Sobre a noção de clausura e felicidade, somos na nossa grande maioria, criaturas complexas. Tirando os casos de alterações graves de personalidade presentes nos exibicionistas, procuramos o retiro e a clausura voluntária para que nos sintamos em plena liberdade nos nossos relacionamentos íntimos.
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Butão
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Num comentário da
minha/nossa querida amiga relativo a
um post anterior falou-se de liberdade e felicidade.
A liberdade é de facto um conceito bastante vago, talvez ainda mais vago do que a da felicidade.
Poderá um monge que livremente escolhe a clausura, ser indicado como um ser livre?
E já que a sua clausura provém da livre escolha, poderá esse homem preso ser também feliz?
Se-lo á na medida em que a sua escolha livre é aquela em que a sua noção de procura de felicidade está ligada ao que o ambiente de recolhimento proporciona, mas pode não ser nada feliz na sua procura e contudo não querer sair.
Podemos dizer que a sua prisão é quase virtual, pois basta em princípio um acto de vontade para que dela saia. Tal como uns pintassilgos que fizeram ninho de uma gaiola desactivada cuja porta estava aberta, portanto não-presos numa prisão para pássaros.
Sabemos no entanto, durante a História, que muitos homens e mulheres foram monges à força. As questões de herança e partilhas, a sucessão dos ceptros do poder levaram no Velho Mundo a uma prática que deixou para trás uma grande quantidade de mosteiros.
Seriam felizes?
Enterrados vivos sem a tal vocação nem outra culpa que não fosse serem irmãos e irmãs mais novas de famílias que queriam as suas terras indivisas.
Poderiam eles tornar-se felizes mais tarde, à medida que a chama se fosse extinguindo, ou seja que se fossem amansando e baixando os braços, adaptando-se às circunstâncias, abrindo dentro da clausura portas para outras realidades?
Tudo indica que sim na grande maioria dos casos.
O chamado síndroma de Estocolmo refere-se exactamente à moldagem na relação de forças entre raptores e raptados.
Numa situação prolongada no tempo, assiste-se a uma rotação de valores, acabando por estabelecer-se uma relação solidária no que começou por ser uma dependência forçada.
Sobre a noção de clausura e felicidade, somos na nossa grande maioria, criaturas complexas. Tirando os casos de alterações graves de personalidade presentes nos exibicionistas, procuramos o retiro e a clausura voluntária para que nos sintamos em plena liberdade nos nossos relacionamentos íntimos. Somos, nas nossas sociedades, felizes nos pequenos momentos de felicidade que intervalam nas brechas dos muros que à nossa volta vamos deixando construir, mas somos também nós a construir outros muros que nos libertam...
Contudo, nos sistemas políticos actuais sentimos estar presos, cada vez mais presos.
E paradoxalmente, estas prisões são feitas - dizem os carcereiros- para que sejamos cada vez mais felizes. Ou seja, elevam cada vez mais a altura dos muros que nos separam do acesso aos meios para que possamos cada um por nós sentirmo-nos mais felizes intramuros.
Um perfeito paradoxo.
Já não existe na Europa, salvo uma minoria marginal de meia duzia de centenas de pessoas, ninguém que viva do que a terra dá sem o uso do dinheiro. Não é possível passar no crivo dum fisco universal que tudo tributa.
Quem vive das galinhas e das couves, não tem a liberdade de dizer que não vai pagar o imposto sobre a propriedade, ou no equivalente em dinheiro sobre os bens que produz. Ainda está fresco o episódio do fisco Português no seu massacre persecutório aos velhotes e as suas meia dúzia de sacas de batata tiradas do quintal à base de enxada e dores nas costas.
Ou seja, não somos livres se não possuirmos dinheiro, não só para alguma despesa lateral, mas para alimentar um fisco que o faz para que sejamos "mais felizes"...
Perante isto, qual será a medida de felicidade dos habitantes do Butão?
São obrigados ser livres e felizes, à força?
O Butão tem duas religiões dominantes, o Budismo e o Hinduismo e a Constituição proibe expressamente o prosiletismo. Ninguém pode obrigar nem ser obrigado a seguir determinada corrente religiosa. Por outro lado, a população é muito reduzida se comparada com as mega urbes das nossas sociedades: as duas maiores cidades, têm apenas sessenta mil habitantes num universo de um quarto milhão de pessoas.
As aldeias agrícolas são autosuficientes e o comércio reduzido, não há o conceito de uma economia esquizofrénica baseada na lógica do aumento constante, tendencialmente infinito, da produção e troca de bens.
Proibiram o tabaco: uma decisão acertada.
Ou seja, em termos absolutos, uma privação de liberdade. Mas o tabaco conduz ao consumo compulsivo (contra-senso do conceito de liberdade), mata que se farta, o que faz com que parte da liberdade-dinheiro que todos possuem vá direitinho para as despesas com os tratamentos das doenças.
Podemos argumentar com a privação da liberdade de escolha, mas aí também o argumento funciona no que toca ao haxixe, cocaína, etc. Predujiciais individual e colectivamente pelo impacte que têm a todos os níveis.
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| Pinochet, golpe de Estado em 1973 e o derrube do governo eleito de Allende |
Mas até no chamado Ocidente, o que era inicialmente um ritual marginal que passou para o consumo compulsivo e marca da liberdade de escolha há alterações: as pessoas podem comprar tabaco, não podem cultivar porque isso não dá impostos, mas não podem fumar em qualquer local fechado, e em muitos sítios em lado algum.
Como somos livres, temos a liberdade de optar entre alternativas, excepto nas que colectivamente nos são vedadas de forma imposta.
Como dizem os Budistas, quem quer estar em todos os lados ao mesmo tempo, não está em lado algum. Poderá então um Estado impôr um padrão de conduta? Balizar a liberdade? Dizer entre as infinitas hipóteses de escolha, quais as que podem ser seguidas?
Os ditadores pensam que sim. Mas os sistemas abertos com destaque para os EUA, arautos da liberdade, apoiaram e financiaram dezenas de ditaduras ferozes, ao mesmo tempo que diziam às suas populações que eram aliados, "moderados" que combatiam a falta de liberdade dos países comunistas. De uma forma diferente mas com os mesmíssmos resultados, os sistemas políticos balizam a liberdade, uns apenas pela força outros pela força do condicionamento da informação, não dispensando fora de portas e mesmo dentro de portas,- desde que ninguém veja nem saiba-, a força bruta: desaparecimentos, assassinatos selectivos etc.
Estamos todos rodeados de muros, não se vêem, mas sentem-se e embora de longe em longe, ou de perto em perto a onda se agigante e derrube os muros por mais altos que sejam.
Contudo, apesar das cíclicas crises sociais e politicas, somos na maior parte do tempo os reféns que simpatizam com os carrascos. Acomodados e continuando a vida com horizontes mais estreitos, de mãos atadas, e de venda sobre os olhos, contentes se houver algum alívio na mão que oferece as carícias do chicote diário. E é este o mundo livre que não trocamos por nenhum outro.
Ou seja, liberdade, liberdade, não sei bem o que é, mas tenho uma suspeita, e chego a sentir-me feliz todas a vezes que penso nela...