes que a maioria já topou como serpente encantadora e que apenas se coloca a jeito, braços abertos para recolher as sobras laranja, os votos dos que já perceberam que têm um líder passaroco e que o dirigente dos populares é o único à altura da outra raposa destas andanças, Sócrates, que já se provou ter na mão o seu Partido e o eleitorado socialista.

A Paulo Portas, pelo Partido a que pertence e por toda a gente já ter percebido que é um grande músico, pouco mais se pedirá do que alargar a bancada parlamentar do CDS/PP e servir de emplastro para qualquer dos outros dois sem maioria absoluta. Para governarem com um mínimo da estabilidade que é mais do que nunca exigível terão provavelmente que levar com ele.

Passos Coelho até parece ser um gajo porreiro, ao ponto de já andarem os abutres a cravar-lhe facadas em forma de recusa de convites ou de bocas foleiras a partir dos comentadores televisivos nos seus poleiros de consolação.

Porém, há qualquer coisa de ingénuo naquele olhar de menino doce que alterna com o do estadista to be que não lhe assenta bem. E depois há meia dúzia de calinadas, de escolhas desastradas, de pequenos enormes detalhes que não queremos ver no fulano que se sentar em São Bento para obrigar a malta a fazer o que o FMI manda.

E resta quem? Pois claro, resta o Grande Satã, o homem de que ninguém gosta mas o único que revela em simultâneo a rodagem necessária para o desempenho do cargo que tem ocupado, a evidente habilidade para lidar com os parceiros europeus com quem precisamos muito de manter contacto próximo e amigável nos próximos anos e a tenacidade imprescindível para qualquer líder de um país que tem que andar na ordem.

Ou então não faz sentido falar do seu poder absoluto num PS com tradição no produzir de dissidentes desbocados (e despeitados), de vozes do contra que só se calam quando lhes falha a argumentação. É uma coisa ou é a outra.

O Sócrates à Mourinho

Sim, José Sócrates é uma rata velha, um raposo, um furão capaz de comer Coelhos ao pequeno-almoço em matéria de talento para o ofício. É essa a maior frustração dos sociais-democratas, terem o pássaro na mão e calhar-lhes na rifa um lapino sem tino que está em vias de o espantar.

Claro que o povo só pode desconfiar de um gajo assim, esse Sócrates à Mourinho, mau feitio, atrevidote, bem parecido o bastante para não dar muito trabalho ao Luís. E com presença suficiente para manter na ordem os seus, chefe mas muito, verga mas nunca parte como o fizeram alguns dos seus antecessores.

É bom demais para ser verdade e por isso é muito conveniente acreditá-lo ladrão, vigarista, embusteiro, maricas até.

Mas tem-os no sítio e contra isso nada a fazer. E se calhar é mesmo por isso que o Povo, coração generoso e enorme capacidade de perdão, cairá em si e como o voto é secreto lá irão botar a cruz no partido do gajo de quem disseram cobras e lagartos nos desabafos de cabeleireiro ou de esplanada e continuarão a dizer, negando a sua escolha para não parecer mal.

É esse um cenário cada vez mais possível neste Portugal que já desistiu de esperar por D. Sebastião e começa a aterrar num mundo real onde faz falta uma liderança firme que, por ironia, de todos os candidatos mais habilitados o menos desejado é o mais capaz de inspirar.


maio 04, 2011

«3 de Maio: o nosso futuro "encaixado" no intervalo de um jogo de futebol»

Recebi hoje esta mensagem, com a simples indicação de autoria de JB. Não sei de todo quem seja. Mas de tal modo, em três pinceladas, denuncia o cerne de muitas das questões que nos afligem, que me senti obrigado a partilhar convosco o seu conteúdo, com uma altíssima chapelada ao autor. Cá vai: 

Terça-feira, 3 de Maio de 2011, Portugal:

A RTP1, empresa pública muito zeladora da sua missão de serviço público, transmitiu um jogo de futebol entre dois clubes estrangeiros no horário em que normalmente estaria a transmitir o Telejornal.


(NOTA ós-despois - Já me chegou a autoria: João Barbosa, muito curiosamente um animoso «companheiro de armas» no mundo das escrevinhações, o que mais me apraz registar.) 

O Primeiro-Ministro esperou pelo intervalo de um jogo de futebol entre dois clubes estrangeiros para fazer um comunicado ao País sobre o acordo com o FMI - comunicado em que, afinal, não ouvimos um Primeiro-Ministro mas um candidato a Primeiro-Ministro em campanha eleitoral.


A RTP1 retomou o assunto depois de ter terminado a transmissão do jogo de futebol entre dois clubes estrangeiros.


Dá que pensar...


Dá que pensar sobre o admirável serviço público da "nossa" televisão, sobre o admirável sentido de Estado do nosso Primeiro-Ministro,sobre o Admirável Mundo Velho de um político e de uma televisão ajoelhada. Golpe de marketing, manipulação, controlo das mentes, areia para os olhos dos portugueses, os mesmos de quem o senhor candidato a PM espera os votos da reeleição.


Mas também dá que pensar sobre os nossos valores como Povo. Condicionar o horário de graves assuntos, directamente relacionados com a resolução dos nossos profundos problemas, ao horário de um jogo de futebol entre dois clubes estrangeiros? Triste (ou será, antes, Admirável?) País que precisa de Ronaldo e Mourinho (que até esteve ausente) como analgésicos para as suas dores...


Como escreveu George Shaw, "A democracia é um método que assegura que não seremos governados melhor do que merecemos."  Que tenhamos isso bem presente a 5 de Junho.


JB 

maio 03, 2011

Qual liberdade, marionetas?

Livres?
Nem os animais são livres!
Só é livre quem
não tem estômago.
Enquanto o nosso corpo
gradear a vida
para a manter dentro de nós
para que o coração
continue a palpitar
para que o sangue
continue a fluir nas veias
a vida há-de vingar-se
por a fazermos prisioneira
por a usarmos para animar
a nossa pobre carne
e continuará
a fazer de nós
escravos da nossa própria fome.

Do morto-vivo ao vivo-morto ou de como este mundo está estranho…

Obama liquida sumariamente Ossama, assistindo em directo à execução, ainda que de longe. Foram precisos dez anitos para a tecnologia mais avançada do mundo localizar um perturbante homem de turbante, aliás congeminado in vitro pelas estruturas da CIA, segundo consta, para o desempenho de um papel que, alegadamente, veio a distorcer, quando um rebate anti-imperialista lhe assaltou a consciência. Mas tudo bem. Vale mais tarde do que nunca, dir-se-á…  - estou a falar, claro, dos dez anitos.

O «mundo ocidental» respira de alívio. Ou não?

Um dos mandamentos da Santa Madre Igreja, baluarte de coisas tão despiciendas como a Declaração Universal dos Direitos do Homem – não matarás! - foi lançado às urtigas, sem um piscar de olhos. Então e esta coisa é para valer, daqui para a frente? Foi instituído um novo paradigma que altera aquele postulado pelo de mata, sim, mas só se for muito útil ou mesmo necessário… Assim, sim, sem hipocrisias espúrias! Zás-trás! Chateia? Limpa-se-lhe o sarampo! Tribunais? Para quê? O gajo preocupou-se com tribunais quando atirou com os aviões contra o império ocidental?

Pelo caminho, vai-se dizendo, com descontracção notável, que se empacotou o corpo e se lançou no mar alto… para quê? Para evitar um eventual local de romagem? E tanta malvadez, tanta virulência não contaminará algum peixinho necrófago que, reproduzindo-se, venha a fazer alastrar aquele terrorismo todo pelo mundo fora? Acautelem-se os banhistas!

Mas que estupidez! Que desperdício! Qualquer romeiro que se dirigisse ao putativo túmulo seria, de imediato, engavetado, como se de ratoeira gigante se tratasse, e estava salvaguardada a tranquilidade ocidental. Alegar-se-ia que o engavetado ia em busca de inspiração para actos aleivosos, que lhe chegariam das emanações ossâmicas, do paraíso onde repousa com as suas setenta virgens, e justificada estaria a detenção.

Nem parece de americanos esta gritante falta de espírito prático…

Creio que não será preciso deixar registado que considero qualquer acto terrorista absolutamente deplorável. Mas como definir um acto como terrorista ou não quando os «guardiões do templo» bombardeiam um prédio, sacam o presuntivo criminoso e lançam o seu cadáver ao mar?

Estaremos em presença do outro mandamento do anafado e burgesso vigário de aldeia do século XIX, sobejamente zurzido por Junqueiro, quando apregoava da pequenez do seu alto púlpito: «olhai para o que eu digo, não olheis para o que eu faço»?   

Entretanto, conforme dizia hoje mesmo um comentador espertalhóide, há que localizar imediatamente o próximo inimigo principal do ocidente, pois que o terrorismo não morreu com Ossama. Inimigo que permita assestar armas nessa direcção, a bem da civilização… que sem inimigos à vista, a coisa parece não funcionar em todo o seu esplendor, digo eu…

maio 02, 2011

Um mundo mais seguro?!!?

Segundo declarações do Presidente dos EUA, Barack Obama, Osama Bin Laden foi ontem mandado desta para melhor, colocando-se um ponto final numa caça ao homem que durava já há uma década.
O que me faz mais confusão, no meio de tudo isto, é observar norte-americanos a festejar na rua, como se a morte daquele que era considerado a maior ameaça ao mundo ocidental permitisse acabar com o terrorismo que vem do oriente [porque outro(s) há].
Nisso, são apoiados pelo "nosso" Durão Barroso, o que só prova que a estupidez mascarada de ingenuidade não tem nacionalidade.

O terrorismo, senhores, está vivo e recomenda-se.
Aguardemos a onda de ódio, traduzido em actos de vingança, que aí vem.

maio 01, 2011

"Temos é que ser gente, pá!" (ou A Actualidade de Um Imortal)

"O que é preciso é criar desassossego. (...)
Quando começamos a procurar álibis para justificar o nosso conformismo, então está tudo lixado! Acima de tudo, é preciso agitar, não ficar parado, ter coragem, quer se trate de música ou de política. E nós, neste país, somos tão pouco corajosos que, qualquer dia, estamos reconduzidos à condição de 'homenzinhos' e 'mulherzinhas'. Temos é que ser gente, pá!"

José Afonso, 1985 (cit. por Viriato Teles)