março 09, 2011

Prostituição: carta aberta. Pelos e-mails que me enviam a pedir conselho. Pela responsabilidade de desmanchar ilusões.

Riscos? Todos. Tudo em nós fica em risco. A vida. A saúde física. O equilíbrio mental. Tudo. Uma pequena parte do que nos acontece depende da cautela; a grande parte depende da sorte. E não se pode confiar na sorte. E não se pode confiar em quase ninguém. Porque as pessoas que tiveram poucas ou nenhumas oportunidades na vida costumam ficar com as garras mais saídas. E as garras estão preparadas para arranhar. E muitas já só sabem sobreviver a arranhões. E muitas arranham-te porque acham que és uma ameaça ou porque isso lhes traz ganhos e outras arranham-te só porque sim. E vais estar num sitio onde ninguém sabe o nome de ninguém, ninguém sabe a morada de ninguém, ninguém sabe quem é quem. E podes bater na porta errada ou na porta muito errada. E podes abrir a porta à pessoa errada ou à pessoa muito errada. Num dia podes ter uma arma na cabeça, noutro podes ter uma faca no pescoço ou até uma doença grave. Ou podes simplesmente sentir-te mal, apenas porque viver assim te faz sentir mal ou porque alguém te fez sentires-te mal. A dignidade pode transformar-se em areia que escorrega entre dedos e os sonhos podem começar a cheirar a naftalina.

Dificuldades? Todas. Tudo é difícil. Começar. Sair daqui.Ter clientes. Não ter clientes. Perceber que a realidade luxuosa que se imagina não existe para a maioria ou que não se chega lá pelo menos sem começar mais baixo. E mais baixo pode ser ganhar trinta ou quarenta euros (ou menos) por cada pessoa que nos despe. E perceber que mesmo que se aceite isso, pode ganhar-se pouco, muito pouco. Sim, eu sei que ali digo que são duzentos ou duzentos e cinquenta euros. E é a responsabilidade de dizer isso que me faz confessar que já foram 25 euros. E que não consegui melhorar as condições por ser muito bonita - não sou - ou por ser muito inteligente. Sorte, foi pura sorte. E a sorte maior que tenho, depois de tudo, é a de estar viva - por sorte, sim.

Dicas? Tem mesmo que ser? Tens mesmo que...? Tentaste os caminhos todos? É que se vais arriscar vida, saúde física e mental, um dia podes ter que explicar a ti mesma(o) porque te fizeste tanto mal. E como vou eu dar dicas a quem pretende iniciar-se, se eu mesma não vejo a hora de sair e só agora tive um vislumbre da porta de saída? Ninguém nos força, ninguém nos obriga, ninguém nos retém aqui mas parecemos presas em teias e ficamos, quase sempre, muito mais tempo do que prevíamos. Acreditem. Ao entrar corre-se sempre o risco de ficar aqui como se fosse a única vida que se conheceu até agora; há quem fique até depois da fase em que se torna ridículo pela idade. Cuidado com o mundo, cuidado com as ilusões, ambição não é ganância, cuidado com a falta de segurança, arriscar o mínimo e rejeitar tudo o que não permitir manter a dignidade.

Não gosto de escrever acerca da minha actividade como prostituta, nem mesmo acerca da prostituição no geral. É a responsabilidade que sinto que me faz fazer isto. Porque recebo vários e-mails de homens e mulheres a pedir conselho. Porque os valores que pratico e o que escrevo podem dar a ideia de luxo e facilidade. Porque não é assim. Porque foi ainda mais difícil, tremendamente mais difícil do que agora é. Penso que cada resposta que dou a cada pergunta pode influenciar uma vida. Penso que o que escrevo por aqui e a forma como consigo fazer as coisas agora podem influenciar decisões. Penso que não tenho a culpa... mas terei culpa se não perceber que, ao virar costas à responsabilidade e ao manter o silêncio, posso mesmo vir a ter. De mim, o que vão ouvir, é a parte deste mundo que é feia, porca e má. E ainda vos asseguro que, depois disso, o que resta por contar é - existe - , mas é muito pouco.

25 comentários:

  1. A isto é que eu chamo uma aquisição galáctica :O)
    Bem vinda, Miss!

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  2. Sou um ET? Eheheheheh

    Muito obrigada, Sãozinha. :)

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  3. Sim, sim... uma espécie de Cristiano Ronaldo... mas mais a chamarmos um Figo :O)

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  4. E mais uma vez Parabéns! Parabéns ao Persuacção e a todos os seus membros! E a ti tb Miss pelo excelente texto que acabo de ler! Tão directo, tão verdadeiro, tão despido de artificialismos! Exactamente o que sempre senti e pensei sobre o tema e que torna ainda mais profundo o respeito e carinho que sinto por TI! Bem Hajas!

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  5. Já só falta contratar um treinador para a "equipa de sonho acordado".

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  6. Fantástico!!!!!
    Esta "contratação" foi uma surpresa, para mim. E eu, que nem costumo gostar de surpresas, estou de sorriso rasgado, olhos pequeninos e muita, muita vontade de bater palmas.
    Bem vinda, Joana!

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  7. Ainda vais ter que arranjar um saco maior...

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  8. (Ainda alguém me há-de, por obséquio, explicar essa coisa d'O saco...)

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  9. (Ó Shark, quem devia contar-te esta estória era um senhor que eu cá sei, porque ele é que é um exagerado e passa estas inverdades à São. Imagina uma gaja normal, que usa uma mala (ou várias, mas apenas uma de cada vez), onde leva o ABSOLUTAMENTE INDISPENSÁVEL para a mera sobrevivência [o quê. exactamente, só é do conhecimento da própria]. Imagina agora que, num encontro da a-Funda-São, houve alguém que, cavalheirescamente, quis levar o saco à gaja [que não precisava de ajuda, hã?, isto que fique bem claro!} e tomou-lhe o peso. Pronto. Foi assim que as minhas malas, que confesso que são grandes e que, às vezes, pesam quase 50% do meu peso [eu peso poucochinho, está bom de ver] se tornaram um mito urbano e, mais vulgarmente, uma ameaça enquanto arma de arremesso [não virtual].)

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  10. Tomei nota de toda a descrição desse equipamento militar e, por motivos estratégicos, conservarei sempre uma prudente distância da coisa.
    E da dona, sempre que trouxer o armamento a tiracolo (a tiradentes?).
    Muito grato pela fineza, parceira.

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  11. Uma arma naaaaaaaadaaaa virtual!
    Basta dizer, sem exagero, que se a oposição na Líbia tivesse O saco, o Khadafi enfiava-se debaixo da burqa da mãezinha dele.

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  12. Um privilégio conhecer-te pessoalmente Miss Joana Shag Well! Obrigada.

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  13. São,
    Adorei essa imagem do Khadaffi a correr enfiar-se debaixo da burka da mãe!!! ;-)

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  14. Sãozinha, eu não quero ser um jogador da bola. Buááááá... :(


    Laura, Ana, Paula, aqui não consigo responder individualmente - aquele sistema de comentários do AfundaSão dá muito jeito - mas agradeço-vos imenso, imenso. :)))))))))))))))


    Beijos

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  15. Boas vindas e melhores presenças.

    Isto pode vir a tornar-se um caso sério, de rir às lágrimas, como convém.

    Li e reli a Joana e - perdoa-me, que esta matéria é sempre de delicadíssimos contornos... - ocorreu-me a filosofia da gueixa, também.

    Eu não pagaria a alguém que me facultasse uma temporada efémera de intercâmbio de saberes, de opiniões, de bem estar geral?

    O que é que eu faço num teatro? Ou num cinema? Eu não pago o livro que me dá tanto gozo ler?

    Onde é que isso não é prostituição ou onde é que a prostituição não é isso?

    A mim tantas vezes me acusam de andar com os poemas às costas sem envolver dinheiro... E se envolver? Passo a prostituto literário? E se não? Serei um promíscuo das letras?

    Onde é que ficamos quando os preconceitos prevalecem?

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  16. Muito obrigada, OrCa! :)))

    Os preconceitos hão-de prevalecer durante muito, muito tempo. E ficamos... onde estamos.


    Beijos

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  17. A não ser que um dia haja uma Geração que se sinta nisto à Rasca...

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  18. Já há. O número de prostitutas é incalculável, cada vez mais são a vizinha do lado, a mulher absolutamente normal de quem ninguém suspeita, que, ao passar por dificuldades, recorre. É apenas uma geração à rasca mais silenciosa, tipo uma sociedade secretamente envergonhada.


    Beijos

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  19. Pois... não demonstra que está à rasca.

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  20. Um texto fantástico!

    Desde que comprei o livro, ando maravilhado com a descoberta de uma escritora e vagueei pela blogosfera. Por sítios giros!

    Tudo de bom, Joana!, :)

    Jogr

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  21. Que bem te venhas sempre, Nilredloh (até se enrola a língua a dizer este nome).

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