janeiro 29, 2012

Dissertação sobre a corrupção, ou o paradoxo de Bul Hakeim





Corrupção II

Sempre que nos deparamos com um ou outro fenómeno pontual e pessoalizado de corrupção, ampliado e agigantado pelos média, sobe-nos ao nó de Adão a indignação própria dos justos perante a infame injustiça. Apressamo-nos a condenar, a atirar as primeiras pedras, livres que estamos de pecados tais e até lesados e sofredores que nos sentimos em consequência de tais indignidades.

Recuperamos de forma colectiva o rito judaico do bode expiatório, animal atirado ao deserto pela força dos objectos inertes de diferentes tamanhos que a fragmentação das rochas produziu ao longo dos milhões de anos à superfície do planeta, e que -indiferentes às motivações e paixões humanas - passam do seu estado passivo à condição transitória de mísseis da consciência. Saem das mãos levando consigo toda a raiva e toda a culpa e ao atingir o bode fazem deste o veículo desta última rumo à morte e ao desaparecimento e com isso da própria redenção dos envolvidos....

Esta forma complexa de lidar com um dos pilares da cultura Judaico-Cristã, a culpa, é -além das óbvias especulações no campo da psicologia- a chave para aquilo que está na base da corrupção: a Verdade. A corrupção desta acarreta o sentimento de culpa, que é expiada  usando o novamente artifício da fuga à verdade, corrompendo-a ao atribuir culpas colectivas a um único agente e que eventualmente pode até nem as ter.

A corrupção é assim, e de algum modo, sempre uma fuga à verdade. Mais, a corrupção é em si a expressão máxima da mentira. Sempre que alguém usa uma informação privilegiada na bolsa, pervertendo assim a verdade desse jogo, é um corrupto. Sempre que alguém trai uma amizade, trocando um trato com um amigo pela vantagem transitória de umas moedas, é um corrupto: troca uma entidade virtual mas poderosa e tendencialmente perene – a amizade- pela posse volátil de objectos que não conhecem dono, mas que se apropriam deles, os corruptos.

Honoré de Balzac, aclarou de forma substantiva no seu conto “ A Estalagem Vermelha” o conceito que deveremos ter sempre presente quando de corrupção falamos: “ na origem de toda a grande fortuna existe sempre um crime”. 

Atrevo-me a ir mais longe e alargar este conceito a toda uma sociedade pois as grandes fortunas não se constroem por si mesmo mas sim pelo trabalho de uma sociedade cujo esforço escorre para o lado do tabuleiro que o corrupto, ao corromper, inclinou a seu favor. São os cidadãos que trocam hábitos e modelos de convivência – e que se deixam corromper portanto-, pelos “preços baixos” não se importando que esses preços sejam a desgraça de muitos até ao dia em que na sua empresa se vê confrontado com a mesma desgraça, que era uma graça quando a desgraça era só a alheia. Sabemos pelos inúmeros processos judiciais de que a comunicação social pontualmente dá conta, como a quebra de compromissos e truculências com todos os operadores, tanto a montante com a jusante, a compra de favores e situações de privilégio, no fundo a corrupção e por isso a mentira, são os pilares de muitas fortunas que abrilhantam os Forbes da nossa praça. Mas são apenas eles os corruptos? Ou seremos todos nós, muitos até que os vêem como exemplos a seguir. Quando se troca o bem individual em desfavor do bem colectivo, de todos portanto, o que se faz? Não é previsível a derrocada de um edifício se corroermos as suas estruturas de suporte? Então como podemos exigir que um edifício social nos suporte individualmente, se todos contribuem pelo seu egoísmo, para  a corrupção da sua coerência?

Mas a corrupção será sempre má? A resposta é sim, mas pode ter uma nuança: depende de que lado se esteja no que se refere aos seus efeitos, o que não a desculpabiliza nem atenua a sua essência criminosa.
D. João II, um dos mais sábios e enérgicos monarcas, soube punir de forma exemplar e sem concessões o séquito de corruptos que a vizinha Espanha tinha conseguido granjear entre a cintura de nobres e membros do alto clero. Usou mão de ferro, e nem sequer hesitou em tirar por mão própria a vida do seu cunhado. Mas, se foi implacável com a corrupção interna, usou, talvez como ninguém mais soube fazer na nossa História, a ferramenta da corrupção nas relações complexas entre Estados, com destaque para o Espanhol, tirando daí as vantagens que culminaram no sucesso absoluto das nossas Descobertas e Diáspora Lusa pelo mundo. Foi portanto um rei sábio, muito sábio, e que pôs sempre o interesse nacional acima de qualquer outro interesse, não trocando os projectos Portugueses por fossem quais fossem as contrapartidas, e não hesitou em punir os corruptos enquanto corrompia os interesses concorrentes com os da Monarquia Portuguesa.
Usou para com os inimigos, sim,  essa ferramenta terrível, a corrupção....



Bul Hakeim

Bul Hakeim, é uma expressão Árabe cujo significado deve ser explicado de forma sucinta. A língua Árabe reflecte um traço fundamental das suas culturas (há muitas ramificações do árabe) e esse traço é o seu profundo sentido poético e metafórico quase desconhecido entre as culturas chamadas de ocidentais, nas quais pouco mais que as histórias das mil e uma noites transpiram.

A palavra Bul, ou Burr, Bayrl etc (consoante as regiões) significa “Poço”. A outra, Hakeim, deve ser entendida no contexto de estar junto a Bul, como adjectivo desta. Hakeim, ou Hakim, ou Hakeem, que significa  “proprietário-administrador” significa também “Sábio”. Algumas traduções apressadas traduzem Bul Hakeim por “poço do proprietário”; um perfeito disparate. A tradução de Bul Hakeim é a “do poço da sabedoria”, ou seja, a sabedoria é uma propriedade do poço. É de resto uma expressão árabe muito bela e que passou para o nossa cultura quando nos queremos referir a alguém muito sábio ao qual chamamos simplesmente “fulano é um poço de sabedoria”. A pessoa a que nos referimos, teria bebido de “Bul Hakeim”, incorporando assim as propriedades deste no que ao conhecimento se refere. Existe ainda um entrosamento significativo nesta expressão, pois atribui-se a um governante, ou administrador de uma região ou propriedade, a qualidade de sábio e daí a corrente confusão ao traduzir “Bul Hakeim” para “poço do proprietário”. Quanto muito poderia ser, poço "propriedade"do sábio, ou como se disse  "com propriedades de sabedoria", no fundo uma fusão de conceitos e metáforas, poesia, portanto...
***
A expressão “Bul Hakeim”, do tempo da ocupação Árabe , passou muito simplesmente para o nosso Boliqueime Português sendo assim “ Poço de Boliqueime” uma redundância: Poço do Poço da Sabedoria.

Bastaria a alguém natural dali, saber, ou seja ser sabedor ou sábio, sobre as origens do nome da sua terra para jamais querer trocar esta expressão de grande beleza e significado poético e filosófico por outra. Trocar o nome redundante de "Poço de Boliqueime"  por "Fonte de Boliqueime" ( Fonte do Poço da Sabedoria), mostra que não faz qualquer ideia da noção do disparate, pois se o que o minorava e incomodava como estadista e pessoa importante era a expressão “reles” de "poço", e por isso a trocou por “fonte”, deixou felizmente para a História e infelizmente para ele, a essência: Poço da Sabedoria, Boliqueime, ficando a primeira, a Fonte, perfeitamente adequada ao jorrar de pérolas de que o autor da mudança do nome tem sido pródigo



Este traço de comportamento, em que se troca um bem comum - A VERDADE de uma sociedade-, por uma satisfação individual quer esta seja monetária, doutrinária ou mesmo de simples e bacoca vaidade, é a centelha da corrupção.

Não se é corrupto apenas por receber vantagens patrimoniais pessoais em detrimento dos interesses de todos.

Quando um governante põe por questões doutrinárias, ou de vaidade pessoal, soluções administrativas à partida perversas, à frente do evidente do interesse comum, é um corrupto. E quando alguém rasga os pressupostos de alternância democrática que o fizeram chegar ao poder,  que nome se lhe pode dar? A quem corrompe um compromisso? E sempre que se privatiza um bem que é de todos, privilegiando uma faixa de cidadãos em desfavor da grande maioria?
Mas também de forma lata, por toda a sociedade: quando um cidadão se deixa comprar por algo que lhe cheira a impossível mas que sabe bem por pagar pouco, deixa ou não se deixa corromper?
Recupero e acrescento a frase inicial deste parágrafo: quando um estadista, entrega por dinheiro, uma actividade de interesse colectivo e determinante a todas as outras actividades a um Estado estrangeiro, fazendo passar a ingenuidade mais desconcertante de que os interesses nacionais ficam salvaguardados, é não só corrupto, mas pior do que isso. Dá todos os sinais de nunca ter bebido do poço da sabedoria. Não sabe coisa alguma outra que não seja a  satisfação pessoal subordinada à envolvente de conforto da sua formação técnica e doutrinária.

Nunca como agora faria falta alguém que não hesitasse em ficar só se fosse preciso para que o bem de todos sobrevivesse. Um D. João II que jamais entregasse os interesses da nação às mãos de interesses alheios. Mas isso seria ficar à espera do Messias e sabemos pela História, esse poço da sabedoria, como nessas alturas aparecem os que nunca beberam de tais afloramentos da terra mãe e se assumem eles próprios como a Fonte de todas as soluções...

15 comentários:

  1. Bem... isto é que foi estudar a matéria...
    Vou ter que voltar... com mantimentos para pelo menos duas refeições.

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  2. Traz leitão e espumante para dois, que eu trago pão alentejano, paios de Barrancos e uma garrafita, ou duas, de tinto...

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  3. O curioso disto é pensar que tu, Charlie, és um Boliqueime...

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  4. Obrigado, mas sabes que não sou embora alinhe na tónica da curiosidade de pensar que somos representados ao mais alto nível por alguém que é uma fonte que até queima

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  5. Fonte que até queima? Será de água termal? Será de dinheiro sujo? Será de quem não tem meios termos, ou termos nenhuns? E nós, "termos" que aguentar isto???

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    1. Já que falas nisso dos "termos", quando formos à minha terra dou-vos a provar uns vinhos «Quinta dos Termos», do meu amigo João Carvalho, que vos há-de fazer "despensar" (deixar de pensar) nisto.

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    2. Parafraseando (mais ou menos) o amigo Ejemart, fico em boliqueimes à espera... ;)

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    3. É só uma questão de acabares o Estudo... cof, cof, cof...

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  6. Tá a andar, e parece mentira, mas esta fase é a mais trabalhosa...

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    1. A séééérioooo?! Não me diiiiiiiiiiigaaaaaaaaaas...

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  7. Mais sabes tu, que não és virgem em coisa alguma, çalvu ceija, e muito menos nestas matérias...

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    1. Fasso o que poço (mas não de Boliqueime)

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  8. ...i queim paz u que phode a máish num é obrigadu...

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