fevereiro 09, 2006

As caricaturas do profeta Maomé

Homenagem a René Magritte por D!o - http://www.johnandjohn.nl/
As caricaturas de Maomé publicadas originalmente pelo diário dinamarquês «Jyllands-Posten» feriram gravemente a extrema sensibilidade dos muçulmanos no que diz respeito às suas convicções religiosas.
A polémica que se criou é, infelizmente, um excelente caso para estudo de argumentação.
Como é possível contestar argumentos baseados em valores? De um lado, defendem-se as caricaturas pelo princípio da liberdade de expressão. Do outro, ataca-se quem as fez, as publica e as defende, com base no princípio da dignidade e do direito à imagem (neste caso, pela negativa, já que a religião muçulmana não permite a representação em imagem do seu profeta Maomé).
Neste caso, será que o argumento da defesa da liberdade de expressão não se vira contra os seus próprios defensores? Não é o que os muçulmanos estão a fazer, expressando-se da forma que julgam ser a melhor para mostrar a sua indignação? Mesmo quem critique o argumento da força (usado por quem destrói embaixadas, por exemplo) pode ser alvo dessa crítica, porque usa o argumento da força da comunicação social sem se preocupar com as susceptibilidades que fere.
O jornal «El Mundo» argumenta assim: "Uma reacção de protesto, por ser violenta, não deveria gerar uma desculpa, mas sim a defesa firme da liberdade de expressão, um dos pilares de qualquer sistema democrático. (...) Essa liberdade tem limites mas são os estabelecidos pelas leis que podem até ampliar-se se necessário. Mas seria um grande erro assumir como próprias as normas de outros, entre elas a proibição de representar graficamente a Maomé, só para evitar ofender os intolerantes".
Não concordo. Há um princípio tão básico da democracia que é constantemente esquecido: «a minha liberdade termina onde começa a liberdade dos outros». Compreendo ambas as partes mas tendo a reprovar a forma como, após as primeiras demonstrações de indignação, ostensivamente se deitam mais achas para a fogueira. O respeito pela dignidade dos outros tem que estar sempre presente numa argumentação racional. Se esse princípio é quebrado, cria-se uma espiral de defesa-ataque de dimensões e resultados imprevisíveis.
Sobre este assunto, escreveu José Gil no ensaio «Maniqueísmos e fundamentalismo» da revista Visão de 16.02.2006:
"O bem e o mal não se repartem em Ocidente e Oriente, ou inversamente. O imperialismo, a intolerância, os poderes tirânicos e a opressão existem de um lado e do outro. E o maniqueísmo leva ao totalitarismo e ao esmagamento das liberdades. Não é o Ocidente em bloco que defendemos, quando defendemos a liberdade de expressão e, para além dela, a liberdade de pensar; nem é contra o Oriente em bloco que nos elevamos. Mas é por qualquer coisa que atravessa os países ocidentais e orientais, a liberdade de existirmos juntos para inventar e construir a nossa casa Terra".

janeiro 20, 2006

Política, mente?! Correcto!


"A retórica, envolvendo uma lógica dialogante, é própria do debate político democrático. A democracia, na verdade, implica, de algum modo, a substituição do predomínio do número pela supremacia do diálogo, da argumentação e do convencimento. E isso supõe a revalorização de um pensamento e de uma prática retórica.
Mas há retórica e retórica, boa e má (...)"
[Rui Alarcão expõe exemplos de ambas, no seu ponto de vista]
Fonte: Artigo de opinião de Rui Alarcão para o «Diário as Beiras» - 2006-01-20 [pode ler aqui todo o artigo]

Não me interessa aqui comentar os exemplos práticos de retórica «boa» ou «má» dados por Rui Alarcão, seguindo o conselho da minha avó materna desde pequeno:
- Se te perguntarem qual é o teu partido, responde que a tua política é a política do trabalho.
Mas há que elogiar esta posição em defesa da retórica como arte da persuasão racional. E, como podem ler em «Persuacção - o que não se aprende nos cursos de gestão», aprender retórica é a melhor forma de nos prevenirmos do seu mau uso por quem pretende manipular a informação que recebemos e o nosso pensamento.
A política mente? Correcto! Mas o pior que podemos fazer, como cidadãos, é deixar passar os disparates como se não fosse nada connosco. Como se os assuntos da política fossem só para os políticos.
O que mais me satisfaz é ver que, de uma forma geral, a população portuguesa está cada vez mais informada e, quando se argumenta que algo está podre na república de Portugal, exigem-se contra-argumentos racionais por parte dos políticos. A frustração quando tal não acontece vai acumulando... até alguns, por todos, dizerem basta!
Quem assim argumenta, amigo é.

novembro 13, 2005

Cavaco Silva critica a retórica...

«Os portugueses sabem distinguir retórica de realidade» - foi o comentário de Cavaco Silva aos jornalistas por Mário Soares o ter acusado de ser um «candidato esfinge», porque se refugia no silêncio.
Como se ele próprio não utilizasse a retórica!
Como dizia um professor norte-americano de Argumentação, o melhor para não cair em falácias é o silêncio. Porque quando Cavaco fala (como qualquer outro mortal) não consegue escapar à retórica. No próprio artigo em que critica a retórica diz que «não há factor de credibilidade e confiança» num «homem que diz uma coisa e depois uma coisa diferente» [ataque ad hominem]; apresentou-se como o garante da «estabilidade económica» e «quem pode, de facto, criar um futuro melhor» [como se uma economia aberta como a portuguesa dependesse do Presidente da República e não do que se passará no contexto internacional]; quer «um Portugal que saiba aproveitar as oportunidades» e que «não tenha medo da globalização» [não estará - deliberadamente - a confundir(-nos) medo com necessidade de estar alerta?]
Fonte: «Portugal Diário»

Numa coisa nunca me engano e raramente tenho dúvidas: enquanto a retórica for vista como algo de negativo - mas sempre usada porque é inevitável - nunca seremos capazes de defender ou criticar racionalmente um argumento. E os portugueses continuarão a ser os bombos da festa de meia dúzia de «iluminados».

novembro 07, 2005

O rei Leão mostra a sua garra

Ao longo de uma entrevista à revista «Visão» (nº 661 de 3/11/2005), Mário Soares mostra conhecer - e saber usar a seu favor - as regras da argumentação racional:

[a propósito de Cavaco Silva] (...) "É um homem um pouco rígido e, provavelmente, não é um homem com a preocupação do diálogo. Não gosta de controvérsia, de debater, de convencer".

[quando os entrevistadores lhe perguntaram "porque escolheu, para lugares importantes, na sua campanha, João Paulo Velez, ex-assessor de Santana Lopes, e Cunha Vaz, que Ferro Rodrigues processou por difamação?"] "Essa pergunta, desculpe que lhe diga, é uma pergunta ad hominem (...)" [ataque falacioso pondo em causa a competência de uma pessoa ao fazer insinuações sobre a sua personalidade. Aqui, Mário Soares argumentou - e bem - que ambos estavam nas suas funções pelas suas competências profissionais]

[a propósito da forma como encara o mandato, se for eleito] (...) "Penso que posso dar um grande contributo para a estabilidade do País na concertação social, uma referência que faltou no manifesto de Cavaco Silva. Não é só coesão, mas coesão através da concertação, isto é, da discussão entre as partes, do acordo".

outubro 29, 2005

Missão cumprida

Na tarde de sexta-feira, 28, tive a oportunidade de apresentar aos colegas presentes no 1º Congresso dos Economistas o que penso sobre a lacuna da argumentação na formação dos gestores em Portugal.
Para quem entender útil, deixo aqui disponível a apresentação em Power Point.
Comecei por dizer algo como isto (enquanto apresentava a primeira imagem, com a capa do livro «Persuacção»):
"Peço-lhes que imaginem, por absurdo, que eu aproveitaria o facto de ser neste momento a pessoa que está mais alto nesta sala e com um microfone ligado para dizer «colegas, têm que comprar este livro». Muito provavelmente seria mal interpretado e a minha atitude não seria compreendida. Mas se tentasse explicar que a minha comunicação é uma síntese do conteúdo deste livro, que está disponível para quem quiser aprofundar este tema, decerto os colegas já aceitariam esta explicação. Saindo da imaginação, o que constatamos na realidade é que, nas organizações, muito frequentemente o argumento da força se sobrepõe à força dos argumentos (...)".
Notei que, não sendo a argumentação um tema assumido pela classe, não deixa de ser sintomático que muitos colegas tenham abordado, nas suas comunicações, assuntos que necessitam, de uma forma ou de outra, de competências em argumentação. Alguns exemplos:

Competitividade
Carlos Ricardo - «Comunicação organizacional e gestão de recursos humanos» - alertou para a relevância das estratégias de comunicação dentro das empresas;
Rui Saraiva - «Gestão e Portugal - propostas para uma 'união de facto'» - propôs aumentar a transparência nas decisões;

Modelo de desenvolvimento económico
Mário Baptista - (comunicação não distribuída) - destacou a importância da gestão participativa por objectivos;

ConferênciaVítor Constâncio (keynote speaker) - citou Myrdal, que alerta para a "necessidade de explicitação de valores".

outubro 21, 2005

É já na próxima semana

1º Congresso Nacional dos Economistas
Como já aqui informei, a Ordem dos Economistas vai realizar no Porto, em 27, 28 e 29 de Outubro, o 1º Congresso Nacional dos Economistas.
Irei apresentar a minha comunicação «argumentação e mudança nas organizações» na secção IV - a formação dos economistas.
Quem vai lá?

outubro 11, 2005

«Persuacção» na revista «Dirigir»

O nº 91 da «Dirigir - Revista para Chefias e Quadros» do IEFP - Instituto do Emprego e da Formação Profissional destacou o livro «Persuacção - O Que Não se Aprende nos Cursos de Gestão»:

Cá está!

Jimmy Wales, fundador e director da Wikipédia, em entrevista a Paulo Moura (meu homónimo do jornal «Público») - revista «Pública» nº 489 de 9 de Outubro de 2005:

(...) Os artigos de enciclopédia devem ser escritos, não por especialistas, mas pelo povo?
Devem ter grande qualidade mas não reflectir o ponto de vista de alguém. Devem ser equilibrados, neutros (...).Não será isso apenas possível se se escrever um artigo muito superficial sobre um assunto?
Não acho. Deixe-me dar exemplos de tópicos onde há controvérsia. O aborto. A minha visão é completamente diferente da da igreja católica. Mas posso sentar-me com um padre muito conservador e...Podem conversar.Mais do que isso. Podemos escrever um artigo juntos. É como se estivéssemos a discutir o tema e entrasse uma pessoa que não sabe nada sobre o aborto. Eu e o padre podemos combinar: vamos escrever um artigo para que ele compreenda o que estamos a discutir. Não precisamos de dar respostas nem de nos entendermos.Talvez se possa fazer isso com um padre católico, mas com um fundamentalista islâmico...
Se é alguém verdadeiramente extremista talvez não aceite alguns dos princípios básicos necessários para se poder cooperar.
Que princípios são esses?
Aceitar a razão, o pensamento argumentativo, a persuasão. Temos também de partir do princípio de que todas as pessoas são razoáveis e inteligentes, que não são desonestas nem têm como objectivo destruir as outras (...).

agosto 25, 2005

Ambiguidade - uma falácia tão comum...

... nomeadamente nos títulos da imprensa escrita.
Um exemplo, a propósito dos incêndios que têm desvastado o país:

"PSD/Coimbra
Tenham vergonha, senhores políticos
Os políticos deviam estar em silêncio numa altura em que a tragédia bateu, de forma tão rápida, à porta das populações. Em vez disso, sacodem as culpas e atribuem-na aos outros. (...)"
Jornal «as Beiras» - 2005-08-25


O PSD/Coimbra é a fonte deste reparo?! Ou o seu alvo, já que não é um artigo de opinião e é assinado por uma jornalista daquele diário?
Quando se lê o corpo da notícia, fica-se a saber que foi o presidente da Concelhia de Coimbra do PSD, Marcelo Nuno, que fez esta chamada de atenção... aos políticos. Ou seja, também a ele próprio. Passo à frente este paradoxo e restrinjo-me à confusão gerada pela ambiguidade do título: a frase é uma citação (sabemo-lo depois), mas como não está entre aspas provoca problemas de leitura. E o antetítulo não ajuda nada. Ajudaria, sim, se fosse "PSD/Coimbra acusa governo". A partir daí, saíamos da ambiguidade jornalística e já poderíamos focalizar-nos no conteúdo do artigo. E no paradoxo dos políticos que se revezam no poder e que dançam o Bailinho das Cadeiras e o Vira das Farpas com a mesma naturalidade com que George Bush diz "nós somos os bons e ___________ são os maus".

julho 30, 2005

Jóias da argumentação - o amor à vida

"O meu padrinho sempre foi um tipo com uma certa piada... daí eu também o ser.
Uma ocasião, andava ele bastante teso e um dos clientes que lhe devia dinheiro arranjava todas as artimanhas para adiar o pagamento.
Um dia, desesperado, foi directamente à caça dele e apanhou-o no escritório.
Depois de o devedor mais uma vez dizer que por isto ou aquilo não podia pagar, o Senhor Salomão Fonseca murmurou:
- Pois é... é assim que eles às vezes aparecem mortos...
- Quer dizer que o senhor... matava-me?
- Já não digo nada.
... ... ...
- Ó Filomena, passe aí um cheque ao Senhor Salomão.
Isto é pura verdade."
Pierre_Verdadinerecebido por e-mail

Jóias da argumentação - quando se fica sem argumentos

"Havia, já lá vão muitos anos, um guarda-redes muito popular chamado Malabiça e que jogava numa equipa de Coimbra.
Pois bem. Certa tarde, num domingo soalheiro, a sua equipa defrontou outra, também de Coimbra, para o campeonato regional.
Os guarda-redes nessa época jogavam quase sempre com um boné de pala, quer fizesse sol ou não! Mas nessa tarde havia mesmo sol.
O jogo decorria com animação e eis quando a equipa adversária do nosso amigo Malabiça ataca a sua área e um avançado dispara forte.
O Malabiça faz a defesa da tarde e evita o golo mesmo sobre o risco da baliza.
Mas sorte macaca. Com o impulso para a defesa da bola, o boné cai para dentro da baliza.
O nosso herói levanta-se com destreza, dá dois ou três passos à rectaguarda e apanha o boné, enfia-o na cabeça e pontapeia a bola para o meio campo!
Só que o árbitro, cumpridor zeloso das regras, validou o golo, para desespero do nosso valoroso Malabiça!"

Rafael
recebido por e-mail

Jóias da argumentação - nada como ser o chefe de pessoal

"Em 1988, eu era Engenheiro Estagiário numa empresa de construção. Estávamos a fazer uma obra em Sever do Vouga e... já estava atrasada.
Nessa semana havia um feriado à sexta e o chefe de pessoal telefonou-me a dizer que era necessário que o pessoal trabalhasse no feriado.
OK, pensei eu. Eu, o 'inginheiro', ainda por cima acabadinho de vir da tropa, onde mandava lá nuns tipos com uma certa facilidade, pensei: «Sim. Eu chego lá e, falo, um por um e... mainada!»
Lá fui eu, escada acima.
- Ó Senhor Mário, sexta feira pode trabalhar?
- Não, porque já tinha destinado ir com a minha mulher à feira.
- Ó Senhor Sabino, sexta pode trabalhar?
- Não, porque não tenho transporte;
- Ó Senhor Vicente, sexta-feira pode trabalhar?
- Não, porque tenho que ir podar.
(...)
«OK - pensei eu... - vou ligar ao chefe de pessoal a dizer que não trabalhamos porque os tipos não podem».
Trrim... Trrim... Trrim...
- Senhor Hermínio?
- Sim.
- Olhe não temos hipótese de trabalhar porque... bla, bla, bla...
- Ó senhor engenheiro, eu já passo por aí.
(...)
Chega o Senhor Hermínio à obra e, cumprimentando o primeiro, diz:
- Então, ó Vicente, sexta-feira cá estamos, não é?
- Tem que ser.
- Ó Sabino, sexta-feira...
- Cá estamos.
- Ó Mário...
- Está bem.
Percebes bem o que é um chefe de pessoal?"
Pierre_Maçariquinerecebido por e-mail

julho 27, 2005

Passatempo


primeira página do diário 24 Horas - 26 de Julho de 2005

Tente identificar a(s) falácia(s) presente(s) neste argumento em que a conclusão é implícita:
«... logo, são demasiado velhos».

Como distinguir um argumento fraco de uma falácia?

"Olá mais uma vez.
Como distinguimos se estamos numa situação de fraco argumento ou de uma falácia? Exemplo: acabei de ler no Público um artigo de fundo sobre as posições do PS. Às paginas tantas, o artigo usa este argumento: «se não fizermos o TGV e a OTA ficaremos mais marginalizados face à Europa».
Estamos perante o quê? É que o artigo mais adiante contra-argumenta: «os países escandinavos também não estão no centro da Europa e estão-se nas tintas para o TGV... o seu modelo de desenvolvimento não passa por obras inúteis».
José Pinho
(recebido por e-mail)"

Os argumentos fracos e as falácias - tal como os dogmas, os erros grosseiros e falhas em responder a questões críticas - são ambos erros de argumentação.

Mas o que é um argumento fraco? Um argumento é válido se for impossível que as premissas sejam verdadeiras e a conclusão falsa (em simultâneo). Se isso não acontecer o argumento é inválido, sendo que, neste caso, poderá ser forte ou fraco. Um argumento é muito forte se for quase impossível as premissas serem verdadeiras e a conclusão falsa (ao mesmo tempo). É fraco se for possível que as premissas possam ser verdadeiras e a conclusão falsa (ao mesmo tempo).
É que para termos um bom argumento é necessário que, em simultâneo:
1) o argumento seja composto apenas por juízos;
2) seja válido ou forte, ou pelo menos tão forte quanto possível;
3) não contenha quaisquer frases vagas ou ambíguas;
4) haja fundamentos para acreditarmos que as premissas são verdadeiras;
5) as premissas sejam mais plausíveis que a conclusão.

No exemplo que dá, onde estão os fundamentos? Em lado nenhum! Argumento mais fraquinho que este é difícil. Porque é que sem a Ota ficaremos marginalizados? E porque se assume que com a Ota já não ficaremos marginalizados? Idem para o TGV...

É tão fraquinho que nem merece que se chame falácia. Mas poderá sê-lo, se tiver o poder de persuadir alguém que não consiga detectar a falha monumental deste argumento. Ressalve-se que, por outro lado, poderemos estar perante uma falácia por parte do Governo se houver dados que não nos estejam a ser revelados: agenda escondida. Mas agora estou eu a cometer uma falácia: insinuação (sem provas concretas).

julho 22, 2005

Será que nunca mais aprendem?

"O primeiro-ministro solicitou ao Presidente da República a exoneração do ministro das Finanças, Luís Campos e Cunha.
Segundo uma fonte oficial, terá sido o próprio ministro a pedir a sua substituição, alegando razões pessoais, familiares e cansaço."
Agência Lusa
20/07/2005

"Razões pessoais, familiares e cansaço"?!
E é assim que querem persuadir os portugueses?
Desta forma, senhores governantes, cada vez o fosso será maior entre os políticos e a população.


Depois quem se admira das anedotas, como esta que circula por aí?
O senhor primeiro ministro afirmou há pouco que, por razões de controlo do défice, a luz ao fundo do túnel irá ser apagada.
Ou desabafos como o de um amigo meu:
Quem me dera ser ministro para me poder demitir por cansaço...

julho 21, 2005

Falhas de comunicação do Governo

"Diogo Freitas do Amaral considera que houve falhas na forma com o Governo apresentou e explicou aos portugueses as medidas de austeridade para equilibrar as contas públicas. Na opinião do ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, o Executivo não foi tão persuasivo como podia ter sido na defesa das suas políticas.
«As medidas eram tão difíceis, demoraram tantas horas de trabalho e de ponderação a definir e a aprovar, que todos nós, a começar por mim, descuidámos a frente externa, a frente da explicação ao País das medidas tomadas. Mas isso certamente se vai intensificar», afirma o número três da hierarquia governamental, numa
entrevista ao DN.
Depois de citar o filósofo grego Xenofonte para sustentar que «hoje o poder político não se traduz apenas pela capacidade de mando, mas também pela capacidade de persuasão», Freitas considera que o Executivo «tem tido bastante, mas porventura seria necessário mais». E assume que «se alguma deficiência se pode apontar» a José Sócrates e à sua equipa, «é de não se ter explicado suficientemente a inevitabilidade da subida dos impostos».
Na opinião de Freitas do Amaral, nos próximos tempos os socialistas têm pela frente «um combate pela adesão do povo português às medidas» de redução do défice, impondo-se que cada um faça «o que lhe compete». «Os sindicatos e a oposição criticam - estão no seu direito. O Governo e o partido que o apoia têm que defender e explicar as medidas do Governo - esse é o seu dever. Se cada um fizer o que lhe compete, estou convencido que a maioria dos portugueses manterá a confiança no Governo e no primeiro-ministro.»"

Diário de Notícias
19.07.2005

A necessidade de persuadir - e de simultaneamente sabermos defender-nos de falácias - encontra-se presente em todas as vertentes das nossas vidas. Para o tema específico da persuasão política, recomendo a tese de mestrado de Paula do Espírito Santo, «o processo de persuasão política» (1997). Está disponível aqui em formato pdf.

julho 20, 2005

As premissas são o argumento?

"No modelo simples (premissas logo conclusão) as premissas sáo os argumentos? (porque o argumento é um conjunto de razões para justificar um juizo ou conclusão).
Exemplo: "meus senhores, está a haver profundas mudanças estruturais no nosso negócio, com a entrada da China na OMC, o nosso negócio está ameaçado (e apresenta uns estudos). Por isso, é necessário encetar um processo de raciocínio estratégico e reconfigurar a nossa empresa".
Conclusão: repensar a empresa.
Argumentos ou premissas: entrada da China e dados técnicos.
Correcto ou não?
José Pinho
(recebido por e-mail)"


No exemplo que dá, as premissas são essas e a conclusão surge identificada com "por isso" (como podia ser com "logo", "ou seja", "isto é", "então",...).
E, de facto, em linguagem corrente chama-se frequentemente argumentos às premissas. Mas em rigor o argumento é o «conjunto completo»: premissas e conclusão. Basta pensarmos, no seu exemplo, que não havia conclusão: "meus senhores, está a haver profundas mudanças estruturais no nosso negócio, com a entrada da China na OMC, o nosso negócio está ameaçado (e apresenta uns estudos)."
O que é que aconteceria? Aposto que todos pensariam:
- E onde é que quer chegar?...
É que o argumento estaria incompleto. Só com a apresentação das premissas, não há um argumento. Obviamente, pode ser esse o objectivo: deixar a conclusão para depois de uma discussão entre os participantes. E a conclusão também pode estar implícita, como neste exemplo: "Continuem a esbanjar dinheiro em investimentos supérfluos". Está implícito "que vão para o charco".

julho 19, 2005

Uma confissão e uma dúvida

"Tenho estudado (não lido) o seu livro. Confesso que me sinto intelectualmente impreparado para assimilar esta matéria, ainda por cima tão importante para uma boa preparação para funções executivas. Serei uma excepção ou sou apenas mais um exemplo de como estamos, em Portugal, tão mal formados, humana e profissionalmente?
Dúvida: argumento e premissa não são a mesma coisa?
José Pinho
(recebido por e-mail)"

Pode ter a certeza que não somos só nós os dois a sentirmo-nos impreparados, em Portugal, para argumentar racionalmente e evitar armadilhas colocadas por quem connosco dialoga. Mais grave ainda seria nem sequer pensarmos - como acontece com muita gente - que estamos expostos, nas organizações, a todo o tipo de falácias. Sejam elas apresentadas por má-fé ou simples «nabice» dos nossos interlocutores.
Quanto à sua dúvida, um argumento é um conjunto de juízos, um dos quais é a conclusão, cuja verdade se pretende estabelecer, com base nas premissas, que se supõe conduzirem, suportarem ou convencerem que a conclusão é verdadeira. Ou seja, num modelo de argumento simples («premissas, logo conclusão»), as premissas são os juízos que permitem chegar a uma conclusão. No modelo que proponho no livro «Persuacção», o argumento é algo bem mais complexo, já que para se chegar à conclusão temos dados que terão que ser justificados, com fundamentos e assumindo-se restrições. A conclusão estará sempre sujeita a qualificadores (raramente é peremptória), estará sujeita a refutação e haverá certamente restrições à sua aplicação:



Fui suficientemente claro?
Não hesite em escrever e colocar todas as dúvidas que tiver.

julho 18, 2005

1º Congresso Nacional dos Economistas

A Ordem dos Economistas vai realizar no Porto, em 27, 28 e 29 de Outubro, o 1º Congresso Nacional dos Economistas.
O Congresso desenvolver-se-á em quatro secções:
I - a gestão
II - a economia
III - a profissão de economista
IV - a formação dos economistas
Propus à organização do Congresso uma comunicação enquadrada nesta última secção - «argumentação e mudança nas organizações» - que foi aceite.
O desafio fica lançado:
"Julgo que concordará comigo quando defendo a utilidade de o agente de mudança aproveitar as bases da argumentação filosófica para poder ultrapassar os obstáculos e resistências com que se irá certamente deparar. Até porque estou certo que terá experiências vividas e presenciadas por si em que este tipo de situações «se passou mesmo assim».
Não deveríamos ter tido formação nesta área nas nossas licenciaturas?"