fevereiro 08, 2012

Mas que merda é esta?!

Clientes do 
Deutsche Bank 
ganham dinheiro 
a apostar na 
morte de idosos.

(Artigo aqui)

Chamem-lhes piegas, chamem...

"Nada nos obriga a ser
submissos,
acomodados,
ignorantes e
apolíticos"

in Carta aberta da Associação das Forças Armadas (AOFA) ao Ministro da Defesa
(artigo aqui)

fevereiro 07, 2012

Breves, muito breves reflexões aleatórias...

Uma vaga de frio polar assolou-nos, pelo menos segundo tudo quanto são os avisadores da catástrofe nacional… e quase ninguém deu por isso. Num qualquer sinistro, as vítimas mortais foram setenta e duas ou três ou quatro ou oitenta e cinco, consoante o «órgão noticioso» que propala a notícia. A libertação de um prisioneiro israelita é «trocada» pela libertação de quatrocentos e cinquenta palestinianos. Este ano o Carnaval português é só para alguns e pensa-se que esses alguns possam (ou devam) não ser piegas. O quadro «Os Jogadores de Cartas», de Paul Cézanne, é vendido e comprado por 250 milhões de dólares, sendo o comprador a real família do Qatar, a qual vive repimpada sobre os custos do petróleo que promove em seu benefício. Onze mil crianças morrem de fome no mundo, a cada dia que passa. Um sem-abrigo foi condenado a multa de milhares de euros por furtar um champô e uma bebida num supermercado do norte. O governo português prepara-se para injectar mais 600 milhões de euros no BPN, para o vender, de seguida, por 40 milhões. Na Europa começam a proliferar os políticos não eleitos à frente dos destinos dos respectivos países, ditos democráticos...

Não há qualquer fio condutor nestes nacos desgarrados, para além de serem eles sinais palpáveis da actualidade a que nos deixamos conduzir, um pouco por todo o mundo.

Qualquer noticiário desta actualidade num simples dia é profundamente mais surreal do que foi alguma vez um filme como «O Mundo Cão», que nos sobressaltava de estranheza há umas poucas dezenas de anos.

Urge acabar com isto antes que isto acabe connosco.

E ñem sei se estou a ser piegas ou se estou a ser pessimista em demasia. Mas estou, seguramente, a reflectir aquilo que uma misérrima mão-cheia de políticos de pacotilha anda a fazer.

Das pessoas livres

Tenho sempre uma imensa piedade de quem vive para agradar os outros, seja na pessoa do chefe (não se vá ser despedido), dos amigos (que nunca chegam a saber de quem é suposto gostarem) ou da cara-metade (porque estar sozinho é que nem pensar): na ânsia de não serem gostados pelos outros, chegam a detestar-se, pela esquizofrenia em que vivem, quando estão sozinhos.
Mal sabem os pobres que é connosco mesmos que estamos a maior parte do tempo e que, mais tarde ou mais cedo, serão abandonados, em maior ou menor grau, também pelos outros, porque ninguém (os que valem a pena, ao menos) aguenta quem não sabe ser quem é.
Entretanto, vão sabujando, desfazendo-se em salamaleques, rindo sem saber o que é rir com verdade e apostando numa vida que não é a sua, mas aquela que a personagem que inventaram para determinada situação está a viver.
E nunca conhecerão o prazer de gostar de si mesmos como de alguns outros. Ou mais do que de muitos, que diabo, é consigo que terão de estar, para onde quer que vão.

Creio que a maior conquista de quem é livre é a ausência de medo: do julgamento alheio, da vida, do futuro.
O resto é conversa.

fevereiro 06, 2012

«Um país de velhos» - Jaime Ramos

Desde há 30 anos que Portugal tem uma dinâmica demográfica perigosa, com uma taxa de natalidade que não permite substituir gerações.
Na década de sessenta, quando começou a queda da natalidade, tínhamos 220 mil nados vivos (1962) e em 2009, pela primeira vez baixámos a menos de 100 mil.
A nossa taxa de fecundidade é de 1,3 filhos por mulher, um dos valores mais baixos no mundo.
Somos o 8.º país mais envelhecido do mundo.
Portugal tem a terceira mais baixa taxa de natalidade dos 27 países da UE. Somos o terceiro pior a fazer filhos. No grupo de 27 há 24 países que são melhores que nós. Em 2009 tivemos só 9,4 nascimentos por cada mil habitantes. A taxa de natalidade média na UE foi de 10,7 por mil habitantes ou seja 1,138 vezes a nossa, mais 14 por cento. Os países a fazer mais filhos são a Irlanda com 16,8, o Reino Unido com 12,8 e a França com 12,7. A Irlanda tem uma taxa de 1,78 vezes a nossa, quase 18% mais.
Para este resultado contribuem múltiplos factores. Um dos mais importantes é o mercado de trabalho.
Está demonstrado que mulheres com empregos estáveis estão mais disponíveis para a maternidade.
A precariedade e a insegurança são anti-natalidade.
Em Portugal ainda há demasiadas empresas que se sentem prejudicadas pelas mães trabalhadoras e não gostam de grávidas. Na comunicação social lemos notícias sobre empresas públicas que perseguem as mães trabalhadoras. Recentemente soubemos que a ANA retirou os prémios às trabalhadoras que amamentam.
Em muitas empresas cria-se um clima hostil, contra as trabalhadoras que ficam grávidas, que são discriminadas negativamente.
Alguns empresários não têm consciência social. Só pensam em ganhar dinheiro.
Empresas nacionais de referência, cujos gestores fazem discursos sobre responsabilidade social, perseguem as mulheres. Serviços do Estado, como o Ministério da Educação, já tomaram medidas que prejudicam a carreira das professoras mães.
É fundamental criar medidas de apoio à mãe trabalhadora que permitam combater a discriminação da mulher trabalhadora. Portugal tem hoje legislação bastante adequada mas é importante que as próprias empresas e organizações empregadoras incentivem a natalidade.
A ADFP é a instituição que fundei. Em 2009 para festejar o 1 de Junho, Dia da Criança, decidimos criar um prémio de 500 € a atribuir às trabalhadoras mães aquando do nascimento de um filho.
Fizemo-lo a 1 de Junho porque consideramos que a sociedade tem a obrigação de promover medidas que favoreçam a natalidade, sob pena deste dia destinado à criança se limitar a uma fútil comemoração vocacionada para o consumismo de brinquedos, sem qualquer sentido.
Esta medida visa promover a igualdade entre os sexos no acesso ao trabalho e contrariar a discriminação das mulheres trabalhadoras.
Com demasiada frequência se assiste a um discurso por parte dos responsáveis pelas entidades empregadoras contra as mulheres mães, condenando o seu absentismo.
A intolerância contra as mulheres grávidas, por parte de algumas entidades empregadoras, é mesmo uma das causas da baixa natalidade em Portugal.
Esta condenação surda das mulheres trabalhadoras que ficam grávidas, considerando-as um fardo para as organizações empregadoras, deve ser contrariada por medidas de discriminação positiva.
Os colegas das mulheres grávidas não devem encarar as faltas das trabalhadoras mães como um peso que os abriga a esforços suplementares quando estas faltam para apoio aos seus filhos.
As empresas têm de adoptar medidas de responsabilidade social que favoreçam a maternidade e evitem a exclusão das mulheres do mercado de trabalho, pelo facto de ficarem grávidas e cumprirem a sua obrigação pela manutenção da espécie.
Portugal enfrenta uma situação dramática de envelhecimento da sua população. Para cada cem crianças menores de 15 anos o País tem 114 maiores de sessenta e cinco anos.
Esta relação vai ter consequências óbvias no mercado de trabalho e na manutenção do sistema da segurança social, a manter-se o actual modelo de financiamento.
Esta medida da ADFP também pretende constituir um factor de incentivo ao aumento da natalidade.
Portugal teve em 2007 a taxa de natalidade mais baixa desde 1960, a mais baixa nos últimos quarenta e sete anos.
Em 2007 o número de mortes em Portugal foi superior aos nascimentos. Morreram em Portugal em 2007 mais 1.020 pessoas do que as que nasceram.
Portugal tem 1,3 crianças por mulher, muito abaixo do limiar mínimo de 2,1 crianças por mulher para permitir uma efectiva substituição de gerações. Estes números não são ainda mais dramáticos porque há muitas mulheres estrangeiras a procriar em Portugal. Em cada dez crianças nascidas em Portugal uma tem mãe estrangeira.
A ADFP é uma instituição de solidariedade social, que investe na inclusão de pessoas com deficiência ou doença mental e aposta no convívio intergeracional, possuindo valências de apoio desde a primeira infância até aos mais idosos.
A instituição mantém um Centro de Emergência Infantil/Centro de Apoio Temporário para receber e educar crianças abandonadas, sem família, negligenciadas ou vítimas de maus-tratos e foi uma das primeiras instituições a criar um Lar de Apoio à Vida e à Mulher para acompanhar mulheres grávidas, incluindo adolescentes, sem condições para enfrentarem sozinhas as dificuldades da maternidade.
A ADFP tem a noção que o prémio de 500€, sendo reduzido, é superior ao salário mínimo nacional, constituindo como que um décimo quinto mês para facilitar a vida de uma família que recebe mais um elemento.
Com esta medida as trabalhadoras sabem que, quando ficam grávidas, não constituem um entrave ao desenvolvimento da instituição ou de Portugal. A gravidez da mulher é uma dádiva fundamental ao desenvolvimento da sociedade.
Portugal não perde competitividade quando uma trabalhadora fica grávida. Portugal fica mais rico quando nasce uma criança. Portugal perde competitividade e futuro quando se deixa envelhecer sem capacidade de substituição das gerações.
Só empresários de vistas curtas podem punir uma mulher por ficar grávida. Todas as empresas empregadoras têm a obrigação de incentivar as suas colaboradoras a poder assumir a sua maternidade.
Nenhuma empresa civilizada poderá assumir posturas discriminatórias contra as trabalhadoras grávidas e mães.
É fundamental que o Governo perceba que tem de apoiar as famílias e a maternidade sob pena de condenar Portugal à estagnação e ao empobrecimento com custos sociais dramáticos.
É desejável que outras entidades empregadoras possam tomar idênticas atitudes de incentivo e apoio às mulheres grávidas.
Pessoalmente considero que as instituições da Santa Casa da Misericórdia, até pela ligação à Igreja Católica, deviam adoptar medidas semelhantes de apoio às suas trabalhadoras mães. Também a União das Instituições de Solidariedade Social podia dar o exemplo a nível nacional tomando medidas de Responsabilidade Social que promovam a natalidade e evitem a discriminação das mulheres que desejam ficar grávidas.
Acredito que outras organizações empregadoras, públicas ou privadas, têm a obrigação de dar exemplos de discriminação positiva das mulheres que favoreçam a maternidade.
É desejável que muitos empresários com preocupações sociais, que não se limitam a ser patrões só preocupados com o lucro, possam tomar medidas de promoção da natalidade, sendo fundamental o papel das associações empresariais na dinamização destes incentivos.
Portugal não pode transformar-se num gigantesco lar de idosos ou num imenso centro de dia para maiores de sessenta e cinco anos. Todos temos a obrigação de criar condições para facilitar às mães trabalhadoras uma gravidez feliz e uma maternidade responsável.

Jaime Ramos
Excerto do livro «Não basta mudar as moscas»

fevereiro 05, 2012

A posta em mais uma batalha perdida


Nem Salazar, esse homem austero e pouco dado a folias, seria capaz.
Mas da mesma seita que matou a Feira Popular não deveria surpreender o entusiasmo por repescarem, com a crise mascarada de pretexto, uma ideia peregrina que o seu antigo guru agora Presidente não fez vingar: matar o Entrudo.

Se há coisa que me deixa intrigado é a multiplicação de apoios ao fim de feriados, sobretudo quando provindos de trabalhadores por conta de outrem, precisamente aqueles que só têm a perder com a história.
Ao fim de um feriado, como os factos (e os números) cuidarão de provar, não corresponde necessariamente um aumento da produtividade do país mas apenas um aumento do número de horas de trabalho sem contrapartida na remuneração das pessoas. Dito por outras palavras, é uma medida que encaixa na perfeição nos interesses das entidades patronais e deita por terra mais uma conquista sacada a ferros na ressaca da revolução que tarda a acontecer outra vez.

À morte do Carnaval como o actual Governo tenciona decretar vão corresponder, isso sim, a agonia dos corsos que um pouco por todo o território animam as economias locais, a contrariedade dos mais foliões que nunca deixarão de sentir isto como uma perda, o desânimo de um povo que em tempos depressivos é cada vez mais privado dos recursos para sorrir.
O fim desta tradição integra-se na aniquilação sistemática de tudo quanto sirva de válvula de escape para o quotidiano medonho de quem enfrenta a pior crise em décadas, na destruição deliberada de prazeres populares que em nada servem os desígnios dos que vivem à custa da distribuição dos lucros que orientam agora todas as decisões dos lacaios de poderosos em desespero de causa.

Depois do dividir para reinar, essa receita infalível para o sucesso de poderes interesseiros que já vergou a unidade sindical e retalhou o espectro partidário à esquerda ao ponto de permitir, por duas vezes, a eleição de um candidato presidencial chamado Cavaco Silva, vem o quebrar da espinha a uma realidade que denominamos de classe trabalhadora.
Essa guerra sem quartel da finança oportunista contra tudo quanto se revelou hostil noutra conjuntura avança sobre um campo de batalha pejado de guerreiros sem alma, sem liderança, e também de cobardes seguidistas, desertores que tentam salvar a pele num clássico intemporal de traição.
E se a linguagem se torna belicista é precisamente porque às vezes o povo só acorda quando sente no rabo a picada das baionetas repressoras do inimigo.

Se ainda não sentiu, há razões para temer que tenha mesmo morrido.

fevereiro 03, 2012

A posta que já foi assim


Desde o princípio dos tempos blogueiros, um dos estilos mais apreciados foi sempre o que apela à atribuição mental de carapuças com base num exercício de maledicência em torno de um alvo com contornos difusos.
Será que se está a falar de fulano? Será que se está a referir a sicrana? Merda, isto parece mesmo acerca de mim...

Embora não esteja ao alcance de todos, a habilidade para enviar um recado subliminar a um ou mais pequenos ódios de estimação sem, paradoxalmente, lhes destapar a careca enfiando-lhes a carapuça constitui um esforço criativo digno de registo e merece, quando inteligente, a minha admiração.
Para construir uma posta dessa natureza, uma catapulta de palavras instalada numa fortaleza de rodeios em manhã de nevoeiro, são necessários alguns ingredientes difíceis de reunir num mesmo espaço (de tempo).
A receita deste cocktail de insultos que, depois dos 40 mil euros do médico que explicou a medicina a intelectuais mas algures foi sincero demais, tem caminho aberto para reconquistar um lugar ao sol em html, inclui uma colher de sopa de pachorra, cinco litros de emoção mal contida (convém manter em lume brando para não levantar fervura), dois dedos de testa bem medidos, um pacote de vocábulos fortes e originais mas de fácil digestão e uma pitada de humor para apimentar a coisa ao ponto de provocar um pequeno laivo de rubor no/na visado/a.
O pitéu é servido frio, em sintonia com uma das suas mais costumeiras motivações, como aperitivo para o banquete que resulta quando se encontram à mesa catedráticos/as ou como brinde surpresa.

Claro que este exercício de camuflagem de um ou mais alvos acaba por despertar interesse a um grupo restrito, nomeadamente o(s) visado(s), um reduzido séquito de fervorosos seguidores e, naturalmente, o próprio autor da coisa. Este último, aliás, finge ignorar que o gozo obtido pode não passar de uma ilusão, a de que alguém irá entender pevas do que lhe pareceu um acto brilhante mas afinal resulta quase sempre falhado.
Contudo, a maioria das pessoas que blogam é composta por gente de fé.

A fé de que algures entre a meia dúzia de visitas desse dia tenha existido o leitor imprescindível para justificar que alguns escritos publicados não tivessem permanecido na gaveta de onde, em muitos casos, jamais deveriam ter saído.

O paradoxo da amizade

Tenho para mim que o verdadeiro amigo é aquele que não serve para nada, no sentido em que não se instrumentaliza, não se usa, não nos servimos dele.
Ou seja: um amigo não é aquele de quem precisamos para ir às compras ou ao ginásio, para sair à noite, para nos fazer rir ou para aconselhar-nos, para nos fazer companhia ao almoço ou para nos levantar o ego, ainda que possa fazer tudo isso e provavelmente o faça.
Quero com isto dizer que o (meu) critério para aferir se uma pessoa é importante e até que ponto faz falta, e aqui reside o paradoxo, é justamente que não faça falta alguma, mesmo que sintamos saudades dela: na sua ausência ou na sua presença, a existência continua, não mudamos hábitos nem princípios e muito menos de vida por ela ou graças a ela (porque só faz sentido qualquer destas alterações por nós mesmos).
Ou seja, os amigos não são precisos, são amados.
E se toda a gente percebesse isso, as relações humanas tornar-se-iam muitíssimo mais equilibradas.

«O desastre da educação» - por Luís Cabral

Texto publicado no «Expresso - Economia» de 28/1/2012 e disponível no blog do autor:

"O valor de uma economia é o valor do seu capital humano. Por isso o sistema educativo é tão importante. Por isso o estado lastimoso da economia portuguesa tem muito a ver como o estado lastimoso da educação.
Não faltam “culpados” para este desastre: uns dizem que o problema é o “eduquês”, outros que são os professores, ou o sindicato dos professores, ou o ministério, ou o clima, ou a água da torneira, ou sei lá o quê.
Não nego que sejam causas importantes, mas o principal culpado pelo desastre da educação em Portugal é: Você. Sim, refiro-me a Você, encarregado de educação, que passa a vida culpando os outros em vez de aceitar que o fracasso do processo educativo começa em casa. Os principais responsáveis pela educação não são os professores mas sim os próprios pais. É claro que são os professores que dão as aulas, que sabem ensinar Português e Matemática, História e Geografia. Mas todo este esforço vale pouco ou nada se não começa num ambiente familiar que dá valor ao esforço e à disciplina que uma boa educação exige.
A única desculpa que vejo para os nossos encarregados de educação é que estamos perante uma questão “cultural”. A mentalidade do “desenrasque” e do “chico esperto” também se manifesta na escola: um gaba-se do seu “novo” método de “copianço” como se tratasse de uma conquista amorosa; outro orgulha-se por ter passado a cadeira “sem estudar praticamente nada”; e o aluno mais “cool” é o que se lembra de mais “partidas” durante as aulas.
Mas o pior não é tanto a atitude dos adolescentes como a reação dos adultos: o sorriso que traduz uma certa nostalgia (“ah, se soubesses o que eu fazia quando tinha a tua idade”); o piscar de olho que manifesta aprovação (“assim é que é!”); ou simplesmente a indiferença.
O “melting pot” que são os Estados Unidos serve como teste da minha teoria, que pode não ser “politicamente correcta” mas é simplesmente correcta: as etnias com melhor prestação escolar (os judeus, os coreanos, os vietnamitas, etc.) são as que têm culturas familiares que valorizam a educação. Talvez os genes contem alguma coisa, mas neste caso o ambiente claramente se sobrepõe aos cromossomas: “nurture” vence “nature”.
Não é o ministro da educação nem o ministério da educação que resolverá o problema; nem as reformas curriculares dos teóricos da educação; nem os professores nem o sindicato dos professores; nem as escolas públicas nem as escolas privadas. A melhoria da educação em Portugal começa e continua com Você, encarregado de educação. Como? Evitando a mentalidade “outsourcing” da educação (“a escola que trate disso, é para isso que pago impostos e propinas”); exigindo esforço do filho (embora seja muito mais fácil ser o “pai popular” do que o “pai exigente”); e exigindo resultados da escola (neste sentido a maior concorrência entre escolas é uma das medidas positivas deste governo).
Estamos perante uma reforma que demora pelos menos uma geração. Estamos assim mais do que 25 anos atrasados, pelo que temos de começar quanto antes. O objectivo é monumental mas acessível: mudar a atitude perante o esforço do estudo, filho a filho."

Luís Cabral
Blog «Economics and art»

janeiro 31, 2012

A idade mental

A partir de determinada altura (creio que a maioridade legal seria um bom critério) e sempre que a idade de cada um viesse à baila, deveríamos estar obrigados a falar não da nossa idade biológica (que ficaria reservada para contextos médicos e pouco mais) mas sim da idade mental.
Parece-me evidente que teremos várias idades mentais: a emocional, a sentimental, a estética, a intelectual (subdividível em incontáveis outras, porque o intelecto não tem a mesma gradação em todas as áreas),a profissional, a familiar (há gente que, tenha a idade que tiver, nunca deixará de ter 16, neste contexto), sei lá bem... temos infinitas idades e a tal idade mental com que deveríamos responder quanto alguém no-la perguntasse seria uma espécia de média aritmética entre todas essas idades ou, vá, de média ponderada, se o contexto fosse determinante.
Complicado?!
Não acho.
Complicado é perguntarem-nos a idade de A (ou a nossa!), termos de dizer que tem X anos e, posteriormente, de explicar que a idade real (ou mental) é de X menos dez, em determinados campos, mas de X mais vinte, noutros. É que a pessoa sempre fica baralhada.

janeiro 30, 2012

Ajustes de contas

Há por aí gente daquela que até temos medo de encontrar, tamanha é a vontade de lhes espetar umas galhetas bem aviadas.
Mas, depois, se e quando inadvertidamente nos cruzamos (porque o Porto é uma bolota e Portugal um ovo) e lhes vemos os olhos e os ombros curvados sob um peso incomensurável, percebemos que não há maior estalada do que terem de viver consigo próprios todos os momentos da sua triste existência.
E percebemos que os ajustes de contas fá-los a vida.

janeiro 29, 2012

Get real...


Isto já só lá vai com uma ditadura.

O bom funcionamento de uma ditadura depende da eficácia dos seus mecanismos de repressão.
O bom funcionamento de uma democracia depende da eficácia dos seus mecanismos de fiscalização.

Com qual desses mecanismos preferes lidar, cidadão desencantado?

Dissertação sobre a corrupção, ou o paradoxo de Bul Hakeim





Corrupção II

Sempre que nos deparamos com um ou outro fenómeno pontual e pessoalizado de corrupção, ampliado e agigantado pelos média, sobe-nos ao nó de Adão a indignação própria dos justos perante a infame injustiça. Apressamo-nos a condenar, a atirar as primeiras pedras, livres que estamos de pecados tais e até lesados e sofredores que nos sentimos em consequência de tais indignidades.

Recuperamos de forma colectiva o rito judaico do bode expiatório, animal atirado ao deserto pela força dos objectos inertes de diferentes tamanhos que a fragmentação das rochas produziu ao longo dos milhões de anos à superfície do planeta, e que -indiferentes às motivações e paixões humanas - passam do seu estado passivo à condição transitória de mísseis da consciência. Saem das mãos levando consigo toda a raiva e toda a culpa e ao atingir o bode fazem deste o veículo desta última rumo à morte e ao desaparecimento e com isso da própria redenção dos envolvidos....

Esta forma complexa de lidar com um dos pilares da cultura Judaico-Cristã, a culpa, é -além das óbvias especulações no campo da psicologia- a chave para aquilo que está na base da corrupção: a Verdade. A corrupção desta acarreta o sentimento de culpa, que é expiada  usando o novamente artifício da fuga à verdade, corrompendo-a ao atribuir culpas colectivas a um único agente e que eventualmente pode até nem as ter.

A corrupção é assim, e de algum modo, sempre uma fuga à verdade. Mais, a corrupção é em si a expressão máxima da mentira. Sempre que alguém usa uma informação privilegiada na bolsa, pervertendo assim a verdade desse jogo, é um corrupto. Sempre que alguém trai uma amizade, trocando um trato com um amigo pela vantagem transitória de umas moedas, é um corrupto: troca uma entidade virtual mas poderosa e tendencialmente perene – a amizade- pela posse volátil de objectos que não conhecem dono, mas que se apropriam deles, os corruptos.

Honoré de Balzac, aclarou de forma substantiva no seu conto “ A Estalagem Vermelha” o conceito que deveremos ter sempre presente quando de corrupção falamos: “ na origem de toda a grande fortuna existe sempre um crime”. 

Atrevo-me a ir mais longe e alargar este conceito a toda uma sociedade pois as grandes fortunas não se constroem por si mesmo mas sim pelo trabalho de uma sociedade cujo esforço escorre para o lado do tabuleiro que o corrupto, ao corromper, inclinou a seu favor. São os cidadãos que trocam hábitos e modelos de convivência – e que se deixam corromper portanto-, pelos “preços baixos” não se importando que esses preços sejam a desgraça de muitos até ao dia em que na sua empresa se vê confrontado com a mesma desgraça, que era uma graça quando a desgraça era só a alheia. Sabemos pelos inúmeros processos judiciais de que a comunicação social pontualmente dá conta, como a quebra de compromissos e truculências com todos os operadores, tanto a montante com a jusante, a compra de favores e situações de privilégio, no fundo a corrupção e por isso a mentira, são os pilares de muitas fortunas que abrilhantam os Forbes da nossa praça. Mas são apenas eles os corruptos? Ou seremos todos nós, muitos até que os vêem como exemplos a seguir. Quando se troca o bem individual em desfavor do bem colectivo, de todos portanto, o que se faz? Não é previsível a derrocada de um edifício se corroermos as suas estruturas de suporte? Então como podemos exigir que um edifício social nos suporte individualmente, se todos contribuem pelo seu egoísmo, para  a corrupção da sua coerência?

Mas a corrupção será sempre má? A resposta é sim, mas pode ter uma nuança: depende de que lado se esteja no que se refere aos seus efeitos, o que não a desculpabiliza nem atenua a sua essência criminosa.
D. João II, um dos mais sábios e enérgicos monarcas, soube punir de forma exemplar e sem concessões o séquito de corruptos que a vizinha Espanha tinha conseguido granjear entre a cintura de nobres e membros do alto clero. Usou mão de ferro, e nem sequer hesitou em tirar por mão própria a vida do seu cunhado. Mas, se foi implacável com a corrupção interna, usou, talvez como ninguém mais soube fazer na nossa História, a ferramenta da corrupção nas relações complexas entre Estados, com destaque para o Espanhol, tirando daí as vantagens que culminaram no sucesso absoluto das nossas Descobertas e Diáspora Lusa pelo mundo. Foi portanto um rei sábio, muito sábio, e que pôs sempre o interesse nacional acima de qualquer outro interesse, não trocando os projectos Portugueses por fossem quais fossem as contrapartidas, e não hesitou em punir os corruptos enquanto corrompia os interesses concorrentes com os da Monarquia Portuguesa.
Usou para com os inimigos, sim,  essa ferramenta terrível, a corrupção....



Bul Hakeim

Bul Hakeim, é uma expressão Árabe cujo significado deve ser explicado de forma sucinta. A língua Árabe reflecte um traço fundamental das suas culturas (há muitas ramificações do árabe) e esse traço é o seu profundo sentido poético e metafórico quase desconhecido entre as culturas chamadas de ocidentais, nas quais pouco mais que as histórias das mil e uma noites transpiram.

A palavra Bul, ou Burr, Bayrl etc (consoante as regiões) significa “Poço”. A outra, Hakeim, deve ser entendida no contexto de estar junto a Bul, como adjectivo desta. Hakeim, ou Hakim, ou Hakeem, que significa  “proprietário-administrador” significa também “Sábio”. Algumas traduções apressadas traduzem Bul Hakeim por “poço do proprietário”; um perfeito disparate. A tradução de Bul Hakeim é a “do poço da sabedoria”, ou seja, a sabedoria é uma propriedade do poço. É de resto uma expressão árabe muito bela e que passou para o nossa cultura quando nos queremos referir a alguém muito sábio ao qual chamamos simplesmente “fulano é um poço de sabedoria”. A pessoa a que nos referimos, teria bebido de “Bul Hakeim”, incorporando assim as propriedades deste no que ao conhecimento se refere. Existe ainda um entrosamento significativo nesta expressão, pois atribui-se a um governante, ou administrador de uma região ou propriedade, a qualidade de sábio e daí a corrente confusão ao traduzir “Bul Hakeim” para “poço do proprietário”. Quanto muito poderia ser, poço "propriedade"do sábio, ou como se disse  "com propriedades de sabedoria", no fundo uma fusão de conceitos e metáforas, poesia, portanto...
***
A expressão “Bul Hakeim”, do tempo da ocupação Árabe , passou muito simplesmente para o nosso Boliqueime Português sendo assim “ Poço de Boliqueime” uma redundância: Poço do Poço da Sabedoria.

Bastaria a alguém natural dali, saber, ou seja ser sabedor ou sábio, sobre as origens do nome da sua terra para jamais querer trocar esta expressão de grande beleza e significado poético e filosófico por outra. Trocar o nome redundante de "Poço de Boliqueime"  por "Fonte de Boliqueime" ( Fonte do Poço da Sabedoria), mostra que não faz qualquer ideia da noção do disparate, pois se o que o minorava e incomodava como estadista e pessoa importante era a expressão “reles” de "poço", e por isso a trocou por “fonte”, deixou felizmente para a História e infelizmente para ele, a essência: Poço da Sabedoria, Boliqueime, ficando a primeira, a Fonte, perfeitamente adequada ao jorrar de pérolas de que o autor da mudança do nome tem sido pródigo



Este traço de comportamento, em que se troca um bem comum - A VERDADE de uma sociedade-, por uma satisfação individual quer esta seja monetária, doutrinária ou mesmo de simples e bacoca vaidade, é a centelha da corrupção.

Não se é corrupto apenas por receber vantagens patrimoniais pessoais em detrimento dos interesses de todos.

Quando um governante põe por questões doutrinárias, ou de vaidade pessoal, soluções administrativas à partida perversas, à frente do evidente do interesse comum, é um corrupto. E quando alguém rasga os pressupostos de alternância democrática que o fizeram chegar ao poder,  que nome se lhe pode dar? A quem corrompe um compromisso? E sempre que se privatiza um bem que é de todos, privilegiando uma faixa de cidadãos em desfavor da grande maioria?
Mas também de forma lata, por toda a sociedade: quando um cidadão se deixa comprar por algo que lhe cheira a impossível mas que sabe bem por pagar pouco, deixa ou não se deixa corromper?
Recupero e acrescento a frase inicial deste parágrafo: quando um estadista, entrega por dinheiro, uma actividade de interesse colectivo e determinante a todas as outras actividades a um Estado estrangeiro, fazendo passar a ingenuidade mais desconcertante de que os interesses nacionais ficam salvaguardados, é não só corrupto, mas pior do que isso. Dá todos os sinais de nunca ter bebido do poço da sabedoria. Não sabe coisa alguma outra que não seja a  satisfação pessoal subordinada à envolvente de conforto da sua formação técnica e doutrinária.

Nunca como agora faria falta alguém que não hesitasse em ficar só se fosse preciso para que o bem de todos sobrevivesse. Um D. João II que jamais entregasse os interesses da nação às mãos de interesses alheios. Mas isso seria ficar à espera do Messias e sabemos pela História, esse poço da sabedoria, como nessas alturas aparecem os que nunca beberam de tais afloramentos da terra mãe e se assumem eles próprios como a Fonte de todas as soluções...

janeiro 28, 2012

«A defesa do Estado social» - Jaime Ramos

Com o escasso tempo que a televisão permite, o Dr. Jaime Ramos apresentou na RTP Informação algumas das suas propostas para a sustentabilidade da Segurança Social e que constam do seu livro «Não basta mudar as moscas».
Esta é uma obra de fundo, com cerca de 500 páginas onde, como se lê na capa, o autor apresenta “propostas para restaurar a república”, “ideias para o sucesso de Portugal e felicidade dos portugueses” e onde resume numa frase o que eu penso sobre a megalomania da capital:  “Lisboa [é uma] amante cara de um país pobre”.
Neste livro o Dr. Jaime Ramos aborda, com o pragmatismo de quem vive as situações e como ele mesmo resume, temas como “o poder e a democracia, educação, saúde, segurança social, combate à pobreza, criação de emprego, apoio à família e aumento da natalidade, economia e estratégias de desenvolvimento com separação de áreas económicas entre o público e o privado (terceiro sector, não lucrativo e o lucrativo, vocacionado para os bens transaccionáveis) e sobre o endividamento publico e o défice da balança externa”.
Comungo da maioria das ideias que o Dr. Jaime Ramos propõe e, mesmo nos casos em que não concordo, têm sempre o mérito de nos ensinar a ver com outros olhos o nosso país e a política.
O Dr. Jaime Ramos defende que o futuro depende das decisões que se tomarem hoje, as quais determinarão se, daqui a 25 anos, seremos um dos povos mais pobres da UE ou se, pelo contrário, “se fizermos as escolhas correctas”, sejamos “um dos mais prósperos, em riqueza, e o melhor quanto ao bem estar”.
Fontes: o próprio livro (que recomendo) e este artigo de «o Despertar».

janeiro 27, 2012

O desconcerto da «concertação» II
– o benefício da dúvida perante o malefício da dívida

Não me parece que João Proença pudesse fazer outra coisa a não ser assinar aquele «acordo de concertação». E apoio esta afirmação após a apreciação de uma sequência de lógicas, porventura daquelas que o bom senso comum repudia – e ainda bem -, mas que existem e estão aí, como punhos, em que a UGT assume, de algum modo, o actual estado de refém da «troika», que lhe chega pela proximidade, identificação e miscegenização com o PS.

Isto não fará sentido nenhum, se quisermos cultivar ingenuidades estapafúrdias. Mas, numa tomada de posição mais pragmática – senhores, quanto me chateia este termo… -  e com maior noção das realidades em que nos atolamos, faz todo o sentido.

Dizer que eu, no lugar de João Proença, não assinaria este nonsense não servirá para nada pela elementar razão de que eu sou eu e o João Proença é ele, por muito lapaliciano que surja este meu arrazoado.

Por outro lado e se quisermos, optimisticamente, imaginar que ainda há quem tenha artes de saber transformar uma coisa má numa coisa boa, sempre me parece que, havendo para tal o golpe de asa, necessário e conveniente e urgente, poderá esta atitude da UGT marcar um ponto zero mas sempre a subir, a partir de hoje, em tudo o que toca às negociações que são do seu foro específico, enquanto parceiro social.

Daqui poderá, então, utilizar a rampa de lançamento de legitimidade institucional que esta malfadada assinatura de «concertação» possa ter trazido para se assumir com uma muito mais dura e intransigente postura nos combates sindicais que estão a chegar, por parte de cada um dos sindicatos nela associados.

Se assim for, não apenas a posição de João Proença assumirá foros de notável visão política, como a sua relevância nos combates inevitáveis que já aí vêm guindará esta central sindical a cumes nunca atingidos no país.

Mas se assim não for e esta assinatura foi tão-só o claudicar perante o poderio dos grandes interesses e o eco do descalabro socretino, receio bem que, a médio prazo (ou muito curto, mesmo) a UGT desapareça do mapa.

E eu gosto de ser optimista. Até porque a questão primordial no mercado do trabalho, em Portugal, no que toca a acordos, convénios, contratos, etc., é o mais elementar desrespeito por tudo quanto sejam regras por parte das entidades patronais, das quais sobressai o próprio Estado, não como entidade eminentemente reguladora das tensões sociais que é suposto ser o seu papel, mas como principal empregador, violador das leis que ele próprio engendra e de que deveria ser garante e, ainda para mais, mau pagador.

Claro que, com um tal Estado, manhoso e vilão, representado sequencialmente pelo centrão político que conhecemos, até os «patrões» mais retrógrados se permitem dar arzinhos de «esquerda» e de «progressistas». E a mistificação continua.

Enfim, cá estaremos para ver, esperando também que a CGTP, tudo bons rapazes, claro, tenha outro acordar para a vida real e acompanhe de forma mais consequente – o que não tem acontecido, veja-se o lamentável caso da mobilização dos professores, entre tantos outros – assumindo que é algo mais do que mera correia de transmissão da acção política do PCP e dê de si sintomas de saudável e criativa autonomia.  

Entretanto, os profetas da desgraça, desses que dizem cobras e lagartos, paus e pedras do movimento sindical que apurem que a sua fraqueza ou força se radicam, essencialmente, na qualidade humana da massa que os integra. Nem mais, nem menos. Somos nós, cada um de nós, que lhe confere a qualidade ou a falta dela. O resto é conversa fiada, numa altura em que estamos mal parados para créditos aleatórios.

janeiro 26, 2012