setembro 15, 2012

governar assim...


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A culpa em Portugal é de todos nós

Excerto da crónica de Ricardo Araújo Pereira na revista Visão de 6 de Setembro de 2012, «a culpa morre poliândrica»:

A culpa da crise? "Nos Estados Unidos, os organismos oficiais designados para apurar essa responsabilidade concluíram que a crise foi causada pela desregulação do mercado, pelos excessos do sistema financeiro e por um vasto leque de aldrabices avulsas em grandes instituições de crédito. Em Portugal, uma comissão informal de economistas e comentadores reuniu-se e, a olho, decidiu que os culpados pela crise eram aqueles que tinham vivido acima das suas possibilidades. Quem eram, exactamente, essas pessoas?, perguntaram alguns ingénuos, esperando uma lista com nomes e moradas. Somos todos nós, responderam os severos comissários, santos agostinhos do pecado económico-financeiro: todos tínhamos estado em falta. Adão pecou e transmitiu-nos o pecado original, e ao mesmo tempo terá contraído uma dívida (provavelmente, junto do proprietário da macieira), transmitindo-nos também o endividamento original."

Para ilustrar, escolhi a mensagem deixada pela Deolinda no Facebook e no Twitter para a manifestação de hoje (em Detroit, "numa sala decorada com os históricos murais do Diego Rivera"):

A posta na prudência de activista de sofá


Perante a confrangedora falta de alternativas no panorama eleitoral, entre os partidos da coligação que nos governa, um maior partido da oposição com o menor líder da mesma e conotado com o descarrilar das contas, um PC à antiga portuguesa a quem só falta a clandestinidade para estar verdadeiramente na sua praia (a praia de há umas décadas valentes atrás) e um syriza light com um líder de saída e dois por entrar, a pessoa acumula a vontade de gritar bem alto o protesto com a impotência inerente à ausência de propostas alternativas credíveis.
E é assim que se fica sem saber o que fazer perante uma manif como a de hoje.

O dilema é óbvio: se não faltam pretextos para irmos para a rua gritar, sobejam as ausências de soluções, de hipóteses alternativas ao que se quer combater. A estratégia de ir derrubando governos e depois logo se vê é arriscada, porque a instabilidade política é terreno fértil para o caos, além de ser inócua em termos de resultados práticos.
O protesto é necessário e entendi o impulso dos que contribuíram nas ruas para o derrube de Sócrates. Contudo, comparando uma e outra iniciativas, se entendo ainda melhor o impulso dos promotores do Que Se Lixe a Troikacompreendo ainda menos os seus objectivos e ambições.

Uma manif é sempre um sinal de pujança democrática, se há povo nas ruas é porque existe liberdade e existe força para lutar contra o que esteja mal e precise mudar, sobretudo quanto se trate de protestos pacíficos e com objectivos concretos em vista e alternativas para propor.
É neste último aspecto que a porca torce o rabo, pois começam a tornar-se numa moda (correndo a passos largos para a vulgarização) as manifes cheias de gente com vontade de demitir alguém mas vazias de gente com vontade de fazer ou de propor algo de melhor.
Para mim a questão coloca-se de forma simples: temos que pagar o que devemos e nos termos que nos impuserem. A alternativa, mais abébia menos abébia da troika, resume-se ao abandono do Euro e depois logo se vê.
Não vejo seja quem for a sugerir a alternativa mais radical, o papão do fim da classe média confortável a acobardar tudo e todos por falta de, lá está, um programa concreto de salvação nacional em tais circunstâncias, a saída voluntária (ou não) do Euro com todas as consequências que isso iria acarretar.

Não querer sair mas sem saber como ficar

Mas se a saída do Euro implica o pandemónio instalado no dia imediatamente a seguir à ocorrência, a permanência parece caminhar para o mesmo resultado mas com uma agonia mais prolongada no tempo. E parece-me ser essa percepção das coisas que mais gente levará às ruas no dia 15, a de que estamos todos a penar para chegarmos todos a lado algum. Ainda assim, se ninguém faz peito com o orgulhosamente sós e pelintras, também não vejo quem seja capaz de encimar a manif com uma proposta alternativa (a que passa por continuarmos no Euro e por isso pagarmos as dívidas nos termos dos credores) que garanta aquilo que o actual Executivo parece não lograr com as suas opções.
Temos pois mais um levantamento popular contra os que lá estão sem que alguém se preocupe com quem lá vamos meter depois, ou mesmo o Presidente da República por nós, caso a coisa até resulte na demissão do Governo.

É aqui que a lógica me trai na vontade, mesmo sem acesso ao Facebook onde agora tudo parece acontecer, de ajudar a engrossar fileiras. Não me revejo em iniciativas capazes de provocarem um efeito que ninguém pelo menos se afirme capaz de controlar, em climas de instabilidade política que ainda fragilizam mais as nações em aflição, como os exemplos grego e italiano tão bem ilustram.
Vejo imensa vontade de desfazer coisas, governos e assim. Mas não noto indícios de alguém saber como recompor as mesmas coisas depois.

E as lições da História, tão ignoradas, confirmam que são sempre uma péssima ideia os becos sem saída políticos quando se circula nas ruas da amargura financeira e social.

setembro 14, 2012

mais, não!

Depois de tudo quanto foi dito e de quanto mais se possa vir a dizer, aqui se declara que este cidadão considera que o actual governo perdeu a legitimidade para a governação do País - do qual, aliás, apenas uma parte relativamente pouco significativa do eleitorado o terá eleito - e que deve apresentar imediata demissão. A bem ou empurrado...

Talvez não fosse má ideia, entretanto, perante os resultados que nos vêm sendo apresentados de há mais de vinte anos a esta parte, que o próximo elenco governamental fosse contratado através de anúncio em jornal da especialidade - que os há em profusão -, com contrato a termo e manutenção mediante bom cumprimento de objectivos pré-definidos.

Ah... poderia ser um governo de iniciativa presidencial, já agora, para lhe conferir alguma credibilidade. E à Assembleia da República competiria, em coordenação com o senhor presidente da República, a fiscalização da actividade governativa.

Tenho a certeza de que, em termos de sensibilidade social, nada ficaria a dever a estes que temos tido e que, aparentemente, do conceito de nação apenas guardam o preceito do «venha-a-nós-o-vosso-reino» .

aos governantes...

o meu desabafo... político.
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setembro 13, 2012

«Portugal: mais sacrifícios?» - artigo de opinião no jornal Pravda

Uma tradução minha (desculpem qualquer coisinha) do artigo original (disponível em inglês aqui):

"O Governo Português anunciou que no próximo ano, a carga de contribuições para a Segurança Social irá aumentar de 11 para 18 por cento, um aumento de sete por cento por pessoa, além de outros aumentos insuportáveis ​​de preços de serviços públicos. Na equação da política portuguesa, um governo PSD é sinónimo de ruptura social.
Nunca na história da política apareceu um homem tão mal preparado para governar um país em crise, nunca apareceu uma equipa tão inepta ou que tenha implementado de forma tão cega políticas de laboratório, como o governo (social-democratas) PSD do primeiro-ministro Pedro Coelho e seus ilustres ministros. Já na década de noventa o mesmo partido usava um ministro das Finanças que foi rotulado como "o mentalmente avançado". Para o que lá está hoje não há rótulos nem palavras nem paciência para o primeiro-ministro e para o molho de charlatães que secou o país ao ponto de ruptura.
Na verdade, aqueles que pensam em votar em PSD, CDS / PP ou PS devem fazer uma ressonância magnética do cérebro porque estes são os três partidos que têm governado (?) Portugal desde a Revolução dos Cravos, em 1974. Ou seja, não têm desculpa para a acusação de que  levaram o país à situação em que se encontra pois governaram, umas vezes sozinhos e outras colectivamente, ao longo de quase quatro décadas.
Se fossem administração de qualquer empresa teriam sido demitidos por incompetência mas, como pertencem à classe que dita as regras em Portugal, o pior que lhes pode acontecer é voltarem para onde vieram, uma universidade ou algum instituto, fazendo o que só Cristo saberá... 
Há situações em que a verdade deve ser dita, por mais que doa e em Portugal há uma tendência para se fingir que está tudo bem, esperando-se que talvez um dia vá chegar um D. Sebastião para colocar tudo em ordem. Desculpem, mas isso não vai acontecer. O laissez-faire morreu em setembro de 2012. Virem a página, é tempo para uma nova mentalidade, um novo país.
O Pai desta situação é o próprio presidente, Aníbal Silva, que gosta de cultivar um ar de grande sabedoria, protegendo-se, escondendo-se por trás de frases enigmáticas, fontes de sabedoria como "Eu tenho uma certa visão para Portugal", ou "O Progresso do povo português no Espaço Económico Europeu".
Aníbal Silva foi primeiro-ministro entre 1985 e 1995, precisamente nos anos após a adesão de Portugal à Comunidade Europeia (mais tarde União Europeia). Será que ele ou seus governos prepararam o país para o desafio? Não, ele passou dez anos a passear em cortejos de automóveis com batedores de moto da polícia, dando palestras e fazendo política. Durante esses anos, houve rios de dinheiro derramados através das fronteiras de Portugal, supostamente para serem bem investidos, criando as condições para Portugal prosperar no clube do euro.
Embora o país estivesse totalmente impreparado no momento e, na minha opinião, a sua adesão se tenha devido mais à amizade de Mário Soares com "son ami" Mitterrand e, apesar de Aníbal Silva, em termos de honestidade e de integridade, estar nas fileiras dos intocáveis ​​na política portuguesa, ser honesto e parecer "sério" não é suficiente. E a década de Cavaquismo foi um aborto, fedorento e fétido que polui todos os sectores do Governo Português durante 30 anos.
O dinheiro foi mal utilizado, as negociações com a União viram a indústria de Portugal, a agricultura e as pescas desaparecerem. Perdendo essas indústrias, como poderia ficar Portugal preparado para o desafio? O que se segue, a partir de meados dos anos noventa, tem sido uma consequência disto, é a cauda do Cavaquismo, uma espécie de porcaria mal-cheirosa e viscosa que cobre tudo, a esconder buracos e e a enganar todos.
Desde meados dos anos noventa assistimos a um deslizamento constante, testemunhando-se mais anos de gestão política abominável por incompetentes que esbanjaram o dinheiro dos contribuintes, que deixou Portugal com os piores salários, com os preços de alimentos e serviços públicos a crescerem ano após ano; nenhum governo protegeu as pessoas quando o país entrou no Euro (sem perguntar se alguém queria), quando os preços dobraram ou triplicaram e os Portugueses foram deixados com uma das maiores taxas de impostos na Europa (para os pobres, é claro, não para os ricos).
Agora vamos para 2012, com um governo que em qualquer outro lugar pertenceria a um hospício, o de Pedro Coelho, que implementa medidas sem saber se vai passar no Tribunal Constitucional, quando até mesmo um idiota sabe que não, e que pensa que tem o direito de saquear o país e roubar o povo através do aumento da contribuição da Previdência Social por sete pontos percentuais.
Quando a planta está doente, deve-se podá-la e regá-la. O que este governo fez foi desligar a água, arrancar todas as folhas do caule e puxar para cima as raízes. Agora que a planta se recusa a crescer, eles pisam-na com botas cardadas e, se não morre, vão continuar batendo-a no chão, como maníacos, até que não resista.
Com uma teimosia e estupidez como esta, não é de estranhar que os jovens estejam a sair. Desta vez, e diferentemente dos anos anteriores, não vão voltar. Quando se retira dinheiro da economia, ela seca. A resposta não é mais impostos - qualquer estudante de finanças públicas sabe que este tipo de política produz resultados negativos.
A resposta é ... Eu tenho as minhas ideias, mas não me cabe a mim, aqui neste jornal russo, ditar o que os economistas e estudiosos portugueses são pagos para fazer: encontrar uma solução. Basta dizer que este não está em três partes mencionadas acima, como é mais do que evidente."
Timothy Bancroft-Hinchey
Pravda.Ru

... pacote para 2013

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setembro 11, 2012

Coelhóquio...


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SIC Notícias reage e avança com proposta radical para o povo!


Foto: Shark (directamente a partir da emissão e sem recurso a quaisquer editores de imagem)

Na república da aldrabice

Não ruíram, hoje e até à hora em que se escrevinha este arrazoado, nenhumas torres por esse mundo fora, pelo que podemos imaginar que a coisa vai! Ninguém sabe para onde, mas vai. Em Portugal, país garganeiro e sempre dado a arroubos de originalidade, há um Verão tardio que incomoda, porque nos deixa a roupa colada ao corpo em pleno emprego, tal como se por nós passeasse manada babosa de caracóis. Eis notícias dos caracóis:

Nuno Crato veio dizer-nos que o rácio quantidade de professores/quantidade de alunos, em Portugal, está na média europeia. Mas não informou de qual era a média europeia de alunos por turma. Ora, imaginando que, em Portugal, muito indivíduo-professor, daqueles que Crato está a contabilizar, nunca terá visto uma turma de galfarros pela frente e anda, por aí, entretido com outras actividades extra ou circum-escolares, com o beneplácito dos mandantes, talvez se perceba de onde vem – a ser verdade, o que não é líquido – aquele aparente paradoxo… Claro que tudo isto se fundamenta num «supônhamos», tal como nos ensina o governo no que toca ao rigor da análise.

Paulo Portas, não desaparecido em combate mas muito arredio das lides domésticas, diz-nos e vangloria-se de que o fado, no Brasil, é o novo bandeirante de Portugal e o caminho certo para a descoberta de outros Brasis, eventualmente alimentados a pastel de Belém pelo ministro Álvaro. Mas a Cultura continua sem ministério e, pelos vistos, para este governo e para nós todos nem precisa, pois vamos vivendo muito bem sem isso. Já do País que é suposto sermos, já não estou tão certo… ainda que a ideia de podermos viver sem governo cada vez se me depara mais aliciante.

A oposição institucional ao PSD encontra-se dentro do próprio PSD e talvez também na Presidência da República que, como se sabe, também partilha a mesma «cor»… e só se opõe um bocadinho, para logo mais desistir. Virá um prof. Marcelo à Presidência? Cá fora apenas existem uma «vozes ao alto» e pouco mais… Seguro é inseguro, periclitante, mesmo, se não peripatético. O facebook assumiu-se como o muro de lamentações preferencial para o portuga verter as suas angústias – mas já lá tentei comprar um bitoque com batatas fritas e ovo a cavalo e não consegui; possível defeito meu. A UGT talvez denuncie agora o acordo em que se meteu, a bem (ou assim-assim) das classes trabalhadoras, e a CGTP organizará mais uns quantos passeios pela avenida, promovendo uma oposição sana em corpinho sano  

Relvas, o das licenciaturas prematuras, não se demite nem é removido, porque não lhe está a apetecer. Sócrates, também engenheiro de conveniência, lá está, filosofando tranquilamente em francês. Sucatas, freeports e bepêenes, singram no mar pasmo da intocável iniquidade. Gestores peritos em afundamento de empresas em tempo recorde medram e prosperam como escaravelhos bosteiros. E no pasa nada!

A preclara procuradora Cândida Almeida tranquiliza-nos definitivamente quando afirma que Portugal é um país onde é evidente que há corrupção – até o dizem insuspeitas instâncias internacionais e, se calhar, só por isso… -  mas onde não há corruptos, corruptores ou corrompidos. Será, pois, assim a modos que um estado metafísico de ente sem ser, que nos inunda de misticismo a caminho de um qualquer nirvana por esclarecer, mas absoluto por imperecível.

Um governo admoestado por um Tribunal Constitucional quanto à inconstitucionalidade de uma medida que tomou, borrifa-se na admoestação, dá a volta ao texto num esquema manhoso de ludíbrio da opinião pública, tipo chico-esperto e cheio de lata, anuncia-o a cinco minutos de um jogo de futebol da selecção nacional e avança para bingo é, necessariamente, um governo com tomates. Não terá mais nada e as eleições que se lixem, mas tem tomates. Suspeito que sejam pelados…

O esbulho ao cidadão, eivado e sustentado pela mais imbecil hipocrisia argumentativa, embate contra um povo aparentemente anestesiado. Será?

Mas que merda de país é este em que nos transformámos e que eu ajudei a criar para deixar aos nossos filhos?  

NOTA sem final à vista - com o devido respeito pelo estado democrático de direito em que é suposto vivermos, a questão que se me depara é a seguinte: perante um tão declarado e desbragado desrespeito à lei fundamental do País e Nação que somos, de que estará à espera Sua Excelência o Senhor Presidente da República Aníbal Cavaco Silva, superior garante da Constituição, para demitir este elenco governamental?

«Un cañón en el culo» (o cano de uma pistola pelo cu) - Juan José Millás

Este texto, publicado originalmente em Espanha pelo jornal «El País» tem tido uma merecida divulgação. Aqui fica uma tradução (recebida or e-mail), para quem ainda não o leu, porque vale a pena:

Juan José Millás - foto periodistadigital.com
"Se percebemos bem - e não é fácil, porque somos um bocado tontos -, a economia financeira é a economia real do senhor feudal sobre o servo, do amo sobre o escravo, da metrópole sobre a colónia, do capitalista manchesteriano sobre o trabalhador explorado. A economia financeira é o inimigo da classe da economia real, com a qual brinca como um porco ocidental com corpo de criança num bordel asiático.
Esse porco filho da puta pode, por exemplo, fazer com que a tua produção de trigo se valorize ou desvalorize dois anos antes de sequer ser semeada. Na verdade, pode comprar-te, sem que tu saibas da operação, uma colheita inexistente e vendê-la a um terceiro, que a venderá a um quarto e este a um quinto, e pode conseguir, de acordo com os seus interesses, que durante esse processo delirante o preço desse trigo quimérico dispare ou se afunde sem que tu ganhes mais caso suba, apesar de te deixar na merda se descer.

Se o preço baixar demasiado, talvez não te compense semear, mas ficarás endividado sem ter o que comer ou beber para o resto da tua vida e podes até ser preso ou condenado à forca por isso, dependendo da região geográfica em que estejas - e não há nenhuma segura. É disso que trata a economia financeira.
Para exemplificar, estamos a falar da colheita de um indivíduo, mas o que o porco filho da puta compra geralmente é um país inteiro e ao preço da chuva, um país com todos os cidadãos dentro, digamos que com gente real que se levanta realmente às seis da manhã e se deita à meia-noite. Um país que, da perspectiva do terrorista financeiro, não é mais do que um jogo de tabuleiro no qual um conjunto de bonecos Playmobil anda de um lado para o outro como se movem os peões no Jogo da Glória.
A primeira operação do terrorista financeiro sobre a sua vítima é a do terrorista convencional: o tiro na nuca. Ou seja, retira-lhe todo o carácter de pessoa, coisifica-a. Uma vez convertida em coisa, pouco importa se tem filhos ou pais, se acordou com febre, se está a divorciar-se ou se não dormiu porque está a preparar-se para uma competição. Nada disso conta para a economia financeira ou para o terrorista económico que acaba de pôr o dedo sobre o mapa, sobre um país - este, por acaso -, e diz "compro" ou "vendo" com a impunidade com que se joga Monopólio e se compra ou vende propriedades imobiliárias a fingir.
Quando o terrorista financeiro compra ou vende, converte em irreal o trabalho genuíno dos milhares ou milhões de pessoas que antes de irem trabalhar deixaram na creche pública - onde estas ainda existem - os filhos, também eles produto de consumo desse exército de cabrões protegidos pelos governos de meio mundo mas sobreprotegidos, desde logo, por essa coisa a que chamamos Europa ou União Europeia ou, mais simplesmente, Alemanha, para cujos cofres estão a ser desviados neste preciso momento, enquanto lê estas linhas, milhares de milhões de euros que estavam nos nossos cofres.
E não são desviados num movimento racional, justo ou legítimo, são-no num movimento especulativo promovido por Merkel com a cumplicidade de todos os governos da chamada zona euro.
Tu e eu, com a nossa febre, os nossos filhos sem creche ou sem trabalho, o nosso pai doente e sem ajudas, com os nossos sofrimentos morais ou as nossas alegrias sentimentais, tu e eu já fomos coisificados por Draghi, por Lagarde, por Merkel, já não temos as qualidades humanas que nos tornam dignos da empatia dos nossos semelhantes. Somos simples mercadoria que pode ser expulsa do lar de idosos, do hospital, da escola pública, tornámo-nos algo desprezível, como esse pobre tipo a quem o terrorista, por antonomásia, está prestes a dar um tiro na nuca em nome de Deus ou da pátria.
A ti e a mim, estão a pôr nos carris do comboio uma bomba diária chamada prémio de risco, por exemplo, ou juros a sete anos, em nome da economia financeira. Avançamos com rupturas diárias, massacres diários, e há autores materiais desses atentados e responsáveis intelectuais dessas acções terroristas que passam impunes entre outras razões porque os terroristas vão a eleições e até ganham, e porque há atrás deles importantes grupos mediáticos que legitimam os movimentos especulativos de que somos vítimas.
A economia financeira, se começamos a perceber, significa que quem te comprou aquela colheita inexistente era um cabrão com os documentos certos. Terias tu liberdade para não vender? De forma alguma. Tê-la-ia comprado ao teu vizinho ou ao vizinho deste. A actividade principal da economia financeira consiste em alterar o preço das coisas, crime proibido quando acontece em pequena escala, mas encorajado pelas autoridades quando os valores são tamanhos que transbordam dos gráficos.
Aqui se modifica o preço das nossas vidas todos os dias sem que ninguém resolva o problema, ou mais, enviando as autoridades para cima de quem tenta fazê-lo. E, por Deus, as autoridades empenham-se a fundo para proteger esse filho da puta que te vendeu, recorrendo a um esquema legalmente permitido, um produto financeiro, ou seja, um objeto irreal no qual tu investiste, na melhor das hipóteses, toda a poupança real da tua vida. Vendeu fumaça, o grande porco, apoiado pelas leis do Estado que são as leis da economia financeira, já que estão ao seu serviço.
Na economia real, para que uma alface nasça, há que semeá-la e cuidar dela e dar-lhe o tempo necessário para se desenvolver. Depois, há que a colher, claro, e embalar e distribuir e facturar a 30, 60 ou 90 dias. Uma quantidade imensa de tempo e de energia para obter uns cêntimos que terás de dividir com o Estado, através dos impostos, para pagar os serviços comuns que agora nos são retirados porque a economia financeira tropeçou e há que tirá-la do buraco. A economia financeira não se contenta com a mais-valia do capitalismo clássico, precisa também do nosso sangue e está nele, por isso brinca com a nossa saúde pública e com a nossa educação e com a nossa justiça da mesma forma que um terrorista doentio, passo a redundância, brinca enfiando o cano da sua pistola no rabo do sequestrado.
Há já quatro anos que nos metem esse cano pelo rabo. E com a cumplicidade dos nossos."
Juan José Millás

paralímpicos... VIII

e acabou.
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setembro 10, 2012

George Soros explica os motivos pelos quais a Alemanha deveria liderar ou abandonar [o Euro]

O artigo completo (em inglês) está nesta página do «Project Syndicate».
Um resumo (em português) está nesta página do «Negócios». Deixo-vos um excerto:


"George Soros dirigiu um apelo à Alemanha para que o país lidere a saída da Zona Euro da actual crise através de um impulso ao crescimento, pela criação de uma autoridade orçamental comum e garantindo obrigações comuns. Ou, em alternativa, que abandone a moeda única.
“Liderar ou abandonar: é uma decisão legítima que a Alemanha tem a tomar”, disse o especulador na entrevista publicada pelo jornal britânico com data de ontem. “Ou entrega a sua fé ao resto da Europa, assumindo o risco de nadarem ou naufragarem juntos, ou abandona o euro, porque se saísse, os problemas da Zona Euro ficariam melhor”, sintetizou."

setembro 09, 2012

A posta em mais do mesmo para os do costume


A pessoa ouve o Primeiro-Ministro explicar como nos vai ser gamado o pilim desta vez e vai tentando encontrar em todo aquele paleio uma justificação plausível para, com um ar muito sério de quem quer mesmo salvar o país, aquela criatura anunciar que mais de quatro mil milhões de euros vão ser desviados da classe trabalhadora enquanto uma parte substancial desse valor passa a ser somado aos lucros empresariais e, ainda assim, conseguirmos encontrar a réstia de esperança que estas marteladas sempre alimentam para uns tempos depois a pessoa ouvir o mesmo Primeiro-Ministro explicar como (a quem, já poucos se interrogam nesta altura) irá ser gamado mais pilim a bem da Nação porque é assim que tem que ser.

E a pessoa pensa nas cidades com ruas inteiras de lojas fechadas por falta de poder de compra da malta e fica a cismar que às tantas querem que a pessoa fique sem guito para pagar a conta da luz ou mesmo a renda/prestação da casa para sermos mesmo obrigados a ir para a rua gritar e poderem somar à culpa no cartório do endividamento excessivo e da vida acima das nossas possibilidades a da agitação social que muitos tentam fazer acreditar que está na origem da ainda pior situação dos gregos, ficando até lá entretidos a fazer aquilo que afinal se esperava do Governo: as contas às gorduras que, queiramos ou não e perante a escassez galopante de dinheiro para a própria comida, vão ser literalmente eliminadas.

setembro 07, 2012

paralímpicos... VII

querias bola...
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Em suposta Democracia, a quem pertence, de facto e de direito, o Património Nacional?

Inspirado por recentes palestras sobre o assunto em apreço a que tive oportunidade de assistir, com ilustres e ilustrados oradores, bem como observações directas no terreno, desde que me conheço, calcorreando quilómetros e quilómetros pelo rectangulozinho que nos coube em sorte, uma reflexão se me impõe que, com a vossa incomensurável condescendência, me atrevo a partilhar com quantos me quiserem ler.

De facto, o tão gloriosamente chamado Património Nacional é pertença de quem? Quem é o seu dono? Quem determina o que lhe fazer e como o utilizar?

E é suscitada a dúvida pela observação dos maus tratos, incúrias, desleixos, puros abandonos, aberrantes modificações, negociatas mais ou menos infames, que estão aí, sob o olhar de todos os que ainda queiram ver, aparentemente tudo ocorrendo perante a mais pasma pasmaceira de (quase) todos e na certa impunidade dos delapidadores.

Dir-me-ão que nem tudo é assim. E eu concordo, claro, que a objectividade é coisa linda de se ver. Mas esses serão os casos onde o que se fez foi o que seria esperado que se fizesse, para bem, afinal, de todos nós, ainda que sem a nossa participação activa o que, já por si, é uma falha grave do regime.

Não, não. Eu quero falar é dos outros incontáveis casos de mau exemplo, de delapidação e destruição de todos um património, não apenas o edificado, mas todo aquele cujas extensas ramificações determinam ou documentam o povo que somos.

Desses tais fóruns que acima refiro, colhe-se muita vez a noção de que, perante o arbítrio dos poderes e dos interesses, nos resta a esperança de que venham dias melhores… e pouco mais. Aqui e ali um apelo à participação activa das populações em defesa daquilo que é o SEU património e pouco mais.

E as populações movimentam-se? Pouco, muito pouco, diga-se. E porquê tanto desinteresse? Ora, pelo alheamento reiterado que nos vem da incultura programada, pelo erróneo conceito de que o Estado paternalista é que tem a obrigação de tratar dessas coisas. Mas também do errado conceito de que «aquilo nem é meu». Porque, afinal, é-o! 

E o tal Estado, nas mãos das seculares e imutáveis seitas, faz o que lhe dá na gana, ao sabor dos interesses do momento, que podem, até, passar pelo aconchego rectificativo de um qualquer orçamento.

Ora, eu tenho cá para mim, que Património Nacional é isso mesmo: nacional. E não  pode, a nenhum título nem em nenhum momento, estar nas mãos, muito, pouco ou nada limpas de quem, num momento dado, se alcandorou ao poder. A qualquer poder, central, autárquico, forense, castrense, ou o que seja.

Na verdade, não é suposto estarmos em período histórico de déspotas esclarecidos. Na melhor das hipóteses temos, isso sim e por infelicidade ou má escolha nossa, no exercício do poder, déspotas sim, ainda para mais muito pouco esclarecidos. E que promovem por interesses pessoais ou por mera ignorância a destruição da alma mater portuguesa. Mas é também suposto que não vivemos no tempo do Marquês do Pombal ou de D. José, mas sim em regime democrático e, se a memória não me falha, em pleno século XXI.

Mas é ver o estado dos centros históricos das nossas urbes, de cabo a rabo do país – outra vez, com algumas honrosas excepções – onde a simples descrição de desmandos, gerais ou particulares, daria origem a um interminável Livro Negro sobre a matéria, desdobrado por muitos volumes.
E depois é ver o esbracejar aflito de uns quantos que ainda pugnam, contra ventos, marés e moinhos que são gigantes, mas cujos resultados práticos – ainda que sempre de enaltecer e secundar – pouco mais serão do que pedrinha lançada ao charco imenso da desgraça e que logo se afunda, vivendo apenas enquanto o leve estremecer da ondulação provocada não embate na margem ou se perde na distância.

Vamos lá saber se não seria, também aqui e por muito que a expressão penalize o ilustríssimo mentor da desgraça Medina Carreira, de mudar de paradigma?

Que tal apenas ser possível aos tais detentores de poderes alterar uma palhinha de qualquer elemento patrimonial nacional mediante prévio debate alargado e após referendo popular – que seria local, regional ou nacional, conforme a dimensão ou o impacto da res publica em análise, como assim lhe devemos chamar?

Assim, pelo menos, talvez pudessem ouvir-se vozes esclarecidas discorrer sobre cada caso, para alargamento de conhecimento de todos, em vez das negociatas sórdidas de que vamos sabendo após factos consumados e irreversíveis.   

Ocorre-me um pensamento hediondo a propósito desta minha verdadeira angústia existencial e de cidadania perante aquilo a que vou assistindo: que faremos quando, amanhã, um qualquer senhor muito importante e com um qualquer pin nacionaleiro na lapela do casaco quiser depositar os restos mortais de toda a família Carreira no Panteão Nacional por relevantes serviços prestados a si próprios ou disponibilizar os Jerónimos para uma grande superfície comercial apenas para dar um toquezinho ao orçamento periclitante daquele ano por imperativo de uma qualquer troika?

Aqui fica esta minha inquietação, pedrinha lançada ao charco…

com respeito e... sem tabus


prefiro à posta.
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setembro 06, 2012

A posta que se ele quiser fico caricaturado aos bocadinhos


Se eu fosse um fundamentalista desportivo ou um deficiente motor careta e estivéssemos num país “daqueles”, estaria aqui a exigir a morte ao infiel capaz de caricaturar a vaca sagrado do cidadão com deficiência, um dos temas que mais impõe o politicamente correcto levado ao extremo da caridadezinha mental daqueles que eliminam a polémica erradicando tudo quanto possa provocá-la.
Mas não sou. E por isso, como simples exercício, simples usufruto deste paraíso que é a liberdade de expressão, entendi postar o meu desconforto perante algo postado por um colega de um blogue que, sendo colectivo, não é alimentado por amibas sem reacção.

Direito ao assunto: sinto-me desconfortável com as postas do Raim, nomeadamente as subordinadas à temática dos paralímpicos.
Podia, claro, enviar um email ao próprio e colocar-lhe a questão em privado: olha lá mano, qual é a tua onda afinal? Mas não era mesmo a mesma coisa, pois estaria a ocultar o meu desconforto apenas para não perturbar o comodismo consensual que qualquer hipócrita privilegia.
Por isso e porque os temas em foco (a tristeza do Ronaldo e o julgamento do sogro que esvaziou uma pistola no genro com a neta ao colo) não bastam para estimular uma posta em condições entendi trazer à luz do dia a minha sensação desagradável, sem por isso exigir a sharia contra o réu filisteu ou hebreu ou lá o que ele seria aos olhos de quem tenha o dedo da censura mais ligeiro no gatilho.

Assumo sem problemas que o meu desconforto passa menos pelo hipotético pecado implícito na expressão popular “há coisas com que não se brinca” e mais pela constatação de o meu sentido de humor se revelar incapaz de apanhar a ideia.
Ou seja, não sendo possível uma abordagem não subjectiva à minha incapacidade de entendimento acabo por aproveitar a boleia da liberdade de expressão e do direito de resposta ou o raio que o parta para apontar o dedo acusador ao ilustre criador com o qual partilho este espaço em igualdade de circunstâncias, na saúde e na doença, na riqueza e na miséria, até que o Facebook ou a falta de pachorra nos separe.
E esse dedo, firme e erecto como é apanágio do respectivo dono, aponta no sentido de achar que é pá, tá mal gozares assim com as pessoas diferentes, tão intocáveis na lógica mesquinha dos proibicionistas capazes de colocarem a cabeça de um cartoonista a prémio por ousar a paródia com figuras ou conceitos que na sua compartimentação apertada das doutrinas e respectiva aplicação prática não se prestam à brincadeira.
Nem que seja a brincar…

Por isso, para marcar a diferença e não exigir o apedrejamento público (ou em privado) do meu parceiro blogueiro (ou blogger ou bloguista, escolhei o que melhor vos sirva), aproveito para manifestar a minha ligeira indisposição física por ter comido que nem um alarve ao almoço e mental por ter que lidar com a minha reacção instintiva à cena do Raim. E por não querer suportar ambas em silêncio, até porque para a falta de sentido de humor não existem uma água das Pedras, um Kompensam ou um Alka-Seltzer eficazes.

Isto a propósito do que distingue o mundo dos verdadeiros aleijadinhos (os fundamentalistas) e o das pessoas normais que conseguem encaixar os seus desagrados, que são só seus, num contexto da sociedade em que temos que aturar-nos as pancas nem que para isso tenhamos que virar a cara para não termos que reagir em conformidade (como tento fazer nesta ocasião).
Sim, quem não gosta não é obrigado a comer. Se come e não gosta, das duas uma: ou refila com maneiras porque tem direito à sua opinião ou cala o bico e muda de mesa para não atrapalhar a refeição dos que a saibam degustar sem por isso terem que dar satisfações a alguém.

paralímpicos... VI

... e outra medalha
Raim on Facebook

setembro 05, 2012

E se os CTT acabassem com o monopólio do Multibanco?

"Proposta manhosa" de Luís Miguel Sequeira no seu blog (alguns excertos, pois o texto completo é bastante extenso):

SIBS: Como lidar com o monopólio

"Como é sabido, a SIBS está a alterar as comissões sobre os processamentos das transacções via Multibanco. Ou seja: ao fim de duas décadas de confortável crescimento, em plena crise financeira (e social!), acharam por bem aumentar ainda mais os seus lucros — agora. Se a estupidez congénita dos banqueiros fosse tangível, poderíamos exportá-la e pagar à Troika o que devemos num instantinho. Assim sendo, tal como o nosso Governo com os impostos, a SIBS está a dar tiros no próprio pé com uma caçadeira de canos serrados.
As reacções não se fizeram esperar. Desde petições públicas a reacções da DECO e análises da Autoridade da Concorrência, a verdade é que a resposta do comércio é deixar de aceitar pagamentos por Multibanco. Isto, evidentemente, vai levar a SIBS a aumentar ainda mais as comissões para compensar a perda de dinheiro ou a inventar novos cartões para ganhar mais sem os utilizadores saberem.
Mas a verdade é que duvido que qualquer uma destas medidas surta efeito. Afinal de contas, não nos podemos esquecer que a SIBS é uma empresa privada num mercado livre: dificilmente vejo a possibilidade de se «legislar» contra uma empresa privada que não está a fazer nada de ilegal, está apenas a querer aumentar o lucro.
Bom, aqui é que a porca torce o rabo. É que é verdade que a SIBS é uma empresa privada, mas age em regime de monopólio. Não foi um monopólio concedido pelo Estado. Foram eles que inventaram um mercado novo que dantes não existia. É certo que muito no início, quando se deu a liberalização da banca, surgiram algumas redes concorrentes, como a Caixa 24 — que depois foi absorvida pelo Multibanco. Durante décadas, a Unicre, que tinha a representação dos cartões Visa em Portugal, operava a sua própria rede, e era assim uma «alternativa» — mas já há anos que tudo se «fundiu» na mesma rede.
Aquilo a que chamamos «Multibanco» não é apenas um conjunto de terminais ligados a uns servidores centrais da SIBS, sejam os ATMs, sejam os terminais de pagamento dos comerciantes. Vai mais longe do que isso: assegura todas as transacções electrónicas entre o sistema bancário português. E também interliga com o sistema de recebimento de dinheiro dos contribuintes por parte do Estado. É um sistema muito mais abrangente do que parece. Por isso obviamente que dificilmente terá concorrência.
Ora bem, quando uma empresa não tem concorrência… age em regime de monopólio. Em teoria, este tipo de empresas tem de ser muito mais regulamentada quanto às coisas que pode ou não fazer. Por exemplo, nos Estados Unidos, que tem uma das atitudes mais laissez-faire do mundo em termos económicos, permite quase tudo — excepto os monopólios! (...) Os monopólios são o cancro da economia de mercado livre… porque criam mercados onde a economia não é livre. Por isso, normalmente, são fortemente regulamentados. Em países menos liberais que os EUA, acaba por ser o Estado — seja directamente, seja por concessão — que «absorve» o monopólio para justamente impedir que os consumidores sofram do excesso da ganância dos donos do mesmo.
Idealmente, claro, não existiriam monopólios. Mas este não é um mundo ideal. Idealmente também, claro, a Autoridade da Concorrência limitaria a capacidade da SIBS em abusar do seu monopólio (como limita outras entidades), mas a SIBS é especial: é que todos os seus accionistas são bancos. E contra estes ninguém tem coragem para agir.
Num mercado mais livre, este tipo de anúncios — aumento de taxas e comissões com clientes como as grandes superfícies a prejudicar toda a gente — traria imediatamente o surgimento de produtos concorrentes. (...)
Ora como se pode então resolver este problema da falta de concorrência credível, sem intervenção legislativa que seria de dúbia legalidade num mercado livre? (...) Eu se fosse ao Vítor Gaspar convidava os banqueiros accionistas da SIBS para uma conversinha particular. E apresentava-lhes o seguinte problema: o Estado é um utilizador do serviço Multibanco. Milhares de milhões passam todos os dias pela SIBS, tanto para fazer pagamentos de salários, pensões e bolsas, como para receber praticamente a totalidade das receitas de impostos, segurança social, taxas, multas e coimas. Sobre tudo isto o Estado português paga toneladas de comissões — de certeza que muito mais que os cinco milhões anuais do Grupo Jerónimo Martins! Ora, no interesse em fazer contenção da despesa, o Estado português iria deixar de usar o Multibanco… passando a usar um sistema próprio.
Incrédulos, os banqueiros rir-se-iam na cara de Vítor Gaspar, pois o investimento numa estrutura paralela à do Multibanco custaria milhares de milhões e levaria anos, senão décadas, a implementar. E confiariam os portugueses num «ATM do Estado Português»?
Mas a verdade é que Vítor Gaspar não precisa de investir nada. É que o Estado português já tem um sistema paralelo em funcionamento. Na realidade, já o tem há alguns séculos: chama-se CTT.
(...) Ironicamente, os CTT não usam Multibanco, excepto em algumas (muito raras!) estações de correio. Uma vez perguntei porquê. Eles responderam que não conseguiam chegar a acordo com a SIBS àcerca das comissões. E para vender uns selos não compensava…
E, recentemente, também passaram a ser operador de email privilegiado do Estado para receber as notificações electrónicas.
Ora bem. Olhemos bem para isto. Uma entidade que já é do Estado, que está presente em todas as terriolas do país (Continente e Ilhas) — mas que estende a sua rede para fora dos seus balcões via PayShop. Todos os balcões, próprios e de terceiros, estão interligados informaticamente. Tem um operador móvel. Gere uma quantidade estupidificante de dinheiro que passa pela sua rede de balcões, e, além disso, emite «produtos bancários». Na realidade, muito antes de haver computadores nos bancos portugueses, já se podia enviar dinheiro pelos CTT: o vale postal existe há eternidades. Não são, pois, uns «novatos» a transferir dinheiro entre pontos remotos: já o faziam muito antes dos bancos saberem como. Ironicamente, no século XIX, os bancos usavam os CTT para transferir dinheiro via telégrafo instantaneamente: os CTT foram a primeira rede Multibanco do país para transferências bancárias
(...) Agora, humm, há apenas um pequeno probleminha. É que os CTT teriam de emitir cartões de pagamento e instalar terminais no Pingo Doce. Bem, nada mais fácil do que isso: o sistema PayShop (...).
A única coisa que lhes falta é um alvará bancário. Tal como acontece em montes de outros países da Europa, onde os correios são quase sempre um banco. É natural que assim seja: movimentam balúrdios e estão sob a alçada do Estado.
Por cá isso nunca aconteceu porque… os bancos não deixam. Se os bancos conseguissem acabar com os certificados de aforro, já tinham desaparecido há muito. Houve uma altura em que os CTT tentaram lançar alguns fundos de investimento, e a banca portuguesa caiu em cima e veio choramingar ao Governo a protestar pela «concorrência desleal». Os governos sucessivos sempre respeitaram essa choradeira e nunca fizeram mais nada. Os certificados de aforro só não desapareceram porque há centenas de milhares de portugueses que dependem deles para as suas poupanças. (...)
De notar que nada do que disse acima é ficção científica O Vítor Gaspar pode fazer isso; tem toda a tecnologia para substituir a rede Multibanco em pouco tempo. E se calhar nem precisa sequer de dar um alvará bancário aos CTT. O mais divertido de tudo é que nem sequer precisa de meter isto em prática: nesta altura do campeonato, um anúncio na imprensa de que o Governo português está a estudar montar a sua própria rede de pagamento de serviços, concorrente ao Multibanco, e baseada na infra-estrutura dos CTT, seria mais que suficiente para lhe dar a alavanca negocial de que precisa. É que não se pode «lutar» contra os bancos, nem se pode legislar contra empresas privadas a agirem num mercado livre, mas pode-se assustar os monopólios ameaçando concorrer contra eles…"
Luís Miguel Sequeira
Um blog idiota do Luís Miguel Sequeira