É compreensível que no contexto de degradação crescente da imagem da que se convencionou apelidar de classe política, particularmente notória no hermetismo das estruturas partidárias que os produzem e albergam, as ideologias comecem a perder protagonismo no momento das decisões eleitorais.
É isso o que explica o facto de muito boa gente se preparar para ir votar contra o Sócrates e não a favor de qualquer alternativa em concreto.
A armadilha, como a sentem muitas pessoas e depois de centralizadas as atenções não nos partidos mas nas respectivas lideranças, consiste numa ausência de opções credíveis de entre as alternativas ao mau da fita da moda.
Ou seja, as pessoas começam por se despolitizarem para poderem concentrar-se no perfil de um Primeiro-Ministro alternativo ao que todos querem ver pelas costas e dão consigo perante um cenário confrangedor.
Se pusermos de parte as ideologias, embora tal não faça muito sentido se queremos levar a Democracia a sério, podemos de imediato apontar baterias para dois dos cinco candidatos com maiores hipóteses de virem a governar o país.
Claro que só mesmo a brincar poderíamos considerar Louçã ou Jerónimo para o cargo de PM, sobretudo desde que, ao recusarem falar com o FMI, confirmaram que os seus partidos emparceiram numa estratégia (e numa ideologia) que em termos práticos faria com que a eleição de qualquer deles implicasse o imediato isolamento do país relativamente à União Europeia. Não há mesmo hipótese de conciliação entre as propostas de ambos e a realidade factual como nos é imposta.
E se Jerónimo, por muito boa pessoa que pareça, é um líder refém do seu Partido e da inegável (e indispensável, por uma questão de sobrevivência) ortodoxia que mantém coesa a casa comunista, por outro lado é fácil de adivinhar a sua transfiguração caso se visse confrontado com a necessidade de implantar em todo um país o pulso de ferro que mantém em sentido o seu eficaz aparelho partidário, sem abébias para a contestação individual dos superiores interesses do colectivo. É assim, e gostos não se discutem.
Já de Louçã, a pessoa, a poucos portugueses ouvi referirem ser uma figura que inspire confiança. Existe algo de escorregadio na atitude e na expressão do forever young e é difícil acreditar que alguém o leve a sério como potencial PM deste país, ademais tendo-se colado à birra comuna relativamente à discussão do futuro imediato do país com os de fora que ajudaram a chamar.
Restam três.
O homem das feiras e o das barrac(ad)as
Começo por Paulo Portas que com tanto calo nisto dos confrontos se tornou aos poucos num encanto de imagem, um encantador de serpentes que a maioria já topou como serpente encantadora e que apenas se coloca a jeito, braços abertos para recolher as sobras laranja, os votos dos que já perceberam que têm um líder passaroco e que o dirigente dos populares é o único à altura da outra raposa destas andanças, Sócrates, que já se provou ter na mão o seu Partido e o eleitorado socialista.
A Paulo Portas, pelo Partido a que pertence e por toda a gente já ter percebido que é um grande músico, pouco mais se pedirá do que alargar a bancada parlamentar do CDS/PP e servir de emplastro para qualquer dos outros dois sem maioria absoluta. Para governarem com um mínimo da estabilidade que é mais do que nunca exigível terão provavelmente que levar com ele.
Passos Coelho até parece ser um gajo porreiro, ao ponto de já andarem os abutres a cravar-lhe facadas em forma de recusa de convites ou de bocas foleiras a partir dos comentadores televisivos nos seus poleiros de consolação.
Porém, há qualquer coisa de ingénuo naquele olhar de menino doce que alterna com o do estadista to be que não lhe assenta bem. E depois há meia dúzia de calinadas, de escolhas desastradas, de pequenos enormes detalhes que não queremos ver no fulano que se sentar em São Bento para obrigar a malta a fazer o que o FMI manda.
E resta quem? Pois claro, resta o Grande Satã, o homem de que ninguém gosta mas o único que revela em simultâneo a rodagem necessária para o desempenho do cargo que tem ocupado, a evidente habilidade para lidar com os parceiros europeus com quem precisamos muito de manter contacto próximo e amigável nos próximos anos e a tenacidade imprescindível para qualquer líder de um país que tem que andar na ordem.
Ou então não faz sentido falar do seu poder absoluto num PS com tradição no produzir de dissidentes desbocados (e despeitados), de vozes do contra que só se calam quando lhes falha a argumentação. É uma coisa ou é a outra.
O Sócrates à Mourinho
Sim, José Sócrates é uma rata velha, um raposo, um furão capaz de comer Coelhos ao pequeno-almoço em matéria de talento para o ofício. É essa a maior frustração dos sociais-democratas, terem o pássaro na mão e calhar-lhes na rifa um lapino sem tino que está em vias de o espantar.
Claro que o povo só pode desconfiar de um gajo assim, esse Sócrates à Mourinho, mau feitio, atrevidote, bem parecido o bastante para não dar muito trabalho ao Luís. E com presença suficiente para manter na ordem os seus, chefe mas muito, verga mas nunca parte como o fizeram alguns dos seus antecessores.
É bom demais para ser verdade e por isso é muito conveniente acreditá-lo ladrão, vigarista, embusteiro, maricas até.
Mas tem-os no sítio e contra isso nada a fazer. E se calhar é mesmo por isso que o Povo, coração generoso e enorme capacidade de perdão, cairá em si e como o voto é secreto lá irão botar a cruz no partido do gajo de quem disseram cobras e lagartos nos desabafos de cabeleireiro ou de esplanada e continuarão a dizer, negando a sua escolha para não parecer mal.
É esse um cenário cada vez mais possível neste Portugal que já desistiu de esperar por D. Sebastião e começa a aterrar num mundo real onde faz falta uma liderança firme que, por ironia, de todos os candidatos mais habilitados o menos desejado é o mais capaz de inspirar.





