fevereiro 11, 2012

O sentir e o pensar

Há uma passagem em The Iron Lady em que uma Margareth Thatcher já envelhecida vai ao médico, obrigada pela filha, receosa dos sintomas de demência que a mãe parece manifestar.
Quando o clínico lhe pergunta como se sente, a personagem responde-lhe algo de extraordinário. Qualquer coisa como: nos nossos dias, toda a gente quer saber o que é que o outro sente. Não o que pensa, não as ideias que tem, mas o que sente. Pergunte-me o que penso, que diabo!

A culpa, mais uma vez, é de Descartes. Quer dizer, dos que se lhe opuseram, tão radicais como ele próprio. Se Descartes fez opôr com violência razão e emoção, relegando esta para segundo plano (porque errónea e enganadora) e dando a primazia absoluta àquela, os que se lhe seguiram, sobretudo nos séculos XX e XXI, para o combater, cairam no extremo oposto: o que importa parece ser o que se sente, seja perante um pôr-do-sol, um abraço quentinho, um jogo de futebol, uma obra de arte, ou o nascimento de um ser. (e o que se pensa sobre esses sentimentos, caramba, fica onde?! e o que se faz com o que se pensa, cadê?)
A primeira pergunta que um psicoterapeuta faz é "como se sente?" (pelo menos nos filmes, não conheço nem tenho intenção de conhecê-los de outra forma, assim continue a valer-me Aristóteles e todos os que se lhe seguiram, bem como os meus próprios neurónios).
E o que se pensa, bolas? O que se pensa sobre o que se sente?? De que vale sentir, se não se lhe apuser um exercício de reflexão (mais ou menos profundo, não temos de andar a redigir tratados para tudo, sobre tudo, entenda-se)? Sentir sem pensar é fraquinho e não fazer nada com o que se pensa sobre o que se sente é pura perda de tempo (quer a sentir, quer a pensar).

Sentir é instintivo, pensar dá (muito) trabalho. Já fazer é arriscadíssimo.
E é por isso que, ao contrário do que se julga, é o pensamento que pode aproximar-nos da demência efectiva. Quem pensa radicalmente (no sentido de profundamente, vão ao dicionário que não custa nada!) vive sempre no limiar entre a mais clara lucidez e o risco da loucura, num mundo que não está feito à medida de quem ousa (na acepção kantiana).
O resto? O resto é a p*** da pieguice, que não me leia o nosso Primeiro.

14 comentários:

  1. Respostas
    1. Olha que o que vale realmente a pena é a interpretação da Streep, o resto é uma leitura delico-doce de quem foi M. Thatcher...

      Eliminar
    2. Exactamente! ~
      Só a Streep deve safar o filme, pois a senhora "Xaxar" (como dizia um compadre Alentejano que tinha um filho na Argentina aquando da disputa pelas Malvinas/Faulkland) é a versão azeda e Britânica da Merkell.
      Quadradona, teimosa e estúpida.
      Não me merece qualquer referência abonatória, antes pelo contrário.
      ´Há certas decisões políticas que não tem retorno, depois de feitas não há volta a dar.
      Tal como por cá, a entrega criminosa da EDP à China.
      E como não me fico por palavras sem fundamento, irei fazer um post bem a propósito disso.... se bem que sejam ( elas as palavras) uma sopa depois do almoço...

      Eliminar
    3. Xaxar?! O que queria dizer Xaxar?

      Eliminar
    4. Atão nã sabis, ó piolho compadri, quéim era a Margareti Xáxar????

      Eliminar
    5. Ahhhhhhhhhhhh! Xáxar! Com o acento já consegui ligar o nome à... avantesma.

      Eliminar
  2. E tu pensas que Passos ou Gaspar alguma vez se detiveram a ver ou ler estes temas?
    Para eles a realidade não é a soma de todos os factores, mas sim o universo pessoal de conhecimentos, necessariamente limitados e por isso perfeitos, ao qual todas as realidades e suas variáveis se devem submeter.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Por isso os modelos económicos começam todos com "No pressuposto de que..."

      Eliminar
    2. Claro que não... isso fá-los-ia pensar!

      Eliminar
  3. eu não vou ver o filme, espero que saia o livro... :)

    ResponderEliminar