janeiro 12, 2015

a desgraça do TGV em Portugal, a caminho de uma nova Albânia

Saiu recentemente a público o custo do TGV que afinal não se iria fazer, mas o qual já estava em centena e meia de milhões de €uro. O custo total, a ser construido,  era nessas notícias atirado para os .... 10.000 milhões de €uro, um desmando faraónico que era de algum modo, velhacamente alocado a responsabilidades de outros governos...

Ficará para a História a satisfação de Pedro Passos Coelho ao anunciar o abandono definitivo do projecto.

Para que não se compare a genialidade Einsteiniana dos três segundos de memória dos peixinhos, com a memória de minhoca que esta gente julga serem as nossas referências, e gente lembra-se disto:

No dia 5 de Fevreiro de 2013, um improvável sorridente Victor Gaspar (mas sim, ele ri) dizia no seu pouco veloz tom de voz, a alta velocidade Portuguesa ao anunciar na TVI:

Bruxelas destinou a Portugal 1,6 mil milhões de euros para a construção do TVG – integrado no Corredor Atlântico, acordado entre os estados-membros da União Europeia – que deve avançar até 2020, mas só se o Governo assegurar a restante verba necessária (de 25%).
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“Há mais de 1,6 mil milhões de euros reservados para Portugal para projetos das redes transeuropeias relacionadas com os transportes” – dos quais 500 milhões dizem respeito ao orçamento do Mecanismo Interligar a Europa e 1,1 mil milhões dizem respeito ao fundo de coesão –, garantiu, em entrevista ao Expresso, o comissário europeu dos Transportes.
“Pediram-nos para criar as condições: um mapa e dinheiro. Isso está feito. Mas nós não construímos nada. Isso cabe aos países. Se Portugal não tiver recursos [o Corredor Atlântico] será atrasado, adiado, cancelado”, alertou Siim Kallas.
“Não vi qualquer sinal de que Portugal não tencione fazer a sua parte. Fala-se em atrasos e diferentes considerações, mas até ao momento nada de oficial”, acrescentou.
De acordo com o comissário europeu, os projectos de construção na nova ponte sobre o Tejo e do novo aeroporto em Lisboa deverão ficar parados, pelo menos até 2020, ano em que termina o atual quadro financeiro europeu.
Ou seja, o projecto total agora era financiado em1600 M€, 75% (não 85%) os quais sendo 1.600 milhões de €uros perfazem o custo total (dos 100% portanto) de 2.200 M€., Bem abaixo dos tais 10.000 milhões atirados pelas TV e jornais para cima dos nossos desgraçados neurónios.

Vamos dar de barato que ficaria pelos 2.500 M€, muito dinheiro mas de que a Europa pagaria 75%
O grande problema é agora o seguinte.
Quando demagógicamente se alarvejou nas TV's  hiper-inflaccionando os valores sobre os custos do TGV e da suposta megalomania não se disse  que quando a nova linha Badajoz-Madrid estiver terminada (final de 2016), em breve, o porto de Sines não vai poder de transportar contentores, nem de, nem para a U.E. nem para Espanha, por Badajoz.
Espanha vai desactivar, em 2016, as linhas que permitiam a ligação via caminhos de ferro entre Portugal e a Europa.
A única opção passa pela construção de raiz do troço Poceirão-Caia, em bitola europeia,(TGV) 
para mercadorias e passageiros e sua ligação aos portos de Sines, Setúbal e Auto-Europa, a qual, como todas as grandes empresas, a nível mundial, não possui stocks de matéria prima para mais do que um dia, dependendo do fornecimento diário, apenas economicamente viável por via férrea.
A farsa, Kafkiana e estupidificante, consiste no argumento recorrente de que não existem meios financeiros. Ora bem, mas não falando já do eterno saco azul que magicamente acode a tudo o que é banca estoirada, vão fazer um desnecessário porto de contentores na Trafaria para o qual estão 1000 milhões de  €uros destinados.
Algo totalmente incompreensível à luz da pergunta subsequente à razão mais básica:
mais contentores a descarrager em Portugal?
Para quê?
Preveêm um brutal aumento do consumo interno?
Não é de todo previsível.
Para seguirem para a Europa?
Por Lisboa, Trafaria, estando este governo alérgico a ferrovias, só com uma nova auto estrada, a que existe nem dá para o tráfego actual, recheada que está de atrasos e filas de quilómetros todos os dias.
Não pensem também em cento e oitenta quilómetros de auto-estradas- Sines - Badajoz, /Sines- Sevilha, cheio de camiões, pois a ligação de Sines às auto-estradas foi suspensa por este governo e no estado actual, os restos mortais das obras estão mesmo mortos.
E mesmo que estivessem feitas as ligações rodoviárias, o transporte exclusivamente feito por esse meio acarreta um brutal aumento de custos e demoras  nas transferências.rodo/ferroviárias além de uma dimensão de infrasturuas e logistica que não se sabe se haverá em Espanha.
Bem podem os comentadores acéfalos vomitar argumentos, sempre a favor do governo; sem ligação ferroviária de bitola uniformizada estamos mesmo tramados, não há como viabilizar os portos e industrias com a Auto Europa vêem a sua competetividade comprometida.
Tanto para a importação de matérias a granel, de forma rápida, como com a mesma rapidez escoar mercadoria, precisamos de estar ligados à Europa.
De outra forma, talvez por tele-transporte, SMS, ou mail,  já que depois do levantamento das linhas em Espanha, e do provável esvaziamento da TAP,  passaremos a ser uma literal jangada de pedra à deriva, rasgada não pelos Pirineus, mas pelo picotado de papel higiénico que separa  por fronteira este mísero rectângulo do resto do mundo.
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janeiro 11, 2015

INTOLERANTES COM A INTOLERÂNCIA


Nem todos sabem, mas eu sou mesmo um rapaz natural das berças, de espírito fechado e bem tacanho, especialmente até aos 18 anos. Claro que muito devo à terra e aos meus, mas muito daquilo que eu hoje sou como ser pensante devo-o a uma pessoa que pouca gente conhece e quando falo do seu nome fora do meio académico todos perguntam: 'Alberto quê?'
No longínquo ano de 1984, segui de Lamego (de uma aldeia simples) para Lisboa, em cuja faculdade de letras tinha entrado. Foi um choque sem conto; senti-me por lá sozinho, perdido, sem saber o que por lá faria. Fui sobrevivendo e a meio do semestre fui obrigado a alterar uma cadeira de Literatura por uma de Cultura Portuguesa. Tinha duas opções: ou António José Saraiva (sim, o pai daquele meio jornalista que preferia dar os 100 milhões de euros ao Belmiro do que a 100 mil pobres) ou Alberto Ferreira, figura menos mediática, mas de uma humanidade sem limites.
Quem foi (é) Alberto Ferreira? Podem ver o seu papel na cultura portuguesa na wikipédia http://pt.wikipedia.org/wiki/Alberto_Ferreira . Mas não é bem deste perfil que eu quero falar. Eu quero falar-vos de um homem que foi preso pela pide; um homem que caminhava todo torto; um homem que suplicava para lhe levarmos a pasta; um homem que tinha sofrido estirações na sede da PIDE e, por isso, tinha as vértebras presas com agrafos. Foi ele um homem que um dia me chamou 'diamante em bruto' (simpática maneira de dizer que eu era um saloio com potencial) e num outro dia me disse que o Homem tem de ser tolerante com tudo e com todos. Abria uma exceção: só não se podia ser tolerante com os intolerantes. E isso marcou-me muito.
Escrever, discordar, caricaturar, criticar, satirizar não é ser intolerante; ser intolerante é não permitir que o outro viva porque não tem a mesma ideia que eu tenho. Isso é ser intolerante. São esses intolerantes que algumas bestas quadradas tentam justificar. E reparem, ao chamá-las 'bestas quadradas' eu estou a ser tolerante, pois permito-lhes esse privilégio de o serem. Tolerância é isto!

janeiro 08, 2015

je suis Charlie


Depois de tantas e tão ilustres perorações sobre a infame ocorrência pela qual, ontem, em Paris, foram assassinados quatro acérrimos defensores da liberdade de expressão e do livre arbítrio – aqui entendido no seu mais assumido significado de vida em prol da comunidade –, assassinados eles a par de vários outros seres humanos cuja única e funesta circunstância terá sido o de se encontrarem naquele local e naquela hora hedionda, pouco mais há a dizer que perturbe um silêncio reflexivo.

Mas uma coisa me parece clara por entre a espessa neblina dos interesses e hipocrisias instalados: qualquer ser humano (?) que manifeste, por pensamentos e actos, o seu tão flagrante desprezo pela vida humana alheia, apenas pode e deve esperar dos demais um pagamento na mesma moeda.

Entretanto, não é despiciendo que a Humanidade no seu todo, se me for perdoada a redundante tautologia, colha mais esta sangrenta lição que aponta para a urgência de progressiva e incessante diminuição das assimetrias que, no mundo todo, geram os pântanos insalubres onde medram tão abjectas criaturas como aquelas que ontem, em Paris, dispararam infamemente contra homens desarmados, cujo único senão era o de pensarem de modo diferente.

Vítimas estas, sim, gente como eu e tu, que acreditam que a redenção do ser humano se encontra nele próprio, na sua conjugação com os demais. 

janeiro 04, 2015

anseios do preso modelo

Raim on Facebook

Não deixemos a TAP entregue aos Abutres


 




Um governo que assalta os interesses do Estado, que somos todos nós, não tem legitimidade para "vender" seja o que fôr. É um abuso de confiança, uma extrapolação de competências; foram eleitos mal ou bem para gerir o Estado e não para o desmantelar, sejam quais forem os argumentos que utilizem.
Um Estado que não tem quaisquer instrumentos de gestão, num pais pequeno e sem escala e dimensão que possa fazer peso, não tem qualquer capacidade de intervenção reguladora como demago...gicamente ventilam.
Temos todos assistido ao que aconteceu com as privatizações / ofertas das empresas anteriores. As contrapartidas da EDP, por um canudo, a CIMPOR neutralizada com todos as valias do lado do comprador e nem os impostos cá chegam. A desgraça da ANA que aumentou brutalmente os custos de operação de navegação aérea sem contrapartidas, a PT que vai de cano abaixo, sem que isso faça o PPC dormir menos descansado.
E no fim para que serviu?
PARA NADA.!
Os rendimentos das empresas superam já, apenas nesta legislatura ,o valor que as privatizações abateram (?) ao défice, o qual no seu global, subiu mais 30%.
Ou seja, quem as comprou continua a facturar e o Estado dali quase nem as migalhas vê!
E agora querem despachar a TAP dizendo que não tem uns míseros trocos?
Mas para os vigaristas da Banca apareceram logo milhares de milhões!
Não! já chega de desmandos e maus negócios.
 

dezembro 24, 2014

Natal, mesmo de improviso...

A todos, 

Acabei de ler uma intensa sugestão de Natal no blog Relógio de Pêndulo, do meu amigo Herético:


que, também intensamente, vos recomendo.

Já leram? E, então, que tal...? 

Natal é, pois, como fica claramente documentado nesta exemplo, aquilo que o nosso olhar apura, o que as nossas mãos constroem, o abraço que perseguimos e obtemos.

Tudo aquilo que, por outro lado, indecentemente, nos cerca e avassala:  ricardos, antónios diversos, josés de manjedouras, coelhos e outras alimárias congéneres, portas fechadas ou cavacos mal passados no fogo primordial, a desarrumação dos dias e a ansiedade das noites, nada disso vai além da muito efémera existência... por muito que perturbe a nossa única e imprescindível existência.

É, pois, também por aquele olhar que, em redor da minha mesa de Natal, eu sei que todos os lugares estão preenchidos. Nalguns casos por memórias. Noutros mais por seres viventes. Mas todos entoando os cânticos necessários e urgentes que sempre ajudam a confortar espíritos.

O Herético, da lisura da sua «alma ateia», ouviu o Gloria in Excelsis Deo. Não posso deixar de estar de alma absolutamente solidária com a dele. 

Quem quiser, faça o favor de se chegar ao grupo. E este Natal terá, certamente, outra graça.

Boas festas!


dezembro 22, 2014

«A III Guerra Mundial» - Boaventura Sousa Santos

Tudo leva a crer que está em preparação a III Guerra Mundial. É uma guerra provocada unilateralmente pelos EUA com a cumplicidade ativa da UE. O seu alvo principal é a Rússia e, indiretamente, a China. O pretexto é a Ucrânia. Num raro momento de consenso entre os dois partidos, o Congresso dos EUA aprovou no passado dia 4 a Resolução 758, que autoriza o Presidente a adotar medidas mais agressivas de sanções e de isolamento da Rússia, a fornecer armas e outras ajudas ao Governo da Ucrânia e a fortalecer a presença militar dos EUA nos países vizinhos da Rússia. A escalada da provocação da Rússia tem vários componentes que, no conjunto, constituem a segunda guerra fria.
Os componentes da provocação ocidental são três: sanções para debilitar a Rússia; instalação de um governo satélite em Kiev; guerra de propaganda. As sanções são conhecidas, sendo a mais insidiosa a redução do preço do petróleo, que afeta de modo decisivo as exportações de petróleo da Rússia, uma das mais importantes fontes de financiamento do país.
Esta redução trará o benefício adicional de criar sérias dificuldades a outros países considerados hostis (Venezuela e Irão). A redução é possível graças ao pacto celebrado entre os EUA e a Arábia Saudita, nos termos do qual os EUA protegem a família real (odiada na região) em troca da manutenção da economia dos petrodólares (transações mundiais de petróleo denominadas em dólares), sem os quais o dólar colapsa enquanto reserva internacional e, com ele, a economia dos EUA, o país com a maior e mais obviamente impagável dívida do mundo.
O segundo componente é o controlo total do Governo da Ucrânia, de modo a transformar este país num estado satélite. O respeitado jornalista Robert Parry (que denunciou o escândalo Irão-contras) informa que a nova ministra das Finanças da Ucrânia, Natalie Jaresko, é uma ex-funcionária do Departamento de Estado, cidadã dos EUA, que obteve cidadania ucraniana dias antes de assumir o cargo. Foi até agora presidente de várias empresas financiadas pelo Governo norte-americano e criadas para atuar na Ucrânia. Agora compreende-se melhor a explosão, em fevereiro, da secretária de Estado norte-americana para os assuntos europeus, Victoria Nulland: "Fuck the EU." O que ela quis dizer foi: "Raios! A Ucrânia é nossa. Pagámos para isso."
O terceiro componente é a guerra de propaganda. Os grandes media e seus jornalistas estão a ser pressionados para difundirem tudo o que legitima a provocação ocidental e ocultarem tudo o que a questione. Os mesmos jornalistas que, depois dos briefings nas embaixadas dos EUA e em Washington, encheram as páginas dos seus jornais com a mentira das armas de destruição massiva de Saddam Hussein, estão agora a enchê-las com a mentira da agressão da Rússia contra a Ucrânia.
Peço aos leitores que imaginem o escândalo mediático que ocorreria se se soubesse que o Presidente da Síria acabara de nomear um ministro iraniano a quem dias antes concedera a nacionalidade síria. Ou que comparem o modo como foram noticiados e analisados os protestos em Kiev em fevereiro e os protestos em Hong Kong das últimas semanas. Ou ainda que avaliem o relevo dado à declaração de Henri Kissinger de que é uma temeridade estar a provocar a Rússia.
Outro grande jornalista, John Pilger, dizia recentemente que, se os jornalistas tivessem resistido à guerra de propaganda, talvez se tivesse evitado a guerra do Iraque em que morreram até ao fim da semana passada 1.455.590 iraquianos e 4801 soldados norte-americanos. Quantos ucranianos morrerão na guerra que está a ser preparada? E quantos não-ucranianos?
Estamos em democracia quando 67% dos norte-americanos são contra a entrega de armas à Ucrânia e 98% dos seus representantes votam a favor? Estamos em democracia na Europa quando uma discrepância semelhante ou maior separa os cidadãos dos seus governos e da Comissão da UE, ou quando o Parlamento Europeu segue nas suas rotinas enquanto a Europa está a ser preparada para ser o próximo teatro de guerra e a Ucrânia a próxima Líbia?

Boaventura Sousa Santos

Artigo da revista «Visão» disponível aqui.

dezembro 09, 2014

A posta que não ouves

O sentimento de revolta é um dos que mais mobilizam qualquer pessoa. Seja provocado por motivos plausíveis ou apenas fruto de um raciocínio mal formulado, ou mesmo de um erro de interpretação, desenvolve-se como um tumor maligno enquanto persistir a questão que lhe deu origem.
De entre as revoltas possíveis, a revolta surda é potencialmente a mais nociva. Sobretudo porque tende a emudecer.

O cliché da panela de pressão veste como uma luva qualquer descrição da revolta surda enquanto factor de perturbação. A pessoa acumula essa força interior mal contida, absorve cada sinal, cada confirmação, nem sempre fidedigna, da legitimidade da sua ira. A pessoa ou o país.

É sempre de estranhar quando alguém, ou um povo, sente na pele o efeito de injustiças que se somam às provocadas por um rácio desfavorável entre a sorte e o azar e opta por refilar em surdina.
Aos poucos, a revolta surda vai exprimindo o seu paralelo com um vulcão. São pequenos abalos sísmicos, desabafos soltos aqui e além, aumento da concentração de gases perigosos, a mente a abdicar da racionalidade sem se aperceber. Indicadores a que poucos atribuem relevância e afinal são gritos de alerta para a iminência de uma erupção.

A revolta surda não sabe falar. A sua linguagem é equivalente à de uma granada de mão. Aparentemente inofensiva até alguém lhe puxar pela cavilha e o inferno acontecer, o caos espelhado em estilhaços aleatórios que atingem quem estiver mais a jeito.
Alimenta-se a si própria, sem controlo, uma vez deixada à solta na razão. E é essa a primeira vítima do massacre subsequente à revolta engolida quando a sua natureza é ser cuspida nem que sob a forma de um palavrão.

São poucas as escapatórias encontradas por alguém, ou uma população, na lógica que noutras formas de revolta acaba por prevalecer.
A revolta surda, por se sentir amordaçada, é mais eficaz que as restantes na arte de ensandecer.

dezembro 07, 2014

A política e o domingo

SOARES FAZ 90 ANOS
Devo dizer que nunca coloquei a cruz no seu nome, mas vejo o evidente:
Hoje, as televisões abriram o jornal da uma todas com a mesma notícia. Olhando para as imagens, vemos gente de todos os quadrantes políticos a felicitá-lo. Gente que, como ele, já apresenta provecta idade e as cãs da vida pública dedicada. Serão todos bons? Será o aniversariante bom? Talvez não, mas lá estavam aqueles que nas épocas de menor segurança abandonaram a sua área de conforto e lutaram por ideais, muitas vezes antagónicos, mas, na sua mente, os ideais de um Portugal melhor.
Frequentemente se criticam as senilidades desta geração; porém, se não tivessem sido eles, estes jotinhas que hoje nos governam pugnariam todos por ideias da União Nacional e da Mocidade Portuguesa.
Uma geração que não sabe respeitar a memória dos mais velhos não merece ser recordada no futuro. Há algumas múmias que não se fizeram representar e outros cachopos que assobiam para o lado, mas quando fizerem os seus 90 anos, nada mais terão a seu lado que a enfermeira do Lar e um ou outro familiar dedicado. É esta a lição da vida.


E O SENHOR VOTA EM QUEM?
Desde as minhas aulas de 10º ano, na disciplina de Noções de Administração Pública, que ainda não compreendi nem aceitei o método de eleição de deputados na nossa república.
Achava muito bem que os deputados fossem eleitos por círculos regionais, para defenderem os interesses dos seus eleitores. Grande engano!
Os deputados da Madeira votaram contra o OGE e vão ser penalizados, incluindo o Vice Presidente da Assembleia. Há uns anos, os deputados de Coimbra do PS e outros que eram professores também votaram contra e foram censurados. Sobre os interesses dos eleitores estão os interesses dos partidos, a disciplina de voto.
Ora bolas. Votar para quê? Que sistema injusto é este. Por exemplo, o círculo eleitoral de Portalegre elege um só deputado (ou PS ou PSD), mas o boletim contempla todos os partidos. Para onde vão os votos nesses partidos? Simplesmente não vão!
Defendo abertamente os grupos independentes de cidadãos que não obedeçam a disciplinas partidárias, assim como defendo o fim dos círculos eleitorais. Deveriam ser os partidos a elaborar uma lista com candidatos de todo o país e os votos cairiam por atacado. Todos os votos seriam úteis e poríamos fim ao desperdício (neste caso, de votos), o que tão bem nos ficaria.

dezembro 05, 2014

Hoje apetece-me ser criminosamente demagógico, ainda que no usufruto pleno da minha constitucionalíssima liberdade de expressão

Colhendo, porventura, o exemplo conspícuo e péssimo de alguns que me governaram (e governam) sem que eu lhes tenha para isso dado aval, mas porque assim funciona a nossa abençoada e, acima de tudo, querida Democracia.

E o caso é que vi e ouvi com estes meus apêndices sensoriais que me consta que a terra há-de comer, coadjuvada por uma miríade de pequenos seres subterrâneos – e, ainda assim, mais preclaros que os tais que me governaram e governam, diga-se... – enfim, vi e ouvi, ontem, em programa televisivo dedicado à actividade prolífica a que se dedicam os estudantes do Erasmus por essa Europa afora, coisa de espantar!

Eis a coisa:

Uma jovem portuguesa, em pleno recurso ao Erasmus e em diáspora por terras alemãs, tomou-se de amores por aquele que se lhe revelou o amor da sua vida – a quem apresento as minhas incomensuráveis desculpas por não ter retido a respectiva nacionalidade – e, como acontece muitas vezes nestas conjugações astrais, a coisa precipitou-se na confecção bilateralmente arquitectada de um pimpolho.

Até aqui, nada de especial, para além de este pimpolho integrar cerca de um milhão de outros pimpolhos gerados com o favorecimento do Erasmus – que se revela, assim, um poderoso estimulante erótico e procriador, propiciador do enriquecimento e refrescamento genético da velha Europa, que anda tão necessitada disso como de muitas outras  coisas, aliás.

Ainda nada de espectacular, convenhamos.

Mas eis senão quando a jovem, disfrutando de umas férias em Portugal, nos revela, em entrevista, o seguinte – e parece-me que não deixei escapar migalha:

- Após ter encontrado um emprego na Alemanha, eventualmente lançando mão da formação superior obtida no país dos atrasados que somos nós, e antes do aparecimento do pimpolho, mas depois de ter encontrado o amor da sua vida, segundo percebi, já, portanto, contando o casal com uma estabilidade razoável (o que, em Portugal, é circunstância proscrita e só atingível por treinadores de clubes de futebol de primeira água) com casinha montada, estabilidade emocional e tal, lá chegou a vez do projecto parental, em conformidade com a ordem natural das coisas.

Mãos e outras anatomias lançadas à obra e filho feito, a jovem trabalhadora alemã, ainda que de nacionalidade portuguesa, vê cairem-lhe ao colo e só porque as regras assim mandam lá por essas terras longínquas, 3 (três) anos de licença de parto, com remuneração por inteiro, a que o nobre e avisado estado alemão acrescenta, em termos de abono de família e pela existência do acima referido filhote, 400 – digo bem – , quatrocentos euros por mês.  

Ou seja, se percebi bem, o estado alemão remunera por um filho o que, em Portugal, o nosso estado considera justa remuneração por um mês de trabalho, a quarenta horas por semana.  
  
Se presumirmos – e só mesmo por presunção, claro – que a jovem não estava a enfiar-nos um barrete por bem intencionado que fosse e que, pelo contrário, nos relatava a pura das verdades com quantos dentes tinha na boca, eu quedei em estado semicomatoso do qual ainda não recuperei completamente...

Quantas Europas há por esse mundo fora sem me avisarem? A quantos anos-luz estamos para aqui destas realidades europeias?


E, cuidado, que se algum palerma me vier dizer que a questão reside na produção desigual de riqueza entre os dois países e porque é dado consabido e adquirido que os trabalhadores portugueses são universalmente tidos como dos melhores desse mesmo universo e arredores, eu fico capaz de assassinar o primeiro gestor da coisa privada como da pública, governantes incluídos, que me apareça pela proa!