outubro 06, 2013

Do lado de cá

Nunca primei pelo optimismo, admito. Perante alguns factos que me chocam opto sempre pela preocupação inerente às minhas previsões (quase sempre) catastrofistas.
Quando tento entender o funcionamento desse mecanismo interno que me conduz para os receios pelo pior, apenas um dos desfechos possíveis em qualquer situação, percebo que a lógica assume um papel relevante.
Essa lógica é a que me diz ser absurdo não vaticinar um pesadelo quando, à face das evidências, estão reunidos todos os ingredientes para o mesmo se verificar.

Lampedusa, uma localidade italiana que bem dispensaria a associação sinistra impossível de evitar, é apenas uma face visível dessa tragédia que está a acontecer com cada vez maior frequência, o êxodo em massa por parte das populações aterrorizadas e famintas de boa parte do hemisfério sul.
E na minha visão pessimista do futuro, a fortaleza em que se estão a transformar muitos países ocidentais da zona mediterrânica mas também nos EUA no que respeita à sua fronteira com o México, por exemplo, vai progredir para uma barreira instransponível futura que, na prática, assumirá esta vergonhosa divisão do planeta em dois.

Nunca conheceremos a verdadeira dimensão deste horror, nos números como nos contornos tenebrosos da jornada dos emigrantes africanos no mar feito estrada para um paraíso como naturalmente o entenderão.
É desumano, é assustador e, face à reacção hostil que acaba por marcar a actuação das autoridades nos países confrontados com o problema, é descaradamente cruel.
É de pessoas que se trata. Com peles diferentes, com culturas distintas, com o azar de terem nascido no local e no tempo errados para quem ambicione a felicidade de coisas tão simples como uma terra em paz. Mas são gente, gente que arrisca a morte com filhos nos braços depois de pagar fortunas por uma viagem sem retorno nas piores condições que conseguimos imaginar.
Essa é a realidade tal como está a acontecer e envolve números na casa das dezenas de milhar, todos os anos. E não estamos a falar de gnus.

O dilema com que deste lado dourado do mundo, por estranho que isso possa soar, nos confrontamos passa pela luta interna entre o humanismo elementar que nos impele a acudir a estas pessoas em aflição, com culpas no cartório para a Europa colonialista, e o pragmatismo financeiro dos que têm optado pela via da fortificação, no sentido de impedir o afluxo de gente de fora que custa dinheiro só pelo facto de ter que se reparti-lo.
Numa balança com um dos pratos ocupados pelo dinheiro já sabemos para que lado os pratos, as decisões, penderão, somando-lhe a xenofobia, o racismo, a ganância, a desumanidade de uns quantos que, quando todos em sintonia, são demasiados e até há exemplos de como conseguem chegar ao poder em eleições nestas democracias cada vez mais bizarras.

É esse, sem dúvida, o rumo que italianos, espanhóis, turcos e todos quantos, na Europa, sentem mais de perto e com maior intensidade o problema têm optado por seguir. Mais vigilância nas fronteiras, mais repressão dos clandestinos, repatriamento na ponta da língua para a maioria dos que conseguem capturar com vida.
É essa a barreira intransponível que estamos todos a construir, passo a passo, até à tal visão pessimista do futuro como o prevejo para um mundo inteiro em convulsão. Um planeta armado até aos dentes e dotado de tecnologia superior, a norte, com os seus recursos empenhados na manutenção dessa fronteira global pouco acima do equador. Interdito para todos aqueles que, dessa forma, serão abertamente declarados inferiores.
E um outro planeta, a sul, faminto e desesperado, sem recursos ou com os mesmos esgotados pelas alterações climáticas ou pela rapina ocidental, a alimentarem os ódios que se converterão naquilo a que chamaremos terrorismo mas não deixará por isso de ser na realidade uma luta pela sobrevivência, a exigência de um equilíbrio que, por este caminho que lhes oferecemos, é fácil concluir dos dois lados da barricada que só à bruta poderão algum dia alcançar.  

9 comentários:

  1. Isto tudo começa na nossa própria rua.

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    1. E começa na nossa rua, e por razões aparentemente tão distantes, que nem nos damos conta como quando por exemplo compramos um pacote de açucar.
      Na Africa equatorial, existiam não um nem dois tipos de açucar, mas dezenas.
      Com paladares, texturas e aplicações diferentes.
      Um dos açucares por exemplo tinha a característica de se transformar pela acção do calor em caramelo líquido de forma permanente. Com um sabor distinto e inconfundível e adequados para os pudins e bolos.
      Esse produto, cuja produção em toda a linha, desde o cultivo, a apanha e a transformação, poderia dar trabalho e dignidade aos povos, foi simplesmente cilindrado por ? ....a nossa PAC.
      A par da equivalente nos EUA, um pacote de açucar chega tão barato aos mercados africanos que tradicionalmente viviam do nicho dos açucares, que pura e simplesmente foram à falência.
      O que acontece é de facto um dumping puro e simples de todas as produções em todas as áreas. Por outro lado, e decorrente da situação de desgraça em que os povos se encontram, encetam então a penúltima fase da sua - a prazo da nossa- desgraça: a desflorestação. Na mão dos especuladores e oportunistas desbaratam pela pressão da sobrevivência imediata, toda a sua riqueza natural e a troco de quase nada.
      O que resta no fim é apenas o que vemos. Gente desesperada que se atira ao mar de qualquer maneira.
      Porque morrer por morrer, que seja antes por tentar do que à fome.

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    2. O que aprendo contigo!
      E um post disso, pá?

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    3. Já está a ser preparado, pá-zinha

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  2. Pois é... Cada «inevitabilidade» detas - ou beco sem saída, como quiserem - mais me fortalece uma ideia:
    - Não há dúvida nenhuma de que vai ter de correr muito sangue em todos os cantos do mundo para que algum dia a Humanidade altere os paradigmas de que hoje padece.

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    1. Eu ainda acho que pode ser feito algo... a bem...

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