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fevereiro 08, 2014

O povo tem fome...

O Povo tem o quê?
Tem fome?!
Hahaha
Oh-oh -oh... 

Ora...dêem-lhe brioches!!!






O Povo tem fome?
oh......




Dêem-lhe Porsches!!!
















... É de perder-se a cabeça...







outubro 09, 2013

A posta na plástica

É fácil rotular o cuidado (que se tem por excessivo) que algumas pessoas dedicam à sua aparência. Basta considerar coisas como o botox, o silicone ou o branqueamento anal.
É fácil porque é excessivo. Porém, é impossível traçar uma linha a partir da qual já podemos catalogar um excesso, salvo raras excepções, sobretudo num domínio em que cada um/a sabe de si e todos têm o direito a não levar com considerações de terceiros acerca de opções tão pessoais.
Claro que isto é muito claro na teoria. Na prática, apontamos o dedo a quem acrescenta as mamas enquanto reparamos que está na altura de cortar as unhas.

Onde quero eu chegar com isto? As tais linhas que todos gostamos de traçar relativamente às escolhas dos outros são imaginárias e subjectivas (quase mitológicas, portanto) e nunca coincidem com as das pessoas visadas.
Definimos os nossos próprios limites mas isso não nos impede de os alterar ao longo do caminho, nem que pelo efeito tramado da passagem do tempo no nosso visual.
Alguns dos que se chocam com o excesso de maquilhagem de outrem pintam o cabelo de outra cor que não a sua, deitando às urtigas o tal conceito do artificial que, bem vistas as coisas, veste os dois exemplos em causa ainda que com diferentes (e hipotéticas) gradações.

É o tal piso escorregadio dos limites e das avaliações quantitativas, nos outros como em nós. Às tantas, mesmo os que se afirmam alheios a essas coisas da aparência acabam um dia confrontados com a realidade da sua. E lá vão por água abaixo os argumentos “para fora”, na reacção hostil à verdade que qualquer espelho insiste reflectir.
A aparência, que não conta para ninguém, é lixada quando constitui uma clara desvantagem na interacção com os tais outros que também afirmam não ligar coisa alguma e depois a pessoa cai do céu quando percebe que falar é fácil e que toda a gente vai concentrar a atenção na borbulha feia por cima do nariz.

Para felizes contemplados com um visual agradável de origem o problema pode assumir proporções mais sérias, pela novidade da perda de confiança em si mesmos, o abanão num dado adquirido tão fácil de tombar pelo efeito da perda de um dente frontal ou de largas porções de cabelo. Ou das primeiras rugas. Ou de outra coisa qualquer que se imponha como um handicap potencial e seja demasiado óbvia para dissimular.
É nessa altura que a aparência passa de figurante a protagonista e o filme é quase de terror.

Tudo é muito relativo e de estanque já nem se safam as verdades ditas universais como, por exemplo, a que dizia que as pessoas e os livros não se julgam pela capa.
Nas bibliotecas como no resto da vida, são instintivamente escolhidos os mais apelativos, os mais perfeitos, os mais bonitos, os mais jovens e depois do que a vista selecciona, só depois, podem eventualmente impor-se outros detalhes a que chamamos “as coisas importantes” ou assim.
E o resto, perdoem-me a franqueza, não passa de mais um politicamente correcto folclore das boas intenções.

maio 19, 2013

«A grande curva de Gauss» - João

"Esqueça o Euromilhões, porque é muito provável que não lhe tenha saído, e leia isto com os pés bem assentes na terra. Lembrar-se-á, certamente, de como em criança muita coisa lhe era permitida. Com umas educações mais permissivas que outras, é certo, os primeiros anos de vida são marcados por alguma liberdade. Não deixa de ser, à sua maneira, um paradoxo: dependemos dos pais, não podemos ir sozinhos para muito longe, não garantimos por nós mesmos os essenciais da vida, e nem sequer temos uma consciência plena de tudo quanto nos rodeia – das coisas visíveis e das dissimuladas -, e no entanto somos, provavelmente, o mais livres que alguma vez seremos. Na máxima extensão da nossa ignorância, o que nos pode fazer terrivelmente felizes, não nos afectamos pelo que não sabemos, e, mais ainda, se o dom da fala já nos assiste, podemos dizer praticamente tudo quanto quisermos porque não nos levam a sério e até acham graça ao petiz. Apenas não convém relatar tudo o que se vê em casa, os pais não gostam.
Essa liberdade vai diminuindo com o tempo, mas em adolescente ainda é possível dizer tudo quanto se quer. Ser-se-á interpretado como um rebelde, como apenas mais um na grande curva de Gauss, um tipo normal, portanto. Convenhamos: os adolescentes não se levam muito a sério, pois não? Olhamos para eles – qualquer que seja a distância que nos separa dessa fase – como uns palermas que ainda não sabem muito bem o que dizem e o que querem. Esse atestado automático de idiotice é precisamente aquilo que lhes permite dizer qualquer coisa sem especial prejuízo para as suas carreiras. As que eles ainda não têm.
No momento em que se avança para o final dos vintes e se navega bem dentro dos trintas (e isto durará por boa parte dos “entas”), com as tentativas de construção de carreira e solidez do Nome, a liberdade cai a pique. Possivelmente – assim se espera – estaremos já em condições de garantir alguma subsistência. Já não dependeremos dos pais como outrora, podemos ir para longe sozinhos e chegar a casa tarde ou quando calhar, mas a nossa liberdade estará no seu mais baixo nível. Por uma razão muito simples: as pessoas não gostam de gente sincera, directa, frontal. Se dizes o que pensas, lixas-te. Já não tens a tolerância da adolescência nem a condescendência que virá com a senilidade. Já não pensam que és um palerma de ideias vagas. Passaste a ser um concorrente, e a Terra é finita, e portanto há um conjunto também finito de oportunidades interessantes. As pessoas tornaram-se dissimuladas, deram o salto de adolescentes desbocados para adultos de sorriso made in china, e preferem que lhes mintam. Mentir garante sobrevivência. Ser frontal garante dificuldades. É isso – se nada mais houver – que determina a diminuição abrupta da tua liberdade, seres avaliado pela tua conveniência e sentido de oportunidade mais do que por aquilo que sentes e sabes fazer.
Só recuperarás a tua liberdade quando estiveres perto do fim da tua vida. Nessa altura, se os sapos não te tiverem morto ainda, concluirás que já não te podem afectar grandemente. Que o que tinhas a fazer, está feito. É então que te desbocas e tornas livre de novo. E podes dizer tudo o que quiseres, podes ser frontal e directo, sem medos, sem o sentido da conveniência ou da oportunidade. Acusar-te-ão de senilidade. Mas é muito provável que essas acusações venham dessa gente que não gosta daquilo que dizes e que tem medo da nudez da verdade. As coisas que se dizem entre o fim da adolescência e o princípio da putativa senilidade, são exercícios de risco calculado, e não deixa de ser bastante aborrecido pensar-se que pouco depois da reconquista da liberdade, venha a tumba."

João
Geografia das Curvas

julho 17, 2012

Dinâmica(s) de Grupo(s)

Um grupo não é um grupo só porque alguém decidiu constituí-lo.
Um grupo não é um grupo sequer porque os próprios membros decidiram formá-lo.
Um grupo (seja um casal, um conjunto de amigos, de fãs de qualquer coisa, de malta que se junta para jogar canasta ou para tricotar ou discutir livros) só o é verdadeiramente quando percebe que aquilo que constitui é sobejamente maior do que a soma das partes, cujos egos esperneiam com a hipótese de se verem anulados (e se não superam essa primeira reacção, mais vale ficarem com os egos e irem às vidinhas deles, deixando de brincar aos conjuntos).

Todos gostamos da sensação de pertença e temos, desde miúdos, a tendência de formar "clubes", do tipo menina-não-entra ou gosto-de-punk-e-o-pop-é-p'rós-parolos. É cool, aconchega, situa-nos num universo de dispersão, dá-nos identidade e consistência.
O problema é quando não percebemos que isso a que se chama "dinâmica de grupos" (adoro estas designações a armar ao científico) não é coisa que se aplique universalmente. E que há grupos (a maioria) assentes em alicerces de algodão doce.
Estamos a lidar com indivíduos que têm de acordar, mesmo que tacitamente, abdicar da sua soberania em prol de um colectivo (mais ou menos como é suposto que o povo faça com o Estado).
E isso não é para todos.
E muito menos para todos os grupos, grande parte dos quais não são mais do que aglomerados de indivíduos, juntos devido a uma qualquer conveniência com duração efémera. Como a do grupo.

fevereiro 03, 2012

A posta que já foi assim


Desde o princípio dos tempos blogueiros, um dos estilos mais apreciados foi sempre o que apela à atribuição mental de carapuças com base num exercício de maledicência em torno de um alvo com contornos difusos.
Será que se está a falar de fulano? Será que se está a referir a sicrana? Merda, isto parece mesmo acerca de mim...

Embora não esteja ao alcance de todos, a habilidade para enviar um recado subliminar a um ou mais pequenos ódios de estimação sem, paradoxalmente, lhes destapar a careca enfiando-lhes a carapuça constitui um esforço criativo digno de registo e merece, quando inteligente, a minha admiração.
Para construir uma posta dessa natureza, uma catapulta de palavras instalada numa fortaleza de rodeios em manhã de nevoeiro, são necessários alguns ingredientes difíceis de reunir num mesmo espaço (de tempo).
A receita deste cocktail de insultos que, depois dos 40 mil euros do médico que explicou a medicina a intelectuais mas algures foi sincero demais, tem caminho aberto para reconquistar um lugar ao sol em html, inclui uma colher de sopa de pachorra, cinco litros de emoção mal contida (convém manter em lume brando para não levantar fervura), dois dedos de testa bem medidos, um pacote de vocábulos fortes e originais mas de fácil digestão e uma pitada de humor para apimentar a coisa ao ponto de provocar um pequeno laivo de rubor no/na visado/a.
O pitéu é servido frio, em sintonia com uma das suas mais costumeiras motivações, como aperitivo para o banquete que resulta quando se encontram à mesa catedráticos/as ou como brinde surpresa.

Claro que este exercício de camuflagem de um ou mais alvos acaba por despertar interesse a um grupo restrito, nomeadamente o(s) visado(s), um reduzido séquito de fervorosos seguidores e, naturalmente, o próprio autor da coisa. Este último, aliás, finge ignorar que o gozo obtido pode não passar de uma ilusão, a de que alguém irá entender pevas do que lhe pareceu um acto brilhante mas afinal resulta quase sempre falhado.
Contudo, a maioria das pessoas que blogam é composta por gente de fé.

A fé de que algures entre a meia dúzia de visitas desse dia tenha existido o leitor imprescindível para justificar que alguns escritos publicados não tivessem permanecido na gaveta de onde, em muitos casos, jamais deveriam ter saído.

O paradoxo da amizade

Tenho para mim que o verdadeiro amigo é aquele que não serve para nada, no sentido em que não se instrumentaliza, não se usa, não nos servimos dele.
Ou seja: um amigo não é aquele de quem precisamos para ir às compras ou ao ginásio, para sair à noite, para nos fazer rir ou para aconselhar-nos, para nos fazer companhia ao almoço ou para nos levantar o ego, ainda que possa fazer tudo isso e provavelmente o faça.
Quero com isto dizer que o (meu) critério para aferir se uma pessoa é importante e até que ponto faz falta, e aqui reside o paradoxo, é justamente que não faça falta alguma, mesmo que sintamos saudades dela: na sua ausência ou na sua presença, a existência continua, não mudamos hábitos nem princípios e muito menos de vida por ela ou graças a ela (porque só faz sentido qualquer destas alterações por nós mesmos).
Ou seja, os amigos não são precisos, são amados.
E se toda a gente percebesse isso, as relações humanas tornar-se-iam muitíssimo mais equilibradas.

janeiro 30, 2012

Ajustes de contas

Há por aí gente daquela que até temos medo de encontrar, tamanha é a vontade de lhes espetar umas galhetas bem aviadas.
Mas, depois, se e quando inadvertidamente nos cruzamos (porque o Porto é uma bolota e Portugal um ovo) e lhes vemos os olhos e os ombros curvados sob um peso incomensurável, percebemos que não há maior estalada do que terem de viver consigo próprios todos os momentos da sua triste existência.
E percebemos que os ajustes de contas fá-los a vida.

dezembro 20, 2011

A especialidade de dizer coisa nenhuma

De passagem por conversas antigas, deparou com uma, em que dizia a alguém, a quem não sabia sequer o que dizer, à época, tamanha era a dimensão da mensagem que tinha à frente, que era "muito especial".
Agora, imensas luas passadas (seriam assim tantas?!), concluiu, com um sorriso triste de conformado, que só se usa o epíteto em causa quando não se quer ferir o outro com o honesto "olha, agradeço-te muito todos os elogios, mas não tenho nada de equivalente que te diga". É ai que entra o "é especial", que quer significar o muito que é o nada que se tem para retribuir.
No caso, a pessoa ripostou com um "os que me rodeiam também me dizem que sou especial e eu não consigo acreditar nisso". Na altura, achou que a coisa ficaria por ali e nunca pensou que, quase meio ano volvido e muitas conversas travadas depois, ficasse com duas certezas, ambas de travo amargo: por um lado, que não lhe gostaria de estar na pele, se tudo quanto a rodeasse fosse gente a dizer-lhe que é "especial", que é o equivalente a dizer coisa nenhuma; por outro que, infelizmente, a pessoa tinha toda a razão e que a especialidade não seria, de todo, o seu forte.

dezembro 17, 2011

Vampiros

Durante a minha vida, tenho-me cruzado com umas tantas pessoas que gostam tão pouco de si, que se prezam em tão diminuta monta, que, para não darem o tilt nem trabalharem a sua personalidade (o que constuiria uma canseira e isso é mal a afastar desde logo), aproximam-se de outras que, de algum modo, acham que as podem tornar seres melhores por contágio e laboram no sentido de lhes sugarem o que querem para si.
À primeira vista e numa primeira (mas curta, porque o tempo urge) fase, são seres dedicados, que parecem dar tudo quanto têm pela felicidade daquele/a a quem querem sugar o sangue e o resto e não descansam enquanto não lhes conquistam a confiança, o que passa por exaltarem o muito que têm em comum com o alvo que têm na calha, por lhe proporcionarem momentos surpreendentes e por concordarem com todas as suas opiniões, elogiando ad nauseam estes e outros atributos.
Mais tarde ou mais cedo, com mais ou menos trabalho, atingem o seu primeiro objectivo: o alvo cede e decide-se a confiar. E como o dito alvo não foi escolhido ao acaso, a confiança é absoluta e a entrega total.
Depois da presa bem envolta numa rede de mentiras e máscaras criadas para o efeito, mantêm a patranha durante uns tempos, para a cisão não ser tão notória; todavia, esta é a meta menos bem conseguida: a persona criada, ávida do alcance do seu objectivo primeiro, crava o dente e começa a sacar tudo quanto pode, de bom e de assim-assim. Cria na presa sentimentos de culpa e de compaixão, manipula-a à exaustão e a teia começa a ficar mais densa, sendo difícil escapar-lhe.
O que este tipo de vampiro nunca perceberá é que é manifestamente impossível retirar tudo quanto tem de bom quem tem, de facto, bem dentro de si. E, um dia, a presa começa a espernear, a reivindicar, a querer voltar a ser inteira. E não há casulo que prenda quem sabe o que é ser livre de demónios e feliz à sua custa, pelo que se libertará seja lá como for.
Uma vez liberta, poderá ainda ser alvo do predador, porque demorará até que perceba a razão pela qual, logo ela, que nunca devolveu a amargura e até cedeu sangue do bom em consciência, para limpar o do outro, já putrefacto, tinha de passar por tanta provação.
Mas o ser humano é uma coisa extraordinária e tem uma capacidade de sobrevivência quase mágica: o sangue começa a limpar-se de impurezas, os ataques não são mais do que alfinetadas menores e a certeza de que de um erro (mesmo dos graves) se podem tirar ilacções (e não só) positivas prevalecem.
O vampiro... o vampiro continuará a atacar almas boas. E a magoá-las. Mas, se pensarmos bem, não passa de um pobre ser quase acéfalo (no sentido em que jamais perceberá que a quimera de se tornar melhor é uma batalha perdida, salvo se alterar a metodologia e partir de dentro para fora), que nunca conseguirá retirar de ninguém aquilo que o tornará melhor: integridade, honestidade, respeito, valores e princípios.
Provavelmente, se algum vampiro me lê, nem saberá em que consistem os conceitos. É que estes, meus amigos, nem por contágio se transmitem, a gente que não possui coluna vertebral.

novembro 29, 2011

Do cuidado: a comunhão entre Caetano Veloso e Aristóteles

Não sou Psicóloga nem tenho jeitinho nenhum para a área (o savoir-faire ficou todo para a R.), mas parece-me evidente que quem ama cuida e quem não ama só cuida se lhe apetecer.
Passo a explicar: quem gosta (mas daquele gostar mesmo a sério, não perco tempo a referir-me aos outros) encara o bem estar do outro como prioridade e, por tal, é-lhe inevitável, quase contra-natura, não cuidar dele/a. E, porque o sentimento é recíproco, cuidar do outro é como cuidar de si mesmo, não há ali lugar a cobranças nem a desequilíbrios.
Quem não gosta, ou gosta assim-assim, ou está a ver se gosta, ou não sabe se quer gostar, cuida antes de mais de si mesmo. Pode até parecer cuidar do outro/a, mas é a si, antes de mais, que acarinha, porque é a personagem principal do seu mundo de afectos e não há nada a fazer. E isto não tem mal algum, não me interpretem mal, quem sou eu para apreciar o modo como as pessoas relacionam...!? Cada um escolhe o cuidado que quer ter com o outro e que crê que o outro deva ter consigo; se estiverem bem, palminhas, palminhas, que o amor é lindo e cada um o vive como quer.

O problema é a mistura.
(Shhhhh, deixem-me acabar, sim? Vão acabar por perceber que sou uma xenófoba sentimental e pode ser que isso vos dê jeito, num futuro próximo, para o usarem contra mim. Depois não digam que não sou amiga.)
Um hetero-cuidador nato estará condenado à infelicidade eterna se cometer o disparate de se apaixonar por um auto-cuidador: é que, bem vistas as coisas, serão duas pessoas a cuidar de uma só, o que é menino para, mais dia, menos dia, pôr os nervos em franja ao primeiro (o outro estará deliciado com o cuidado redobrado e nem perceberá a causa do arrufo).
Nesta coisa dos amores, há raças. E este é o único mundo onde a mescla pode ser um perfeito disparate.

O que é que têm em comum Caetano Veloso e Aristóteles? Oh caramba, não salta à vista?
O silogismo, pois então,! Se não, observem:
"Quando a gente gosta é claro que a gente cuida", certo?
Que é o mesmo que dizer, muito simplesmente:
Todo aquele que ama, cuida.
Y não cuida de Z.
Y não ama Z.

Depois não me venham dizer que a vida é complicada, sim?

novembro 28, 2011

Empatia - a palavra injustiçada

empatia s.f.
1. faculdade de compreender emocionalmente um objecto (um quadro, por ex.)
2. capacidade de projectar a personalidade de alguém num objecto, de forma a que este pareça impregnar-se dela;
3. capacidade de se identificar com outra pessoa, de sentir o que ela sente, de querer o que ela quer, de apreender do modo como ela apreende, etc. (...).

(Não, não inventei nada disto, é só consultarem a 1458ª página do Tomo III do Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, edição de 2003, do Círculo de Leitores)


Há palavras que se proferem em vão, por certo sem dolo, apenas porque se desconhece a profundidade do seu significado, mas ceifando-lhes a abrangência. Esta é uma delas.
Em Pensamento Crítico, dizemos que o único modo de percebermos a posição do outro, por mais diametralmente oposta que seja à nossa, é sermos empáticos com ele. Ora isto é mais ou menos equivalente a espetar facas no cérebro do ser humano: coméquié?! Mas então se eu não concordo com ele e estou certo/a da minha perspectiva, vou agora tentar pensar como ele pensa? Sentir como ele sente?! E eu lá quero o que ele quer, c'um escafandro! Quero justamente o oposto... Mas está tudo aparvoado ou é só a prof que deu o tilt de vez?!

É. A prof está ali sempre junto ao tilt, não vamos agora desmentir factos comprovados. E a professora é muito melhor a ensinar como se faz do que a fazê-lo de facto. E a professora está a falar de um assunto muito delicado, porque não se refere apenas à situação argumentativa em sala de aula mas à vida, cá fora.
Viver-feliz-com é, antes de mais, ser empático. E se não há empatia, no sentido acima descrito, é melhor viver-feliz-sem e não se fala mais nisso, porque a alternativa é viver-infeliz-com, coisa a que só os muito masoquistas se sujeitarão.
E isto é facílimo de dizer, porque se trata de uma evidência quase matemática, mas extremamente complicado de praticar.
Às vezes, a vida empurra-nos para onde não queremos, porque não nos demos ao trabalho de fazer o exercício da empatia (que, não nos iludamos, tem de ser igualmente praticado pela outra parte, sob pena de darmos uma face e a outra e uma terceira, se a tivéssemos, sem nada receber em troca). E fazer o exercício acima é quase violento, quando não vamos aos treinos. Treine-se mais, portanto. Os resultados não tardarão a aparecer.

novembro 14, 2011

O inferno não são os outros...

... somos nós mesmos e Sartre estava absolutamente errado, temos pena.
Vamos lá ver se consigo acalmar o turbilhão de ideias que me levou a esta conclusão e se me permito ser clara e pouco infernal (piada fraquinha, eu sei, mas nunca disse que dava para mais).
Hoje, numa aula de Pensamento Crítico, ao passo que expunha as diferenças (teóricas, já se sabe) entre persuasão e manipulação e o critério ético que as aparta, lembrei-me de perguntar à turma se alguma vez e de que modo se tinham auto-manipulado. E as respostas, inevitavelmente, levaram-nos para o campo das relações inter-pessoais: porque X me mentiu, manipulou-me; porque Y me iludiu, fui manipulada, porque Z me contou a estória da carochinha, fez-me o mesmo. O outro, sempre o outro.
Alto e pára já o bailarico que há aqui qualquer coisa de muito errado: muito bem, se fui mentida e não tinha como distinguir a verdade para lá da patranha, posso não ter tido culpa alguma na matéria mas, as mais das vezes, não somos iludidos, deixamo-nos iludir. Ou melhor: enredamo-nos numa teia de ilusões que pode ter sido desencadeada pelo outro mas foi (e só assim se tece) alimentada por nós, que agora nos dizemos vítimas (o que é sempre muito mais bem visto do que ser "o/a sacana").
Nunca mais me esqueço do caso de uma amiga que, há muitos anos, recebeu da afilhada uma caixa de Mon Chérie. A A. odiava aqueles bombons tanto quanto eu, mas "para não magoar" a miúda, fez uma festa e disse ter adorado. Desenvolvimento lógico? De cada vez que a afilhada a vinha visitar, lá levava ela com mais uma caixa de chocolates que lhe davam vómitos. Suponho que ainda hoje os receba. E se queixe disso, a grande palerma, quando a garota (hoje mulher feita) é que vive na ilusão de estar a agradar a uma madrinha que, no caso concreto, só desaponta.
O que é que aconteceu aqui?
Justamente o mesmo que acontece a um casal quando ele faz uma coisa de que ela não gosta (exemplo comezinho e tipicamente de gaja: não lhe mandou uma mensagem nem lhe telefonou nem lhe prantou um "like" num post do Livro das Caras durante todo o dia) e ela, "para não o magoar", ou enfrentar ou para que ele ache que ela é uma cool e não é nada melga, não lho diz. Ao fim do dia, ELA manda-lhe uma mensagem casual, a perguntar qualquer coisa de formas displicente (porque enough is enough e o silêncio já lhe está a dar cabo dos nervos) e ele responde no mesmo tom. Ela fica pior do que peste (arre porra, não falamos há quase 24h e é tudo quanto tens para me dizer???) mas continua calada, a congeminar mil e uma razões para ele estar a agir de forma atípica (ou característica e ela é que não o quer ver, sabe-se lá), mas não o confrontando; isso é que nunca porque vai dar discussão e as discussões afastam-nos.
What???
Desculpem-me lá os cools deste mundo (mesmo porque não conheço nenhum, o que conheço é gente que se está a marimbar e isso é outra conversa), mas isto é treta da mais pura. Quem é que manipulou quem, aqui? O fulano que nem se lembrou de que a gaja existia e que, por isso, foi fiel a quem era e não a contactou (porque quem é fiel a si mesmo não faz fretes) ou a menina que, para não o perder ou não arranjar confusões ou o diabo, faz de conta que é uma pessoa que não é?!
E quem é que fica na mais pura merda? Ela. Só ela. E bem feito, porque não tinha nada de ser o inferno de si mesma. Quem não é capaz de viver com o outro como ele é, não tem o direito de o iludir, dizendo-lhe que sim. Porque, convenhamos, uma relação que é ameaçada por algo tão elementar como necessidades diferentes de comunicação, não tem pernas nem qualquer outra parte do corpo para andar.
Fiz-me entender? Ora ainda bem.
Eu, pelo menos, fiquei mais esclarecida.

outubro 28, 2011

Um gajo acorda, lê isto...

... e apanha um susto que até o coração parece saltar:


Passado meio segundo, chega o alívio com o título completo desta notícia:

agosto 30, 2011

Não sei ler pensamentos

As pessoas têm de perder a maldita mania de que é suposto que os outros lhes leiam a alma. Pior: que lhes lêem efectivamente a alma! Muito provavelmente, o defeito é meu e sou o único ser que não adivinha o que vai em cabeça alheia com certezas (salvo raras excepções, que nem por isso constituem regra). Mas, ainda que seja, tenho de ser tida em conta, ora bolas!, enquanto altamente incapacitada.

Ora vejamos: se alguém, em conversa comigo, me diz "Ahhhhh, se soubesses como era louco por ti há X meses/anos/na semana passada/", a minha resposta assumirá inevitavelmente o formato da questão: "E por que raio não disseste?!". O que é ouvido, depois, é sempre um chorrilho de coisas sem sentido, a saber:
a) "Porque sabia que não sentias o mesmo" (Como? Perguntaste, por acaso?);
b) "Porque achava que estavas interessada em A" (Leste-me a mente, tu, queres ver?!);
c) "Porque sabia que B estava interessado em ti." (Olha, meu amigo, não dei por ti nem pelo B, temos pena...)
d) "Porque tu nunca reparaste em mim". (Como assim? Pisei o rapaz e não dei por nada? Passava
 por ele e não o via? Ai falava e era simpática mas nunca dei troco? Que diabo vem a ser isso de dar troco,não farás o obséquio de partilhar comigo?!)

Pára tudo já aqui.
Ôda-tracinho-se, se me dão licença.
Como posso eu reparar em que outrém é "louco por mim" (whatever that means) se o santinho nunca me disse?
Dava-me atenção? Era amável e carinhoso? Dizia-me que eu era gira? E vai daí? Os meus amigos fazem essas coisas todas (alguns, pelo menos) e não estão interessados em mim, no sentido íntimo do termo!
Convidou-me para jantar? Pegou-me na mão? Disse-me que gostava de mim? Ai não? Então lamentamos mas não sou bruxa.

O que me chateia solenemente, o que me indigna, é que as pessoas poderiam ser muito mais felizes se chegassem ao pé dos alvos de interesse e disparassem um "Gosto de ti. Acho que posso vir a gostar mais. Quero conhecer-te melhor. Queres jantar/sair/passear o cão/ir ao cinema comigo? E não, não pretendo tão somente ser teu amigo (embora possa ser, se não resultar), gostava de tentar construir qualquer coisa contigo."
Qual é o pior que podem ouvir?! Que o outro não está interessado seja porque motivo for. E vai daí? É um golpe no orgulho, uma humilhaçãozinha privada e está feito, caramba. Parte-se para outra (ou para nenhuma) e não se anda a sofrer em silêncio porque já não há nada por que sofrer. Ou então luta-se pela conquista (isto já depende da persistência, perante uma nega que pode ser rotunda, ou só o outro a pedir que lhe leiam os pensamentos, também...).

As pessoas seriam muito mais felizes se perdessem o medo de fazer por isso.
E escusavam de ouvir-se verdades que, fora de tempo, muito provavelmente já não têm interesse algum

julho 24, 2011

Das mensagens subliminares



Tenho um imenso problema com a falta de clareza.
Normalmente, num grupo de amigos, sou presa fácil para aquele tipo de piadas com segundas intenções, em que é suposto que alguém caia: não há que enganar, sou sempre a primeira (e normalmente a única) a cair. E rio-me muito quando percebo (porque alguém me dá o toque, ou antes, me explica direitinho) onde estava a ratoeira. Mas volto a cair (e a rir) logo a seguir.

Ora quanto a isto, nenhum problema.
O caso torna-se um nadinha mais grave quando é suposto que eu perceba mensagens veladas que não me são directamente dirigidas: uma boca, uma canção, um poema, a alusão a um facto de forma abstracta. Nunca parto do princípio que é a mim que se referem. Por que deveria partir?!
Quando me são dirigidas sem margem para dúvidas, também não basta: tenho de tentar perceber o que se quer dizer por detrás do que se diz, para bem da minha mente analítica e para mal da comunicação que o outro pretende erigir a partir daí.

Ora ponha-se a hipótese (meramente especulativa, já se sabe) de eu ter dado de caras com algo que, lá no íntimo, até creio poder ter sido feito/dito a pensar em mim. O meu procedimento é sempre o mesmo: encaro, tento chegar a todas as interpretações possíveis e nunca me satisfaço com nenhuma, porque todas as outras fazem igual sentido.
(De resto, sempre me fez uma imensa confusão quando, no secundário, em Português ou Filosofia, os professores me ensinavam que naquele verso/passagem, o autor queria dizer X. Mas como? Porquê? Se é necessário interpretar é porque a mensagem não é cartesianamente clara e distinta, logo... por que razão devo aceitar aquela interpretação como a mais correcta, afastando a angústia de nunca vir a saber a quem se referia Dom Dinis numa Cantiga de Amigo ou o que pretendia Lévinas dizer numa das suas muitas obras, sem margem para enganos?)

Adoraria ser daqueles indivíduos que não só percebem mensagens subliminares como respondem no mesmo tom. Acho cool. Mas sou incapaz, por mais sedutora que esta atitude, ao que parece, seja encarada pela maioria. E, voltando à meramente especulativa hipótese do parágrafo acima, aos algos que suponho terem sido publicados por mim (porque para mim não foram, uma vez que o meu nome não consta em parte alguma), se eu soubesse comunicar no mesmo comprimento de onda, responderia com uma música: Teresinha, de Chico Buarque de Holanda, supremamente cantada por Maria Bethânia (mas também por ele); e isto porque julgo que tem uma letra que se adequa. Quer dizer, adequa-se moderadamente, já se sabe, jamais conseguiria quedar-me pelo "toma lá a canção e lê aí o que quero dizer". Porque eu não quero certamente dizer o mesmo que Chico sentiu quando a escreveu ou Bethânia sente quando a canta. E não resistiria a acrescentar que àquele que "me chegou como quem chega do nada", não lhe bastava deitar-se na minha cama e chamar-me de mulher: tinha de me dizer quem é e ao que vem e não fazia mal nenhum que, como aquele que "me chegou como quem vem do florista", me chamasse de rainha. E, já que estava com a mão na massa, ainda acrescentaria uns petites riens de minha lavra.

Conclusão?
Sedutora é a transparência, são as palavras ditas olhos nos olhos, as músicas cantadas mão na mão e as emoções sentidas com verdade. Isso sim, é sexy e absolutamente irresistível.

maio 06, 2011

A minha primeira experiência prática de democracia

Foi em 1975, no Liceu da Covilhã. O professor de Educação Física não veio nesse dia e, como estávamos já todos equipados com fatos de ginástica, decidimos aproveitar o tempo para fazermos um jogo de futebol. Houve um colega que quis ir para guarda-redes mas nenhum outro se ofereceu para a outra baliza.
Alguém teve uma ideia genial:
- Fazemos uma votação.
Ninguém se opôs nem apresentou alternativas, pelo que ele continuou:
- Quem vota no Paulo Moura para guarda-redes?
Todos levantaram a mão... e eu também, mas para lhes  fazer um manguito... e fui para o balneário mudar de roupa.

março 07, 2011

"Dona Cila" - Maria Gadú

Se há coisa que me comove é o amor.
(Tanto que já devo ter usado a frase anterior em vários posts)
Todos os tipos de amor, sim, mas sobretudo o amor entre seres humanos, porque o ser humano não é fácil de amar.
Somos egoístas e refilões e pouco condescendentes e cheiramos pior do que qualquer animal se não tomamos banho (desafio qualquer um a ficar um mês sem um duche, como os cães, ou a lavar-se com a língua, como os gatos - a expressão "cheiro a cão" tornar-se-ia obsoleta) e somos pouco transparentes e medrosos e invejosos e tantas coisas más que já estou a ficar deprimida.
Ainda assim, há sempre quem nos ame. Mesmo como os nossos defeitos, ou apesar deles, o que é absolutamente extraordinário, se nos dedicarmos a pensar seriamente no assunto. Há quem goste de coisas em nós que nem os próprios suportamos. E há por quem estejamos dispostos a dar a vida, se pudermos.
E isso é grandioso e, quanto a mim, muito maior do que a racionalidade que nos fartamos de apregoar (tantas vezes na sua ausência).

É esta infinita capacidade de amar (o trabalho, os bichos, um hobby mas, acima de tudo, os outros, sejam eles familiares, amigos ou amantes) que faz de nós humanos.
O amor é, por isso, algo de delicioso.
Como é deliciosa a canção de Maria Gadú que descobri este fim de semana. Sobre o amor. Um amor maior do que a vida, porque acompanha a morte.
Vale a pena ouvir a letra e assistir, com olhos de ver, ao teledisco (sim, sim, eu ainda digo "teledisco").
Ao pé de amores assim, tudo o resto nos parece comezinho. E menor.

março 03, 2011

As relações dos outros

Nunca percebi muito bem por que é que um casal não resolve as coisas entre si, antes de as vir badalar aos amigos. É sempre injusto para o membro da parelha que está a ser motivo de conversa e, quanto a mim, é confrangedor para os amigos. Pelo menos, para aqueles que o são de ambos e têm a amizade acima da cusquice.
Há cerca de um mês (demasiado tempo, eu sei), fui confessora de algo que não me apetecia ouvir.
Soube que uma relação acabara, para um dos lados de um casal, e que só se mantinha, no dizer de quem comigo falava, por uma questão de altruísmo, "porque não é justo acabar com uma relação só porque uma das partes não se sente bem".
Vou exceptuar-me a comentar esta última ideia pelo respeito que a pessoa, por outros motivos, me merece e passar ao que de facto me interessa: possuidora daquela informação, e sendo amiga da metade que (como o corno) seria a última a saber que já não era gostada, que fazer?
Nada, dir-me-ia a maioria. O melhor, nestas coisas, é não fazer nada. Não te metas. Eles são adultos, que se resolvam. Não és advogada de ninguém: se fores falar com o que permanece na ignorância, o outro até tem a vida facilitada, não teve de ser ele a lançar a bomba.
Aproveitei-me do facto de ter ido para a neve para "esquecer" o assunto; de resto, podia ser que o autor do desabafo fizesse o que me permiti sugerir-lhe: que conversasse com a outra pessoa, que lhe falasse do amor acabado (de que eu já sabia há muito tempo, mas de que só agora ouvira falar), que fosse honesto, era o mínimo que (se) esperava dele.
No entanto, um dia antes da partida, jantámos juntos e o que sentiu necessidade de "partilhar comigo" (não me lixem, não foi partilha!) estava como se nada fosse. (Que direito tivera de me tirar o sono para agora fazer de conta que nada acontecera?!)

Mas hoje falei com a outra metade. Quis saber como estava. E não estava bem, por motivos vários, todos relacionados com a parelha. Que lhe tinha feito X, Y e Z. Pedi-lhe desculpa pelo que lhe ia dizer e por não lho ter dito antes e contei-lhe. Porque gostaria que fizessem o mesmo comigo e, sobretudo, porque acho que é o que deveria ter feito desde logo. Mas pelo menos houve menos drama, menos indignação (da minha parte).
Sei que, se alguém vai ficar mal no meio disto tudo, para além da metade que está a tentar perceber qual era a matrícula do camião que lhe passou por cima, sou eu. É dos livros. Um dia, reconciliam-se, passam uma borracha no assunto e, porque eu lhes faço lembrar a merda que fizeram, em mim também.
Mas, at the end of the day, se o fizerem, que tipo de amigos são?!
(Tento convencer-me e não estou convencida.)

A minha verdadeira natureza é esta e ser assim dá-me cabo da mioleira.

janeiro 29, 2011

In(Dependência)

Há muitas luas atrás, li, numa revista de fim de semana, daquelas que servem para vender mais jornais, uma entrevista com a Mafalda Arnauth. A páginas tantas (adoro esta expressão), sai-se a cachopa com uma que me deixou a pensar. Dizia ela "A independência pode ser uma coisa perigosa. É bom depender, no sentido de confiar no outro".
Olhem, não podia concordar mais com a mocinha, que ainda por cima é gira e canta bem (nunca gostei tanto de ouvir cantar Fausto Bordalo Dias noutra voz, como gostei de o ouvir na dela).
Espanto-me sempre ao constatar que a minha geração é uma geração de Tribalistas, do género "Eu sou de ninguém, / eu sou de todo mundo e todo mundo é meu também". Tipo orgia colectiva de afectos, em que ninguém se prende porque tem medo de se perder. Em que ninguém se diz de ninguém, não vá o outro mudar de ideias e enveredar por outra via, ferindo-nos o orgulho e o futuro que se construiu comum, nem que tenha sido apenas na imaginação de um; assim, pelo sim, pelo não, somos todos de toda a gente, não pertencemos a ninguém. Escusa de se saber que se sonhou. Ou que nunca se quis sonhar, há sempre a outra face da moeda!
Já ninguém diz "sou tua" com a voz embargada de lágrimas, com os olhos marejados de certezas e o peito a arder, num fulgor que pode ser eterno ou efémero, pouco importa. Importa aquele momento, o que se quer ali e agora, a vontade de se ser de outro. Sem medo, porque quem confia desconhece o terror da traição, da cobardia, da inconstância, do sofrimento, do desinteresse.
Diz-se "odeio o sentimento de posse", como quem invoca o santo nome da liberdade em vão, numa atitude impensada que me soa a libertinagem.
Gosto de ser DE. Dos meus alunos a professora, dos meus amigos a melhor amiga (desculpem-me a arrogância), da minha cadela a dona, da minha mãe a filha, do meu irmão a "mana" (sim, tenho um metro e oitenta e cinco de profissional de sucesso a chamar-me nestes termos e eu adoro!), do meu carro a devedora (só por mais um mês!), dos meus avós a neta. Sou DE. Deles todos. Sem medo algum.
Porque no dia em que eu tiver medo de ser DE, não sou. De ninguém. E jamais teria a ousadia de almejar que o mundo fosse meu, se eu não me desse ao mundo. Ou aos meus mundos particulares. DE quem sou. Sem medos.

A propósito das in(dependências)...

... um anúncio que encontrei hoje. Adoro publicidade!