abril 17, 2014

O massacre do Colmeal

...Os que resistiram foram passados pelo fogo da metralha, mortos e as casas incendiadas...


Escombros da antiga aldeia do Colmeal
A história relativamente recente da aldeia do Colmeal, - hoje fantasma, situada na zona de Figueira de Castelo Rodrigo, no sopé da  Serra da Marofa, fundada por imemoriais povos, tão distantes quanto a medida em milénios antes de Cristo pode atestar e que a recente descoberta de pinturas rupestres confirma-, pode ser vista como uma metáfora terrível sobre o mecanismo da “dívida” e logo da “culpa”, temas de total e absoluta actualidade.
Ao termo "massacre" utilizado no título do post cabe todo o significado literal.
É da História que as sucessivas invasões provocam a reacção dos invadidos, a resistência à ocupação das terras que lhes pertencem, confrontos violentos e massacres dos vencidos.
Por diversas vezes foi a aldeia do Colmeal assim como as outras aldeias trespassada pelas hordas. Já em período de ocupação nacional, conheceu “doações” sucessiva a ordens e nobres, obrigando assim os que consideravam as terras suas, a ter que pagar tributos aos “senhores das terras”. As sucessivas deambulações de títulos de propriedade passaram pelas mãos dos ilustres Cabrais, família do descobridor oficial do Brasil, Pedro Álvares Cabral que teria inclusivamente nascido na aldeia. Em 1540 D. Afonso V deu-lhe carta de Couto e já era então senhor da povoação João Gouveia.
As sucessivas mudanças ao longo dos séculos- e que seria fastidioso enumerar- culminam na situação que de forma particular nos interessa e que tem no ano de 1957 o palco dos acontecimentos dramáticos.
Estava-se em pleno Estado Novo sob o regime político do fascismo nacional. Há muito que se tinha abolido o sistema feudal, não havia senhores da terra. Agora havia proprietários e arrendatários intermediados por feitores e rendeiros.
Mas no dia sete de Julho, pelas dez da manhã, um destacamento de vinte e cinco militares da GNR comandados por três oficiais, fortemente armado, fez cumprir uma ordem judicial e despejou pela força os habitantes das casas que há séculos lhes pertenciam. Os mais prevenidos fugiram para os montes e povoações nos arredores. Os que resistiram foram passados pelo fogo da metralha, mortos e as casas incendiadas. Uma pequena comunidade com pouco mais do que sessenta pessoas, mas com milénios de existência, foi num espaço de horas reduzida a nada.
Como foi possível isto acontecer?
Em 1912, findos os foros, as terras passaram a pertencer por escritura a uma herdeira dos Condes de Belmonte.  Quis a desgraça que nos anos cinquenta desse Século a então proprietária tivesse conseguido
Igreja do Colmeal.
modificar, com a ajuda de um ardiloso advogado sem escrúpulos, de nome Manuel Vilhena, o estatuto da povoação que passou assim pelos seus artifícios,  de aldeia para quinta privada.
As casas da aldeia, secularmente propriedade dos seus habitantes, passaram a pertencer a Rosa Cunha e Silva a qual cedeu a exploração da sua "propriedade"  a um rendeiro que passou a cobrar ao aldeões  segundo as velhas regras dos antigos forais e sesmarias, exigindo rendas e impostos sobre todos os bens, casas, vacas, galinhas, burros etc. que os aldeões possuiam. Não será necessário insistir em que dos parcos rendimentos que das suas posses provinham, pouco mais do que a subsistência básica poderiam garantir, mas os aldeões postos perante as constantes subidas exigidas pelo rendeiro, passaram a ter que solucionar o grave problema de não terem rendimentos para  fazer face a uma repentina "dívida", espoletando as desavenças que culminariam na desgraça.
Sob o pretexto de que estariam em anos de atraso pelo facto de um subarrendatário estar em incumprimento, a proprietária levantou um processo judicial o qual, perante a ignorância e ingenuidade dos aldeões, crentes nos seus óbvios e ancestrais direitos, foi decidido a favor da exequente sob forma da sentença de acção de despejo colectivo....
 
Cabe aqui um aparte e uma conclusão. Não adianta acomodarmo-nos com a distância no tempo nem desenterrar o chavão ora de indignação ora de muleta de conforto e que consiste em dizer "... como é possivel em pleno Séc. X ou Y..." ou "...tal facto só foi possível por estar-se em pleno Sec.N..., ou em plena Idade Média ..."  ou " ...em pleno Fascismo..." etc. etc. etc.
As injustiças acontecem sempre e em qualquer tipo de regimes, o Poder é sempre rodeado de corruptos, de idiotas úteis, e de oportunistas sem escrúpulos, e a indignação pega sempre na espuma dos tempos que se vivem.
No caso supra-citado, podemos dizer que a idiota útil foi a proprietária que teve de vender as propriedades para pagar ao oportunista, o advogado, o qual  terá certamente corrompido determinado funcionário no Conservatório de Registo Predial.
Se serve para alguma coisa o relato deste drama, não sei, mas estableço um rápido paralelo entre ela e  esta dívida que de repente temos que pagar sem que nunca se tenha auditado as suas origens, negociado as condições e observado a dignidade mínima dos caídos em desgraça. Os que são despejados todos os dias das suas casas, que resistem e são postos na rua pela força, os que se suicidam e os outros que fogem do país, replicam em escala geral em "pleno Sec XXI"  o pequeno grande drama acontecido " em pleno Séc XX"...
Também aqui, hoje, neste preciso instante, em pleno Séc XXI, somos rodeados e governados pelos mesmos de sempre, os oportunistas que fazendo uso dos idiotas úteis, corrompem todo o sistema, não se coibindo de - tal como na tragédia do Colmeal- ir até ao mais íntimo: a dignidade.
A Justiça, essa é sempre cega, surda e muda....
 
 

8 comentários:

  1. Já estive em Colmeal algumas vezes e posso dizer que o local ainda hoje tem uma aura muito especial, embora agora já haja uma estrada de alcatrão até lá. Curioso é que não tinha conhecimento de que tivesse havido mortes e nem os antigos habitantes que foram entrevistados pela imprensa o referiram. Não haverá aqui algum exagero por parte da fonte?

    http://dokatano.blogspot.pt/2008/10/aldeia-perdida-de-colmeal.html

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  2. Gostei muito de visitar e ler atentamente o conteudo particular do post magnifico e que de resto já copiei e guardei:

    http://dokatano.blogspot.pt/2008/10/aldeia-perdida-de-colmeal.html

    Temos esta coisa de Homem Bom que se expressa pela forma em como abrandamos as memórias e chamamos bons velhos tempos aos tempos que sendo terríveis e maus, já lá vão.
    A nossa memória selecciona pelo positivo e isso é bom.
    Mas existem ainda vivos alguns testemunhos desses tempos que muito brevemente relatam o que se pode ler em:

    http://www.ointerior.pt/noticia.asp?idEdicao=497&id=23564&idSeccao=5892&Action=noticia

    E não devemos achar a actuação das forças da ordem poderem serem agora postas em dúvida pois por todo o pais houve nos meios rurais dezenas de casos com mortos, como por exemplo o quase mítico de Catarina Eufémia, um apenas entre os muitos.
    Com o conhecimento que me vem de conhecer (familiar próximo) a actuação de alguns elementos dessas forças da ordem em alguns cenários rurais, a impunidade de roubarem porcos, galinhas, de levarem coisas etc, (isto nos velhos tempos do novo Estado) e de se imporem pela extrema violência a quem lhes fizesse frente tendo as fardas como costas quentes.
    Houve infelizmente muitos casos de actuação firme até ao limite imaginável. Alentejo, Serras do Algarve, Beiras interiores. As terras dos pobres e longe de tudo, principalmente da Justiça.

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  3. O saudosismo dos "bons e velhos tempos" que não o foram também me deixa bastante inquieto, embora ache que a muitos daqueles que os evocam faz falta precisamente terem-nos vivido. Quanto aos mais velhos, aqueles que efectivamente os viveram, haverá aí manifestação do medo perante um futuro cheio de incertezas que faz sentir saudades da ilusão de segurança do cativeiro invisível desses tempos.

    Não me espanta que no caso do Colmeal tenha havido mortes. Aliás, no meu próprio artigo também as menciono embora com a ressalva de não as ter conseguido confirmar. Pelas zonas rurais havia muitos "xerifes" que punham e dispunham conforme queriam dos habitantes cuja voz não chegava a lado nenhum.

    Que o diga um meu bisavô que, sem saber o que era isso dos "comunistas", foi preso por o ser. A sua liberdade teve de ser negociada e saldou-se por 2 ou 3 cabritos. (http://dokatano.blogspot.pt/2011/03/sobre-as-dificeis-relacoes-entre-o-meu.html).

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  4. Bem hajam pelo que aprendo convosco!

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    1. Eu escrevo por baixo aquilo que este autor escreveu, fomos expulsos das nossa casas e terras, isto está documentado ! Não me admira o drama que estamos a viver e o pior ainda está para vir, aos habitantes do Colmeal e a todos os Homens Bons deste País a minha Gratidão.

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  5. É triste que a solução passou por fazerem um hotel para taparem a injustiça que foi feita nesse Local onde pessoas foram expulsas injustamente que muitos tinham suas vidas lá. Tenho pena que nem a justiça ou política portuguesa não tenham ou menos recompensar ou dar a oportunidade a essas famílias de regressar a sua terra natal.mas a ganância e o poder sempre foi e será a prejudicar o pobre.

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  6. É triste que a solução passou por fazerem um hotel para taparem a injustiça que foi feita nesse Local onde pessoas foram expulsas injustamente que muitos tinham suas vidas lá. Tenho pena que nem a justiça ou política portuguesa não tenham ou menos recompensar ou dar a oportunidade a essas famílias de regressar a sua terra natal.mas a ganância e o poder sempre foi e será a prejudicar o pobre.

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