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julho 24, 2012

Carta de trás da Serra com Ideais ao Centro

Olá, meu Pai

Já há tantos anos que eu não lhe escrevia... e sabe bem as saudades que tenho de si.
Desde os meus tempos de escola primária, em Caria, tentei sempre evitar envolver-me em assuntos de política, recordando-me da frase que tantas vezes me repetiu:
"Se te perguntarem qual é o teu partido, responde: «a minha política é a política do trabalho»."
E isto foi antes do 25 de Abril, quando por vezes o via sair de casa para ir avisar pessoas de Caria, que eram da oposição (eu sabia lá o que isso queria dizer), para se esconderem, pois a PIDE andava à procura delas.
Lembro-me também de uma vez me mostrar uma tampa de água de Vidago, que tinha a sigla "VMPS" (Vidago, Melgaço e Pedras Salgadas) e dizer-me em surdina, com muitas recomendações para eu não dizer a ninguém, o que significava aquela sigla: "Vamos mandar prender Salazar".
Quando foi o 25 de Abril, lembro-me tão bem do meu Pai, que foi durante anos presidente da Junta de Freguesia, ter tido problemas graves com pessoas que o rotularam de fascista. A sua úlcera apareceu nessa altura...
Lembra-se de eu lhe ter contado a minha primeira experiência pessoal de democracia? Foi no liceu da Covilhã, em 1975, num dia em que o professor de Educação Física faltou. Como estávamos equipados, decidimos ir jogar futebol. Um dos meus colegas, gordinho, ofereceu-se para uma baliza... mas não havia nenhum voluntário para a outra. Um dos meus colegas teve uma ideia genial: "Fazemos uma votação". Todos concordaram e ele perguntou de imediato: "Quem vota no Paulo Moura para a baliza?" e todos puseram o braço no ar... eu incluído, que lhes fiz um manguito e fui para o balneário mudar de roupa.
Desde então, "a minha política tem sido a política do trabalho".
Mas ontem, meu Pai, participei numa reunião preparatória de um movimento político (notícia aqui e aqui). Fui convidado a estar presente pelo Dr. Jaime Ramos, pessoa que eu admiro e que lidera este projecto.
Não fiz qualquer intervenção - muita gente o fez, uns com muito conteúdo, outros com dotes de oratória mas pouco sumo e uns poucos que nem uma coisa nem outra - pois em primeiro lugar quero compreender do que se trata. Anotei os tópicos do que lá foi dito e, mesmo relendo-os, confesso que não compreendi algumas coisas:
Trata-se de um movimento regional (da região Centro)?
Espero que seja apenas pela sua origem e não pelo seu destino.
Pretende-se criar um partido político?
Se for o caso, pernas para que vos quero...
Quer-se (como defendeu o Professor Amadeu Carvalho Homem) "a salvação da Pátria"?
Esta visão sempre foi, para mim, extremamente redutora. Gosto de me ver como cidadão do Mundo e não consigo defender o que é Nacional quando vejo algo que não é Nacional e é melhor.
Entretanto, meu Pai, este movimento pugna por valores e defende causas que me dizem muito, como o Humanismo, a integridade na gestão da Coisa Pública, voltar a confiar na Justiça, a defesa da agricultura, da pesca e da indústria...
Como disse o Professor Carlos Sá Furtado, o movimento precisa de definir meios, métodos e formas. Mas também é preciso, como alertou João Paulo Pinto Mendes, que o movimento defina a sua matriz ideológica. E isso irá criar divergências, é mais que certo.
O Dr. Jaime Ramos irá organizar um plenário, dentro de 2 a 3 meses. O objectivo será concretizar algumas propostas. E propôs, como primeira causa a defender e assunto a debater, a natalidade, "assunto em que os políticos estão a zero".
Entretanto, meu Pai, esteja descansado. A minha política continuará a ser a política do trabalho.
Um abraço que a morte não rompe, do seu filho
Paulo

março 15, 2011

Carveste... e memórias minhas

Fico sempre com um nó na garganta quando leio notícias sobre a Carveste, empresa de confecções da minha terra, já há muitos anos em crise e em risco (sério) de fechar.
A malta que lá trabalha está agora em greve, segundo li na página da Rádio Caria:

"As trabalhadoras da empresa de Confecções Carveste, com sede em Caria, encontram-se em greve, desde as 8 horas desta segunda-feira, pelo pagamento do salário de Fevereiro e da parte ainda em falta do subsídio de férias de 2009.
“Há quase três anos que estas trabalhadoras recebem os salários com muito atraso e, com enorme paciência e sentido de responsabilidade têm suportado todos os sacrifícios para salvar a empresa e os seus postos de trabalho”, dá conta em comunicado o Sndicato Têxti da Beira Baixa.
Ao que tudo indica, “não tem havido a mesma atitude por parte da gerência da empresa que, num comportamento que só pode visar o conflito, sistematicamente falta aos compromissos que assume, que dá o dito por não dito e que usa a chantagem, procurando passar para as trabalhadoras e o Sindicato a responsabilidade de qualquer ruptura”, sublinha o sindicato.
Agora, depois de dizer que iria pagar o salário, ou a maior parte dele, até ao dia 11 de Março e de as trabalhadoras terem exigido o seu pagamento integral nesse dia, veio dizer que afinal só pagaria no dia 16 de Março e, ainda assim, se um cliente lhe adiantasse dinheiro.” Pelo que se passou noutros meses não seria de estranhar que no dia 16 viesse dizer que não teve o tal adiantamento e que, por isso, não pagaria a totalidade do salário”, duvidam os trabalhadores. "Note-se que, para colaborar com a empresa, as trabalhadoras fazem horas, trabalham aos sábados e abdicaram do gozo de férias no Natal para tirarem os dias de férias quando deles necessitassem e mesmo assim a empresa tem vindo a colocar obstáculos a esse gozo".
No entanto os trabalhadores da empresa estão disponíveis para encontrar uma solução para o actual conflito mas, desde já deixam claro que, não pactuarão com mais incumprimentos e muito menos se submetem a atitudes de chantagem e de ameaças de levantamento de trabalho. As encomendas existentes são da Carveste e qualquer tentativa de as tentar retirar configura um crime de sabotagem da empresa que não permitem que seja cometido.
“Em face do exposto fica claro que só a gerência da empresa é responsável pela actual greve e pelas consequências que daí advierem”, sublinha o STBB no seu comunicado enviado às redacções esta manhã."

Isto faz-me recordar os meus tempos como administrador-delegado das Faianças Subtil (Caldas da Rainha) e Miderâmica (Coimbra). E a revolta que me provocavam as atitudes de ameaça e de confronto do sindicato. Aliás, como tinha acontecido antes antes quando assumi, por nomeação do tribunal, a gerência da empresa de confecções Colsi (Coimbra), num processo de gestão controlada. Acusavam-me os representantes do sindicato de mentir quando lhes dizia que não havia dinheiro para pagar salários em alguns finais de mês. E apresentavam-me uma «teoria» que já ouvi tantas vezes em reportagens a trabalhadores de empresas em crise: "Como é que não há dinheiro?! Há encomendas!"
Desafiei-os (tantas vezes) a assumirem a gestão das empresas, "se acham que conseguem fazer melhor". Nunca aceitaram, vá-se lá saber porquê...
E sempre tive pena de ver, com estas atitudes, os sindicatos enterrarem ainda mais as empresas em dificuldades.
Sei pelo que passam os gestores de uma empresa em dificuldades, quando têm que negociar com bancos, fornecedores, Estado (Finanças e Segurança Social)... e a empresa pára, por motivo de greve, estrangulando a tesouraria e reduzindo ainda mais a confiança dos clientes.
Admiro-me como a Carveste ainda se aguenta, após tantos anos em crise.

janeiro 23, 2011

Carta de trás da Serra - Viva o CORTEX!

Olá!

Olha que as coisas por aí estão bem complicadas... e nós por cá é que nos tramamos.
A ti'Marquinhas que, como sabes, sabe tudo, disse-me que ouviu dizer que o Estado não sabe o que tem nem onde gasta. Que o João Cantiga Esteves (revista Visão de 27/5/2010) contou 13.740 entidades (das quais mais de 600 fundações) que recebem dinheiro do Estado, de forma regular. "São camadas em cima de camadas, instituto atrás de instituto, muitos deles para tratar de assuntos semelhantes". "O Estado não consegue entrar no concreto, a nível do local, do projecto, da entidade". Há "Estado em cima de Estado". "O próprio Estado arranjou mecanismos para contornar as leis em vigor, dos quais são exemplos as fundações, os institutos públicos, as empresas municipais,..." Procura-se "contrariar a lei que se aplica ao financiamento autárquico, como a dos limites de endividamento ou a dos limites de cargos e mordomias". As autarquias também "fogem às regras e violam boas práticas da administração pública", com "a duplicação de encargos, de administrações e de direcções". "A Fundação para a Prevenção e Segurança, a Fundação para as Comunicações.... O que é isso? Qual é o objecto social, a missão, o património?". "No meio disto tudo, ainda somos bombardeados com notícias de ajustes directos, sem concurso público...". "Há um Estado clássico (ministérios, direcções-gerais, etc.) e depois temos institutos públicos, fundações, associações...". Os funcionários, conselhos de administração, etc. destas empresas e institutos não entram na contabilidade da administração pública".
E que achas tu das consultorias técnicas no exterior, gabinetes, assessores, adjuntos...?
"Houve um programa (PRACE – Programa de Reestruturação da Administração Central do Estado) que "foi uma tentativa interessante, mas ficou aquém dos objectivos. Na hora da verdade, os agentes políticos bloqueiam". O Estado social promete aos cidadãos um conjunto de benefícios sociais sem sustentabilidade.
O ping-pong entre partidos alternadamente no poder dá no que se vê.
Por tudo isto, peço-te que me mandes uma lista com as 13.740 entidades que recebem dinheiro do Estado, se não for muito incómodo para ti, para eu dar uma vista de olhos. E, como me parece que o SIMPLEX tem tido algum sucesso, proponho que se crie o programa CORTEX - acrónimo de Contribuintes Reunidos Todos Em Êxtase.
E não se poderia, entretanto, seguir a sugestão de "interrupção na democracia" da Manuela Ferreira Leite? Pensa nisso, que eu entretanto vou ter que ir a casa do Quatro Papos-secos ver como está a recuperar do braço desde que caíu da cerejeira. E tentar convencê-lo a não cortar a árvore, que estava quietinha e não tem culpa nenhuma.
Quando deixas essa vida e regressas à nossa terra?
Recebe um abraço do
Paulo Moura

fevereiro 28, 2010

A minha primeira carta de trás da serra na nova revista «Free Zone»

Está disponível desde ontem o número zero da nova revista online gratuita «Free Zone». Além do Pedro Laranjeira, director da revista, colaboram outros amigos nossos: Miss Joana Well (com a sua excelente "carta aberta sobre a prostituição"), Jorge Castro (com uma oração à EDP) e Raim (que ilustra, magistralmente como sempre, a minha carta de trás da serra do marido de uma professora).
A revista completa está disponível para descarregar aqui, em formato pdf.



Estatuto da Carreira Indecente
Olá

Há tanto tempo que não te escrevia...
Como tens andado, no meio deste rebuliço que invade a nossa habitual pacatez e nos faz «rufar os tambores»?
Desculpa mas, mesmo sabendo que tu tens os teus próprios problemas, vou aproveitar o teu ombro amigo para desabafar.
Como sabes, a minha mulher é professora do ensino secundário. Vinte anos depois de uma vida de cigano, em que ela correu praticamente o país todo, optou por ficar numa escola, mesmo sendo ainda distante de casa, mas que lhe dava a estabilidade por que ela sempre ansiou.
O que se tem passado nestes anos mais recentes, nem precisas que te conte... ou até precisarias, porque o que é divulgado pelo governo, pelos sindicatos e pela própria comunicação social é muito deturpado. Na minha empresa, estou farto de ser alvo de chacota dos meus colegas quando me atiram com lugares-comuns como "os professores não querem trabalhar", "os professores estavam era mal habituados", "os professores não querem ser avaliados" e por aí fora. Revolta-me sempre que alguém critica os professores porque "um professor do meu filho balda-se às aulas e ninguém faz nada". Ai, sim? E os pais alertaram a escola? "Nós?! Para os nossos filhos terem problemas?!"
Quando pergunto aos meus colegas se na nossa empresa todos são competentes, estranhamente calam-se.
Estou farto! De ler artigos nos jornais como no «Económico» de 21 de Fevereiro de 2010, «Professores portugueses trabalham menos», quando em letra miudinha dizem que "se contarmos o trabalho fora da escola, os professores são a classe que mais horas trabalha, quando comparado com outras profissões". E mesmo a conclusão do título é falaciosa: usam um estudo da OCDE que refere que os professores portugueses, na sala de aula, gastam em média 18,5 horas por semana, contra 17,2 de média da OCDE e 16,4 da União Europeia. E que o número de horas por semana na escola é de 34,1 em Portugal, quando na OCDE são 30,5 e na UE 30,4. A conclusão deste artigo, obtêm-na do trabalho escolar total: 38,7 horas semanais em Portugal, contra 43,6 da OCDE e 42,2 da União Europeia. Consegues dizer-me como medem eles o trabalho fora da escola? E não achas estranho que os professores em Portugal gastem 4,6 horas semanais a trabalhar em casa, quando na OCDE (dizem) gastam 13,2 e na União Europeia 11,7 horas?! Olha, eles que venham a minha casa fazer o trabalho da minha mulher em 4,6 horas semanais!
Estou farto! De pagar arranjos da pintura do carro dela porque os alunos lho riscam (e diz-me ela que é normal), de estar sempre a comprar papel, tinteiros de impressora (e tanto que ela gasta...) e outro material, de ter comprado um computador portátil para ela levar para a escola ("dá-me jeito") e que vem de lá sempre cheio de vírus...
Estou farto! Das constantes reuniões dela marcadas fora de horas ("tem que ser"), das noites e fins-de-semana que não podemos aproveitar "porque tenho de trabalhar" e da consequente indisponibilidade dela para a família ("estou de rastos").
Estou farto! De reler o Estatuto da Carreira Docente, que sensatamente diz que os professores devem ter os recursos necessários à sua actividade. E o tempo é o recurso mais importante de todos! Estou farto que isto esteja só no papel. Desafio-te a encontrares outra profissão por conta de outrem em que o trabalhador tenha que comprar os seus instrumentos de trabalho e pagar as despesas em serviço. Aliás, julgo que se deveria criar para os professores a categoria de «trabalhador por conta de outrem... mas pouco».
Desculpa o tempo que te roubei e recebe um abraço do

Paulo Proença de Moura
Se clicar na imagem pode ver em todo o seu esplendor o Paulo Moura a levar à sua mulher a comida que ele... encomendou a um «take away»
Ilustrações - Grande Mestre Raim

abril 13, 2009

Bem haja, professor Rogério!...

O meu Pai, Rogério Moura, nasceu a 24 de Novembro de 1925 em Moxico (Angola). Faleceu a 25 de Agosto de 1985 em Caria... por trás da serra da Estrela.
Em 1986, eu e o meu irmão compilámos e publicámos em livro diversos apontamentos dele sobre episódios da sua vida como professor (com o sentido de humor e preocupações sociais que sempre demonstrou) e poemas (de fé e de amor).
Juntámos a isso tudo um texto «em jeito de biografia» em que cruzámos uma sequência cronológica de alguns dos passos da vida do professor Rogério com algumas histórias engraçadas que o nosso Pai frequentemente nos contava.
O livro, «Bem haja, professor Rogério», está disponível para quem o queira encomendar. Basta enviar-me um e-mail e eu darei todos os detalhes.

a capa



a contracapa

janeiro 11, 2009

«Nós por cá»...

... vamos indo.
Em Dezembro de 2007, na minha «sétima carta de trás da serra» na revista «Perspectiva», relembrei de forma romanceada uma conversa entre mim e o Alexandre, em 1980, no intervalo entre duas aulas nos «galinheiros» (pavilhões pré-fabricados) da faculdade de economia da universidade de Coimbra. Na «carta», ficou assim:
"Quando na mesma conferência [da Ordem dos Economistas, em Lisboa] se falou dos problemas que se colocam à economia portuguesa, ficou claro que o Estado português está em falência técnica. Isto é uma conclusão minha, que aquela malta não pode dizê-lo, sob risco de terem problemas com a entidade patronal. Aliás, quando depois das primeiras chuvas de Outono fui aos míscaros com a Rosita e o Alex Narigudo, ele viu um «peido da avó», como chamamos por aqui àqueles cogumelos cujo chapéu parece um balão. Como sempre fizemos desde pequenos, pisou-o e aquilo soltou o ar lá de dentro como uma discreta bufa. E o Alex comparou: «Estes peidos da avó são como a economia. Transmitem uma imagem que nos ilude, mas são ocos por dentro».
Por isso, agora nada me admira. Aliás, estou bem preocupado com algo de que quase não ouço falar e que nos afecta praticamente a todos: a Segurança Social já estava com dificuldades de há anos a esta parte porque, diziam, os fundos e as contribuições recebidas não eram suficientes para garantir as pensões de reforma e invalidez da geração actual das pessoas que vêem uma fatia significativa do seu ordenado (11%) irem obrigatoriamente para essa entidade. Ou seja, de um salário de mil euros, por exemplo, 110 euros não recebemos porque a entidade patronal tem que entregar em nosso nome essa verba à Segurança Social. E, "ainda por cima" - aqui aplica-se muito bem esta frase - a entidade patronal ainda tem que pagar mais 237,50 euros. Para quê? Supostamente para termos garantido - diz o Estado - uma pensão quando nos reformarmos... ou em caso de invalidez... ou de desemprego...
Mas, como um desenho humorístico recente resumia sobre o «caso Madoff», dois matulões interrogavam o Bernard L. Madoff:
- Onde é que aprendeu a pagar a investidores antigos com dinheiro de novos investidores?
Encandeado com um foco de luz a apontar-lhe a cara, Madoff responde-lhes:
- Com a Segurança Social!
"Então, Paulo Moura, isto não é nada de novo!" - Pois não, mas já ouviram falar da pancada que os fundos da Segurança Social levaram com esta queda nas bolsas de valores? Sim, sim, o nosso dinheirinho, que a Segurança Social já não podia garantir que chegava para todos, agora ainda minguou mais. E nós, cantamos e rimos?

O Medina Carreira chama os bois pelos nomes. Na entrevista que deu ao «Nós por cá» relembrou que já Rafael Bordalo Pinheiro chamava no fim do século XIX a "porca da política" e a economia era uma "galinha choca". Medina Carreira comparou a política actual a uma "santola só com casca". Eu continuo a chamar a tudo isto "o peido da avó".

agosto 30, 2008

Memórias da nossa infância

O Jorge Castro, ou Mestre Dom OrCa, escreveu recentemente o livro «Farândola do Solstício - memórias de infância por terras de Miranda», editado pela Apenas Livros.


Mesmo não tendo sido a minha infância passada em Miranda e sim por trás da serra da Estrela, revi-me na maioria das aventuras do puto Jorge Castro e dos seus amigos, desde as actividades a que nos dedicávamos, os episódios engraçados, a companhia silenciosa mas firme dos rochedos de granito, os paus e câmaras de ar de que se faziam fisgas, o arco, as esferas, a primeira bicicleta (que também foi da marca Vilar, roda 20), os passaritos que se caçavam com pressão de ar ou com as aúdeas nos costis ("só quem nunca depenou os cinco gramas de um passarito é que não pode avaliar o frete em presença!" como bem resume o Jorge Castro), os peixes da ribeira que eram enormes quando tinham mais de sete centímetros, as batidas à fruta e às galinhas (no nosso caso tínhamos o Ernesto, batedor de hortas, pomares e galinheiros, que era o informador para as saídas nocturnas), o pavor do cemitério à noite, a piscina do ti'Vasco, os primeiros namoricos,...

Não resisto a transcrever aqui «Sabedorias - poema bilingue» (em português e mirandês) com que o Jorge Castro termina o livro. Soberbo, como são sempre os seus poemas:

"bibir en boca de lhobo
é uivo
quedar en rastro de lhiêbre
é caça
sentir filo de nabalha
é sangue
mercar las cuntas de bida
é fome
frenar la risa de l tiêmpo
é morte
preziar l aire desnudo
é vida
peinar l plaino camino
é obra
dourar l berde planalto
é sonho
bondar ser Fraga de l Puio
é sorte
sonar la gaita de fuôlhes
é festa
beilar al son de l pingacho
é grito
pintar la boç pelingrina
é vento
sonhar ser fuôlha de l'arble
é jogo
tamién ser águila en bolo
errante
al fin quisera ser tudo
não pude

al fin bolber a ser home
inteiro

sei mais mas bou cansadico de l die
sei mais
que num te-lo you digo"

O melhor elogio que posso fazer a este livro - que foi a minha leitura de férias - é que me desafia a, um dia, ter a mesma iniciativa do Jorge Castro e escrever as minhas memórias de infância de trás da Serra.
Para adquirir o livro «Farândola do Solstício», cujo preço de capa é de € 20, envie um e-mail para jc.orca@gmail.com.Aproveite e peça-lhe informações sobre os seus outros livros.
_________________________
E o OrCa mima-me tanto que eu sei lá...
"Não se mede a amizade
nem um gesto
ou um olhar
Mede-se o tempo que temos
mede-se o céu
e o mar
Mas não se mede a amizade
nem quem tem tanta p'ra dar!"

OrCa

maio 24, 2008

A Décima Primeira Carta de Trás da Serra desta vez foi para mim

Escreveu-ma a minha queridíssima madrinha Natália, que vive agora em Unhais da Serra. É tão deliciosa que não resisto a transcrevê-la aqui. Perdoe-me, madrinha, mas seria uma pena que não houvesse a oportunidade de outras pessoas conhecerem o seu sentido de humor e as suas experiências de vida que tanto marcam a minha maneira de ser.

Riacho (Unhais da Serra) - foto de L.Ag"Carta das Unhas da Serra
para o querido Cruijff:

Bem hajas pelo mimo que me ofereceste. Gostei!
Puseste-me a rir e muito apreciei esse teu jeito de contar
o sério casado com bom humor e vivências saudosistas. São textos com sabor a coisa sã e genuína. (...)
Não desistas de intervir nesta sociedade perversa, mantendo a tua
independência e o teu bom humor.
Essa do
efeito do poder - ser visto e não ver - leva o meu voto para virar provérbio popular.
A questão dos ajustes das horas e do teu estômago desajustado trouxe-me à ideia a minha vivência de cinco anos (dos 25 aos 30) na aldeia de camponeses - Sto. António do Marmeleiro, onde tive a minha primeira escola como efectiva. Ninguém traumatizava relógios. Sabiam das horas pelo Sol e pelo estômago. Não havia crise. Também não faziam seguros de nada que tivessem. Qualquer desastre acontecido a alguém era prontamente resolvido pela comunidade. Assim aconteceu quando ardeu toda a casa, vacaria, currais e celeiro aos pais de três alunos meus. Logo foram acolhidos em casas de amigos e imediatamente todos iniciaram a reconstrução de tudo, revezando-se no trabalho que a todos tocou. No final, sobraram quinze contos (naquele tempo era dinheiro) e o bom do homem, já com tudo novo e animais todos novos, não queria aceitar tal dinheiro, alegando que devia ficar num banco para outra necessidade que surgisse. Mas teve de aceitar porque tinha sido pedido para ele. Gente verdadeiramente cristã que, a estas horas, de certo já está diferente pela força da vida.
Gostei de relembrar essas
vivências do Sr. Prof. Rogério com a pequenada. E o que é certo é que me fizeste voltar às minhas e deixo-te aqui algumas que me saltaram logo da memória já cansada.
Olha só:
Resposta de um rapazito (Sintra), num teste escrito, à pergunta:
- Como defender-nos dos perigos de quedas, na rua?
- É andarmos tão depressa, tão depressa, ó Senhora, tão depressa que os sapatos não têm tempo de escorregar.
Outro sintrense em redacção de tema livre, solicitada na sala de aula:
«Vou falar dos extraterrestres porque tenho pena deles. Eles fogem da gente porque vêem muitos automóveis e julgam que são animais devoradores. Coitados! Sabem construir discos mas ainda estão muito atrasados».
No ano de 51 a 52, na minha primeira escola, no Alvito da Beira, após a aula de religião. Pergunta:
- Rui, és capaz de contar-nos o que aconteceu a Jesus, quando saíu da última ceia com os apóstolos?
De olhos pregados no chão, o meu melhor aluno recusou-se a falar, com a cabeça pendida e como que envergonhado. À terceira insistência para que dissesse o que bem sabia, respondeu com voz sumida:
- Então... Jesus foi às oliveiras...
E agora esta redacção de uma aluna da 3ª classe de Sto. António do Marmeleiro, que até era inteligente mas que só escutava o que muito bem a motivasse. Pediu-me a Direcção Escolar para enviar redacções sobre o tema «Camões», para um concurso de todas as escolas do distrito. Lá me dispus a colaborar naquele crime de falar aos meus pastorinhos (quase todos) de duas ou três cabrinhas, do nosso Vate.
A Isaura, miúda muito despachada, saíu-se com esta:
«Camões era um homem bom que que foi rei de Portugal, mas ele tinha muitos inimigos que foram dizer mal dele àquele que mandava, e logo o mandaram de castigo para a Espanha e os reis de Espanha deram-lhe cabo de um olho. Aospois ele já andava muito chateiado e veio-se imbora da Espanha prafora, mas no caminho afundou-se».
E remato com esta de um espertalhão (Sintra) que geralmente arranjava maneira de se safar de perguntas "indiscretas" para a sua sabedoria.
Pergunta em teste escrito:
«Que diferença existe entre estes sinais de matemática?»
Resposta: «É que o sinal mais ainda não está cansado».
Tu é que já estás cansado de ler, se é que arranjarás tempo para ler de um fôlego.
(...) Só lamento que
os cem mil abraços não tenham sido todos consumidos. Aos professores, falta-lhes o metal para comprar jornais e ainda mais o tempo de lê-los.
(...) Deixo-te para que siga hoje a carta.
Beijinhos e abraços para serem consumidos por todos Vós.
Bem hajas!
Tua madrinha amiga,
Natália"


E não haveria melhor forma de concluir a excelente experiência que foi escrever dez Cartas de Trás da Serra na revista «Perspectiva».

abril 15, 2008

"Bem... da terra, da santa terrinha, já não vêm só abóboras"

Comentário do OrCa à minha 10ª carta de trás da serra:

"Bem... da terra, da santa terrinha, já não vêm só abóboras. Agora chovem merecidas catilinárias. Ainda bem! Deve ter algo a ver com aquela história de fazer o combate de dentro para fora...
Como sabes, estou contigo a 100% e, se for preciso mais um bocadinho, é só dizer, que rapidamente chegaremos aos 110%!
Chateia e irrita esta moleza institucional, este «no pasa nada», quando tu, como eu, como tantos outros, assistimos, conscientes, ao despautério que ocorre na «res publica», acumulado com tanta delapidação dos chorudos impostos que pagamos.
Quanto aos professores... Enfim, dos lápis que dão aos alunos, ao trabalho noite adentro, diário e continuado, ao desgaste diário, também, de aturar as criancinhas que tantos pais não sabem, não querem ou não podem educar, como se diz, só não vê quem não quer ver!
E a atitude destes pseudo-tecnocratas que vão desaguando no ministério, a arremedar ao neo-liberal, entoando loas a um status mirífico e a um estatuto educacional para o País que eles próprios nunca praticaram, nem advogaram, a não ser quando se alcandoraram ao poder, fede que tresanda!
Estou com o Junqueiro: «Truculenta manada obesa de hipopótamos, ó Humanidade, enxota-mos!»
Um abraço.
OrCa"

abril 06, 2008

A minha décima carta de trás da serra na revista Perspectiva

má Educação

Não sei onde te meteste nesse dia, que não te vi, mas terias feito bem em ir conversar com as cem mil pessoas que foram desfilar pelas ruas à capital. Decerto concluirias que, ao contrário do que diz a ministra da Educação, os professores sabem do que estão a falar quando dizem que estão cansados e fartos.
Já me ouviste dizer isto centenas de vezes desde a nossa infância, mas sabes que gosto sempre de repetir: a minha política é a política do trabalho. Foi uma frase que foi gravada na minha memória pelos meus pais e pela minha avozinha – ai de mim se a chamasse sem este diminutivo gramatical – muito antes do 25 de Abril de 1974. Lembro-me de o meu pai um dia, ao regressar do café, dizer-me pedindo segredo aquilo que um amigo lhe contou: a sigla “VMPS” (da água mineral de “Vidago Melgaço e Pedras Salgadas”) queria afinal dizer “Vamos Mandar Prender Salazar”.
Lembras-te de te contar quando eu estudava no liceu da Covilhã, logo a seguir à revolução dos cravos, aquele episódio da aula de ginástica em que o professor faltou? Como estávamos equipados, fomos jogar futebol. Havia um colega que queria ir para a baliza. Mas para a outra era sempre um impasse, porque ninguém aceitava ficar ali quieto a levar com boladas enquanto os outros podiam marcar canelas. Um colega mais matulão sugeriu: “Fazemos uma votação para quem deve ir para a baliza”. Ainda mal tinha acabado a frase e disparou logo uma pergunta, colocando o braço no ar: “Quem vota no Paulo Moura para ir para a baliza?” o que levou à unanimidade nos braços levantados… mas no meu caso foi um manguito, uma declaração de voto – “Porra para a vossa democracia” – e uma corrida para os balneários mudar de roupa. Só ao longo da vida assimilei as várias lições deste dia: uma delas foi que a democracia pode ser perigosa, quando desrespeita as minorias, ao quebrar aquela velha máxima de “a nossa liberdade acaba quando começa a liberdade dos outros”; outra foi que ser franzino não ajuda nada a fazer valer a nossa posição; e a principal foi que eu e o futebol não combinamos.
Eu sei, eu sei, é como se estivesse daqui, na Cova da Beira, a ouvir as tuas gargalhadas. Aposto que te estás a recordar dos meus tempos da escola primária em que, mesmo nos dias em que levava eu a bola, não me escolhiam para nenhuma equipa. E pior ainda era quando havia um número ímpar de jogadores e eu ficava para o fim. Até que os dois que escolhiam as equipas chegavam a acordo: “Tu tens a equipa mais forte, ficas também com o Paulo Moura”.
A minha alcunha dos tempos de juventude reflectiu tudo isto: Cruijff.
Na primeira vez que fomos jogar para o pinhal da cerca do conde, o Zé Papas começou por gritar aos colegas de equipa “não deixem o Cruijff desmarcar-se” mas, ao fim de poucos minutos, já gritava “passem a bola ao Cruijff que ele remata para fora”.
Não falando de política nem de futebol, resta-me falar de trabalho. E deixa-me que insista: a malta que manda ainda não se convenceu que os professores do ensino público não têm meios para trabalhar como lhes é exigido. E muito menos ainda para o que desejariam fazer!
Se eu pudesse, falaria com cada professor e dizia-lhe para exigir, na sua escola, os meios para poder exercer a sua actividade. E quando falo em meios é no sentido mais lato possível: ambiente social e respeito pela profissão; enquadramento e protecção legal; formação; equipamentos funcionais (informáticos, multimédia, internet,…); consumíveis; gabinete de trabalho para actualização de conhecimentos, preparação de aulas e de testes, bem como para a sua correcção; apoio administrativo; e, o recurso mais escasso de todos: tempo. Exijam que se cumpra o Estatuto da Carreira Docente: “O direito ao apoio técnico, material e documental exerce-se sobre os recursos necessários à formação e informação do pessoal docente, bem como ao exercício da actividade educativa”. E nos regulamentos da avaliação: “O docente tem direito a que lhe sejam garantidos os meios e condições necessários ao seu desempenho, em harmonia com os objectivos que tenha acordado”.
Ou terão que ser os cônjuges dos professores a cobrar do Estado tudo o que este devia providenciar? Algum professor já apresentou factura dos riscos que lhe são feitos no carro? Do tempo que trabalha em casa fora do horário laboral? Dos tinteiros, resmas de papel e outros materiais que paga do seu bolso?
Sabes que mais? Se as coisas se mantiverem como estão, a culpa é dos professores, ao permitirem, com o seu voluntarismo, que o Ministério da Educação continue a fazer omeletas sem ovos, usando o truque de pôr a cabeça de cada professor.... num ovo!
Cem mil abraços,

Paulo Proença de Moura
Página on-line da revista «Perspectiva». Na secção das Crónicas estão disponíveis os meus textos anteriores.

março 31, 2008

Triste ensina...

... mas feliz de quem recebe um retorno do que escreve:

"Bom dia
Estive a ler
este artigo agora, antes de sair para a escola, e realmente, sem falar de mim, chego a ter saudades da minha esposa que, também sendo professora, pelo menos duas vezes por período praticamente não existe para mim nem para a minha filha.
É difícil entender isto sem se estar por dentro.
Obrigado pelas suas palavras.
Cumprimentos

Graciano Torrão"

Entretanto, soube por amigos professores e amigos de professores que a minha carta "triste ensina..." tem andado por aí, a circular por e-mail.
Já agora, aproveito para informar que a minha próxima carta de trás da serra será publicada na revista «Perspectiva» que sairá com o «Público» de 6 de Abril. Vou revelar os meus dotes de futebolista desde a infância... e dizer o que penso sobre o que os professores mais devem exigir: meios.

março 01, 2008

A minha nona carta de trás da serra na revista Perspectiva

Triste ensina...

Olá,

Estou a escrever-te muito à pressa, que o tempo é pouco e tenho que fazer os «trabalhos de casa». São dez da noite e a minha mulher telefonou a dizer que está agora a sair da escola. Tem sido frequente este ano: eu e as nossas filhas jantamos e ela come depois qualquer coisa quando chega.
Já não me lembro do que é sairmos num fim-de-semana, porque precisa de estudar legislação e falta-lhe tempo para preparar aulas, testes… e depois corrigi-los. O tempo que passa na escola é ocupado com outras actividades... e reuniões aos montes.
Ela lá vai fazendo o melhor que pode mesmo que, como eu lhe digo, esteja praticamente a prescindir de ter tempos livres e a sacrificar a vida familiar. É que os professores têm uma característica que admiro: espírito de sacrifício. Como sabes, sou de uma família de professores e desde pequeno me habituei a ouvir os meus avós, os meus pais e os meus tios a falarem sobre irem “dar aulas para terras onde só se podia ir de burro”. Actualmente, mudou o meio de transporte mas a vida nómada mantém-se. Eu até acho que se devia dar a cada professor, no início da carreira, um kit com um burro, uma carroça, um cobertor e um cão. E, ao longo da carreira, sujeitam-se a situações e aceitam condicionalismos que noutras actividades seriam impensáveis. Há dias, em conversa com pessoas conhecidas casadas com professores, deram-me alguns exemplos. O marido da Mariazinha desabafa com ela ser “frequente as escolas não disponibilizarem os meios suficientes” para exercerem a sua actividade, sendo necessário adquirirem equipamentos e consumíveis que usam no seu trabalho. O Jorge Castro, que tem saudades de te ver por cá, acha que “propor a um professor que adquira um computador que vai utilizar como instrumento de trabalho, com acesso a uma bandinha larguinha, por preço ‘especial’ e condições ‘favoráveis’, é uma habilidade que não lembrava ao diabo” mas lembrou ao Governo. O Borges alertou que a mulher sempre teve necessidade de trabalhar em casa, além do horário que cumpre na escola e sem receber horas extraordinárias. Como disse o Pereirinha, “pode parecer um detalhe sem importância mas no Verão as famílias de professores só podem tirar férias na confusão do mês de Agosto, quando vai ‘tudo a monte’ para os destinos turísticos normais e os preços são mais elevados”.
“A isto”, lembrou a Filomena, “já estão infelizmente os professores habituados. Mas actualmente está a ser demais: congelamento de salários e de carreiras, alterações das regras de progressão com critérios que geraram injustiças e dos quais não foi permitido reclamar… e agora instalou-se o caos a meio do ano lectivo, com grande quantidade de legislação sobre o novo modelo de gestão, a avaliação dos professores e o novo estatuto do aluno, com várias lacunas e que estão a criar uma enorme confusão quanto a competências, leituras e implementações diferentes de escola para escola”. E fazer depender a avaliação de desempenho dos docentes do sucesso escolar e do abandono dos alunos? A Natália queixa-se da falta de sorte do marido, que "tenta sobreviver a uma turma de CEF's". CEF's?! Ela lá nos explicou que "são cursos para alunos especialistas em reprovações e com tendência para a asneira. É frequente ser alvo de ameaças, de agressões verbais e mesmo físicas. Sente-se entregue a si próprio. E será avaliado pelo desempenho deles". O Rogério estranha “se a ministra da Educação não se apercebe que criaram uma clivagem artificial entre professores, que se instalou o medo e um ‘stress’ tremendo”. Tive que lhe dizer que aos políticos não dá jeito ‘saber’. A Mariazinha perguntou: “O Ministério diz que quer valorizar a actividade lectiva – a nossa missão –, dignificar a profissão docente, promover a auto-estima e motivação dos professores mas… assim?! Se não dispõem dos meios e o tempo necessários? E se não podem preparar devidamente as aulas porque estão ocupados com burocracias?”
Tive que lhes dizer que o problema é o isolamento de cada professor e no receio de ‘dar a cara’, gerando frustração e uma revolta surda. Entretanto, como diz uma amiga professora, os familiares são «sofredores passivos». Como eu de passivo não tenho nem quero ter nada, até já pensei organizar uma Manifestação dos Esposos Revoltados de Docentes Abusados. Até aproveitava para te ir visitar...
É pena não estares connosco... e não estares casado com uma professora. Entender-me-ias melhor.
Um abraço deste que te estima,

Paulo Proença de Moura
Página on-line da revista «Perspectiva». Na secção das Crónicas estão disponíveis todos os meus textos anteriores.

janeiro 27, 2008

A minha oitava carta de trás da serra na revista Perspectiva

Olá,

Não tens respondido às minhas cartas mas eu entendo-te, porque sei que nestes últimos meses tens andado distraído com a Europa, essa mulheraça que tanta atenção exige e não perdoa que se poise o pé em ramo verde. Pois eu confesso-te que tenho andado sem paciência nenhuma com esta história do Natal começar em Outubro. Antes dizia-se que "Natal é quando o homem quiser" mas agora é quando o comércio decide. E é pena que ninguém tenha autoridade para acabar com esta pessegada do consumismo cego. É que vocês aí por Lisboa têm cargos pomposos mas para o que realmente é importante... pouco ou nada mandam.
Ontem à noite estivemos a aquecer as almas à volta do madeiro. Como os corpos também estavam enregelados, soube muito bem o garrafão de tintol que o Quatro Papos-secos levou. Enquanto o Dentes ajeitava umas brasas para assar um chouriço, o Zé Léu comentou: "isto de beber em copos de plástico até estraga o sabor do vinho, além de depois irem para o lixo por não serem reutilizados". A Mininha concordou: "se fossem só os copos de plástico... mas não. Fala-se tanto em preocupação pelo ambiente mas cada vez se faz mais lixo". O chouriço estava a ser virado e a conversa é que estava em brasa. O Betes relembrou-nos quando íamos à noite com as vasilhas de latão buscar o leite a casa de quem na altura criava uma vaca leiteira: "Agora é tudo em pacotes de cartão e plástico. As pessoas já nem sabem de onde vem o leite... e a nata não está lá". Como tu sabes, o meu fígado nunca foi grande coisa e o leite directo da vaquinha sempre me deu umas crises de que o leite de pacote me livra. O que eu fui dizer... "Porque agora compras leite mas o que bebes é água", atirou certeiro o Careca, fazendo jus aos seus dotes de caçador.
Já o Dentes cortava o chouriço em rodelas que colocávamos nas nossas fatias de pão centeio mas continuámos a falar sobre o paradoxo do desenvolvimento e do ambiente. O Dadinho, que como sabes tirou o curso de economia aí em Lisboa, falou-nos de um tal de Thomas Malthus: "Foi um economista britânico que já no início do século XIX alertou para o facto de as populações humanas crescerem em progressão geométrica enquanto os meios de subsistência só podem crescer em progressão aritmética. Ele previu a incompatibilidade entre o crescimento e a disponibilidade de recursos".
O Heitor, que veio passar o Natal à terra e te manda um abraço, deu a sua opinião: "Ao querer-se que os alimentos sejam limpos, higiénicos e não manipulados, salvaguarda-se de facto a saúde pública. Mas o ambiente é que paga, com os materiais de manuseio e embalagem em cartão, plástico, folha-de-flandres e esferovite, na sua maioria usados só uma vez e que vão logo para o lixo". Enquanto outra chouriça e uma farinheira de assar já estavam a passar pelas brasas, perguntámo-nos todos se não seria benéfico voltar um pouco às raízes, com menos caixas, sacos, pacotes,... pois o bem estar não pode ser confundido com comodismo. E, como diz o meu patrão, "a comodidade paga-se". Neste caso, com uma espiral caótica de lixo de que já sofremos as consequências. "Mas as futuras gerações serão ainda mais penalizadas. E já não se vai lá com travagens. Só mesmo fazendo marcha-atrás em alguns aspectos da nossa vida em sociedade", vaticinou o Plicas.
"Mas como", perguntei eu, "se a tendência é cada vez mais para a normalização e para a proibição de tudo o que fuja aos regulamentos?"
Eu não sei se esperava uma resposta séria de alguém, mas esta malta não consegue estar muito tempo sem a conversa descambar. O Chico Padeiro concluiu: "Tenho saudades do tempo em que mau ambiente era quando o Betes se distraía depois de uma feijoada!"
O que nos vai valendo ainda é este espírito que nos dá o conseguirmos ver as estrelas quando o céu, à noite, está sem nuvens. Coisa de que tu, às tantas, já nem te lembras.
É pena que não queiras vir até cá. Vinhas connosco cantar as Janeiras, que é sempre mais uma boa ocasião para comermos, bebermos... e pormos a conversa em dia.
Despeço-me com um brinde: à saúde e à amizade.

Paulo Proença de Moura
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dezembro 25, 2007

A minha sétima carta de trás da serra na revista Perspectiva

Olá,

Como vai isso aí pela capital? Ouvi dizer que fizeram um magusto na Assembleia da República. Não consigo imaginar um magusto sem ser no meio de um pinhal, com o frio a enregelar-nos o nariz e acompanhado com uma jeropiga que nos ponha a cantar a "Cana Verde dos Velhotes", terminando todos sempre com a cara enfarruscada pelas cinzas da caruma e dos paus onde se assaram as castanhas. Todos menos o Pinto, que nunca alguém teve coragem para lhe chegar as mãos encarvoadas à cara, sob risco de chegar a casa sem os dentes da frente. O Dadinho, esse, uma vez até lhe desapertámos as calças e pusemos-lhe a pilinha negra. Mas só a cor, porque de resto o frio do Outono na Serra não perdoa. Lembras-te?
Sabes que estive há dias aí em Lisboa? Fui a uma conferência de economistas. Chegámos cinquenta minutos atrasados porque estivemos parados na auto-estrada perto de Alverca, devido a um choque de viaturas em cadeia. Desabafei com um camionista parado ao nosso lado que na minha terra às vezes também temos que parar na estrada para deixar passar um rebanho, que deixa irremediavelmente tudo cheio de berlindes castanhos. Ele não ligou nada ao que eu disse, continuou com ar carrancudo e até me olhou com um ar desconfiado, mas eu já tinha ouvido dizer que nas cidades as pessoas não falam com estranhos. E na nossa terra, como sabes, não há estranhos.
Uma das pessoas que falou na conferência foi a Manuela Ferreira Leite. Apreciei especialmente quando alguém da assistência a confrontou com a discrepância do IVA entre Portugal e Espanha, originando nas zonas de fronteira idas de portugueses às compras ao lado de lá, "com a perda de receitas para o Estado que isso implica". Manuela Ferreira Leite respondeu que isso não a preocupava, já que as receitas de IVA das regiões fronteiriças representam algo como zero vírgula muito pouco por cento do total. Como a considero uma excelente economista e tem acesso a estes dados, tudo me leva a crer que é mesmo assim. Ora isto dá-me uma ideia: sendo as receitas do IVA residuais, que tal o Estado prescindir delas, isentando desse imposto os bens e serviços disponibilizados no interior? Pelo menos, que lhes fosse aplicada a taxa mínima. Aí sim, em vez de irmos a Espanha comprar aqueles caramelos solanos que se agarram aos dentes, os espanhóis que viessem cá. E até lhes podíamos pedir, depois de ganharmos alguma confiança, que nos trouxessem uns barris de gasolina sempre que viessem. E como vocês por aí estão sempre a alternar no poder (um "poder de alterne"?!), bem que poderiam fazer um pacto de regime, que me parece que até está na moda por esses lados.
Quando na mesma conferência se falou dos problemas que se colocam à economia portuguesa, ficou claro que o Estado português está em falência técnica. Isto é uma conclusão minha, que aquela malta não pode dizê-lo, sob risco de terem problemas com a entidade patronal. Aliás, quando depois das primeiras chuvas de Outono fui aos míscaros com a Rosita e o Alex Narigudo, ele viu um «peido da avó», como chamamos por aqui àqueles cogumelos cujo chapéu parece um balão. Como sempre fizemos desde pequenos, pisou-o e aquilo soltou o ar lá de dentro como uma discreta bufa. E o Alex comparou: "Estes peidos da avó são como a economia. Transmitem uma imagem que nos ilude, mas são ocos por dentro".
E agora tenho que terminar desejando-te muita saúde, que é hora da janta e tenho ao lume um arroz de míscaros numa panela de ferro, que vou acompanhar com um tinto da Quinta dos Termos do meu amigo João Carvalho, um dos miminhos da nossa terra.

Paulo Proença de Moura
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dezembro 24, 2007

A sombra do Pai Natal - Raim | Um cabaz de luxo - por Pedro Laranjeira


A sombra do Pai Natal - Raim

"Nenhuma das grandes festas das tradições mundiais, como a noite das bruxas na américa ou ano novo chinês, consegue subverter tão profundamente os mais nobres princípios da humanidade como o Natal do ocidente.
Os festejantes parecem esquecer aquilo que eram supostos festejar: o nascimento de um Cristo pobre, humilde, pacífico, humano.
A comemoração do Natal na data romana da chegada do Inverno existe há dezasseis séculos. Tradições várias se lhe juntaram, como a figura do Pai Natal, inspirada no bispo turco Nicolau (os ingleses chamam-lhe Santa Claus), ou a simbologia do presépio, introduzida por S. Francisco de Assis no século XIII.
Já Vasco da Gama tinha chegado à Índia quando a Árvore de Natal foi inventada por Martinho Lutero, com velas a lembrar estrelas e algodão a imitar neve.
Hoje, tudo mudou. A árvore mantém-se, o presépio já só existe nos círculos religiosos, mas o Pai Natal multiplica-se por milhares de figuras que são mais promotores de vendas que símbolos de festa.
Talvez tudo tenha começado com a campanha publicitária da Coca-Cola que em 1881 deu às roupas castanhas do velhinho o seu vermelho actual.
Agora, o Natal já não é dos pobres, nem dos cristãos, nem dos humildes. É da sociedade de negócios, do consumismo desenfreado, do lucro a qualquer preço.
Somos inundados por campanhas publicitárias, apontadas a um “target” fácil, que cativa todos: as crianças.
A cada novo Natal aumenta a exploração fácil a troco do dinheiro abundante: este ano temos até bonecas que a criança pode maquilhar... e usar os cosméticos nela própria! – com poucos anos de idade! Parabéns!
O grande “boom”, porém, são os brinquedos das novas tecnologias, virados para lutas, combates, uso de armas, violência gratuita.
Um cabaz de lixo!
Estamos distraídos, ou somos já mutantes de nós próprios?..."
Pedro Laranjeira
Director Editorial
Artigo publicado na revista «Perspectiva» do passado sábado, em que saíu também a minha sétima «carta de trás da serra». Leram?

novembro 03, 2007

A minha sexta carta de trás da Serra na revista Perspectiva

Olá,

Desculpa eu estar a escrever-te com o meu ânimo em baixo, mas só de pensar que no dia 28 de Outubro vai passar a ser a hora de Inverno, perco toda a vontade quer de pão, quer de circo. Aliás, é tanta a raiva de ter que me adaptar à força às mudanças de hora que, se estivesse a usar uma máquina de escrever das antigas, pelo menos os pontos finais aparecer-te-iam nesta carta como buracos na folha.
Talvez por isso me apeteça hoje falar-te de algo que nos preocupa muito desde há já alguns anos: a situação difícil em que está o sector dos têxteis e confecções, que emprega tantas pessoas aqui na nossa terra. E, ao contrário de regiões onde há mais indústrias e de diversas actividades, aqui por perto não há praticamente nenhumas alternativas à única fábrica de confecções que existe.
Lembras-te da minha carta quando, há uns quinze anos atrás, regressei de uma viagem de trabalho à Alemanha? Contei-te que, na região que visitei, dezenas de fábricas cerâmicas tinham encerrado há pouco tempo, devido à invasão do mercado por produtos mais baratos da Europa de Leste e da Ásia. Foi claro para mim, se te recordas, que a globalização, se não seria um bicho-de-sete-cabeças, teria pelo menos seis, como num desenho que o Lourencinho do Professor Rogério fez um dia sobre uma cadeira do curso de engenharia: grande pincel!
Mas temos o que merecemos, não achas? Como trabalhadores, queixamo-nos da concorrência desleal. Só que, como consumidores, compramos o que e onde é mais barato, «esquecendo-nos» da nossa revolta. Alguém deixa de comprar produtos numa «loja dos chineses», por exemplo, por não conseguir saber como é possível vender com aqueles preços e ter lucro? Ou alguém, antes de pagar, faz cálculos ao que poderá ser o salário de quem fabrica aquilo? Pois é, como trabalhadores queremos que as nossas empresas tenham sucesso, mas como consumidores a prática é outra.
Como sabes, durante vários anos aceitei desafios para tentar recuperar empresas em situação difícil, inclusivamente no sector têxtil. E sempre houve algumas coisas que me fizeram muita confusão. Os trabalhadores admiram-se sempre de haver encomendas e a empresa deixar de pagar salários, mas será que ninguém pensa que o problema está nos preços de mercado esmagados pela concorrência, muitas vezes também desesperada, e que não permitem cobrir os custos? Porque há sempre quem ache que o Estado deve apoiar empresas em situação difícil, sabendo que isso se torna uma forma de concorrência desleal para com outras empresas? Por que motivo os sindicatos acham que a melhor «forma de luta» numa empresa em situação difícil é a greve? Não conseguem antever o impacto negativo que quaisquer paragens têm em termos de prazos de entrega, agravamento de custos e deterioração da imagem da empresa perante os clientes, fornecedores e bancos? O que leva algumas pessoas a queixarem-se das condições de trabalho e da situação das suas empresas quando, entretanto, não cumprem parcial ou completamente as suas obrigações laborais, prejudicando os seus colegas e a empresa como um todo? É que, como sempre me ouviste dizer, uma empresa não pode ser a Santa Casa da Misericórdia!
Voltemos à nossa terra, que é onde se está bem. Sei que concordas comigo quando digo que esta gente tem uma capacidade de resistência fora de série, à imagem das giestas que crescem entre os penhascos de granito e resistem ao frio cortante da serra. É a nossa riqueza (do) interior. Despeço-me com votos de que nos consigamos sempre adaptar ao que o futuro nos trouxer.

Paulo Proença de Moura
Página on-line da revista «Perspectiva». Na secção das Crónicas estão disponíveis todos os meus textos anteriores.

ps - tenho que agradecer ao meu amigo Pedro Laranjeira a sugestão que ele me deu com o anúncio que colocou na página da minha carta na revista Perspectiva. É bom andar prevenido e isto não é de granito dente de cavalo, como o monumento fálico do Ferro.

setembro 01, 2007

A minha quinta carta de trás da Serra na revista Perspectiva

Olá,

Espero que as coisas estejam mais calmas aí pela capital, agora que têm um novo presidente da Câmara, pois já andávamos todos demasiado preocupados com tantos problemas que Lisboa apresenta. Nem conseguíamos dormir, a pensar nos radares da segunda circular, nos contentores entre a cidade e o Tejo, no endividamento da Câmara, nas contas das empresas municipais, nos indícios de corrupção, nos assessores dos vereadores, nas alterações do PDM,...
Mas o que mais me tira o sono são os ataques pessoais e polémicas constantes entre pessoas de partidos diferentes e o vergonhoso fechar de olhos – quando não há mesmo elogios públicos – às maiores boçalidades que possam ser ditas ou asneiras que possam ser feitas, quando se trata de alguém do mesmo partido. É por estas e por outras que dou razão aos meus Pais e à minha Avozinha, professores primários (agora seriam professores do ensino básico), que me ensinaram, quando eu era criança, a resposta a dar quando me perguntassem qual é o meu partido: "A minha política é a política do trabalho". E, de facto, há valores que parecem ser inconciliáveis, pelo pouco que me posso aperceber daqui, detrás da Serra.
Recordas-te quando o meu Pai voltava a pôr no ninho, nos beirais do telheiro da escola, os passaritos que de lá caíam e conseguiam sobreviver? De o ver ajudá-los a voar quando já tinham penas mas ainda não confiavam em si próprios? Lembrava-me depois dessas avezitas sempre que, ao longo dos anos, tantas pessoas o iam visitar a nossa casa, muitas vezes vindos daí, da capital, ou de França, ou de outros países para onde tinham emigrado... para o rever e lhe transmitir como foi importante nas suas vidas.
O meu Pai tinha sempre uma anedota ou uma história engraçada da sua vida para contar. Como aquele aluno que tinha cinco anos de escola mas não conseguia passar da primeira classe. Um dia, o meu Pai escreveu um "i" no quadro, esmerando-se em realçar com o giz a pintinha em cima. E chamou o Zé:
- Zé, vem ao quadro e vê se me dizes que letra é esta.
O Zé olhou para o quadro fixamente e afiançou:
- Eu sei... mas não me lembro!
- Vê lá, Zé, que até tem uma pintinha no cimo – recordou-lhe o professor.
- Ai, Jesus! Mas eu sei! – tornou a afirmar o Zé, metendo um dedo na boca, num esforço enorme para se lembrar. O professor tornou a ajudá-lo, com a paciência das causas perdidas:
- Ó Zé, então qual é a única letra que aprendemos a escrever até agora que tem uma pintinha?
Como um relâmpago, o dedo do Zé sai disparado da boca e aponta para o quadro, enquanto da sua boca orgulhosa sai a resposta tão esperada:
- Ah! Pois! É o que eu pensava: é um nove!
Um caso idêntico foi o de um moço que, após vários anos na escola, também não conhecia sequer as letras. Como estava muito alto, não podia continuar à frente, junto das crianças de sete anos. E por isso o meu Pai colocou-o nas carteiras de trás, onde estavam os alunos da terceira classe. Foi eufórico que o garoto chegou a casa nesse dia e disse para a Mãe:
- Ó Mãe! Hoje passei para a terceira classe!
Noutra ocasião, numa campanha de educação de adultos, uma colega do meu Pai reparou que, na prova de redacção, um aluno bufava, suava... enfim, estava apatetado de todo. E tentou animá-lo:
- Então, o senhor sente-se mal? Quer um copo de água?
Responde o adulto:
- Não, minha senhora, eu não estou mal. Estou preocupado com o palerma do meu irmão, que na redacção se foi meter com o boi e a vaca. Ora, eu já me vejo atrapalhado só com o boi, quanto mais meter a vaca também!
Se quisermos e se estivermos atentos, podemos aprender muito com estas histórias, não achas?
E é com os olhos rasos de saudade que me despeço e te mando um abraço que, mesmo distante, é bem apertado.

Paulo Proença de Moura
Página on-line da revista «Perspectiva». Na secção das Crónicas estão disponíveis todos os meus textos anteriores.
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O meu colega e amigo dos tempos de faculdade, Fernando Bravo, enviou-me esta história idêntica, que se passou com ele:
"Embora tenha o privilégio de ter conhecido a história do Zé em primeira mão, fiquei muito contente de te ver (em fotografia não mudaste muito) e de te ler (não sabia que eras escritor, mas agora com a Margarida Rebelo Pinto...).
Relativamente ao teu artigo só lhe faltou o shotaque para ser perfeito, mas enfim, não se pode ter tudo.
Já agora aí vai uma que se passou comigo e podes usar: Uma aula de Ciências da Natureza, 6º ano, em que o professor (este humilde servidor público) já estava com os cabelos em pé com a quantidade de «Zés» que tinha na turma. De cabeça perdida digo: «Vocês são é burros!». Responde o Francisco, todo zangado: «Eu não sou burro. Não tenho cornos!» Fez-se silêncio e muito suavemente começam a ver-se sorrisos, depois risinhos e, por fim, gargalhada geral. Nisto há um dos outros «Zés» que corrige o colega: «Ó burro! Aquilo que tem na cabeça são orelhas!». Resposta do Francisco, um pouco encabulado: «Ou isso!»."

julho 21, 2007

A minha quarta carta de trás da Serra na revista Perspectiva

Olá,

Continuas sem responder às minhas cartas mas eu compreendo-te. Como se já não bastassem os nervos em franja dessa vida e trabalho na capital, ainda deves estar a recompor-te do terceiro salão erótico. Mas está descansado, que eu não conto nada à tua mãe. Ainda ontem estava eu na esplanada do Pielas, a conversar com o Manchinha e ela estava a sair da missa vespertina, com o senhor padre.
Há dias tivemos uma patuscada na quinta do Panasco com uns amigos nossos que vieram de Coimbra visitar-nos. Não conheciam o Dadinho e ficaram muito admirados com algumas das peripécias dele que lhes contámos. Como quando ele ainda era pequenino e ia com o pai (o saudoso ti'Manecas da mercearia) de carro, de Caria para a Covilhã. Ainda não havia a auto-estrada da Beira Interior e a recta de Lamaçais era, para os nossos olhos, enorme nos seus 700 metros. Para mais, a seguir a essa recta havia – e há – outra recta, mais curta. Pois o Dadinho, admirado com a extensão da recta de Lamaçais, disse:
- Ó pa-pa-pai, que recta tã-tã-tão grande!
- Pois é, filho – condescendeu o ti'Manecas, mais preocupado na lista de compras que tinha de fazer na Covilhã.
Quando o ti'Manecas fez a curva e entrou na outra recta, o Dadinho admirou-se ainda mais:
- E continuuuuuuua!...
Ou quando o Dadinho foi acampar com o Lourencinho Filho Mais Velho do Professor Rogério para a Nave de Santo António, que tu sabes, mas muitos não, que é um vale glaciário na Serra da Estrela. Estavam os dois a dormir, quando o Lourencinho ouviu o Dadinho a tentar abrir desesperadamente a tenda, procurando os fechos precisamente no lado oposto àquele em que estavam. O Lourencinho apercebeu-se que o Dadinho estava aflito e, com medo dos estragos potenciais no interior da tenda, lá lhe deu a indicação para conseguir abrir o fecho... e continuou a tentar dormir. Mas o Dadinho, ao assomar a sua cabeça da tenda, gritou para o Lourencinho:
- Ó Lourenço, anda ver que-que-que paisagem ma-ma-maravilhosa!
O Lourencinho achou tão estranho... mas como o Dadinho insistiu, lá foi espreitar. Um carro branco estava estacionado mesmo à frente da tenda. E o Lourencinho teve que lhe pedir que pusesse os óculos:
- Pensavas que era neve, era?
Mas o Dadinho esclareceu:
- Nã-nã-não. Pen-pen-pensei que era o luar re-re-reflectido nos Cântaros...
E quando o Dadinho estava a jogar futebol com os amigos? Tu deves lembrar-te, que também lá estavas. Aproximou-se isolado da baliza adversária, um companheiro passou-lhe a bola... e ele estatelou-se no chão, sem ninguém lhe tocar, com a bola incólume a escapulir-se sem qualquer perigo para o guarda-redes. Enquanto os adversários se riam da cena e de alívio, os companheiros de equipa acorreram, num misto de cólera por perderem um golo certo e de gozo pela figura triste dele:
- Então, Dadinho, escorregaste?
- Nã-nã-não foi nada disso – esclareceu – ê-ê-eu ia chutar a bo-bo-bola com o pé esquerdo, mas não cheguei lá-lá-lá. Por isso ten-ten-tentei com o pé direito. Só-só-só depois é que me apercebi que esta-ta-tava com os dois pés no ar!...
E lembras-te das festas de aniversário dele? Memoráveis! A mãe sempre nos serviu uns belos acepipes. Mas o maior sucesso sempre foi o chouriço, uma delícia. Lembras-te de cantarmos umas quadras feitas por nós e com a música do «Parabéns a você»? Numa delas cantámos todos assim: “Da-da-da-da-dadinho / és-és-és o maior / não deixas teu chouriço / ga-ga-ganhar bolor”.
Um abraço para ti deste que por cá vai andando,

Paulo Proença de Moura
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junho 09, 2007

A minha terceira carta de trás da Serra na revista Perspectiva

Olá,

Então como tens andado? Pelas notícias que aqui nos chegam, tem sido uma grande lufa-lufa aí pela capital. Por cá "está tudo na mesma, como a lesma". Ou pior ainda: terras abandonadas, empresas que fecham, infra-estruturas que não aparecem e outras que desaparecem.
No domingo fomos para casa do Quatro Papos-secos, como sempre que há jogos de futebol dos nossos clubes que sejam transmitidos na televisão. Depois de tantos anos, ainda não nos fartámos e nunca tal acontecerá, porque aquilo funciona como o apito de uma panela de pressão: chamamos nomes à equipa adversária, ao árbitro e, claro, entre nós, porque «amigos, amigos, clubes à parte». Aliás, não é raro cortarem-se relações durante um período de tempo que pode ir de segundos a anos, como naquela vez em que o Chico Padeiro disse que a bola tinha entrado e o Betes negou: "ficou afastada mais de trezentos metros da baliza, carais". Ainda hoje não se falam... e às tantas já nem se lembram do motivo. A malta até comenta que isto faz lembrar os habitantes da Córsega, numa das aventuras de Astérix.
Desta vez, o jogo estava tão morno que a conversa derivou para a política. O Dadinho chamou nomes aos governantes como se fossem árbitros: "andam todos à mama, carais". O Lourencinho do Professor Rogério lá lhe disse que não se podia generalizar, já que "há coisas bem feitas e políticos que fazem um bom trabalho". E deu o exemplo de muitas das medidas de desburocratização da administração pública que estão a ser tomadas. "O Simplex, não é? Nem daqui a trezentos anos aquilo se endireita", refilou o Zé Léu entre um gole de cerveja e um arroto. Mas todos reconhecemos que isto precisava era de muitos Simplex, na administração central mas também na local. Como sugeriu o Careca, "algumas câmaras municipais precisavam era de uma barrela, carais".
"Gooooooooooooo...", começou a gritar o Zé Léu, mas o árbitro tinha marcado fora de jogo. Corrigiu a tempo: “Goooooooole de cerveja”. E pimba, que estava calor.
Fomos para intervalo.
Todos concordámos em duas coisas: os petiscos que a Ana do Quatro Papos-secos preparou estavam uma delícia; e os políticos sofrem do mesmo problema do pastor que tantas vezes gritava por brincadeira "Socorro! Um lobo!" que, quando estava mesmo a ser atacado por um lobo, ninguém acreditou nele e nenhum colega o foi socorrer. "Os políticos deviam ser responsabilizados, não só perdendo depois eleições, pelas promessas que fazem e não cumprem", como sugeriu o Careca. "E os partidos que estão na oposição não deveriam atacar os governos de forma gratuita, como muitas vezes o fazem", rematou à baliza o Zé Léu. “Até porque depois vão eles para o governo e é vira o disco e toca o mesmo, carais”. E a malta gritou “gooooooloooooooo”.
"E o nosso John?", perguntou o Dentes. De quem ele se foi lembrar. Foi como se estivéssemos a ver a selecção portuguesa a receber uma taça e a ouvir o hino nacional. Não sei se tens visto o John aí pela capital, agora que ele é secretário de Estado. Ele, que tecnicamente é reconhecido por todos como um dos melhores especialistas na sua área em Portugal, está a fazer um óptimo trabalho no Governo. O Dadinho perguntou-nos se nos lembrávamos de "quando a televisão ainda era a preto e branco e o John apareceu vários dias num programa, sozinho, a explicar o que iria ser o IVA", algo de que ninguém até ali tinha ouvido falar e iria passar a fazer parte das nossas vidas. Claro que todos se lembravam. Tu lembras-te?
O Careca disse algo bem visto: "Vê-se trabalho, há resultados e não há ondas". Seria tão bom se a política fosse toda e sempre assim...
As nossas mulheres estavam agora junto de nós, enquanto o jogo não recomeçava. Interromperam as suas conversas – ninguém compreende como conseguem estar horas a falar – para criticarem o John, que "está muito gordo".
"Já recomeçou o jogo", gritou o Quatro Papos-secos. E lá fomos todos chamar de novo nomes ao árbitro, revezando-nos conforme ele marcava faltas a uma ou outra equipa. Desde que a cerveja não acabe no frigorífico, isto é que é vida, carais!
Bem hajas pelo intervalo que fizeste na tua azáfama para leres esta carta.
E recebe um grande abraço deste que não joga nada e a quem por isso vós chamais Cruijff desde os tempos de juventude,

Paulo Proença de Moura
Este artigo na revista (ficheiro pdf)
Página on-line da revista «Perspectiva»

maio 12, 2007

Trutas regionalistas

Imagem: Trutalcoa

Foi uma surpresa muito agradável ver a minha segunda «carta de trás da serra» publicada no blog «Regionalização», cujo mote é «Descentralização - um imperativo nacional». As trutas do Côa e o pessoal de Caria agradecem. Ah! E eu também... mesmo não pescando nada...