setembro 25, 2014

A propósito de «A vida na Terra por um Fio», um ponto de vista da Amazónia - Chama a Mamãe

"Pois é, Charlie, justamente nos momentos de grandes preocupações e de grandes tumultos, os homens e suas políticas não nos fazem muito felizes. Reúnem, reúnem-se e reúnem para discutir assuntos e nada resolvem de concreto, especialmente nessa questão do aquecimento global. Há interesses políticos e econômicos em jogo.
Hoje [23/9/2014], por exemplo, mais um desses «ENCONTROS» A Cúpula do Clima, na sede das Nações Unidas (ONU) em Nova York, com chefes de Estado, de governo e representantes de 125 países, convocada pelo secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, como um chamado ao "engajamento internacional", em prol da preservação ambiental e da redução dos efeitos das mudanças climáticas.
Mas não há consenso acerca desse tema. Cada um defende o seu interesse. Vejamos os Estados Unidos, por exemplo, acreditam que é possível conciliar a luta contra as mudanças climáticas com o crescimento econômico. De repente, até é possível mesmo, mas queremos ver essa conciliação na prática!
Nossa Presidente está por lá. Deve discursar ainda pela manhã (pelo fuso, isso já deve ter acontecido, até porque estou em meio à floresta e não estou assistindo nada que possa ser em vídeo). Decerto teremos mais um espetáculo de bla, bla, bla, promessas e pressões de todos os tipos, mas resultados concretos , nada!
O tal Ban tenta pressionar esses países a ter compromisso com o tema. Ora, ora, precisava haver pressão desse tipo? Isso não é responsabilidade de cada governo? Não são eles que detêm o poder de mando e desmando? As ações para evitar tragédias que o Planeta vem enfrentando por conta dos danos causados pelo Homem não deveria partir desses (des)governantes? Que falta de senso!
Na atividade diplomática, deveriam ter elevado grau de responsabilidades para com os povos de suas nações, e, consequentemente, com os destinos da Humanidade no planeta Terra. Enquanto isso, secas, inundações, conflitos e, como resultado, perdas econômicas cada vez mais profundas. Um cenário nada atraente que aguarda o planeta, se não forem reduzidas as emissões de dióxido de carbono (CO2). Não se pode desconsiderar uma certeza irrefutável: o aquecimento global tem a mão do homem.
Há um alerta sobre uma possível tragédia ao planeta, e isso não é de hoje. Concordo plenamente contigo, Charlie, de que “ Não há expressão que consiga sintetizar os custos de adiar-se o que é de extrema urgência.
Não para o Ano que vem, não para o mês que vem, nem sequer para a semana ou amanhã: é já e agora ou poderá nunca mais ser!”
Em que resultou o encontro de cientistas e representantes de governos na cidade japonesa de Yokohama? Os perigos destacados no relatório, o que está sendo feito para evitá-los, como: "INUNDAÇÕES: com as emissões crescentes de gases de efeito estufa aumentarão "significativamente" o risco de inundações, às quais Europa e Ásia estarão particularmente expostas. Se confirmado o aumento extremo de temperaturas, três vezes mais pessoas ficarão expostas a inundações devastadoras; SECA: a cada 1º adicional na temperatura, outros 7% da população mundial terão reduzidas em um quinto as fontes de água renováveis; AUMENTO DO NÍVEL DOS MARES: Se nada for feito, em 2100 "centenas de milhões" de habitantes das regiões costeiras serão levados a se deslocar. Os pequenos países insulares do leste, sudeste e sul da Ásia verão suas terras reduzidas.
FOME: os cultivos de trigo, arroz e milho perderão em média 2% por década, enquanto a demanda de cultivos aumentará 14% em 2050, devido ao aumento da população mundial. Os mais prejudicados serão os países tropicais mais pobres; DESAPARECIMENTO DAS ESPÉCIES: "Grande parte" das espécies terrestres e de água doce correrá risco de extinção, pois as mudanças climáticas destruirão seu hábitat; AMEAÇA PARA A SEGURANÇA - "As mudanças climáticas no século XXI empurrarão os Estados a novos desafios e determinarão de forma crescente as políticas de segurança nacional", adverte o esboço de resumo."
Ainda assim, algumas repercussões transfronteiriças das mudanças climáticas - A redução das zonas geladas do planeta, as fontes de água compartilhadas ou a migração dos bancos de peixes - "têm o potencial de aumentar a rivalidade entre os países". O relatório destaca, ainda, que a redução das emissões de gases de efeito estufa "nas próximas décadas" permitirá desativar algumas das piores consequências das mudanças climáticas até o final do século.
O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), em seus 25 anos de História, já publicou quatro desses relatórios, fazendo alertas em cada um deles, inclusive sobre as “gigatoneladas de dióxido de carbono emitidas pelo tráfego, as centrais, as centrais energéticas e os combustíveis de origem fóssil, assim como o metano, gerado pelo desmatamento e pela pecuária”.
Infelizmente, a então Cúpula de Copenhague, em 2009, que serviria para mais uma dessas discussões a respeito das ameaças ao planeta, foi abalada. Céticos, aproveitando-se de erros no relatório do IPCC, de 2007, deitaram e rolaram na demonstração da existência de visão tendenciosa sobre as tais ameaças.
Acontece que os tais céticos também nada apresentam como solução ao conflito.
É fato que a questão do aquecimento global tem tido controvérsias. Quem não se lembra do escândalo “Climagate”, que gerou uma polêmica mundial, quando, em novembro de 2009, hackers invadiram um computador da Universidade de East Anglia, no Reino Unido, um dos principais centros da pesquisa sobre o aquecimento global, e de lá roubaram 1 000 e-mails e 2.000 documentos, em que os cientistas debatem questões técnicas - inclusive uma série de mensagens em que discutem um "truque" para "esconder um declínio" (palavras deles) na quantidade de CO2 presente na atmosfera em épocas passadas.
Céticos, que não acreditam no aquecimento global, ou acham que ele não é obra da humanidade, encararam os tais e-mails como suposta prova disso. Cientistas foram acusados de manipulação de dados. Montaram-se vários comitês independentes para investigar o caso, que chegaram a uma conclusão unânime. Os números do aquecimento global estavam certos, e o tal truque era apenas um procedimento matemático. Os pesquisadores tinham descartado alguns poucos números de medição de temperatura - que estavam muito diferentes dos demais, e, por isso, provavelmente errados. É uma técnica estatística válida e aceita pela ciência, segundo os entendidos.
Certo é que essa novela abriu uma nova discussão: existe muita coisa que ainda não entendemos sobre o aquecimento global. O básico, todo mundo sabe: o homem queima combustíveis fósseis e isso libera CO2, que se acumula na atmosfera e provoca o famoso efeito estufa, que impede que o calor se dissipe e deixa a Terra mais quente. Só que isso não conta toda a história. A emissão de CO2 desencadeia efeitos estranhos no planeta. E isso faz com que elementos aparentemente inofensivos se voltem contra a humanidade, piorando o aquecimento global.
Mas está à porta um iminente perigo.
Neste encontro de hoje, em Nova York, vamos aguardas pelas soluções públicas para lidar com as mudanças climáticas. Será que algum desses líderes presentes levou na mala alguma medida concreta? Ou vamos ficar tal qual o comerciante que se alegra com a venda de condicionadores de ar, de carros, sem se preocupar o quanto está, também, contribuindo para essas tragédias climáticas?
Enquanto isso, sob a Linha do Equador, vamos sofrendo com as altas temperaturas (e olha que estamos vizinhos a uma vasta vegetação: a Floresta Amazônica!)"
Chama a Mamãe

setembro 24, 2014

salário mínimo...

não agrada a Cavaco
Raim on Facebook

Casa dos segredos ao léu com tudo a meter a «mão no pote»

Hoje está a apetecer-me dar uma de moralista… ou de ético, ou de qualquer coisa, por aí, perante alguma despudorada prostituição que transpira do ideário e da prática dos nossos pequenos políticos caseiros.

Nada que sirva para alguma coisa, claro. Mas é sempre um exercício de terapia ocupacional, profiláctica e desentupidora de vias respiratórias que, com uns laivozinhos de esperança agarrados, até pode ser que seja lido e entendido por um ou dois companheiros desta caminhada de não sabermos por onde vamos, nem para onde.

E não preciso de ir muito longe. Basta-me recuar até ontem. Vejamos:

- Passos Coelho demitir-se-á se ficar provada, por parte da Procuradoria Geral da República, alguma irregularidade na sua conduta, nomeadamente tributária e mesmo se prescrita, …  Aproveita para fazer esta extraordinária declaração na presença de Martin Schultz, presidente do Parlamento Europeu, com tradutor à ilharga, para que não subsistam dúvidas e, quiçá, para suscitar em Martin Schultz a hesitação quanto à importância do pagamento dos impostos, em Portugal, desde logo começando pelo seu primeiro ministro, tendo em vista a concelebrada retoma económica.

Quantos pontos de exclamação mereceria o parágrafo anterior? Trinta e oito? Quarenta e cinco?

Andaremos todos ébrios, anestesiados, emparvecidos para não darmos especial relevo a isto, embotados que estamos com tanta iniquidade?

Ou seja, eu cometo um ilícito qualquer. Mas nem tenho a certeza… é só um se-calhar. O tempo passa e ainda bem, como lhe compete. Como a vida é difícil e complicada, eu, que tendo a esquecer-me daquilo que almocei ontem, que direi de uns milharzitos de euros mensais que abichei há uma data  de anos. O ilícito prescreve. Eu continuo a não me lembrar. Mas se a PGR confirmar o ilícito, eu, homem acima de qualquer suspeita e sério até dizer chega, demito-me. Mas só se sim. Se não, isto é, se a PGR não for capaz de provar, então é porque o ilícito não lembra a ninguém.

Não quer dizer que não exista. Quer dizer apenas que já não lembra a ninguém… e pronto, está tudo fixe!

Mas, afinal, há (houve) ou não o ilícito? Bastará confirmar nos extractos bancários, pois parece-me que a coisa se traduzia na minudência de uns milhares de euros por mês, à data. Depois, cruzam-se esses dados com a documentação arquivada na Assembleia da República, a quem Passos Coelho tinha o dever de prestar contas - isto já para nem falar da competentíssima Autoridade Tributária, que deve ter por lá alguma coisa arquivada, também… - e já está!

- António José Seguro afronta António Costa, atirando-lhe à cara em debate televisivo com o facto de um seu (dele, António Costa) apoiante de vulto ser um daqueles ignóbeis portugueses que vivem no e do caldo da promiscuidade da política com os negócios, à mistura com organizações inconfessáveis… e que, assim ao correr da pena e por inusitada circunstância, também é militante do PS.

António José Seguro terá «dado no produto» na preparação do debate. Será essa a única explicação plausível para tamanha e tão contundente denúncia… que, enquanto actual Secretário-geral do PS, o atinge a ele, António José Seguro, em primeiro lugar e com a força toda.

Então ele tem conhecimento da existência de um tal ente promíscuo no seio das hostes e não lhe move, sei lá, qualquer coisinha: uma averiguaçãozita interna, uma auditoriazeca discreta, um inqueritozinho subtil, a bem da preservação do bom nome e dos valores éticos do partido?   

E denunciá-lo-ia se tal militante, afinal, o apoiasse a ele, António José?

Não! Esgrime, apenas, tal domínio do conhecimento contra o seu adversário político interno, todo ufano em confrontá-lo com essa singularidade de todos coabitarem num pântano que fede e onde, pelos vistos, os fedorentos sobrevivem e convivem alegremente. É o que transparece, pelo menos...

Do tipo: «- Vê lá tu, António, que estás a ser apoiado pelo Godinho Matos, que, vê lá tu a pouca vergonha, é fundador do PS, militante e tudo, promíscuo da política e dos negócios e até paga as quotas deste partido de que sou Secretário-geral…nha-nha-nha-nha-nha…!».

E ninguém lhe perdoará: os promíscuos porque ficarão inseguros à espera da próxima denúncia; os não-promíscuos porque não perceberão o porquê de Seguro ter retido tal informação até lhe ser útil divulgá-la.

Há, nesta atitude, uma tal dose de incongruência e de nonsense que, em boa verdade e assumindo as minhas abissais limitações, me transcende.  

São, então, estes os «dirigentes» dos dois maiores partidos do «arco do poder», eleitos pelos seus apaniguados para, respectivamente e se o bom povo português continuar a votar como vota, encabeçarem os destinos da nação?


Não vejo como distinguir estes fulanos daqueles outros que se vão prostituindo nas casas dos segredos expostos… E o Canadá é um destino actual para viver que a idade não me recomenda, ainda que pense nisso.

setembro 21, 2014

A vida na Terra por um Fio, Carta Aberta aos Governantes do Mundo

....o degelo das camadas de gelo eterno das zonas Árticas está a começar a libertar os muitos milhares de milhões de toneladas de gás metano nelas acumuladas...


O aquecimento global, uma maçada desses meio lunáticos, os ecologistas, verdes e quejandos, já é um dado adquirido. Bem podem os Mira Amaral deste mundo argumentar com os rácios e margens de poluição a favor: podemos poluir porque a gente está a poluir menos do que os outros....
Deprimente a falta de visão a prazo que fez atingir no sistema global terrestre neste momento, ou seja já, pelo egoísmo e estupidez, o limiar da ruptura.
As recentes reviravoltas no clima a que todos assistimos são apenas o começo.
O aquecimento global, derivado dos sistemas de produção de energia libertadoras de CO2, não tem apenas como consequência o gravíssimo problema  da subida dos oceanos e a submersão das ocupações litorais dos aglomerados humanos.
Pior do que isso, o degelo das camadas de gelo eterno das zonas Árticas está a começar a libertar os muitos milhares de milhões de toneladas de gás metano nelas acumuladas ao longo da história do planeta, que uma vez na atmosfera terá o efeito de uma bomba ecológica capaz de acabar com todo o nosso suporte de vida. É uma ameaça real e já está a acontecer nas margens das tundras que têm vindo a assistir ao recuo anual dos gelos.
Uma experiência feita há alguns anos numa biosfera fechada, inspirada no trabalho de David Latimer, consistiu numa cúpula transparente hermética onde alguns voluntário pretendiam viver do que era possível produzir em circuito fechado. Inserido nos estudos para a eventual colonização da lua e outros planetas, pretendia-se um acumular de dados para uso futuro.
Com alguma facilidade conseguiram o mínimo suporte. No entanto, os cientístas que monitorizavam os dados ficavam dia a dia mais apreensivos: os níveis de oxigénio baixavam lentamente à medida que o tempo transcorria e  passadas umas semanas do início da experiência tiveram de interrompe-la pois tinha-se atingido um limite já perigoso.
Qual era a causa dessa baixa de oxigénio? Simplesmente o metano resultante dos fertilizantes naturais com que os voluntários adubavam as plantas de que viviam.
Os estudos posteriores reveleram o terrível perigo para o sistema planetário do aumento desse gás na atmosfera do planeta, também ele um sistema fechado.
O aumento da população tem sido acompanhado pelo aumento da produção de energia e da criação intensiva de gado. Esta última tem só por si um impacte de nota no aumento do metano, mas o constante aumento do dióxido de carbono está a contribuir para multiplicar por vários milhares o nível da contaminação derivado do degelo consequente.
A actividade Humana que mais produz o dióxido de carbono é a da produção de energia.
A única forma de ultrapassar - e é de extrema urgência que isso se faça desde já- é a conversão a todo vapor, passe o termo, e custe o que custar para sistemas de produção limpa e ecológica de energia.
É urgente que os dirigentes do mundo esqueçam por um instante os números dos défices, dos financiamentos, investimentos, juros e proveitos, pois tudo perde o sentido perante a grandeza da ameaça que está mesmo á frente dos nossos olhos. Não há expressão que consiga sintetizar os custos de adiar-se o que é de extrema urgência
Não para o Ano que vem, não para o mês que vem, nem sequer para a semana ou amanhã: é já e agora ou poderá nunca mais ser!

 

setembro 18, 2014


Tradução minha deste artigo da revista espanhola «el Jueves»:

"A tradicional festa do Toro de la Vega vai em frente apesar da controvérsia. Este ano, algumas centenas de manifestantes tentaram impedir a que se celebrasse esta... Aham ... «Fiesta» em Valladolid, em que um touro é cercado, espancado e finalmente morto a golpes de lança na presença de uma multidão de 30.000 pessoas. Sim, pessoas. O tipo de pessoas que mutilam um animal à morte, mas não permitem que os seus filhos joguem Grand Theft Auto, porque "os videogames são violentos."

A feira é defendida por aqueles que gostam de touradas, para a grande maioria da classe política e da União Europeia, que prefere manter uma posição equidistante. Eles usam o mesmo argumento: El Toro de la Vega é uma tradição medieval e, portanto, deve ser respeitado. Malditos génios da dialéctica, que nos prendem na sua teia pegajosa do relativismo cultural!

Como pude ser tão cego? Nós estamos a perder a oportunidade de proteger todos os tipos de merdas muito sérias. Privilégios medievais! Abaixo está uma lista de actividades que eram tradicionais no final da Idade Média e que iremos pedir para serem declarados património da UNESCO: Cagar no campo, ter um rato morto como animal de estimação por causa da praga, cagar na rua, matar indígenas, estuprar indígenas, cagar à mesa, ensinar os nativos o verdadeiro sentido da bondade, através da palavra de Deus, cagar na porta da frente da casa do seu inimigo mortal, não se lavar, lavar-se com um rato morto por causa da peste, acreditar que a legitimidade para se ser chefe de Estado é uma qualidade que é passada de pai para filho através de uma espécie de fusão bizarra de magia divina e herança genética. Oh, não, que o último ainda é feito em Espanha ..."



setembro 16, 2014

O que nos faz ministros?

Maria de Lurdes Rodrigues foi considerada culpada no processo de ajuste direto dos serviços de consultadoria jurídica do ME aos escritório de advogados do irmão de Paulo Pedroso, na altura deputado do PS. O que me espanta (se é que algo nos deve espantar nesta república das bananas) são as declarações da ex-ministra. Se algumas estão no foro da opinião, e até poderá ter razão ao questionar a justeza das provas e o conteúdo de factum da acusação, preocupa-me que tenha dito que esta acusação abre um precedente ao permitir que, a partir de ontem, as pessoas possam questionar e pedir contas aos ministros e titulares de cargos públicos pelas decisões que tomam e opções que façam.
Desculpem, mas fiquei parvo ao descobrir que algumas pessoas se julgam acima da lei e da censura pública. Então não é claro para estes oligarcas que os cargos públicos são cargos de serviço ao bem público? Não conhecem a etimologia da palavra ministro? O ministro tem de ser um serviçal (ainda que bem pago) da causa e da coisa pública; um escravo das funções que jura desempenhar com honestidade e isenção. O julgamento das suas funções deve ser sempre preventivo, isto é, deve ele próprio julgar-se a si mesmo para não cometer os dislates que depois o poderão levar ao julgamento em praça pública, como aconteceu.
Agora, se isto é um linchamento político ou não, isso já é outra coisa. Realmente, num curto espaço de tempo alguns políticos e simpatizantes rosa viram as suas ações condenadas. Não quero acreditar que é por a laranja estar no poder; porque se assim fosse, embora me entristecendo pela baixeza da justiça, daqui a 3 ou 4 anos estaríamos de camarote a ver muitos incompetentes deste desgoverno a pagarem com língua de palmo as barbaridades que ora cometem. Mas isso não seria justiça, porque a justiça não pode nem deve ser sazonal.

setembro 13, 2014

A responsabilidade e a honra

No espaço de 3 dias, os sindicatos e associações profissionais de dois dos mais importantes ministérios da república vêm à praça pública pedir a demissão dos respetivos ministros por causas que lhes são imediatamente alheias, mas das quais são hierarquicamente responsáveis. Na justiça e na educação as coisas estão a correr realmente mal. Grande parte da culpa é do sistema informático, outra da real falta de recursos humanos e uma terceira fatia deve-se mesmo à incompetência dos coisos que por lá estão. O comum cidadão pergunta-se: 'mas que culpa tem o/a ministro/a de que as coisas estejam em estado de citius?' Parece que nada, mas basta pensarmos nos exemplos lendários de honra que nos marcam há quase 900 anos. Quando o rebelde infante Afonso henriques comprometeu e faltou à verdade dos compromissos que tinha assumido para com o seu primo, rei de Leão, Egas Moniz pôs a sua vida e a da sua família nas mãos do rei lesado. Não porque fosse o responsável direto, mas porque era moralmente responsável por ele. Para quem tem dois dedos de testa, meia história basta!

setembro 08, 2014

Os tiques de esquerda


Há uns meses atrás, em amena cavaqueira com dois amigos à volta de um ciclóstomo, um deles teve uma tirada curiosa quando falava de uma personalidade tal e tal, que tinha uma boa profissão, um bom vencimento, vestia fatos de marca e conduzia um carro vistoso. A curiosidade do comentário foi algo do género: "Com tão bom nível de vida e tem tiques de esquerda!" Não viria mal ao mundo se não fosse o caso de ter relacionado o ser de esquerda ou de direita com o nível de vida que as pessoas têm. Então quer isto dizer que os ricos não podem ser de esquerda? Se assim fosse, e lida a cartilha ao contrário, então, em Portugal, deveria haver, pelo menos, 5 milhões de votos na esquerda porque aos 2,6 milhões que vivem abaixo do  limiar da pobreza devemos acrescentar os quase 1,6 milhões de aposentados com a reforma mínima e os tristemente remediados. Os partidos à esquerda deveriam ter uma larga maioria de votantes entre os portugueses, infelizmente. E digo INFELIZMENTE não porque os portugueses votariam à esquerda, mas tão só porque são pobres.

setembro 05, 2014

O caso Dreyfus Português?


 

Emílio Zola, e a carta aberta enviada à presidência
O caso Dreyfus, como ficou tristemente célebre para a História, é uma tragédia a nível pessoal mas integrada num processo político complexo que a França viveu nos finais do Séc XIX e princípio do XX

Alfred Dreyfus foi condenado por alta  traição e só anos mais tarde reabilitado. O mediatismo da sua perseguição, o seu processo e condenação nada teve a ver com quase silêncio e o posterior regresso e integração. Sem que tivesse sido condenado à morte, o processo foi uma morte em vida que nunca mais voltou a ser a mesma.

Dreyfus foi condenado com base em documentos forjados, falsos testemunhos e um remoinho devastador de ocorrências politicas que tinham como charneira a luta pelo poder. Monárquicos,  Clero, Exército e novos movimentos xenófobos não hesitavam em recorrer a todos os golpes, mesmo os mais baixos  para levar por diante os seus projectos.
Valeu a Dreyfus ter sido “apenas ” condenado à prisão perpétua na llha do Diabo, -a mesma que Papillon haveria de imortalizar-, e o prestígio de Emílio Zola que levou a cabo a hercúlea tarefa de lutar contra a máquina terrível da inércia. Poderia ter sido condenado à morte por alta traição, mas coube-lhe em sorte a prisão perpétua e a persistência do escritor.
Pesasse embora a reabertura do processo e a reabilitação de Dreyfus, este, previamente condenado com base em provas fraudulentas, continuou ainda preso durante bastante tempo enquanto Zola, já acompanhado de outras figuras de prestígio lutavam contra a monstruosidade de um homem inocente ter que continuar , - segundo os tribunais-, detido.
Mais de um século se passou sobre o caso Dreyfus, um homem que teve direito a uma obscura estátua numa praceta escondida em Paris como descarga de má consciência. Na prática nunca foi reabilitado. Não recuperou o seu lugar no exército nem beneficiou de qualquer indemnização, acabando por pedir mais tarde a aposentação. Condenado à morte e continuar vivo....
 
Em Portugal seria possível um caso Dreyfus?
Pessoas julgadas e condenadas com base em processos fraudulentos, falsos testemunhos e um ambiente favorável à condenação?
Não só em Portugal, como em todo o lado, há muitos processos Távoras e Dreyfus. Os bodes expiatórios estão aliás há muito institucionalizados e imortalizados no livro mais lido do Mundo, a Biblia. Velho como o mundo, o cordeiro sacrificado para a Gloria dos Senhores…
Por cá, se calhar teremos um dia para a nossa vergonha colectiva, o nosso caso Dreyfus.

Para ver, o curto vídeo embebido  e em silêncio fazermos o nosso juízo, o julgamento e condenação, esses já estão feitos....
 

agosto 25, 2014

um balde de água fria...

Certo dia, um tipo acorda, cheio ainda de todo o gel com que levantou a crista nos últimos dias, naquele momento especialmente criativo em que evacua excessos do dia anterior, mesmo, mesmo na iminência de sacudir o derradeiro resquício líquido, imbuído que está de um temperamento criativo que se lhe apercebe das orelhas aos pés, passando pela crista – algo murcha da noitada – e ocorre-lhe uma ideia fulgurante para tornar o mundo melhor, à sua constrangida maneira de ver, claro:

- Eh, pá, há já dois dias que ninguém fala de mim… Preciso de uma ideia! Deixa cá ver… uma maleita pouco conhecida, um apoio original – parvo –  e quanto mais o for mais apelativo será para os engraçadinhos habituais…– , apoio dos media, envolvimento de grandes personalidades e tal…

Mais arroba, menos quintal e eis que surge uma pandemia de parvoíce generalizada onde tudo o que se supõe ser «figura pública» quer ou é constrangida a entrar, se não quiser perder pitada desse engrandecimento só-por-dar-nas-vistas-dos-papalvos.

A maleita: a esclerose lateral amiotrófica (cujos pacientes estou em crer que mereceriam uma evocação e muito apoio através de meios consideravelmente mais dignos).

A parvoíce originalíssima: levar com um balde de água gelada pela cabeça abaixo.

E está determinado o sucesso à escala de todo o «mundo ocidental»!     

Valerá a pena perder o tempo com isto? Tenho as minhas dúvidas. Se o tal «mundo ocidental» anda, aparentemente, cheio de palhaços frustrados, sem arte nem escola, e imbuído, ou embutido, ou embebido, na mais extraordinária palhaçada de que há memória, a tantos níveis, porque não mais uma?

Inócua? Enfim, desperdiça-se ostensivamente a água cuja escassez, noutras partes do mundo, leva à morte de tantos seres humanos… Mas o «mundo ocidental» não se preocupa com tais coerências ou minudências. O que interessa é aparecer na tv, nos facebooks e tal, em manobras de fachada, e o resto é conversa de tristes.

Não lhes ter ocorrido despejar sobre si próprios um balde de excrementos…Disso, sim, tenho pena. Haveria, seguramente, outra coerência entre ideia, acto e personagem… E, assim, ninguém daria pela existência de qualquer desperdício.  

Se isto não é uma manifestação inequívoca de decadência civilizacional, de vulgarização alienada de um intuito solidário, não sei, então, o que seja.

E, não! Não é certo que os fins justifiquem os meios.

agosto 21, 2014

As Faixas de Gaza estão por todo o lado

o massacre dos Judeus em  Lisboa 1506
Temos assistido com alguma anestesia ao que nos territórios da Palestina acontece: à custa da repetição do estímulo a reacção entorpece, torna-se banal e só a formação moral nos empurra para a resposta negativa.

Os Palestinianos atiram uns roquetes e os Judeus arrasam um bairro. A desproporção é absoluta, de um lado dezenas de mortes a lamentar, do outro mais de dois mil, inúmeras crianças.
Há alguma irracionalidade nas acções da nação Sionista?
Só à luz da nossa racionalidade emocional carregada de valores de Humanidade que se diz ser Universal.
Mas, parafraseando o velho Orwell, os Homens são todos iguais mas há uns mais iguais do que outros. 
E à luz disso que os Falcões Judeus se sentem no direito de defender o roubo que fizeram aos que legitimamente reclamam.
Os Judeus têm sido perseguidos ao longo da História e  Portugal conta com uns episódios bem negros nesse particular como por exemplo quando por casamento de D. Manuel com Isabel, filha dos Reis Católicos, o nosso Pais aderiu à perseguição que estes levavam a cabo em território Espanhol e que culminou por cá com  a matança de 1506 em Lisboa: o terrível Pogrom. 
É cíclico este "downgrade" do Homem ao registo da bestialidade, e tal como afirmei nas linhas acima, a nossa diferença em relação à besta, é a capacidade da construção interior de valores, de relativizar, de substituir a reles vingança por reacções de carácter positivo.
Um sobrevivente numa rua totalmente destruída (Faixa de Gaza)
Desde o Holocausto Nazi que o mundo(?) se enche de uma tremenda compaixão pelo povo Judeu.
Nada contra, tudo a favor
Mas já agora a mesma compaixão, -com actos musculados se fôr necessário sobre quem "holocausta" - para com os Tibetanos, os Animistas vítimas do Islamismo Fundamentalista, o Povo de Gaza, os Velhos roubados das suas reformas, as crianças morrendo de fome por causa das mega-negociatas no ramo alimentar mundial, etc etc etc.
Veremos como temos uma Gaza mesmo ao nosso lado, quiçá dentro das nossa casas, em que os mísseis têm o silêncio das coimas, das penhoras, das cartas, mails ou SMS de despedimento, da operações urgentes adiadas devido aos "cortes" sempre em irracional contra-ciclo com o aumento de impostos, dos fechos das escolas e centros de saúde, obrigando as pessoas a andar de carro, com o carro que muitos não têm, nem dinheiro para gasolina ou taxi, nem carreira de camioneta que acabou porque o privado que a concessionou por altura da privatização perdia dinheiro com ela... e por aí fora...e por aí a fora...e por aí afora....Uma invisível muralha que cerca a quem não tem os mínimos recursos e que o Estado, retirando-se das suas obrigações de carácter civilizacional e até  Humanitário, promove
E tudo porquê? 

Por causa do dinheiro.
Dinheiro imenso dinheiro que os Banqueiros Judeus em Wall Street possuem com o qual tudo dominam e que por isso sustentam a sua jóia da coroa: um Estado insustentável no Médio Oriente em que cada amendoím produzido custa o valor de quatro. 
Mau negócio? Talvez, But the Bible tells you so.
And that's why Gaza must go on...


Mas tudo isto dá origem a um ciclo longo de consequências em cadeia.  Há custos económicos que tem de ser assumidos e repercutidos na máquina trituradora, levados mais longe ao longo das imensas engrenagens da engenharia financeira
No fim há as contas que alguém tem que pagar, e que sobram sempre para os mesmos: nós, os habitantes das nossas faixas de Gaza.


agosto 15, 2014

maresia

- reflexão suscitada pela irracionalidade do conflito na faixa de Gaza  

ainda se fôssemos seres marinhos
da família que se diz de equinodermes
simétricos se larvares
mas radiais ao crescer
metáforas do deus Hermes
tão férteis nos seus caminhos
prolíficos até morrer

ah se fôssemos holotúria
sem cérebro ou consciência
uma estrela ambulacrária
de inconstante pertinência
- seja aqui ou no Camboja -
por ter tal conveniência
de um braço já se despoja

um ofiurídeo - um crinóide
sem ter sistema nervoso
dando um ar imbecilóide
ao sujeito comatoso
que come só p’ra viver
vivendo para comer
num destino glorioso

mas não –
só estamos para aqui
sempre humanos sem querer
e matando outros humanos
que nem servem para comer
enchendo o mundo de enganos
sem dar o braço a torcer
- e que fará a arrancar…!

porque sabemos mudar
mas não está a apetecer…
  
… e no entanto o dia é fundo e descabido
na imensidão abissal do despautério
e mergulhamos a contragosto mal sofrido
tais bivalves tão expostos sem mistério…

- Jorge Castro

julho 22, 2014

«Zink, impotência sexual, má língua, SNS e sexismo anti macho velho» - Jaime Ramos

No passado sábado, na SIC, foi recordado o programa "Má Língua", com uma edição especial.
Com muita ironia, Rui Zink admitiu a impotência recordando a forma carinhosa como a mulher o consolou: também acontece com os outros...
Recordei-me de, há décadas, uma Senhora célebre me ter surpreendido com a frase: não há mulheres frígidas, há é "má língua"... Não se referia à da SIC.
O que é que isto tem a ver com sexismo anti macho velho?
O SNS, Serviço Nacional de Saúde, comparticipa medicação destinada a corrigir os sintomas, o "sofrimento" e as incapacidades que a menopausa origina nas mulheres.
Os "calores", os "rubores", a "secura", a "atrofia" e o envelhecimento vaginal são tratados com medicamentos comparticipados pelo SNS. As mulheres sabem que o SNS se preocupa com a sua vida sexual... A pílula é mesmo gratuita nos centros de saúde durante a vida fértil das mulheres...
O SNS investe parte do seu orçamento para garantir que a "serventia" das mulheres esteja disponível, sem risco e em bom estado, para os homens.
Mas não para todos os homens...
A andropausa vai fazendo vítimas, dificultando desempenhos e causando impotências. O "envelhecimento" sexual dos homens foi uma inevitabilidade que a industria farmacêutica enfrentou com algum sucesso.
Hoje há diversos "viagras" capazes de transformar um sénior num jovem cheio de vigor.
Só que são caros. Alguns destes medicamentos são mesmo muito caros, exigindo um orçamento mensal/anual que não é acessível a homens "pobres".
Estes medicamentos salvadores do acesso dos velhos (ou dos doentes cujas mazelas e terapêuticas originam impotência) ao prazer não são comparticipados pelo SNS. Quem quiser sexo que o pague, diz o SNS aos homens...
Esta desigualdade de tratamento dos dois sexos, promovida pelo SNS, é muito curiosa...
Os homens com rendimentos médios ou altos podem comprar os comprimidos milagrosos que lhe dão o acesso à eterna juventude... Se sempre puderam gastar dinheiro em prostituição e pecar, por que deve o Estado comparticipar no seu bem estar sexual quando somam mais décadas de vida...?
E os homens de baixo rendimento, com pensões reduzidas, desempregados...? Quem se preocupa com o prazer destes machos velhos com menores recursos?
E as suas mulheres, também elas condenadas a coabitar com seniores incapacitados, perguntar-me-ão, não têm direito ao prazer sexual?
Pois é, dizem os responsáveis pelo SNS: em sociedades injustas, aos desfavorecidos pela má sorte, só resta mesmo a língua, a má língua!

Jaime Ramos

A história do banco do meu avô

Acabadinha de receber, sem autoria... Eu sei que este texto é comprido até dizer chega e peço mil desculpas à vossa paciência. Mas é de leitura leve e esclarecedora. Outra vez serviço público, claro...

Vamos IMAGINAR coisas…
Vamos imaginar que o meu avô tinha criado um Banco num País retrógrado, a viver debaixo de um regime ditatorial.
Depois, ocorreu uma revolução.
Foi nomeado um Primeiro-Ministro que, apesar de ser comunista, era filho do dono de uma casa de câmbios.
Por esta razão, o dito Primeiro-Ministro demorou muito tempo a decidir a nacionalização da Banca (e, como tal, do Banco do meu avô.
Durante esse período, que mediou entre a revolução e a nacionalização, a minha família, tal como outras semelhantes, conseguiu retirar uma grande fortuna para a América do Sul (e saímos todos livremente do País, apesar do envolvimento directo no regime ditatorial).

Continuemos a IMAGINAR coisas…
Após um período de normal conturbação revolucionária, o País entrou num regime democrático estável.
Para acalmar os instintos revolucionários do povo, os políticos, em vez de tentarem explicar a realidade às pessoas, preferiram ser eleitoralistas e “torrar dinheiro”.
Assim, endividaram o País até entrar em banca-rota, por duas vezes (na década de 80.
Nessa altura, perante uma enorme dívida pública, os políticos resolveram privatizar uma parte significativa do património que tinha sido nacionalizado.
Entre este, estava o Banco do meu avô.

E, continuando a IMAGINAR coisas…
A minha família tinha investido o dinheiro que tinha tirado de Portugal em propriedades na América do Sul. Como não acreditávamos nada em Portugal, nenhum de nós quis vender qualquer das propriedades ou empatar qualquer das poupanças da família.
Mas, queríamos recomprar o Banco do meu avô.
Então, viemos a Portugal e prometemos aos políticos que estavam no poder e na oposição, que os iríamos recompensar (dinheiro, ofertas, empregos, etc…) por muitos anos, se eles nos vendessem o Banco do meu avô muito barato.
Assim, conseguimos que eles fizessem um preço de (vamos imaginar uma quantia fácil para fazer contas) 100 milhões, para um Banco que valia 150.
Como não queríamos empatar o “nosso” dinheiro, pedimos (vamos imaginar uma quantia) 100 milhões emprestados aos nossos amigos franceses que já tinham ganho muito dinheiro com o meu avô.
Com os 100 milhões emprestados comprámos o Banco (o nosso dinheiro, que tínhamos retirado de Portugal, esse ficou sempre guardado). E assim ficámos donos do Banco do meu avô.
Mas tínhamos uma dívida enorme: os tais 100 milhões.
Como os franceses sabiam que o Banco valia 150, compraram 25% do Banco por 30 milhões (que valiam 37,5 milhões) e nós ficámos só a dever 70 milhões (100-30=70).
Mesmo assim era uma enorme dívida.

Continuemos a IMAGINAR coisas…
Tal como combinado, viemos para Portugal e começámos a cumprir o que tínhamos prometido aos políticos (dinheiro para as campanhas eleitorais, ofertas de vária espécie, convites para todo o tipo de eventos, empregos para os familiares e para os próprios nos momentos em que estavam na oposição, etc…)
Como ainda tínhamos uma grande dívida, resolvemos fazer crescer mais o Banco do meu avô.
Assim, fomos falar com uma nova geração de políticos e prometemos todo o tipo de apoios (dinheiro, ofertas, empregos, etc…) se nos dessem os grandes negócios do Estado.
E eles assim fizeram.
E o Banco do meu avô, que tinha sido vendido por 100, quando valia 150, valia agora 200 (por passarem por ele os grandes negócios do Estado).
Mas, mesmo assim, nós ainda devíamos 70 milhões (e tínhamos de pagar, pelo menos uma parte dessa dívida, caso contrário, os franceses ficavam com o Banco do meu avô).

E, continuando a IMAGINAR coisas…
O meu tio, que era presidente do Banco do meu avô, reformou-se.
Nessa altura a família estava preparada para nomear um dos meus primos para presidente.
Eu queria ser presidente e prometi à família toda um futuro perpétuo de prosperidade se me nomeassem a mim como presidente.
E assim foi.
Fui, finalmente, nomeado presidente do Banco do meu avô.
Mas era preciso pagar uma parte da dívida aos franceses.
Podíamos vender uma parte do Banco em Bolsa, mas deixávamos de mandar (logo agora que eu era presidente – não podia ser assim). Então desenhei um plano:
Criei uma empresa, chamada “Grupo do meu avô” (em que a minha família tinha 100% do capital) e passei os nossos 75% do Banco (25% eram dos franceses) para essa nova empresa.
Assim, a família era dona de 100% do “Grupo” que era dono de 75% do Banco.
Falei com os franceses e combinei mudarmos os estatutos do Banco: quem tivesse 25% mandava no Banco (e os franceses não se metiam, a não ser para decidir os dividendos que queriam receber).
Assim, como o Banco agora valia 200, vendemos 50% na Bolsa por 100 (metade dos 200).
Com 50 capitalizámos o Banco.
Os restantes 50 tirámos para nós (37,5 para a família e 12,5 para os franceses).
Demos também os nossos 37,5 aos franceses e assim ficámos só a dever 32,5 milhões (70-37,5).
Ainda era uma grande dívida, mas continuávamos a mandar no Banco do meu avô (apesar da nossa empresa “Grupo do meu avô” só ser dona de 25% - os franceses tinham outros 25% e os restantes 50% estavam dispersos por muitos acionistas).
Ainda tínhamos uma enorme dívida de 32,5 milhões.
Mas, a verdade é que continuávamos a mandar no Banco do meu avô e tínhamos transformado uma dívida inicial de 100 em outra de 32,5 (sem termos gasto um tostão da família – o nosso dinheiro continua, ainda hoje, guardado na América do Sul).
Convenci-me, nessa altura, que era um génio da finança!

Continuemos a IMAGINAR coisas…
A certa altura, o crédito tornou-se uma coisa muito barata.
Eu sabia que tínhamos um limite original de 100 milhões e já só devíamos 32,5 milhões.
Assim, a empresa “Grupo do meu avô” voltou a endividar-se: pediu mais 67,5 milhões (voltámos a dever 100 milhões) e desatei a comprar tudo o que fosse possível comprar.
Tornei-me assim, o dono disto tudo (o Banco do meu avô, a Seguradora do meu avô, a Meu avô saúde, a Meu avô hotéis, a Meu avô viagens, a Construtora do meu avô, a Herdade do meu avô onde se brinca aos pobrezinhos, etc…).
Entretanto fui pagando as minhas promessas aos políticos (dinheiro para as campanhas eleitorais, ofertas de vária espécie, convites para todo o tipo de eventos, empregos para os momentos em que estavam na oposição, etc…).

E, continuando a IMAGINAR coisas…
Mas havia agora uma nova geração de políticos.
Fui falar com eles e garanti que os apoiaria para o resto da vida (dinheiro, ofertas, empregos, etc…) se eles continuassem a fazer passar os grandes negócios do Estado pelo Banco do meu avô.
Mas, tive azar: houve uma crise financeira internacional.
Deixou de haver crédito.
Os juros subiram.
Os credores queriam que o Grupo do meu avô pagasse a dívida.
E, além disso tudo, deixou de haver os grandes negócios do Estado.
Mas eu, que me achava um génio da finança e que já estava habituado a ser o dono disto tudo, não queria perder a minha posição de presidente do Banco do meu avô.
Tinha de arranjar uma solução.
Fui à procura, e encontrei em África, quem tinha dinheiro sujo e não se importava de investir e deixar-me continuar a mandar e a ser dono disto tudo.

Continuemos a IMAGINAR coisas…
Resolvi então criar uma nova empresa: a “Rio do meu Avô” que passou a ser dona de 100% do capital da “Grupo do meu avô”, que era dona de 25% do “Banco do meu avô”.
E eu que era dono disto tudo passei a ser o presidente disto tudo.
Fiz uns estatutos para o “Grupo do meu avô” que diziam que quem tivesse 25% mandava na empresa.
Vendi 20% aos Angolanos e 55% na Bolsa.
A “Rio do meu avô” ficou assim dona de 25% do “Grupo do meu avô” (mas mandava como se tivesse 100%).
A “Grupo do meu avô”, dona de 25% do “Banco do meu avô” (mandava como se tivesse 100%).
Assim, a minha família já só tinha 5% (25% de 25%) do “Banco do meu avô” (mas eu continuava a mandar como se tivéssemos 100%).
Já não havia dúvidas: eu era mesmo um génio da finança.
Com os 75 milhões da venda do “Grupo do meu avô” (aos Angolanos e na Bolsa), paguei uma parte da dívida.
Mas, na verdade, ainda tínhamos uma dívida de 25 milhões (e continuávamos a não querer mexer no nosso dinheiro – esse continua bem guardado na América do Sul).

E, continuando a IMAGINAR coisas…
Mas as coisas continuaram a correr mal. Se calhar eu não sou assim tão grande génio da finança.
Todos os nossos negócios dão prejuízo (até mesmo o Banco do meu avô).
Raio de azar.
Ainda por cima, a crise não acaba.
Fiz então o meu último golpe de génio.
Convenci todos os bons clientes a comprarem ações do Banco do meu avô, para aumentar o capital sem ter de endividar mais a “Rio do meu avô” (e sem ter de tocar no dinheirinho da família, que continua bem guardado na América do Sul).
Mas os franceses queriam o dinheiro deles.
Então, como presidente do Banco do meu avô, emprestei dinheiro deste ao Grupo do meu avô e à Rio do meu avô.
Assim pagámos aos franceses.
Mas ficámos com um problema: o Banco do meu avô está completamente arruinado.
Tinha de arranjar uma solução!
Fui falar com os novos políticos com uma proposta: reformo-me, dou lugares de Administração a uma série de políticos do partido do Governo e eles que resolvam o problema do Banco do meu avô.

Continuemos a IMAGINAR coisas…
Os políticos aceitaram a minha proposta (aceitam sempre que se fala de lugares de Administração).
Finalmente, reformei-me.
Ainda somos donos de 5% do Banco do meu avô e de uma série de outros negócios (sustentados pelas dívidas ao Banco do meu avô).
Tudo isto sem termos gasto um tostão (o dinheiro da família continua todo guardado na América do Sul).
E, tomei a última medida antes de me reformar: atribuí a mim próprio uma reforma de um milhão de euros por ano (para as despesas correntes).
E, assim, acabou a história IMAGINADA do Banco do meu avô.

**************

Se alguém teve a paciência de ler este texto até ao fim, deixo uma pergunta: Se esta história em vez de ser IMAGINADA, fosse verdadeira, que fariam ao neto?

julho 21, 2014

ESTE PAÍS NÃO É PARA INGÉNUOS

Com aviso de 5 dias (mas apenas 3 dias úteis), são marcadas as provas de avaliação de professores que não puderam ser feitas na primeira leva, a 18 de dezembro. O diploma rege que a marcação deverá ser feita com 20 dias de antecedência e, até 5 dias antes, os professores são notificados do local onde prestarão provas. Pois bem, nada disso se cumpriu. Ao não respeitar estes prazos, o MEC inviabilizou a possibilidade de convocação de greves. Apareceu depois um SecEst com ar muito ingénuo a desmentir que a redução do prazo não tinha nada a ver com a sonegação do direito à greve. Então, os sindicatos (FENPROF) reorganizam uma forma de boicote: plenários sindicais para a manhã de amanhã. Ninguém é ingénuo e todos sabemos que o objetivo é boicotar a realização (vigilância) da prova. Os sindicatos também não tentaram sequer parecer ingénuos: assumiram que seria uma forma de boicote. Vem depois a disposição do MEC de impedir a realização das reuniões da parte da manhã. Caiu a máscara da ingenuidade e os tiques de ditador vieram à tona. Parece uma alimária de cabresto a quem a ingenuidade disse adeus se foi para outras praias onde a democracia floresce. Não podemos consentir que maquiavelicamente se mexam nos direitos para se entortarem ao serviço do despotismo nada iluminado e ignorante. Freud dizia que o Homem é dono do que cala e escravo do que fala, mas ele tinha um complexo; eu digo que se calarmos e não falarmos, seremos em breve escravos do e pelo silêncio. Hoje eles; amanhã nós. Definitivamente, este país não é para ingénuos!

julho 18, 2014

SERRANO





A terra esventrou-se e dela saiu o homem da serra. A mesma pedra que é chão também é teto, parede e contraforte. A terra é mãe-madrasta, mas ensina a amar o pouco que dá. Só vergastando ela chora um pouco do sustento que à míngua o filho lhe pede. E assim dançam por largos anos até que, num dia marcado no calendário do filho, outros abrem uma cova e nela o depositam. Incestuosamente ele desce até lá e, com aviso, vai fecundá-la, fechando o ciclo do filho e perpetuando os ciclos da mãe. Este é o fado do homem filho da serra.


julho 17, 2014

O acordo plural – serviço público

É nisto que dá o facto – temível! – de grande parte da nossa abordagem à cultura ocorrer através da televisão, com ou sem cabo, quando, tantas e tantas vezes, o único cabo de que aqui se poderá falar é o cabo de esquadra…

Já agora e para quem não saiba, esta expressão «de cabo de esquadra» provém de um tempo, não muito remoto, em que o cabo de qualquer esquadra, como o elemento menos graduado que era, não primar pelos seus conhecimentos académicos; saber ler e escrever lhe bastava para o desempenho da função, pelo que a expressão, que ainda hoje muito se utiliza, provenha também dos disparates proferidos por quem, tendo autoridade, não tinha, entretanto, sapiência em adequada conformidade, fenómeno que, aliás, volta a registar-se com profusão.

Isto tudo porque não há reunião de amigos, profissional ou outra, programa de rádio ou de televisão onde, proferido até por gente de onde tanto abismo não se esperaria, o termo «acordo» no seu plural não seja pronunciado «acórdos»… No mínimo, pressente-se alguma hesitação, um ah-ah-ah… constrangido, mas lá se soltam os «acórdos», expelidos sem apelo mas muito agravo, permanecendo no ar um certo cheiro a enxofre e a animal morto.

Por mim, um pouco cioso e zeloso destas coisas ligadas à nossa querida Língua Portuguesa, encetei de há longos anos uma campanha em favor dos acordos, mas com a sua identidade própria, isto é, pronunciados «acôrdos». É pois nesta cruzada que volto à baila, respigando como auxiliares, mais duas dicas que apurei na net. Vejam lá:

Instituto Superior de Educação http://linguamodadoisec.blogspot.pt/2010/08/qual-o-plural-de-acordo-acordos-ou.html:
30 Agosto 2010
Qual o plural de acordo? Ac[ô]rdos ou Ac[ó]rdos?
O plural de acordo é ac[ô]rdos – com ô fechado.
E porquê?
Porque esta é uma palavra formada por derivação regressiva a partir do verbo acordar, cuja vogal o se pronuncia /u/.
Quando se formou a palavra acordo (já no século XIV), o som da vogal o passou a /ô/, por ter a vogal passado a pertencer à sílaba tónica. No plural, naturalmente, a vogal mantém-se fechada (/ô/): ac[ô]rdos.
A regra mantém-se, por conseguinte, para outras palavras: a vogal o da sílaba tónica das palavras terminadas em o formadas por derivação regressiva de outras cujo radical tinha esse som fechado pronuncia-se /ô/ e, como regra geral, mantém essa pronúncia no plural: adorno, adornos (de adornar), consolo, consolos (de consolar), encosto, encostos (de encostar), acordo, acordos (de acordar)!

Também no Ciberdúvidas da Língua Portuguesa (http://ciberduvidas.pt/pergunta.php?id=777)pode ler-se e confirmar-se:

/Acôrdo/, /acôrdos/
[Pergunta] Somos frequentemente confrontados, sobretudo nos noticiários televisivos e radiofónicos, com diferentes pronúncias do plural das palavras acordo (acôrdos; acórdos) e molho (môlhos; mólhos). Qual a «opção» correcta?
Paulo Luís de Castro :: :: Portugal
[Resposta] O plural de acordo (côr) é acordos (côr).
Em molho, temos duas palavras:
a) Molho (/môlhu/) a significar aquele líquido que se põe nas iguarias para lhes dar determinado sabor. O plural é /môlhos/.
b) Molho (mó) significando braçado, paveia: um molho de palha. O plural é /mólhos/.
José Neves Henriques :: 01/05/1997

Claro que ninguém pronuncia (ainda) «consólos» ou «encóstos» ou «adórnos», assim a modos como quem pronuncia «córnos»… mas, por razões que a razão e o saber desconhecem, o que há mais é opinadores a proferirem desbocadamente os malfadados «acórdos».

Se calhar, é por isso que a grande maioria dos «acórdos» não passa de letra morta…

julho 15, 2014

O BES e a táctica de Deu-la-Deu Martins


Recentemente encetaram os Bancos o processo de reembolso ao Estado relativo ao empréstimo de emergência que  para esse efeito tinha sido colocado à sua disposição.
No essencial o processo consistiu no adiantar de umas volumosas quantias para que estes não ultrapassassem - como se disse - uma determinada margem de segurança. Note-se, no entanto, que durante vários anos e sucessivamente, os Bancos tinham sido sujeitos aos chamados "testes de stresse", os quais tiveram como resultado o revelar de situações na região do confortável, capazes que estariam, ao que transparecia, de aguentar os embates resultantes da crise, facto que não obstou a que a Banca aproveitasse o balão de oxigénio subitamente disponibilizado.
Podemos especular se os testes são dignos de algum crédito e os Bancos apenas aproveitaram para uma melhoria dos seus rácios, ou se os testes são uma treta e anda tudo com o credo na boca e  a varrer o lixo para debaixo do tapete, enquanto os fatos impecavelmente engomados escondem  camisas cheias de buracos, vazias portanto de tecido, com a excepção convenientemente visível dos punhos e colarinhos.
Da tragédia do sistema Bancário sacudido para cima dos contribuintes no caso BPN e afins, e aflições de Banifs, a servir de aviso aos outros que recorreram ao empréstimo, sobressaiu como referência de estabilidade o BES. O BES não precisou do dinheiro. O BES estava acima da crise.
Sobe agora ao cimo a verdade do azeite.  A máquina financeira da qual o BES faz de fachada  limpa enquanto nas traseiras o negócio anda a trabalhar com a lama (eufemismo) pelo pescoço, está falida.
Não há outro nome, está FALIDA.

A táctica do BES, a da simulação da fartura, faz lembrar a de Deu-la-Deu Martins, a heroína de Monção, que sitiada pelos Espanhóis e, já quase sem farinha, decidiu fazer com ela uma última fornada de pão que atirou aos sitiantes, estes também a braços com a mesma crise de escassez de alimentos. Este acto fez com que os Espanhóis julgassem que Monção tinha vastas provisões, não valendo a pena arrastar penosamente o cerco e assim levantaram os acampamentos e retiraram-se, pondo fim ao longo estado de sítio...
Se História, se súmula de metáforas,  o BES ter-se-á certamente inspirado nela. Andando com  a mesma, ou se calhar ainda maior falta de provisões, recusou a ajuda, transmitindo assim provisoriamente uma imagem de liquidez e vantagem competitiva para o mercado financeiro, enquanto esperava que a inversão da crise o pusesse de novo os negócios no bom caminho. No entanto, e diferentemente do cerco a Monção, os sitiantes não arredaram, a crise não se foi embora, e a fome fez os ratos a pouco e pouco abandonar os armazéns até à debandada que subitamente emergiu com o caso de Angola.
Percebe-se agora muito melhor a razão principal pela qual o BES teria recusado a ajuda: as ajudas  aos outros Bancos foram precedidas de auditorias e acompanhamentos que relativamente ao grupo BES de imediato teriam fazer soar os alarmes dos técnicos
Podemos argumentar que o BES não tem nada a ver com as outras empresas do grupo, mas o argumento tão fraquinho tem o  mesmo teor de ingenuidade do devedor tranquilo que tendo um fato com quatro bolsos, não paga as contas A, B. e C,  porque os bolsos A, B, e C dessas contas estão vazios enquanto o bolso D, onde guarda as receitas está bem muito obrigado!
O sistema é o dos vasos comunicantes, os bolsos são do mesmo fato, e o fato do mesmo dono. O bolso dos trocos não dá para pagar as contas dos outros bolsos, e por mais voltas que se dê ao assunto, uma urgente injecção de capital está  provavelmente a ser equacionada para muito breve. Para evitar outro BPN, ou se calhar já o temos para a gente pagar. Mas a farinha, meu Deus! Deu-la-Deu, e agora só se fizermos pãezinhos de bosta, senhores, Pãezinhos de bosta, uma questão de Prudência, que a pouca farinha que resta, é como diz o outro, para mim...

julho 02, 2014

"Desculpe, esta é a fila para o Panteão?"

Há há uns meses atrás. escrevi algumas linhas sobre este assunto. Hoje, dia em que se trasladam os restos mortais de Sophia de Mello Bryner para o Panteão Nacional ficaram a saber-se muitas coisas que nos estranham. O Panteão já só dispõe de mais uma vaga e parece que já tem dono, pelo menos o parlamento já assim decidiu. E agora, o que fazer a tantos outros eméritos e egrégios seres que no passado, no presente ou no futuro "por obras valerosas se vão da lei da morte libertando"?
Em primeiro lugar, a ignorância política assusta e ninguém se lembra de que Panteão é onde o homem quiser. A Igreja de Santa Cruz de Coimbra, o Mosteiro da Batalha, o Mosteiro dos Jerónimos e outros monumentos acumulam funções e são também Panteões Nacionais. Por isso, não venham falar de falta de vagas, porque isto não é um concurso de professores!
Será diferente se pensarmos que talvez se esteja a vulgarizar esta homenagem e se tenha baixado a fasquia daquilo que se considera teito notável para o país e para a humanidade. Amália está porque foi o expoente máximo de uma forma musical de folclore urbano lisboeta chamado fado? Se calhar não merecia. Como diz Carlos do Carmo, 50% dos portugueses não gosta, não ouve fado, 30% tolera-o e 20% adora-o. É em nome desses que Amália repousa no templo memorável?
Eu sei que já não se deve devolver à sepultura simples quem já se encontra lá, mas não se pode decidir a quente atribuir tão distinta homenagem. Com Sophia o tempo foi bom conselheiro e sem dúvida que merece. Mas com ela, e acima dela, talvez esteja um Aristides de Sousa Mendes, cuja "obra valerosa" libertou milhares da lei da morte física, aniquilando-se a si próprio e tornando-se miserável aos olhos do poder salazarista. Parece, pois, curial pensarmos que a vaga seria sua; só que os políticos da pelota, os parlamentares do fora de jogo moral já reservaram o lugar para outro, figura importante, mas não enquadrada nos ditames de tal homenagem.
Por esta razão, o diálogo possível e imaginável é simples:
_ Desculpe, Aristides, esta é a fila para o Panteão Nacional?
_ É sim, Eusébio!
_ Então deixe passar à frente, que tenho lugar reservado.