maio 29, 2012

um tempo pardo e manso

Parto para este alinhavo de palavras com alguma sensação de tempo desperdiçado, devo confessá-lo. Não por esmorecimento de convicções, mas pelo sentimento que nem sei como sacudir de que, entre pérolas e porcos, o português – que eu também sou – não sabe por qual decidir.

Sabemos que o povo é quem mais ordena, embora nos perturbemos logo a seguir com a definição do que é povo; acreditamos fiel e piamente na democracia, sem sequer lhe questionarmos os desvios das sombras na gruta de Platão; solidários, matamos a fome de alguns, enriquecendo ainda mais quem a provoca…

E lá chegamos ao cerne destas pequenas e miseráveis deambulações: foi lançada mais uma «campanha contra a fome» e nunca o banco alimentar recolheu tanta manifestação de solidariedade deste povo que se comove ouvindo uma fadista gritar a plenos pulmões «ó gente da minha terra, (…) esta riqueza que trago foi de vós que a recebi»…

Ponham lá a voz num qualquer dono de uma qualquer cadeia de «grandes superfícies» que despachou mais umas toneladas de artigos bem pagos para matar fomes alheias e logo apurareis a relatividade dos conceitos e outra dimensão da lágrima. Imagine-se o dueto improvável (ou talvez não) de uma Isabel Jonet e de um Belmiro de Azevedo…

Entretanto, não muito longe daqui, alguns velhos gregos suicidam-se por desespero, enquanto por cá alguns jovens se suicidam por estupidez.

As generalizações são sempre perigosas, enganosas e redundantes. Nem todos os gregos se suicidam, qualquer que seja a idade; nem todos os portugueses se suicidam, qualquer que seja a idade.

Curioso, apenas, o relevo que os «meios de comunicação» – que, aliás, nunca chegam a fins, em si mesmos – dão aos factos gregos e aos factos portugueses.

Por vezes, parece-nos que há instruções precisas para incutir em quem os lê, ouve e vê que a juventude portuguesa é constituída por uma massa amorfa de totós, que vivem das sopas caseiras e sem preocupações que vão além da aquisição do mais recente telemóvel ou do ingresso de entrada para o Rock in Rio.

Talvez a avaliação esteja errada. Talvez esta imagem generalizada e propositadamente desfocada e amorangadamente nebulosa impeça que se veja uma outra dimensão do ser humano que não pode deixar de existir sob a capa das aparências fúteis e – apenas essas – propagandeadas.

Talvez seja aí que resida a remissão destes nossos pecados velhos. Talvez seja aí que redondamente se enganam os «mercados» e os seus crentes e fieis seguidores.

11 comentários:

  1. E quando recusamos o saquinho que nos querem "oferecer" e fazem uma cara de enfado e de reprovação?

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  2. Respostas
    1. Estaríamos melhor lacustres...

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    2. ... eu por acaso gostei daquela parte dos "cón icos"...

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    3. ... mas se calhar com "cus tres" também seria bom...

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    4. Não é a minha especialidade :O)

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    5. ... tu é que falaste nisso... para mim é "relativo"... :O)

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  3. Olha, se quando recusares o saquinho te fizerem essa cara de enfado, experimenta perguntar ao enjoado se tem os impostos em dia... E, já agora, em que empresa trabalha e se pode comprovar... E, ainda a propósito, se está disposto a ir contigo até à mercearia mais próxima comprar o arroz e as batatas, porque a tua confissão religiosa não te permite adquirir comida para pobres em supermercados.

    Tenho a certeza de que vais poder retribuir com juros a cara de enfastiado que recebeste. ;-)»

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