Deixo-vos aqui a leitura dela:
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A certa altura deste livro, às páginas 180 ele diz o seguinte:
"«Valores» é uma palavra aviltada e versátil. Navega com facilidade entre o pecuniário e o espiritual e, no domínio das crenças, pode ser sinónimo de avanço ou de conformismo, de libertação moral ou de submissão. Devo também explicitar o sentido em que a utilizo e as convicções que ligo a ela. Não para reunir quem que seja ao meu estandarte - não possuo nenhum, mantenho-me a boa distância dos partidos, das facções, das capelas, nada é mais precioso aos meus olhos do que a independência de espírito, mas parece-me honesto, desde o momento em que se expõe a visão das coisas, dizer sem rodeios aquilo em que se acredita e a que se gostaria de chegar.
Do meu ponto de vista, sair 'por cima' do desregramento que afecta o mundo exige a adopção de uma escala de valores baseada no primado da cultura, direi mesmo baseado na salvação pela cultura.
Atribui-se geralmente a André Malraux uma frase que provavelmente ele nunca pronunciou, segundo a qual o século XXI 'será religioso ou não existirá'. Suponho que as últimas palavras, 'ou não existirá', significam que não poderemos orientar-nos no labirinto da vida moderna sem uma bússola espiritual.
Este século ainda é jovem, mas já se sabe que os homens poderão perder-se com a religião, como poderão perder-se sem ela.
Que se pode perder com a ausência do religioso, a sociedade soviética demonstrou-o amplamente. mas também se pode sofrer com a sua presença abusiva - já o sabíamos desde o tempo de Cícero, de Averróis, de Espinosa, de Voltaire - e, se o havíamos esquecido durante dois séculos, por causa dos excessos da Revolução Francesa, da Revolução Russa, do nazismo e de algumas outras tiranias laicas, muitos acontecimentos vieram recordar-nos disso desde então. Para nos levar, espero, a uma apreciação mais justa do lugar que a religião deveria ocupar nas nossas vidas.
Estaria tentado a dizer a mesma coisa do 'bezerro de ouro'. Vituperar contra a riqueza material, culpabilizar aqueles que se esforçam por aumentá-la, é uma atitude estéril que serviu constantemente de pretexto às piores demagogias. Mas fazer do dinheiro o critério de toda a respeitabilidade, a base de todo o poder, de toda a hierarquia, acaba por esfarrapar o tecido social."
Prossigo a minha análise destacando dele alguns trechos que, como este, ora dão pistas sobre 'caminhos' a seguir, ora me permitiram redescobrir pedaços da história humana recente e rever outros cuja exacta dimensão e consequências até aqui ignorava! Assim:
"(...) populações com múltiplas origens, que vivem lado a lado em todos os países, em todas as cidades, vão continuar a olhar-se entre si através de prismas deformantes – algumas ideias feitas, alguns preconceitos ancestrais, algumas fantasias simplistas? Parece-me que chegou o momento de modificar os nossos hábitos e as nossas prioridades para nos colocarmos seriamente à escuta do mundo onde estamos embarcados. Porque neste século já não há estrangeiros, já só há 'companheiros de viagem'. Quer os nossos contemporâneos habitem do outro lado da rua ou no outro lado da terra, estão a dois passos da nossa casa. Os nossos comportamentos têm efeito na sua carne, e os seus comportamentos têm efeito na nossa.
Se pretendemos preservar a paz civil nos nossos países, nas nossas cidades, nos nossos bairros e no conjunto do planeta, se desejamos que a diversidade humana se traduza por uma coexistência harmoniosa e não por tensões geradoras de violência, já não podemos permitir-nos conhecer 'os outros' de maneira aproximativa, superficial, grosseira. Temos necessidade de conhecê-los com subtileza, de perto, direi mesmo na sua intimidade. O que só pode fazer-se através da sua cultura. E em primeiro lugar através da sua literatura. É aí que ele revela as sua paixões, as suas aspirações, os seus sonhos, as suas frustrações, as suas crenças, a sua visão do mundo que o rodeia, a sua percepção de si mesmo e dos outros, inclusive de nós próprios. Porque ao falar dos 'outros' convém nunca perder de vista que nós próprios, quem quer que sejamos, onde quer que estejamos, somos também 'os outros' para todos os outros.
É claro que nenhum de nós tem a possibilidade de conhecer tudo o que gostaria ou deveria conhecer desses 'outros'. Há tantos povos, tantas culturas, tantas línguas, tantas tradições pictóricas, musicais, coreográficas, teatrais, artesanais, culinárias, etc. Mas se encorajássemos qualquer pessoa a apaixonar-se desde a infância e ao longo da vida por uma cultura diferente da sua, por uma língua livremente adoptada em função das suas afinidades pessoais – e se ela estudasse ainda mais intensamente do que o indispensável a língua inglesa – daí resultaria uma tessitura cultural densa que abrangeria todo o planeta, reconfortando as identidades temerosas, atenuando os ódios, reforçando pouco a pouco a crença na unidade da aventura humana e tornando possível, por esse facto, um sobressalto salutar.
Não vejo objectivo mais crucial neste século e é claro que, para termos os meios para o alcançar, devemos atribuir à cultura e ao ensino o lugar prioritário que lhe cabe.
Talvez tenhamos começado a sair, nos Estados Unidos e fora, de uma era sinistra onde era de bom tom cuspir na cultura e fazer da incultura um testemunho de autenticidade. Uma atitude populista que, paradoxalmente, se junta à do elitismo, na medida em que, tanto num caso como no outro, se aceita implicitamente a ideia segundo a qual a 'população' teria capacidades limitadas, que não conviria pedir-lhe demasiados esforços intelectuais, que bastaria fornecer-lhes caddies bem carregados, alguns slogans simplistas e diversões fáceis, para que fique piedosa, tranquila e reconhecida. E que a cultura deve ser o apanágio de uma ínfima minoria de iniciados.
Trata-se aqui de uma concepção desdenhosa e perigosa para a democracia. Porque não podemos ser totalmente cidadãos ou eleitores responsáveis se nos deixarmos manipular passivamente pelos propagandistas, se nos deixarmos inflamar ou acalmar segundo a vontade dos governantes, se nos deixarmos arrastar docilmente para aventuras guerreiras. Para poder decidir com conhecimento de causa, sobretudo nos países cujas orientações determinam em grande medida a sorte do planeta, um cidadão tem necessidade de conhecer em profundidade e com subtileza o mundo que o rodeia. Acomodar-se à ignorância é renegar a democracia, é reduzi-la a um simulacro.
Por todas estas razões e algumas outras, estou convencido de que a nossa escala de valores só pode basear-se hoje no primado da cultura e do ensino. E que o século XXI, para retomar a frase já citada, será salvo pela cultura ou então soçobrará.
(...) O combate para 'manter o mundo' será árduo, mas o 'dilúvio' não é uma fatalidade. O futuro não está escrito de antemão, é a nós que compete escrevê-lo, concebê-lo, construí-lo – com audácia, porque é preciso ousar romper com hábitos seculares; com generosidade, porque é preciso unir, tranquilizar, ouvir, incluir, partilhar; e, acima de tudo, com sensatez. É a tarefa que incumbe aos nossos contemporâneos, homens e mulheres de todas as origens, e eles não têm outra alternativa senão assumi-lo.
Quando um país está mergulhado no marasmo, pode sempre tentar-se emigrar; quando o planeta está ameaçado, não existe a opção de ir viver algures. Se não queremos resignarmo-nos à regressão, tanto para nós próprios como para as gerações vindouras, devemos tentar inflectir o rumo das coisas."
A ideia de que a resposta está na cultura e no ensino/educação dos povos parece-me não só justa como ao alcance de todos nós! E a primeira imagem que me veio à ideia foi a de trabalhos realizados pelos alunos da E.I.G. (Escola Internacional de Genebra, aquela que situada perto da O.N.U.) onde trabalhei durante algum tempo ainda recentemente, cujo tema se debruçava nas múltiplas e diferentes nacionalidades presentes na própria escola, realçando as características específicas a cada uma, como a sua língua, as suas tradições, etc., promovendo a troca de informação e de ideias, transformando assim aquilo que as distingue numa riqueza que mais não quer que ser partilhada, num património comum a toda a humanidade! Sim, porque aquilo que nos distingue não tem forçosamente que nos separar... antes nos deveria unir no respeito pelo direito à diferença! E vocês, o que acham?