março 09, 2015

«Papel comercial a saber a papel de música» - António Pimpão

Não têm faltado, na comunicação social, notícias, opiniões, debates e imagens sobre o sério problema do papel comercial do BES/ Novo Banco.
É um facto que há cerca de 2 500 pessoas e empresas em risco de perderem mais de 500 milhões de euros por terem aplicado as suas poupanças em papel comercial.
O que é isso de papel comercial?
O papel comercial é uma das vias para as empresas se financiarem. Uma empresa que precise de dinheiro, em vez de aumentar o seu capital social, de emitir obrigações ou de pedir ao banco, pode recorrer ao papel comercial. Esta operação só pode ser feita com a intermediação de um banco, pois é este que vai convencer os seus depositantes a aplicarem o seu dinheiro nestes títulos de dívida, ou seja, a emprestarem-no à empresa que procura financiamento, garantido pelo tal papel comercial.
Trata-se, normalmente, de dívida de curto prazo e que tem taxas de rendibilidade mais elevados do que os depósitos, daí o seu interesse para os depositantes.
No caso do BES, as empresas que se financiaram com recurso a papel comercial pertenciam ao seu universo empresarial: Rioforte, ESI e ES Property.
Muito embora o BES estivesse, então, impedido pelo Banco de Portugal de intervir no apoio financeiro às empresas do grupo, em que se incluía a intermediação em operações de papel comercial, a verdade é que o fez e os seus colaboradores aliciavam clientes para subscrever papel comercial, muitas vezes sem explicarem o risco envolvido. Tratou-se, pois, de uma violação das orientações do Regulador e de uma vigarice, porquanto as ditas empresas do universo BES estavam tecnicamente falidas e era elevado o risco de não pagarem.
Aqui chegados, ao ponto de partida, passemos à fase intermédia.
Quando o Banco de Portugal tomou conhecimento destas práticas, em meados de 2014, exigiu ao então BES que constituísse provisões para fazer face às responsabilidades do próprio banco, por considerar que era a este que, em última instância, competia ressarcir os depositantes subscritores de papel comercial, no caso de os efetivos devedores (Rioforte, …) não pagarem. E isso afigurava-se muito provável, dada a sua situação financeira.
O BES contituiu/contabilizou a referida provisão, conforme orientação do BP.
Um tema de controvérsia envolvendo esta questão da provisão tem sido este: a provisão em causa ficou no BES (caso em que, segundo os comentadores, seria ao BES - banco mau - que competiria ressarcir os depositantes enganados) ou passou para o Novo Banco (e, neste caso, seria a este que competiria resgatar o papel comercial, pagando o seu valor aos depositantes que o subscreveram).
Ora, sobre isto é que os comentadores estão errados, tecnicamente falando.
O que é uma provisão, também designada por imparidade? É dinheiro guardado, reservado? É um fundo?
A provisão não passa de um mero registo contabilístico em que se regista uma perda potencial pela quantia da responsabilidade ou do risco.
O registo contabilístico desta provisão tem um efeito: sendo uma perda, reduz os lucros da entidade numa quantia equivalente. O efeito prático da sua constituição é indireto. O registo desta perda e consequente redução dos lucros da sociedade faz com que baixe a quantia que pode ser distribuída pelos acionistas a título de dividendos; e, também, que diminua a quantia dos impostos sobre o rendimento. A provisão mais não é, pois, que um “travão” à saída de dinheiro para pagar dividendos ou impostos. Mas não é geradora de receita.
Nestas condições, as provisões não podem ser transferidas de uma entidade para outra, pois elas não têm materialidade (não são fundos) nem constituem direitos. Ainda que a sua transferência contabilística fosse feita, isso seria inócuo pois não arrastaria quaisquer bens.
Portanto, as provisões só têm real sentido na entidade que as criou/contabilizou, não tendo nexo falar na sua transferência para uma nova entidade.
Por outro lado, elas só têm efeito prático ao promoverem a referida retenção dos lucros (e do correspondente dinheiro).
Mas há mais um aspeto a considerar: o que se passa quando teve prejuízo, e, não, lucro, a empresa que constitui a provisão? De notar que foi esta a situação do BES, em 2014.
Neste caso, o registo da provisão só contribui para agrava os prejuízos e, naturalmente, não promove a retenção de lucros (que não existiram!). Não tem qualquer eficácia. Só viria a tê-la, mais tarde, quando a entidade voltasse a ter lucros.
Em resumo: as provisões não são ativos com que se possa fazer pagamentos. Não se podem transferir de umas entidades para outras, uma vez que são meros registos contabilísticos e só fazem sentido na entidade que fez a sua contabilização, sendo sua finalidade a retenção de lucros, em alternativa a distribuí-los. Não têm qualquer eficácia quando a empresa sofreu prejuízo.
Acresce que o Novo Banco não recebeu do BES quaisquer ativos que lhe permitissem pagar, com eles, as dívidas relativas ao papel comercial. Pela simples razão que a dívida é das empresas Rioforte, … O BES agiu como mero intermediário.
Todos somos sensíveis ao drama daqueles que, enganados aos balcões do BES, aplicaram as suas poupanças em papel comercial de empresas do grupo BES e agora as perderam.
Não me parece que a solução seja, como sugeriu a CMVM, ser o Novo Banco a pagar a dívida do papel comercial, porque isso representaria para si uma perda e significaria serem os contribuintes a pagar os erros, vigarices e desleixo de terceiros.
Por outro lado, há evidências suficientes para criminalizar a administração do BES pelo que se passou, pois infringiu culposamente as determinações do Banco de Portugal e ludibriou os pequenos aforradores. Neste caso, sabe-se quem é o criminoso, já nem é preciso investigar. Que seja o criminoso a pagar, em vez de continuar a passar entre os pingos da chuva!

Karen Roe - «broken bench» - Ickworth Park - Suffolk - England
António Pimpão

Passos que se trocam… e a ver no que a coisa dá

Deste Passos trocado, se calhar em miúdos, dizer o quê? Surpresa? Nenhuma! Há uma seita que sabe de si mesma estar cheiinha de telhados de vidro e outros tantos esqueletos no armário, mas que se julga, com idêntica intensidade, poder passar por esta vida sempre impune, se, para tanto, lhes sobrar engenho e arte, bem como um punhado de ocasionais amigalhaços.

É a perspectiva que lhes traz o exercício do «poder», tal como o entendem. Daí, também, que se desunhem para o atingir, como meio eficaz para volitarem acima do comum dos mortais.

Não o exercem, pois, a bem da nação. Nem pensar nisso! Mas têm sempre bem presente o fito – mais ou menos ambicioso, dependendo das respectivas personalidades e formação básica (ou de berço, como queiram…) – de ficarem acima da carne seca, como expressão usada pelos nossos irmãos brasileiros, que aqui tão bem se enquadra.

Terão, bem no íntimo a pura convicção de serem sobreviventes e se, para tal, tiverem de se arvorar em superpredadores, eles aí estão, sem rebuço, sem escrúpulos, sem reticências, de bico e garras aduncas, abarbatando a carniça que puderem.

Assim sendo e vendo o que vamos vendo dos exemplos destes «maiores», multicolores e tantos, se amanhã me disserem que um tal Coelho matou a avó para antecipar uma herança ou que o senhor Silva foi informador na juventude para recolher uns trocos ou, ainda, que um próprio super-director das Finanças, conotado como um profissional de elevadíssimo gabarito, alegou falta de aviso para justificar um calote em que incorria nas Finanças, nada me espanta.

Quando, na minha actividade profissional, perante a emissão de um chorudo cheque sem provisão, colhi do emitente – que, por sinal, até exercia advocacia –, a afirmação justificativa de que «- ó meu amigo, um cheque sem provisão é uma actividade comercial corrente!», eu também não me espantei.

E é isso que me preocupa. Esta aparente incapacidade para me espantar com estas espantáveis coisas! 

março 07, 2015

«O que sempre terá querido saber sobre a poda» - António Pimpão

As duas últimas duas semanas e meia passei-as na minha quinta, em Caria, em habituais, necessários e laboriosos trabalhos de poda, que ficou a meio por já não conseguir levá-la até ao fim duma só vez. Daqui a dias lá tenho que retomar o serviço interrompido.
Para quem desconheça ou receie a atividade da poda atrevo-me a recomendar, fruto da minha experiência, que façam como eu: avancem sem receio, pois é daquelas coisas que se só se aprendem e só se aperfeiçoam, praticando. A experiência é, neste caso, muito mais importante do que a teoria.
Para se ficar a saber um mínimo de poda, ou para melhorar o desempenho, não é indispensável a frequência de cursos de formação ou andar de livro na mão, qual Kama-Sutra, a ensaiar ou praticar as diversas posições e técnicas, desde a tradicional, à francesa, passando pela inglesa ou pela californiana. Nada disso! A poda aprende-se no próprio ato, praticando. É um pouco como conduzir um carro: não se pode estar sempre a pensar nos instrumentos e na forma de os manejar; deve-se ser espontâneo e encontrar aquele automatismo desprendido, deixar-se lavar mais pela intuição do que pela racionalidade, até descobrir o ritmo mais adequado. Como referido acima, isto só se consegue com o treino. E não vale desesperar ou desistir.
Claro que nestas coisas da poda, o saber é importante mas a ferramenta também conta muito, não ficando atrás. No caso da ferramenta, o que posso dizer é que o tamanho não importa: a qualidade é que é decisiva, sobretudo se quiser que dure e evitar grandes esforços.
Em termos de técnica, esta deve ser adaptada às circunstâncias. Por exemplo, é muito diferente dar uma poda em árvores nuas (de folha caduca) ou vestidas (de folha perene).
Estando nuas, a poda torna-se mais fácil pois está tudo ali à vista, é só assestar a ferramenta.
Já no caso das vestidas, o assunto muda de figura e torna-se complicado, pois toda aquele emaranhado dificulta a visão e a própria ação, sendo necessário, previamente, meter os dedos para arredar os empecilhos.
A poda é igualmente diferente consoante se trate de árvores jovens ou velhas.
Quando são novas e, por isso, viçosas, apresentam-se bonitas, vigorosas, pujantes, tenras e macias. A ferramenta penetra nelas facilmente, até rechinam ao seu contacto. Neste caso, a poda não é cansativa e acaba por ser um prazer. Aqui deve haver uma preocupação com a sua formação. E convém deixá-las bem abertas. Inclusive, o serviço pode, com vantagem, ser feito de pé.
Tratando-se das velhas, a poda terá que ser sobretudo de manutenção. Não surpreende que se torça o nariz quando tem que se fazer o serviço, pois são mais duras, secas, angulosas, e de casca grossa Para se fazer alguma coisa de jeito tem que se estar para ali a serrar. Gemem ao passar a ferramenta. E é um trabalho cansativo, tem que se andar sempre no sobe e desce.
Num caso e noutro é preciso atenção aos filhos, que devem ser evitados por serem muito sugadores de energia.
É curioso - e isso mais parece uma ilusão de ótica - que, antes da poda, e mesmo durante, os paus, vistos de baixo, parecem enormes. Porém, acabada a poda, e já por terra, o seu tamanho, estranhamente, torna-se muito minguado, parecendo ter diminuído para menos de metade. E, no entanto, o pau é o mesmo, só varia o ângulo de visão!
É à medida que o trabalho avança que se fica a saber melhor o que deve ser feito a seguir, e como. Quando se chega ao fim fica-nos um sentimento de satisfação que logo se esvai ao constatar que se tem que começar a seguinte. Mas o melhor é sempre nem pensar em quantas ainda faltam, para não desanimar.
Não me considero um especialista da poda. Talvez porque comecei já tarde. No entanto, acho que estou em condições de ajudar quem do assunto perceba menos do que eu. Por isso, fico à disposição de quem precisar e o solicitar, seja com a ferramenta seja com o know-how.

António Pimpão

PS – Ao reler o texto, suspeito que o mesmo possa ser suscetível de uma segunda leitura. A ser isso verdade, confesso que não foi esse o meu propósito, pois só tinha uma em mente (que não é de mentir). E a que pensei foi exatamente essa em que também está a pensar. Claro que quando se escreve não se está livre de espíritos malévolos darem uma interpretação diferente. Daí, lavo as minhas mãos.

março 06, 2015

março 03, 2015

Amadeu Ferreira

Amadeu Ferreira deixou-nos e foi falar o seu querido Mirandês para outras paragens... Homem empenhado em causas, de que se destacaria a defesa intransigente e reiterada do Mirandês, que tanto ajudou a fazer renascer e a cultivar, mas também homem solidário e de intensa cultura. 

Tive (tivemos) o prazer de o ter nas Noites com Poemas.  
Aqui vos deixo o resumo da sessão nº. 85, O Mirandês e a Poesia, em jeito de homenagem, bem como a nota biográfica, à data coligida para adequada divulgação: 


Sessão 85

19 de Abril de 2013 Amadeu Ferreira
O mirandês e a poesia
de Amadeu Ferreira / Fracisco Niebro / Fonso Roixo / Marcus Miranda

Amadeu Ferreira (Sendin, 29 de Júlio de 1950) ye abogado, i porsor cumbidado an la Faculdade de Dreito de l'Ounibersidade Nuoba de Lisboua, i cuntina a ser un de ls percipales respunsables pula promoçon de l Mirandés, sendo pursidente de la Associaçon de Lhéngua Mirandesa, cun sede an Lisboua, i tenendo traduzido yá 'Ls Quatro Eibangeilhos', 'Ls Lusíadas' i bários poemas de Bergílio i Hourácio (http://mwl.wikipedia.org/wiki/Amadeu_Ferreira).

Foi, então, esta uma sessão integralmente em torno do mirandês e da poesia de Amadeu Ferreira, vertida nas autorias de Fracisco Niebro e de Fonso Roixo, bem como de Marcus Miranda, sendo este, preferencialmente, um tradutor de clássicos latinos (Catulo e Horácio), com preponderância em peças de teatro, mas com incidência próxima também na poesia daqueles autores.

Uma língua identitária, fruto de um modo de ser e de estar que a fez sobrevivente desde tempos imemoriais, matriz de uma comunidade que teve artes de não a deixar cair em perdição, contra ventos e marés de contrariedades ou contrariando preponderâncias de cultura dominante. Um exemplo a seguir, digo eu, em tempos tão aziagos para a afirmação da diferença cultural que tantos de nós ainda persistem em cultivar, a bem da riqueza maior da Humanidade na diversidade.

Tratando-se de Miranda – que se tentou trazer para perto de todos, até na vestimenta – algum arrebatamento, ao nível dos afectos, se nos impunha, para o que contámos com a complacência do nosso convidado.

Depois, a palavra ao excelente comunicador que o professor é. Com vivacidade, ritmo e paixão, Amadeu Ferreira levou-nos a passear pelo linguajar (linguajares?) das terras do nosso Nordeste... mas sempre em mirandês, obrigando-nos a redobrada atenção, para não lhe perder pitada, ainda que sempre mantivesse a preocupação da sua inteligibilidade, em relação à assistência.

Assim percorremos, afinal, diversas disciplinas da história, enriquecendo a moldura do quadro mirandês que Amadeu Ferreira nos ia, vividamente, pintando e ilustrava com poemas extraídos dos seus diversos heterónimos em livros como Cebadeiros, Pul Alrobés de Ls Calhos, L Mais Alto Cantar de Salomon, Ars Vivendi-Ars Moriendi, L Purmeiro Libro de Bersos, através dos quais dá livre curso, também, ao seu combate em defesa da grandeza e dignidade de uma língua que o é de corpo inteiro, como muito bem documentou também através da leitura de diversas estrofes de Ls Lusíadas an Mirandés, com retroversão de sua autoria.

Foi-nos dado, ainda, o privilégio de usufruir de um mano a mano e partilhá-lo com toda a assistência, em volta de um poema da autoria de Jorge Castro, em pertués i mirandés, com a prestimosa ajuda do professor Amadeu Ferreira

Por fim e continuando a matriz que enforma estas nossas sessões, foi dada a palavra a quem se afoitasse a usá-la, de onde destacaremos, nesta sessão, Adelaide Monteiro, que nos trouxe poemas mirandeses de sua autoria, colhidos no seu livro Antre Monas i Sebolácios.



NOTA BIOGRÁFICA

AMADEU FERREIRA

Amadeu Ferreira (Sendin, 29 de Júlio de 1950) ye abogado, i porsor cumbidado an la Faculdade de Dreito de l'Ounibersidade Nuoba de Lisboua, i cuntina a ser un de ls percipales respunsables pula promoçon de l Mirandés, sendo pursidente de la Associaçon de Lhéngua Mirandesa, cun sede an Lisboua, i tenendo traduzido yá 'Ls Quatro Eibangeilhos', 'Ls Lusíadas' i bários poemas de Bergílio i Hourácio.
Naciu an Sendin i stá a bibir an Lisboua zde 1981. Pul meio passou por Vinhais i Bergáncia, adonde studou ne l Seminário até 1972; marcou passo an Mafra (L Calhau) i an Lisboua (1973-1975), donde fizo la tropa; bolbiu a Sendin an 1975-76, adonde screbiu i repersentou l purmeiro triato que screbiu an mirandés anquanto trabalhaba na custruçon cebil, ne l campo i na Adega Cooperativa Ribadouro; stubo meianho an Lamego (1977), outro meio na Régua (1977) i dous anhos an Vila Real (1978-81), adonde coinciu la tie cun quien stá casado, indo ne ls anterbalos al Porto para studar filozofie na Faculdade de Lhetras (d'adonde passou pa la Faculdades de Lhetras de l'Ounibersidade de Lisboua). Até 1982 melitou nun partido político UDP, chegando a sentar-se por un cachico na Assemblé de la República (onde mal chegou a abrir la boca). Apuis desso, bendiu publecidade, fui porsor de música, i tirou la lhicenciatura na Faculdade de Dreito de Lisboua, an 1990, adonde passou a dar scuola zde esse anho. D'anton para acá fizo l mestrado (1994), publicou mais dua dúzia de lhibros i artigos de dreito, bai purparando l doutoramiento, trabalha na CMVM Comissão do Mercado de Valores Mobiliários, adonde faç parte de cunseilho diratibo, stando agora cumo porsor ousseliar cumbidado na Faculdade de Dreito de l'Ounibersidade Nuoba de Lisboua.

In http://mwl.wikipedia.org/wiki/Amadeu_Ferreira

março 01, 2015

«HSBC, parte do todo» - Carlos Pimenta

“As grandes empresas não toleram pagar impostos. Aquelas que ainda os pagam consideram-se antiquadas”
(Guardian, Out/13).

O escândalo HSBC é mais uma explicitação da tendência das últimas décadas, silenciosa e dolorosa para a maioria dos cidadãos. Não é um acaso. Também outros bancos suíços promovem o transporte de notas por zonas fronteiriças, antecipadamente neutralizadas, contas fantasma em offshores ou complexos esquemas cruzados de branqueamento de fortunas.

Evitando repetir o que tem sido publicado, chamaria a atenção para algumas outras vertentes do acontecimento:

As revelações do ICIJ são mais uma demonstração inequívoca da imprescindibilidade da liberdade na procura de uma sociedade mais ética e justa.
O roubo dos ficheiros feito por Falciani foi em 2006! Após a sua prisão o governo francês “enviou cópias para todos os países com quem tem tratados de cooperação fiscal e que as solicitaram”. A importância dessa listagem era notória, quer pelo banco em causa quer porque figuras gradas do Estado francês apareceram envolvidos em escândalos. Como é que as autoridades portuguesas podem hoje mostrarem-se surpreendidas? Ou tiveram uma ignorância inadmissível ou esconderam-na. As presentes revelações confirmam a sua relevância.
É certo que muitas das fugas aos impostos, e de branqueamento de capitais, eram legais. Desse facto só podemos concluir que a actividade legislativa, fiscalizadora, reguladora e repressiva dos Estados e dos organismos internacionais está profundamente errada.
As ligações entre os nomes anunciados e os mais altos quadros da política nacional e mundial mostram inequivocamente a densa malha de conflitos de interesse, a incapacidade dos eleitos representarem efectivamente as populações que os elegeram. Talvez tal explique os “esquecimentos”, as leis ausentes, promíscuas, e até os “perdões fiscais”.
A lavagem do dinheiro permite que múltiplos crimes surjam com a face visível do empreendedorismo de alguns. As intercepções da criminalidade internacional organizada com os negócios legítimos são cada vez mais estreitas. A crise e a dinâmica financeira beneficiaram o peso crescente daquela. Percorrem os mesmos bancos, mercados, paraísos fiscais e negócios. Partilham os mesmos espaços de aprendizagem e influência das elites. Não nos espantaríamos que sectores estratégicos da economia nacional, neste tempo de privatizações e fragilidade dos Estados, estejam fortemente influenciados por máfias.
Estamos perante práticas imorais sistémicas. Peças do agravamento das desigualdades sociais. Os mais débeis são os que pagam (mais) impostos. Os outros alimentam os mais de 21.000.000.000.000 de dólares dos offshores de Londres e outros impolutos países.

Revoltamo-nos e perguntamos que fazer. As respostas existem, mas os controlos políticos para a sua execução são difíceis. Difíceis mas imperiosos se pretendermos que a democracia não seja plutocrática, escravizadora dos cidadãos. Para tal, além de outras medidas, é fundamental que os Estados readquiram a sua honradez, dignidade e capacidade de influenciar a sociedade, na representação das populações. E todos nós temos uma palavra a dizer, uma acção a promover.

Carlos Pimenta

Artigo na revista «Visão» de 19 de Fevereiro de 2015

«V de Varoufakis» - a brincar...

fevereiro 21, 2015

Uma outra Troika: A Dívida, a Alemanha e o Moto Perpétuo

“Os que buscam o moto-perpétuo estão tentando obter alguma coisa a partir de nada.” 

Sir Isaac Newton



Esta roda, com pesos
fixados a braços móveis giraria sozinha
pelo efeito da gravidade
Tem sido um festival da parte dos elementos do nosso Governo, leia-se " feitores do protectorado" e de toda a sorte de comentadores alinhados com o fundamentalismo ideológico que os caracteriza, a posição da Grécia. 

Uma única coisa move os seus pensamentos: a dívida. A imensa dívida da Grécia, e como cereja no topo do bolo, o castigo colectivo imposto por não terem feito o "trabalho de casa".

Pois lamento ter de dizer que a verdade não é essa, a Grécia foi o país sob assistência financeira que mais medidas tomou, que mais destruiu a economia, seguindo as receitas da Troika e que mais viu nada dar resultado. 
Tal como cá, por mais que martelem resultados, nem se pagou a dívida, a qual cresceu assustadoramente, nem a economia acelerou a partir do nada.


A verdade é esta e é assim que funciona esta economia assente no crédito: toda a gente deve  milhares de euros a outros, e
esses outros devem ainda a outros que por sua vez devem de novo qualquer coisa a alguém que deve dinheiro à Grécia que deve dinheiro à gente. 
Isto no fundo é uma roda gigante, empurrada pelo colectivo mas que a Alemanha quer que gire em moto perpétuo. 
Ou seja, o plano dos Bosches para a Europa, é aquela coisa que gira sozinha e que quanto menos se empurra, mais roda, até ao ponto de acelerar sozinha e criar assim energia a partir do nada, que por fim iria para as tomadas das casas dos Alemães... 



E depois os outros é que acreditam em contos de crianças...






fevereiro 20, 2015

Os portugueses são um povo em trânsito: da dignidade à indignidade.


Ouviu-se por cá, depois das declarações do 'homem dos esquentadores', que os portugueses nunca perderam a dignidade; que a troika nunca colocou em causa a dignidade dos portugueses, blá, blá.... Hoje, na sessão de debates do parlamento, isso voltou a ser reafirmado pelo chefe da coelheira. E o que é curioso, é que eu dou a razão ao homem roedor, vulgo, coelho. Mas eu explico.
Quando o cidadão que viu cortada a sua pensão vai à farmácia e só avia meia receita, dizendo que ainda tem em casa as mezinhas para as quais não tem dinheiro, não está a sentir-se ferido na sua dignidade por causa da Troika;
Quando o casal de cidadãos idosos tem de receber em sua casa de volta os filhos que casaram há 20 e tal anos, trazendo consigo cônjuges e netos, porque ficaram sem empregos e o subsídio acabou e, por causa disso, todos terão de se abrigar debaixo do mesmo teto sobrevivendo das parcas pensões, também não acham que a Troika está a ferir a sua dignidade;
Quando o casal com filhos pequenos tem de abandonar a casa que um dia em sonhos pensaram que seria sua, findo o prazo do empréstimo bancário, e agora têm de devolver ao banco ou a um oficial de execuções fiscais, isso também não faz com que a Troika tenha ferido a sua dignidade;
Quando os doentes
, por causa da redução de investimento na área da saúde, ficam desumanamente expostos nos corredores dos hospitais à espera de uma cama e de cuidados e, entretanto, aproveitam para morrer só para 'chatearem' o ministro da saúde, isso também não foi perda de dignidade devida à Troika;
Quando a criança com necessidades de ensino especial não tem esse apoio nem sequer aulas por falta de profissionais que foram despedidos ou reduzidos por falta de verbas no ministério da educação, essa criança também não consegue dizer que a Troika lhe tirou a dignidade;
Quando a mãe solteira ou separada se suicida com os filhos nos braços porque perdeu tudo e nada mais lhe resta, essa então nem tem tempo para dizer que a Troika lhe retirou a dignidade;
Enfim, poderia desfiar um novelo de cidadãos, uns mais como eu e outros mais como os meus amigos que nunca acharam que a Troika os tornou indignos. E digo isto, porque, em verdade, não foi a Troika que nos feriu na nossa dignidade; foi o nosso governo que se encarregou disso, sem precisar da troika para nada.
Já agora, com que dignidade é que nós ficaríamos se deixássemos que fossem os de fora a ferir a nossa dignidade se temos cá dentro prata da casa que tão bem o sabe fazer? Haja dignidade!

fevereiro 17, 2015

«O Syriza improvável» – José Gil

Foto DN
O que é «ser de esquerda»? O que distingue um pensamento e uma acção de esquerda dos de direita? A clivagem entre esquerda e direita, hoje tão desacreditada, readquiriu uma súbita pertinência, com acontecimentos recentes como a irrupção de um partido «radical» na cena política da Europa. A vitória do Syriza e as primeiras medidas do seu governo provocaram pequenas ondas de esperança e tempestades de fúria – curiosamente, não na opinião, mas nos partidos, grupos e indivíduos com intervenção no espaço público.
Como reagiram os que saudaram o Syriza? Com empatia imediata, não tanto pelo seu programa partidário como pelo que trazia de inovador no plano dos investimentos político-existenciais. Sabendo, como o povo grego que nele votou, que as probabilidades eram poucas de concretizar as promessas eleitorais, os que o apoiam encontram nele uma fonte de forças para agir e pensar diferentemente.
Já os que o criticam se exprimem noutro tom. No tom conhecido do «bom senso», amplificado agora por uma espécie de estridência de ódio e pavor que faz tremer os responsáveis políticos europeus. Curioso, este ódio, em pessoas que se pretendem moderadas, condenando toda a espécie de extremismo e «radicalismo» (o termo «radical» equivale ao negativo absoluto, ao «diabólico»).
De onde vem ele? Certamente daquelas raízes que Nietzsche tão bem caracterizou – do ressentimento dos que estão habituados a dominar e a serem reconhecidos como o valor supremo e que se vêem, de repente, ameaçados no seu conforto, material e moral. Por quem? Por gente que ousa aquilo que nunca ousaram o «excesso» e que sempre secretamente desejaram, gente «irresponsável», «irrealista», «sonhadora», «infantil», etc.
ALÉM DO ÓDIO, O MEDO. Como se este se tivesse globalmente transferido do povo grego para as instâncias dirigentes europeias. Como tentam elas expulsar o medo que as invade? Com ameaças de exclusão da zona euro ou de insolvência do Estado grego. Querem «pôr na ordem» os gregos, dominá-los, domá-los, forçá-los a obedecer. Que eles abandonem as suas «fantasias» e «cumpram as regras».
Temos aqui a ilustração do que é «ser de direita», segundo critérios não ideológicos: é preferir codificar, marcar, controlar os fluxos de energia e de desejo a deixá-los passar livremente. Ser de esquerda é dar uma atenção preferencial à libertação de fluxos e de linhas de fuga. Opções já inscritas no inconsciente. Há militantes «ideologicamente» de direita que são profundamente de esquerda: revelam-se anarquistas igualitários populares quando os investimentos atingem uma certa intensidade.
Outros, de esquerda, são intrínseca e inconscientemente de direita – tirânicos, prepotentes, paranóicos (na vida privada, por exemplo). Assim se explica como tantos militantes de grupúsculos de extrema esquerda, na Europa dos anos 60 e 70, venham ocupar postos dirigentes de partidos de direita: o que visavam inconscientemente, na juventude, era já o poder institucional a que acederam na idade adulta.
A DIREITA CONSERVA ou reforma e inova – para recodificar novamente numa grelha estrita. A esquerda prefere criar o novo libertando o acaso.
Como não saudar a irrupção do Syriza na cena político-existencial da Europa – da Europa adormecida, paralisada, auto anestesiada pela sua moral niilista do «bom senso», do «justo meio», da «via única»? Nunca vivemos um tónus de vida tão baixo, tão pobre, tão espiritualmente desgraçado, tão resignadamente desesperado.
É isto a Europa? A Europa dos anómalos, dos criadores, dos Shakespeare, dos Hölderlin, dos Rimbaud, dos Pessoa, dos Van Gogh e dos Artaud? Estes seres «improváveis», «impossíveis» abriram campos inauditos à criação e à cultura da Europa. Não deveríamos tê-los domado, tê-los «posto na ordem» antes de eles... «ousarem»?


José Gil

Ensaio publicado na revista «Visão» de 12 de Fevereiro de 2015

fevereiro 16, 2015

Cuidado com o que os Bancos vos debitam!

Queixa Eletrónica ao Provedor de Justiça

Data/Hora Entrada: 16-02-2015 11:05:40

1. Identificação
Nome completo: xxxxxxxx Moura
Endereço corr. eletr.: xxxxxx@gmail.com
Endereço: xxxxxx
Telef./Telemóvel/Fax: xxxxxx
Sigilo: Não

2. Queixa

Entidade(s) visada(s):
Banco de Portugal? Governo? Os bancos em geral (no meu caso, o Millennium BCP)

Razões:
Em Julho de 2014, vi a minha conta bancária no Millennium BCP debitada em € 50 por um "débito directo" de uma entidade "Saúde +". Questionei o banco e disseram-me que era uma autorização que eu teria dado (não dei!) e que esta "Saúde +" é "uma entidade registada no sistema financeiro, que envia para o banco um ficheiro com o NIB e o valor a debitar. O BCP assume a idoneidade da entidade".
Tentei contactar esta "Saúde +" e só encontrei uma página internet, que estranhamente só tem um formulário de contacto e um fax:
http://www.saudemais.pt/contactos.html
Enviei várias mensagens pelo formulário e as únicas respostas que tive foram "automáticas", a agradecer o contacto ("Confirmamos a recepção do seu e-mail, daremos seguimento ao mesmo o mais rapidamente possível").
Entretanto, o Millennium BCP reembolsou-me o valor e cancelaram a autorização de débito directo desta entidade.
Mesmo estando o meu caso resolvido, entendi - e entendo - que este abuso pode ser feito penalizando outras pessoas, pelo que pedi ao Millennium BCP que esclarecessem isto e tomassem medidas para que não voltasse a acontecer. Nada recebi de concreto até hoje.
Contactei também o Ministério da Saúde em 1/11/2014 e, até hoje, também só recebi um e-mail a dizer "O seu contacto foi recebido com sucesso no Portal do Governo de Portugal. Seremos tão breves quanto possível na resposta".
Entretanto, em Setembro de 2014, tive mais um débito na conta, agora de outra entidade: "Obvienredo". Não faço ideia de que entidade é esta! Neste caso, numa pesquisa na internet, descobri que é Obvienredo - Actividades de Ginásio Fitness Lda, com sede em Mem Martins. O Millennium BCP limitou-se a aplicar o mesmo da situação anterior: reembolsaram-me o valor, cancelaram a autorização de débito directo e disseram-me que "vamos comunicar este problema para ser averiguado, juntamente com o que reportou em Julho". Até agora, não soube de mais nada.
Cumprimentos,
Paulo Moura

fevereiro 15, 2015

«A segunda libertação» - Boaventura Sousa Santos

A ortodoxia sabe que o problema da Grécia é o problema da Europa e que a sua solução só poderá ser europeia.

A recente vitória do Partido Syriza na Grécia teve o sabor de uma segunda libertação da Europa. A primeira ocorreu há setenta anos, quando os aliados libertaram a Europa do jugo alemão nazi e puseram fim ao horror do holocausto. Um dos países que mais sofreu por mais tempo com a ocupação nazi e suas consequências foi a Grécia. A geoestratégia dos aliados fez com que à libertação se seguisse uma guerra civil para impedir que os patriotas comunistas e seus aliados chegassem ao poder. Num contexto democrático, e ante um poder alemão, agora económico e não militar e disfarçado de ortodoxia europeia, os gregos voltam a revelar a mesma coragem de enfrentar adversários muito mais poderosos e de mostrar aos povos europeus, que sofrem as consequências do jugo dessa ortodoxia, que é possível resistir, que há alternativas e que é preciso correr riscos para que algo mude sem tudo ficar na mesma.

Tenho escrito que o capitalismo só é inflexível até sentir a necessidade de se adaptar às novas condições. Digo capitalismo e não União Europeia porque neste momento os interesses do capitalismo global são os únicos que contam nas decisões dos órgãos decisórios europeus. Se esta hipótese se confirmar, o risco assumido pelos gregos foi calculado e é possível que os portugueses, os espanhóis, os italianos e, em geral, todas as formigas europeias da fábula de Esopo possam beneficiar do aperto a que serão sujeitas as cigarras do norte e do sul (o sistema financeiro, os bancos e as oligarquias). Para já, estamos num momento alto de política simbólica, comunicação indirecta, suspensão informal das regras de jogo, não provocação do "adversário" para além do necessário, fronteira ambígua entre o negociável e o inegociável. Mas a ortodoxia tremeu, e o tremor da sua bancada subalterna foi, como era de esperar, o mais patético. No caso português, indigno.

A Europa está num momento de bifurcação – ou se desmembra ou se refunda. Pode levar anos, mas não voltará a ser a mesma. É um momento de desequilíbrio pós-normal em que mínimas oscilações podem provocar grandes mudanças num ou noutro sentido. Eis os desafios. Primeiro, contra a ortodoxia, sempre afirmei que a dívida grega (ou portuguesa) era europeia e como tal devia ser tratada. A ortodoxia só agora se dá conta disso. Sabe que o problema da Grécia é o problema da Europa e que a sua solução só poderá ser europeia. Vai começar pela negação da realidade e "demonstrar" a especificidade do caso grego, mas a realidade vai gritar mais alto. Será fácil convencer os portugueses de que o cemitério em que se converteram as urgências hospitalares é o produto de um surto anormal de gripe que entretanto ninguém viu? Segundo, as políticas de austeridade provocam mais tarde ou mais cedo reacções e é bom que elas ocorram por via democrática. Foi assim na América Latina, onde a austeridade dos anos noventa do século passado levou ao poder governos progressistas, para quem a bandeira principal era a luta contra a austeridade e a promoção do bem-estar das maiorias empobrecidas. Na Europa, pese embora o triunfo do Syriza e o possível triunfo do Podemos em Espanha, há um elemento adicional de incerteza. Ao contrário da América Latina, há também partidos de direita e de extrema direita que se dizem contra a austeridade. O fracasso das soluções de esquerda não conduzirá necessariamente a soluções de centro-esquerda ou centro direita. É por isso que a Europa nunca mais será a mesma.

O terceiro desafio são os EUA. A União Europeia tem vindo a perder autonomia em relação aos desígnios geoestratégicos dos EUA, como mostram o maior envolvimento na NATO, a nova guerra fria contra a Rússia, a parceria transatlântica de livre comércio, que desequilibra a favor das multinacionais norte-americanas os processos decisórios nacionais e europeus. Os grandes media querem-nos fazer querer que a Grécia é uma ameaça maior que a Ucrânia, mas os europeus sabem que, pelo contrário, na Grécia, a Europa está a fortalecer-se, na Ucrânia, está a enfraquecer-se. A Grécia deu um primeiro sinal de que não quer ser parte de uma Europa refém da guerra fria. Será esta posição parte da negociação? Até quando pode a UE ser lobo em Atenas e cordeiro em Washington?

Boaventura Sousa Santos

Artigo de opinião na revista «Visão» disponível aqui.

fevereiro 11, 2015

Pornografia política

«De acordo com o primeiro-ministro, as ideias do Syriza são “um conto de crianças”. É possível, não digo que não. Mas as ideias de Passos Coelho são, como sabemos, um filme para adultos. E o traseiro que o protagoniza, infelizmente, é o nosso.»

Ricardo Araújo Pereira


pensamento do dia:
Tsipras e Varoufakis e o efeito Tina Turner

Pois é...  Tendo recriado alguma alegria de viver na coisa política mundial, Alexis Tsipras e Yanis Varoufakis estão a ser os porta-vozes da esperança que ainda resta à Europa, por muito que isso desgoste os seus lamentáveis detractores.

Já agora, nesta senda da alegria de viver, ocorre-me que eles incorporam, de facto, aquilo que poderá chamar-se o verdadeiro efeito TINA TURNER. E porquê, perguntam-me vocês. 

Ora, como se sabe, há uns idiotas que defendem cegamente o TINA (There is no Alternative). Mas os protagonistas gregos estão a dar a volta (TURN, para os anglo-saxónicos) quer ao argumento quer aos seus defensores. 

Como quem dá a volta a alguma coisa é um TURNER (turner - one that turns), cá temos a conclusão, o efeito Tina Turner - acabadinho de inventar, aqui e agora, e ainda sem patente registada.   

Façam o favor de ser felizes. Pelo menos, vão tentando... 

fevereiro 06, 2015

O Humanismo, os Bezerros de Ouro e o "Custe o que custar"

....iremos cumprir tudo, custe o que custar... indo mesmo além da Troika, ..
....o Estado deve fazer tudo para salvar as vidas, mas não custe o que custar....


Um dos episódios Bíblicos, o Êxodo, relata a saída polémica dos Hebreus do Antigo Egipto.
Teria o povo sido escravizado durante séculos até que um menino salvo dos rios, Moisés, ao tornar-se homem lideraria os Judeus na missão divina da libertação colectiva.
Pondo de lado a mistificação dos factos históricos e das derivas que estes factos sofreram até chegarem à imortalização sob forma de escrita, ressalto aqui o particular momento em que o povo judeu, já longe do Egipto e após ter passado o mar vermelho, subitamente se vê caído na adoração de uma divindade pagã.
Um bezerro em ouro tomara o lugar de Jeová. O povo, após longa temporada nas deambulações pelo deserto e em desespero por recursos de sobrevivência, reunira todos as jóias que possuíam e às ordens de traidores,  fundiram-nas num dos ídolos chamados pagãos que nas terras de onde tinham saído, representava a abundância.
Mas onde estava o líder nessa altura? Teria ele também abandonado a fé em Jeová?
As escrituras indicam que Moisés estaria à altura nos montes Sinai a receber os Dez Mandamentos directamente da mão de Deus.
O seu regresso, e a ira que ao assomou ao ver o povo caído na adoração de falsas divindades, teria feito regredir a deriva metafísica e de novo sob o mando de Moisés, e protegido pelo deus verdadeiro, lá seguiram a saga rumo à Terra Prometida....

A metáfora desta passagem Bíblica, resumida nas linhas superiores, é perfeitamente aplicável ao nosso viver colectivo nos tempos correntes e nos valores aos quais nos submetemos.
https://www.youtube.com/watch?v=mGk2rvjEGC8
Também aqui estamos a atravessar um deserto, à mingua de recursos, em sofrimento e a caminho de alguma coisa melhor que se promete algures no futuro.
Também aqui e às ordens de líderes fomos despojados das melhores coisas que tínhamos para alimentar um bezerro dourado.
Também aqui esse esforço, custasse o que custasse, teria de ser porfiado e levado por diante, mesmo em holocausto se necessário fosse, indo mais além do que a divindade exigia.
Também aqui, o deus que vive em cada um de nós, foi deposto, em favor da adoração da divindade dourada. O Homem, numa regressão do relativismo, não como a medida de todas as coisas, mas sim o bezerro em ouro, o dinheiro.
Também aqui, é preciso mantê-lo no seu pedestal divino, custe o que custar, mesmo se isso custar a vida dos que  são obrigados a adora-lo.
Também aqui alguém virá algum dia munido quiçá mais de ira do que de razão, partirá as tábuas dos mandamentos em cima do bezerro e libertará de novo, contra os bezerros, contra os homens, contra todos,  os eternos cavaleiros do apocalípse...
A História está cheia de relatos nesse sentido.



fevereiro 03, 2015

O lucro e o bem estar

Li recentemente isto:

"As empresas de hoje devem focar-se nas pessoas e no propósito do seu negócio e não apenas nos produtos e no lucro, segundo a quarta edição do estudo «Millennial Survey» publicado anualmente pela Deloitte. Estas e outras evidências sugerem que as empresas, especialmente as dos mercados desenvolvidos, terão que realizar profundas mudanças para atrair e reter os talentos do futuro."

Espero que se dissemine o que defendo há mais de 30 anos e que escrevi no meu livro «Persuacção - o que não se aprende nos cursos de gestão», publicado pela Sílabo em 2005:

O objectivo último das pessoas e das organizações deve ser o bem estar. O lucro deve ser uma forma de obter esse bem estar, não um fim em si. E não são, de forma alguma, antagónicos. Aliás, da obtenção do lucro depende o bem estar de todos os que dependem de uma organização, investidores obviamente incluídos.

fevereiro 02, 2015

Querer é poder, mas é preciso saber.


Por diversas vezes que o poder instalado em Portugal vociferou à boca cheia que Portugal não é a Grécia. Todos sabemos isso, mesmo aqueles que não sofrem de geografite aguda. Aliás, não conheço nenhum português que tenha conseguido ir de férias à Grécia sem sair das nossas fronteiras. Portugal, realmente não é a Grécia, para o bem e para o mal. Neste caso sobre o qual agora discorro, não somos a Grécia, infelizmente.
Com uma semana de governo a Grécia já fez mexer mais na Europa do que todas as eleições que ocorreram entre 2009 e 2014. Reparem que, além das medidas para consumo interno, o governo helénico (essencialmente o primeiro ministro e o ministro das finanças) definiram uma operação de conquista conjunta que os vai levar longe.
Três dias depois de terem colocado o líder do Eurogrupo no seu devido lugar, avançaram com uma ronda de contactos que apanhou a maior parte dos governantes da Europa ainda na cama: a agenda previa começar por Chipre (razões de cordialidade e não só), a Itália e a França. Logo a seguir avançariam em bloco para o Reino Unido. Meus caros, isto chama-se agenda inteligente. Mas mais inteligente ainda foi a antecipação da ronda com Michel Sapin, o ministro das finanças francês, pelas repercussões que já teve nas notícias da manhã. Ora, Chipre, Itália, França e o Reino Unido são os chamados 'friendly fields', territórios não hostis às propostas da Grécia.De lado ficaram Portugal e Espanha, também países periféricos da Zona Euro, porque todos sabem que são mais papistas do que o Papa no que à austeridade diz respeito. Quando Tzipras escolheu este roteiro sabia o que fazia e no momento em que for defrontar o grande round com a Buldozer Merkel tem atrás de si um conjunto forte de países que não desgostam das suas propostas. A Grécia já não será só a Grécia; será mais do que ela própria porque a Alemanha e a UE não podem fazer orelhas moucas a razões de vários povos e economias de peso, como a italiana, a francesa e a inglesa.
Por outro lado, ouviu-se hoje Sapin admitir o, até há pouco tempo, inadmissível: a Troika é um aleijão que está mal configurado e que, sim, deve acabar por isso mesmo. Querem melhor eficácia política do que isto? O que Sapin fez foi reconhecer créditos e mérito a Varoufakis e às suas propostas de renovação dos paradigmas económico-financeiros recentes. E para nós fica a pergunta: então esse esterco chamado Troika, que tão mal fez nos lares portugueses, é um aborto que nunca deveria ter posto os pês nos países em crise? Cabeças devem rolar.
Dito de outros modos mais chãos, a Grécia está a querer para poder e tem a sorte de ter no leme homens que sabem.
Cá em Portugal, infelizmente, tudo isto é avaliado como uma" coisa de crianças" e o governo não pode, porque não quer e não quer, porque não sabe. Não sabe ser, não sabe querer e não sabe que existe o poder de mudança. Em menos de uma semana comecei a sentir vergonha do governo que tenho; até há dias ele merecia a minha discordância, mas a partir de agora merece o meu asco por causa da tacanhez e visão de cabresto que revela.
Adivinha-se mudança de governo em 2015. Mas também parece que não iremos longe, pois Costa já afirmou que o PS não quer ser o Syriza. Que pena, pois se quisesse, poderia e só restaria a dúvida se saberia. Mas como não quer, então não pode. Mas não pode porque não quer ou porque não sabe? Essa é a resposta que ele nunca dará e assim ficaremos no limite da Europa, de quatro, a baixar as calças para uma geraldina da Troika e de todas as instituições financeiras que de nós  queiram servir-se.