março 07, 2014

Análise Simbólica das Manifestações diante do Parlamento




Mais uma manifestação de descontentamento , e certamente muitas outras virão diante do Palácio de São Bento
O edifício onde funciona a Assembleia da República data do Sec XVI.
Construído em estilo neoclássico, poucos edifícios poderiam exprimir melhor o que existe no Homem no que toca à sua subconsciente matriz organizacional no que ao simbolismo do Poder diz respeito.
Assente sobre a sublimação do falicismo, a fachada do edifício replica essa eterna referência e é assim com muita naturalidade que o imóvel transitou do seu objectivo original, mosteiro Beneditino, para sede de Poder, mal esse Poder extinguiu as ordens religiosas, um dos braços de uma outra expressão de Poder que na essência tende a ser sempre e apenas um.

É diante do edifício que se têm produzido ciclicamente manifestações e é no pormenor particular do afrontamento simbólico do Poder instituído que devemos centrar a nossa atenção.
Tecnicamente é fácil tomar o edifício se foram consideradas as alas laterais, que estão praticamente ao mesmo nível da entrada principal. As escadarias diante do edifício são um enorme inconveniente já que uma
pressão de massas nas laterais empurra quem defende o edifício para os lances inferiores fazendo perder a eficácia de uma eventual cortina de defesa.
No entanto, os manifestantes colocam-se sempre na parte inferior das escadarias, olhando de baixo para cima para o edifício, num alinhamento com o topo do triângulo, o Falo ancestral, o Poder.
É um momento de enorme carga simbólica. Ao colocarem-se na parte mais baixa da escadaria, elevando o olhar, assumem a sua posição no que à pirâmide de Poder diz respeito, reconhecendo a sua subalternidade enquanto afrontam esse mesmo Poder. Não é a tomada do Poder que é pretendido, mas sim a contestação do mesmo, e a tomada de lances de escada, no sentido ascensional, emerge do mais profundo do Homem no que à sublimação para o campo do simbólico, relativamente ao fenómeno da erecção fálica diz respeito e quanto à projecção do mesmo como expressão de força.

Se olharmos para as fotos do edifício e as suas imediações teremos diversas perspectivas do mesmo. Vistas
as fotos mais antigas reparamos como as escadarias, que hoje são vistas como ante-câmaras abertas do edifício, eram apenas um ornamento externo e que uma rua dava acesso directo a um pequeno lance de escadas à entrada principal.
 O facto de terem feito um contínuo do empedrado ligou de forma absoluta a escadaria ao edifício, potenciando por esse motivo todas as manifestações e operações de confrontação ao Poder.
O que o futuro nos irá trazer, só aos Deuses cabe responder, mas os dados estão lançados, e o Homem, sendo eterno, é de forma eterna que os dados se organizam, sempre da mesma forma, dando sempre as mesmas respostas.
E a haver acontecimento digno de nota, não será certamente pelo facto de assistirmos a manifestações.
Mas estas são certamente de levar em conta, se não se quiser consultar os oráculos.

7 comentários:

  1. O que tanto me dá enlevo é ver o poder a que temos direito brincar às escadarias como se de putos a jogar à carica se tratasse.

    «- Ora põe lá aqui o pé, neste degrau, a ver se te atreves!...». E o puto pôs o pé. E logo o outro lhe cuspiu no olho. E o primeiro respondeu com uma canelada... E tudo era relatado por uma dúzia de jornalistas idiotas e vendidas, aos gritos: «- Aquele já sangra, aquele já sangra!!! Vejam como o poder caiu na rua! Vejam como o primeiro puto é mais puto do que o segundo puto! Ai se isto dá para algum partir a cabeça ao outro ou, pior (melhor), se partem a cabeça um ao outro!».

    O que é que aquelas escadas têm a mais, em termos de dignidade arquitectónica, do que a rampa de acesso de minha casa? Nada! Então, ai do próximo peão que ma pise, que eu vou-me a ele, em acção de cidadania em favor do cimento, que não se pisa impunemente uma rampa em Portugal! Tal como não se pisa uma escadaria!

    Estamos bem lixados quando pôr um pé escada acima passa a ser mais relevante do que não ter um pão para enganar a fome...

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  2. E, já agora, o 25 de Abril aqui tão perto. Também nessa madrugada de 1974 nos aconselharam a não pôr o pé na rua, por causa das maldades que andavam no ar e dos malvados que andavam em terra... E se tivéssemos alinhado, quantos de nós teriam perdido a aventura de ser cidadão por momentos, aqui, e fazer História. E nem seria Abril o que foi.

    Se os polícias manifestantes subissem, de novo e até ao cimo, ou ao penúltimo degrau, ou... qualquer outra coisa, o que aconteceria à dignidade de Passos Coelho? Seria violada? Algo para além do que o seu recente chamamento ao Relvas já denuncia, ou a sua trocatintada na Assembleia anuncia?

    O tempora, o mores...

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    1. Como disse, nada disto é outra coisa que não seja um jogo simbólico.
      Nem o poder caiu na rua nem o Passos fica minimamente beliscado ou sequer incomodado.
      A fome e desespero por que as pessoas passam não é nada para ele, que considera que um Pais bom é um pais sem pessoas: apenas elementos "activos" lhe interessam.
      Daí que olho sempre para as manifs diante do parlamento a partir do muito primitivo que existe na constituição da nossa escala de valores.
      Se quisessem derrubar o governo bastar-lhes ia tomar de assalto certos pontos chave. Podre como isto tudo está, cairia que nem uma mortalha de cigarro queimada.

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  3. Gostei. Aliás, é um bom texto também para «a funda São».

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  4. Sim .... acho que sim Sãozinha...

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  5. E já lá está engatilhada...

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    1. E já está agendada para o final desta semana.

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