janeiro 20, 2015

«A parceria fatal» - Boaventura Sousa Santos

Transformar os sinais óbvios de declínio em previsões de agressão visa justificar a guerra como defesa. Ora a guerra é altamente lucrativa, devido à superioridade dos EUA na sua condução.

O que está em causa na Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP) é simples de entender. Quando dois blocos económicos estão em declínio, o mais poderoso (EUA) procura estabelecer acordos com o menos poderoso (UE) no sentido de travar o seu próprio declínio. Os custos para o menos poderoso são enormes, uma vez que os termos do acordo tendem a privilegiar os interesses do mais poderoso. Se houvesse dúvidas sobre quem ganhará com a parceria em negociação bastará observar a avalancha dos lóbis das grandes empresas multinacionais norte-americanas e a sua fervilhante e intrusiva atividade em Washington, Bruxelas e Estrasburgo. O declínio do poder económico-financeiro dos EUA é cada vez mais evidente.
Depois do 11 de Setembro de 2001, a CIA financiou um projeto chamado Projeto Profecia destinado a prever possíveis novos ataques aos EUA a partir de movimentos financeiros estranhos e de grande envergadura. Sob diferentes formas, esse projeto tem continuado, e um dos seus participantes prevê o próximo crash do sistema financeiro com base nos seguintes sinais: a Rússia e a China, os maiores credores dos EUA, têm vindo a vender os títulos do tesouro e em troca têm vindo a adquirir enormes quantidades de ouro; aqueles dois países estão a usar cada vez mais as suas moedas e não os petrodólares nas transações de petróleo (todos se recordam que Saddam e Kadhafi procuraram usar o euro e o preço que pagaram pela ousadia); finalmente, o FMI (o cavalo de Tróia) prepara-se para que o dólar deixe de ser nos próximos anos a moeda de reserva e seja substituída por uma moeda global, os SDR (special drawing rights).
Segundo os autores do Projeto Profecia tudo isto indica que um ataque aos EUA está próximo e que para este se defender tem de manter os petrodólares a todo o custo, assegurando o acesso privilegiado ao petróleo e ao gás, tem de conter a China e debilitar a Rússia, idealmente provocando a sua desintegração, tipo Jugoslávia. Curiosamente, os "especialistas" que vêem na venda da dívida dos EUA uma atitude hostil por parte de potências agressoras são os mesmos que aconselham os investidores norte-americanos a procederem da igual maneira, isto é, a desfazerem-se dos títulos, a comprar moedas de ouro e a investirem em bens sem os quais os humanos não podem viver: terra, água, alimentos, recursos naturais, energia.
Transformar os sinais óbvios de declínio em previsões de agressão visa justificar a guerra como defesa. Ora a guerra é altamente lucrativa para os EUA, devido à superioridade que têm na sua condução. Acresce que, ao contrário da Europa, a guerra nunca será travada em solo norte--americano, salvo, claro, o caso de guerra nuclear. Um país hegemónico em declínio tende a tornar-se caótico e errático na sua política internacional. Wallerstein refere que os EUA transformaram-se num canhão descontrolado (a loose canon), um poder cujas ações são imprevisíveis, incontroláveis e perigosas para ele próprio e para os seus aliados. No caso vertente, esta política consiste em vincular a Europa às prioridades da TTIP, torná-la mais dependente dos EUA no que respeita à energia (a EDP acaba de fechar os contratos de importação de gás natural dos EUA), envolvê-la na nova guerra fria através do reforço da NATO onde a superioridade militar dos EUA é inequívoca, tão inequívoca quanto a superioridade económica no caso da TTIP.
Ao deixar-se envolver na nova guerra fria, a Europa atua contra os seus interesses económicos e perde a relativa autonomia que tinha construído no plano internacional depois de 1945. Põe a economia europeia ao serviço da política geoestratégica dos EUA, torna-se energeticamente mais dependente dos EUA e dos seus estados satélites e perde a oportunidade de se expandir com a entrada da Turquia na União Europeia. E o mais grave é que esta irracionalidade não é o resultado de um erro da avaliação dos interesses dos europeus. É, muito provavelmente, um ato de sabotagem por parte das elites neoconservadoras europeias no sentido de tornar a Europa mais dependente dos EUA, tanto no plano energético e económico como no plano militar. Por isso, o aprofundamento do envolvimento na NATO e a TTIP são os dois lados da mesma moeda.

Boaventura Sousa Santos

Artigo de opinião na revista «Visão» disponível aqui.

3 comentários:

  1. Sábio e pertinente, mas a pregar no deserto...
    Ainda ontem, ao ouvir religiosamente António Lobo Antunes a ser entrevistado por Fátima Campos Ferreira, veio-me à memória uma coisa que eu mesmo disse à mesa de café aquando do "crash" do "subprime":

    Isto vai sobrar para a gente, Os gajos não vão ficar com o prejuizo...

    Tu tás é maluco! isso é lá do outro lado, é uma coisa deles, isto aqui está firme.

    E é assim, a gente passa a vida angustiada por ver, ou ter a mania de ver, que lá mais à frente a ponte está caída e que o comboio vai descarrilar, enquanto a maioria admira a paisagem, dorme uma soneca, e não olham para a frente por causa do cansaço que dá estanhar os olhos através do nevoeiro...

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    1. Isto está firme, está...
      Firme e hirto...

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    2. que nem uma barra de merda....

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