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janeiro 08, 2015

je suis Charlie


Depois de tantas e tão ilustres perorações sobre a infame ocorrência pela qual, ontem, em Paris, foram assassinados quatro acérrimos defensores da liberdade de expressão e do livre arbítrio – aqui entendido no seu mais assumido significado de vida em prol da comunidade –, assassinados eles a par de vários outros seres humanos cuja única e funesta circunstância terá sido o de se encontrarem naquele local e naquela hora hedionda, pouco mais há a dizer que perturbe um silêncio reflexivo.

Mas uma coisa me parece clara por entre a espessa neblina dos interesses e hipocrisias instalados: qualquer ser humano (?) que manifeste, por pensamentos e actos, o seu tão flagrante desprezo pela vida humana alheia, apenas pode e deve esperar dos demais um pagamento na mesma moeda.

Entretanto, não é despiciendo que a Humanidade no seu todo, se me for perdoada a redundante tautologia, colha mais esta sangrenta lição que aponta para a urgência de progressiva e incessante diminuição das assimetrias que, no mundo todo, geram os pântanos insalubres onde medram tão abjectas criaturas como aquelas que ontem, em Paris, dispararam infamemente contra homens desarmados, cujo único senão era o de pensarem de modo diferente.

Vítimas estas, sim, gente como eu e tu, que acreditam que a redenção do ser humano se encontra nele próprio, na sua conjugação com os demais. 

setembro 06, 2012

A posta que se ele quiser fico caricaturado aos bocadinhos


Se eu fosse um fundamentalista desportivo ou um deficiente motor careta e estivéssemos num país “daqueles”, estaria aqui a exigir a morte ao infiel capaz de caricaturar a vaca sagrado do cidadão com deficiência, um dos temas que mais impõe o politicamente correcto levado ao extremo da caridadezinha mental daqueles que eliminam a polémica erradicando tudo quanto possa provocá-la.
Mas não sou. E por isso, como simples exercício, simples usufruto deste paraíso que é a liberdade de expressão, entendi postar o meu desconforto perante algo postado por um colega de um blogue que, sendo colectivo, não é alimentado por amibas sem reacção.

Direito ao assunto: sinto-me desconfortável com as postas do Raim, nomeadamente as subordinadas à temática dos paralímpicos.
Podia, claro, enviar um email ao próprio e colocar-lhe a questão em privado: olha lá mano, qual é a tua onda afinal? Mas não era mesmo a mesma coisa, pois estaria a ocultar o meu desconforto apenas para não perturbar o comodismo consensual que qualquer hipócrita privilegia.
Por isso e porque os temas em foco (a tristeza do Ronaldo e o julgamento do sogro que esvaziou uma pistola no genro com a neta ao colo) não bastam para estimular uma posta em condições entendi trazer à luz do dia a minha sensação desagradável, sem por isso exigir a sharia contra o réu filisteu ou hebreu ou lá o que ele seria aos olhos de quem tenha o dedo da censura mais ligeiro no gatilho.

Assumo sem problemas que o meu desconforto passa menos pelo hipotético pecado implícito na expressão popular “há coisas com que não se brinca” e mais pela constatação de o meu sentido de humor se revelar incapaz de apanhar a ideia.
Ou seja, não sendo possível uma abordagem não subjectiva à minha incapacidade de entendimento acabo por aproveitar a boleia da liberdade de expressão e do direito de resposta ou o raio que o parta para apontar o dedo acusador ao ilustre criador com o qual partilho este espaço em igualdade de circunstâncias, na saúde e na doença, na riqueza e na miséria, até que o Facebook ou a falta de pachorra nos separe.
E esse dedo, firme e erecto como é apanágio do respectivo dono, aponta no sentido de achar que é pá, tá mal gozares assim com as pessoas diferentes, tão intocáveis na lógica mesquinha dos proibicionistas capazes de colocarem a cabeça de um cartoonista a prémio por ousar a paródia com figuras ou conceitos que na sua compartimentação apertada das doutrinas e respectiva aplicação prática não se prestam à brincadeira.
Nem que seja a brincar…

Por isso, para marcar a diferença e não exigir o apedrejamento público (ou em privado) do meu parceiro blogueiro (ou blogger ou bloguista, escolhei o que melhor vos sirva), aproveito para manifestar a minha ligeira indisposição física por ter comido que nem um alarve ao almoço e mental por ter que lidar com a minha reacção instintiva à cena do Raim. E por não querer suportar ambas em silêncio, até porque para a falta de sentido de humor não existem uma água das Pedras, um Kompensam ou um Alka-Seltzer eficazes.

Isto a propósito do que distingue o mundo dos verdadeiros aleijadinhos (os fundamentalistas) e o das pessoas normais que conseguem encaixar os seus desagrados, que são só seus, num contexto da sociedade em que temos que aturar-nos as pancas nem que para isso tenhamos que virar a cara para não termos que reagir em conformidade (como tento fazer nesta ocasião).
Sim, quem não gosta não é obrigado a comer. Se come e não gosta, das duas uma: ou refila com maneiras porque tem direito à sua opinião ou cala o bico e muda de mesa para não atrapalhar a refeição dos que a saibam degustar sem por isso terem que dar satisfações a alguém.

fevereiro 27, 2010

O argumento do lápis azul

Aprendi com o meu Pai, desde criança, a absorver as lufadas de ar fresco que eram sempre - e continuam a ser - os artigos do Jornal do Fundão (de que o meu Pai era o correspondente em Caria). Tive o prazer de conhecer pessoalmente o António Paulouro, fundador do jornal e excelente Pessoa. Sempre soube dos artigos censurados antes do 25 de Abril, por vezes páginas inteiras que deixavam a redacção do JF numa azáfama para substituir os espaços vazios. O JF, nas suas edições actuais, recorda sempre exemplos dessa censura. O desta semana 25 de Fevereiro) conta o que se passou com uma notícia de Julho de 1967 em que se falava de José Afonso, "o precursor de nomes e talentos como Adriano Correia de Oliveira, Luís Cília e Manuel Freire". Sacrilégio! O lápis azul (com uma seta bem marcada) obrigou a que o artigo saísse sem duas palavras que apareciam juntas, provocando urticária aos senhores do lápis azul: "José"... e "Afonso".